Quando falamos em conduta no paciente em choque, o primeiro passo é reconhecer precocemente o quadro.
O choque é uma emergência médica caracterizada por hipoperfusão tecidual e hipóxia celular, independentemente
da causa. Por isso, o manejo precisa ser rápido, sistemático e baseado na fisiopatologia envolvida.
O objetivo principal da conduta é restaurar a perfusão tecidual adequada — ou seja, garantir que os órgãos
recebam oxigênio e nutrientes suficientes para evitar a falência orgânica múltipla.
CONDUTA GERAL INICIAL NO PACIENTE EM CHOQUE
1. Reconhecimento precoce
O primeiro passo é identificar rapidamente que o paciente está em choque, antes que ocorra falência orgânica
múltipla.
Os sinais de instabilidade hemodinâmica são:
• Hipotensão arterial (PAM < 65 mmHg): indica queda do fluxo sanguíneo sistêmico.
• Taquicardia: resposta compensatória inicial do sistema simpático.
• Hipoperfusão periférica: pele fria, pálida, tempo de enchimento capilar prolongado (>3s).
• Alteração do nível de consciência: confusão, agitação ou sonolência por hipoperfusão cerebral.
• Oligúria (< 0,5 mL/kg/h): sinal precoce de hipoperfusão renal.
• Lactato sérico elevado: marcador bioquímico de hipóxia tecidual e metabolismo anaeróbico.
Por que isso importa:
O reconhecimento precoce permite iniciar o tratamento antes que a hipóxia celular cause lesão irreversível dos órgãos.
2. Acesso venoso e arterial
Todo paciente em choque precisa de acesso vascular imediato para fluidos, medicamentos e monitorização.
• Acesso venoso de grosso calibre: preferir dois acessos periféricos calibrosos (14G ou 16G) ou um cateter
venoso central (CVC), que permite medir PVC (pressão venosa central) e infundir drogas vasoativas.
• Acesso arterial: usado para monitorização invasiva contínua da pressão arterial média (PAM) e coleta de
gasometrias arteriais seriadas.
Por que isso importa:
Permite controle rigoroso da perfusão e acesso rápido para intervenções salvadoras.
3. Oxigenação e suporte ventilatório
Como o choque cursa com hipóxia tecidual, é fundamental otimizar a oxigenação sistêmica.
• Administrar oxigênio suplementar por cateter nasal, máscara ou ventilação mecânica não invasiva, para
manter SatO₂ ≥ 94%.
• Se houver fadiga respiratória, rebaixamento de consciência ou hipoxemia refratária, deve-se proceder à
intubação orotraqueal e ventilação mecânica invasiva.
Por que isso importa:
A hipoperfusão e o baixo débito cardíaco comprometem a entrega de oxigênio (DO₂); garantir oxigênio adequado na
hemoglobina é essencial para manter o metabolismo aeróbico e prevenir acidose lática.
4. Exames iniciais
São fundamentais para avaliar a gravidade, direcionar o tipo de choque e monitorar a resposta terapêutica.
Solicitar:
• Lactato sérico: indica grau de hipoperfusão; valores >2 mmol/L sugerem choque; >4 mmol/L indicam alto
risco de mortalidade.
• Gasometria arterial: avalia pH, bicarbonato e gases sanguíneos (PaO₂ e PaCO₂); identifica acidose
metabólica e hipoxemia.
• Eletrólitos: controle do equilíbrio ácido-base e distúrbios iônicos.
• Hemograma: identifica anemia, leucocitose ou leucopenia (sepse).
• Função renal e hepática: mostram extensão da hipoperfusão orgânica.
• Coagulograma: detecta coagulopatias, especialmente em sepse ou choque hemorrágico.
• Troponina e BNP: úteis para descartar choque cardiogênico.
• PCR e procalcitonina: marcadores de infecção sistêmica (sugestivos de sepse).
• Culturas (hemocultura, urina, secreção): antes do antibiótico, se sepse for suspeita.
Por que isso importa:
Esses exames ajudam a identificar o tipo de choque, sua gravidade e a orientar intervenções precoces (por exemplo,
antibiótico imediato no séptico).
5. Monitorização hemodinâmica
O acompanhamento constante é essencial para avaliar efetividade das intervenções e ajustar condutas.
Monitorizar:
• PAM: meta ≥ 65 mmHg.
• Diurese: manter ≥ 0,5 mL/kg/h.
• Perfusão periférica: tempo de enchimento capilar, cor e temperatura das extremidades.
• Temperatura corporal: pode cair em choque séptico avançado.
• ScvO₂ (saturação venosa central de oxigênio): avalia a extração de oxigênio tecidual (meta > 70%).
• PVC (pressão venosa central): estima volume intravascular (normal: 6–12 cmH₂O).
• VCI (veia cava inferior) via ultrassom: observa colapsabilidade e variação do diâmetro (ajuda na decisão
sobre volume).
• Ecocardiografia bedside: permite avaliar função ventricular e causas mecânicas.
Por que isso importa:
A monitorização dinâmica permite guiar reposição volêmica, titulação de vasopressores e detecção precoce de falha
terapêutica.
6. Reposição volêmica
É o pilar inicial do tratamento na maioria dos choques (exceto o cardiogênico).
• Utilizar cristaloides isotônicos — soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato.
• Dose inicial: 30 mL/kg em 1 a 3 horas, reavaliando resposta clínica e hemodinâmica.
• Em pacientes com sinais de congestão pulmonar ou cardíaca, o volume deve ser administrado com cautela.
Parâmetros de resposta:
• Aumento da PAM;
• Melhora da perfusão periférica;
• Aumento da diurese;
• Redução do lactato.
Por que isso importa:
A reposição volêmica restaura a pré-carga ventricular e o débito cardíaco, garantindo perfusão adequada dos
tecidos.
A falha em reconhecer a hipovolemia ou o excesso de volume pode agravar o quadro.
7. Drogas vasoativas
Indicadas quando a PAM permanece < 65 mmHg após reposição volêmica adequada, ou se há sinais persistentes
de hipoperfusão.
• Vasopressor de escolha: Noradrenalina, pois aumenta a resistência vascular sistêmica (RVS) com mínimo
efeito arritmogênico.
• Inotrópico (se disfunção miocárdica): Dobutamina, para melhorar contratilidade e débito cardíaco.
• Associar monitorização invasiva (via CVC) para ajuste de doses.
• Em casos refratários: considerar vasopressina (0,03 U/min) ou adrenalina.
Por que isso importa:
As drogas vasoativas devem complementar, e não substituir, a ressuscitação volêmica.
Elas estabilizam a pressão arterial, garantindo perfusão aos órgãos nobres (cérebro, coração e rins).
Resumindo a lógica da conduta inicial
Etapa Objetivo Ação principal Meta
1. Reconhecimento Identificar choque antes da Observar sinais clínicos e
Diagnóstico rápido
precoce falência orgânica laboratoriais
2. Acesso vascular e
Permitir infusão e monitorização CVC + cateter arterial PAM contínua
arterial
3. Oxigenação e O₂ suplementar, intubação se
Otimizar oferta de O₂ SatO₂ ≥ 94%
ventilação necessário
Lactato, gaso, eletrólitos, função Direcionar tipo de
4. Exames iniciais Avaliar gravidade e causa
renal/hepática choque
Acompanhar resposta
5. Monitorização PAM, diurese, ScvO₂, PVC, USG PAM ≥ 65 mmHg
terapêutica
Perfusão e diurese
6. Reposição volêmica Restaurar volemia e DC Cristaloides 30 mL/kg
adequadas
PAM ≥ 65 mmHg e
7. Drogas vasoativas Manter PAM e perfusão Noradrenalina ± Dobutamina
ScvO₂ > 70%
1. CHOQUE HIPOVOLÊMICO
Fisiopatologia
Ocorre por redução do volume intravascular efetivo, levando à queda da pré-carga, do débito cardíaco (DC) e,
consequentemente, da perfusão tecidual.
Pode ser hemorrágico (perda de sangue) ou não hemorrágico (perda de plasma, líquidos ou deslocamento para o
terceiro espaço).
Conduta Específica
1. Controle imediato da causa:
• Hemorragias externas: compressão direta, torniquete (em traumas graves).
• Hemorragias internas: abordagem cirúrgica (laparotomia, toracotomia) ou endoscópica conforme o foco.
• Perdas não hemorrágicas: tratar causa base (hidratação em vômitos e diarreias, reversão de obstrução
intestinal, tratamento da pancreatite, correção de diurese excessiva).
2. Reposição volêmica:
• Pilar central do tratamento.
• Iniciar rapidamente com cristaloides isotônicos (SF 0,9% ou Ringer Lactato) — 30 mL/kg nas primeiras 1–3
horas.
• Em hemorragias graves, associar hemoderivados na proporção 1:1:1 (concentrado de hemácias, plasma e
plaquetas).
• Avaliar resposta volêmica por parâmetros clínicos (PAM, perfusão, diurese) e hemodinâmicos (VCI, PVC, USG
bedside).
3. Drogas vasoativas:
• Somente após reposição adequada, se PAM < 65 mmHg persistir.
• Noradrenalina é o vasopressor de escolha.
4. Metas terapêuticas:
• PAM ≥ 65 mmHg.
• Diurese ≥ 0,5 mL/kg/h.
• Lactato em queda.
• Perfusão periférica restabelecida.
2. CHOQUE CARDIOGÊNICO
Fisiopatologia
Decorre da falência da bomba cardíaca, com redução da contratilidade e do débito cardíaco, levando à congestão
venosa e hipoperfusão sistêmica.
As principais causas incluem infarto agudo do miocárdio, miocardiopatia dilatada, valvopatias agudas e arritmias
graves.
Conduta Específica
1. Diagnóstico e estabilização:
• Evitar excesso de volume (risco de congestão pulmonar).
• Avaliar função cardíaca por ecocardiografia à beira-leito (fração de ejeção, contratilidade, presença de
derrame pericárdico).
2. Oxigenação e ventilação:
• Oxigênio suplementar para manter SatO₂ ≥ 94%.
• Considerar ventilação não invasiva (CPAP) ou invasiva se houver edema agudo de pulmão.
3. Drogas inotrópicas:
• Dobutamina (1ª escolha) — melhora contratilidade e débito cardíaco.
• Milrinona pode ser usada se paciente em uso prévio de betabloqueador.
• Levosimendana é opção em casos refratários, pois aumenta a sensibilidade ao cálcio e reduz a pós-carga.
4. Vasopressores:
• Se hipotensão persistir, iniciar noradrenalina para manter PAM ≥ 65 mmHg.
5. Suporte circulatório mecânico:
• Indicado em casos refratários:
o Balão intra-aórtico de contrapulsação (BIAC);
o Dispositivo de assistência ventricular (ECMO).
6. Tratar causa base:
• IAM: reperfusão imediata (angioplastia primária).
• Valvopatia: cirurgia ou correção percutânea.
• Arritmia: cardioversão, marcapasso ou controle farmacológico.
3. CHOQUE OBSTRUTIVO
Fisiopatologia
Ocorre quando há impedimento físico ao enchimento ou esvaziamento cardíaco, reduzindo o débito sem falência
miocárdica primária.
As causas principais incluem: tamponamento cardíaco, pneumotórax hipertensivo e tromboembolismo pulmonar
(TEP) maciço.
Conduta Específica
1. Identificação rápida da causa:
• Diagnóstico clínico e confirmado por ultrassonografia (RUSH Protocol):
o Pneumotórax hipertensivo: ausência de deslizamento pleural e colapso pulmonar.
o Tamponamento: colapso de átrio direito e ventrículo direito.
o TEP: dilatação de ventrículo direito e sinais de hipertensão pulmonar.
2. Tratamento da causa:
• TEP maciço:
o Trombólise sistêmica (alteplase 100 mg/2 h) ou embolectomia.
• Tamponamento cardíaco:
o Pericardiocentese imediata sob USG.
• Pneumotórax hipertensivo:
o Toracocentese de alívio imediata (2º EIC, linha hemiclavicular) seguida de drenagem torácica.
3. Suporte hemodinâmico:
• Noradrenalina para manter PAM ≥ 65 mmHg.
• Dobutamina pode ser associada em casos de disfunção ventricular direita.
• Volume apenas se hipovolemia associada.
4. CHOQUE DISTRIBUTIVO
Fisiopatologia
Caracteriza-se por vasodilatação sistêmica acentuada e distribuição inadequada do fluxo sanguíneo, com
resistência vascular periférica reduzida.
Ocorre por sepse, anafilaxia ou perda do tônus simpático (choque neurogênico).
Conduta Específica (por subtipo)
A. Choque Séptico
Causa: resposta inflamatória sistêmica a infecção grave com vasodilatação e permeabilidade capilar aumentada.
Conduta:
1. Volume: 30 mL/kg de cristalóide nas primeiras 3 horas.
2. Vasopressor: Noradrenalina (primeira escolha).
3. Inotrópico: Dobutamina se disfunção miocárdica.
4. Antibiótico empírico precoce: iniciar em até 1 hora após coleta de culturas.
5. Controle do foco infeccioso: drenagem, desbridamento, cirurgia ou troca de dispositivos contaminados.
6. Metas: PAM ≥ 65 mmHg, ScvO₂ > 70%, diurese > 0,5 mL/kg/h, lactato em queda.
7. Vasopressina (0,03 U/min) se refratário à noradrenalina.
B. Choque Anafilático
Causa: reação de hipersensibilidade mediada por IgE, com liberação maciça de histamina e vasodilatação.
Conduta:
1. Remover o agente causal, se identificado.
2. Adrenalina IM imediata (0,3–0,5 mg na coxa) — repetir a cada 5–15 min se necessário.
3. Oxigênio suplementar para manter SatO₂ ≥ 94%.
4. Reposição volêmica agressiva com cristaloides (vasodilatação intensa).
5. Medicações adjuvantes:
o Anti-histamínicos (difenidramina, ranitidina).
o Corticoides (hidrocortisona 200 mg IV).
6. Vasopressores IV (noradrenalina) se refratário à adrenalina IM.
7. Intubação orotraqueal se houver edema de glote ou rebaixamento de consciência.
C. Choque Neurogênico
Causa: perda do tônus simpático e vasodilatação secundária a lesão medular cervical ou torácica alta.
Conduta:
1. Volume com cautela, apenas para restaurar pré-carga.
2. Vasopressores:
o Noradrenalina ou fenilefrina para manter PAM ≥ 65 mmHg.
3. Bradicardia:
o Atropina (0,5 mg IV a cada 3–5 min) até 3 mg total;
o Marca-passo temporário se refratária.
4. Tratar a causa neurológica: estabilização cirúrgica ou suporte intensivo conforme o caso.