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Modulo 5

O documento aborda os números complexos e fasores, começando com a introdução histórica e matemática dos números complexos, incluindo suas definições e propriedades. Em seguida, discute a representação de números complexos em diferentes formas, como a forma retangular e polar, e a definição de fasores para representar excitações cossenoidais. O texto também explora relações fasoriais em circuitos elétricos e as leis de Kirchhoff.

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Modulo 5

O documento aborda os números complexos e fasores, começando com a introdução histórica e matemática dos números complexos, incluindo suas definições e propriedades. Em seguida, discute a representação de números complexos em diferentes formas, como a forma retangular e polar, e a definição de fasores para representar excitações cossenoidais. O texto também explora relações fasoriais em circuitos elétricos e as leis de Kirchhoff.

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UNIVERSIDADE PAULISTA

Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia (ICET)

Números Complexos e Fasores:


Módulo 5
Alexandre B. de Lima

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Copyright c 2009 ablima@[Link]


Atualizado em: 7 de março de 2009 Versão 1.0
Tabela de Conteúdo

1. Números Complexos
1.1. Introdução
1.2. O Corpo C
1.3. Representação de Complexos e Álgebra
2. Fasores
3. Relações Fasoriais nos Bipolos
4. Forma Fasorial das Leis de Kirchhoff
5. A Dualidade nos Circuitos Elétricos
3

1. Números Complexos
1.1. Introdução
Em 1545, o matemático Gerolamo Cardano de Milão publicou o
livro Ars Magna (A Grande Arte), o mais importante tratado de
álgebra da renascença. Cardano aprendeu com o matemático Tar-
taglia (apelido de Niccolo Fontana) um método (algoritmo) para
determinar a raiz real de equações cúbicas do tipo1
x3 + ax + b = 0.
A raiz real é dada pela seguinte fórmula:
s r s r
3 b b 2 a 3 3 b b2 a3
x= − + + + − − +
2 4 27 2 4 27
Por exemplo, a solução real de x3 + 6x − 20 = 0 é dada por
√ √
q q
3 3
x = 10 + 108 + 10 − 108 = 2.
1 Scipione del Ferro, contemporâneo de Tartaglia, chegou de forma indepen-

dente ao mesmo resultado.


Seção 1: Números Complexos 4

Quando Cardano tentou determinar a raiz real da equação x3 − 15x −


4 = 0 pela fórmula dada acima, obteve a solução
√ √
q q
3 3
x = 2 + −121 + 2 − −121.
Note que no tempo de Cardano, números negativos eram tratados com
suspeição, pois era difı́cil conceber qualquer realidade fı́sica correspon-
dente aos mesmos; imagine então a ideia de extrair a raiz quadrada de
um número negativo! Hoje em dia sabemos que a fórmula de Cardano
nos dá a resposta correta e que a saı́da é “postular” que números ne-
gativos possuam raı́zes “imaginárias” (isto apesar do fato dos números
negativos não terem raı́zes). Para tal, basta definir que o sı́mbolo j
signifique2 √
j 2 , −1 ⇒ j = ± −1, (1)
2O grande matemático suı́ço Leonhard Euler introduziu a notação i (de

imaginário) em torno de 1777 para representar −1. Engenheiros eletricistas, por
outro lado, usam a notação j ao invés de i para evitar confusão com a notação i
frequentemente usada para a corrente elétrica.
Seção 1: Números Complexos 5

e perceber que

(2 ± j)3 = 2 ± j11 = 2 ± −121
Portanto, a fórmula de Cardano nos dá
x = (2 + j) + (2 − j) = 4,
que está correta.
Foi Raphael Bombelli, no tratado L’Algebra de 1572, quem mos-
trou que as raı́zes de números negativos têm uma grande utilidade
algébrica, como mostrado acima. Bombelli propôs, depois de exa-
minar
√ os resultados de Cardano, a aceitação do número imaginário
−1 como um “truque algébrico” a ser usado na determinação da
solução real de uma equação cúbica real. √Em outras palavras: para
ele não importava que o sı́mbolo fictı́cio −1 “não existisse” (lem-
bre que Bombelli desconhecia a existência do corpo dos complexos),
mas sim que esse sı́mbolo era um instrumento útil para se resolver o
problema da determinação da raiz real da equação cúbica. Não obs-
tante, é importante ressaltar que o número complexo especial j, que
é atualmente utilizado como sı́mbolo do número complexo (0,1), goza
Seção 1: Números Complexos 6

de todas as propriedades algébricas prescritas ao sı́mbolo fictı́cio −1
pelos matemáticos antigos.
Observe que expressões do tipo a + bj, com a e b sendo constantes
reais, foram utilizadas duma maneira meramente formal durante cerca
de 300 anos, antes que fossem descritas duma maneira que pudesse
ser considerada satisfatória na atualidade.
Em princı́pios do século XIX, Karl Friedrich Gauss e William
Rowan Hamilton, independentemente um do outro e quase simul-
taneamente, propuseram a ideia de definição dos números complexos
como pares ordenados (a,b) de números reais dotados com certas pro-
priedades especiais. Esta ideia está largamente aceita hoje em dia e
será descrita a seguir.

1.2. O Corpo C
Definição 1. Um número complexo z é um par ordenado de números
reais z = (a, b) satisfazendo as seguintes regras de manipulação para
a soma e o produto:
1. z1 + z2 = (a, b) + (c, d) = (a + c, b + d).
Seção 1: Números Complexos 7

2. z1 z2 = (a, b)(c, d) = (ac − bd, ad + bc).

A soma e o produto têm as seguintes propriedades:


3. comutatividade:
z1 + z2 = z2 + z1 e z1 z2 = z2 z1 .
4. associatividade:
(z1 + z2 ) + z3 = z1 + (z2 + z3 ) e (z1 z2 )z3 = z1 (z2 z3 ).
5. (0,0) é o elemento neutro da adição: z + (0, 0) = z para todo z
complexo.
6. (1,0) é o elemento neutro da multiplicação: z.(1, 0) = z para
todo z complexo.
7. todo z = (a, b) tem um simétrico aditivo, −z = (−a, −b), ou
seja, (a, b) + (−a, −b) = (0, 0).
8. todo
 z = (a, b) 6= (0, 0) tem um inverso multiplicativo,
 o número
a −b 1 a −b
a2 +b2 , a2 +b2 = (a,b) , ou seja, (a, b) a2 +b2 , a2 +b2 = (1, 0).
9. distributividade do produto em relação à soma:
z1 (z2 + z3 ) = z1 z2 + z1 z3 .
Seção 1: Números Complexos 8

Todas essas propriedades decorrem de 1 e 2 e do fato de que elas


são para a soma e o produto de números reais. Um conjunto munido
de uma soma e de um produto para os quais valem 3 a 9 é chamado
um corpo. Conclui-se que os números complexos formam um corpo,
que é representado pelo sı́mbolo C, o qual consiste numa extensão
do corpo R (pois o número real a corresponde ao número complexo
(a, 0)).
O número complexo (0, 1) é chamado de unidade imaginária, sendo
representado pelo sı́mbolo j, como já mencionado. A propriedade
notável que o número j satisfaz é a seguinte:
j 2 = jj = (0, 1)(0, 1) = (0.0 − 1.1, 0.1 + 1.0) = (−1, 0) = −1

e nesse sentido podemos escrever j = ± −1. Agora, (b, 0)(0, 1) =
(0, b) e daı́
(a, b) = (a, 0) + (0, b) = (a, 0) + (b, 0)(0, 1) = a + bj = a + jb.
A notação a + jb facilita as manipulações que envolvem números
complexos. Por exemplo, para efetuar um produto usamos as regras
Seção 1: Números Complexos 9

algébricas usuais juntamente com j 2 = −1:


(a + jb)(c + jd) = ac + jad + jbc + j 2 bd = (ac − bd) + j(ad + bc).
Acho que agora você conseguiu entender a grande “sacada” de
Bombelli ...

1.3. Representação de Complexos e Álgebra


Seja o número complexo z = (x, y). A notação
z = x + jy (2)
é a forma retangular ou cartesiana do complexo z, em que x é a
parte real (x = Re(z)) e y é a parte imaginária (y = Im(z)).
Seção 1: Números Complexos 10

A ilustração acima mostra que


z = x + jy = r cos θ + jr sin θ = |z| cos θ + j|z| sin θ,
em que “|z|” denota o “módulo” de z. Logo, podemos expressar z na
forma polar ou exponencial
z = rejθ (3)
Seção 1: Números Complexos 11

uma vez que


ejθ = cos θ + j sin θ (Fórmula de Euler). (4)
Sabemos que p
|z| = r = x2 + y 2 (5)
e que
θ = arctan (y/x) (6)
É também muito usada a notação de Kennely para a forma polar
z = r∠θ (7)
Não custa lembrar que

e−jθ = cos θ − j sin θ (8)


e que
1 jθ
cos θ = (e + e−jθ ) (9)
2
1
sin θ = (ejθ − e−jθ ) (10)
2
Seção 1: Números Complexos 12

Quando convertemos a forma retangular para a polar, temos que


levar em conta o quadrante em que está situado o complexo, de acordo
com as seguintes regras:
z = x + jy, θ = arctan (y/x) (primeiro quadrante)
z = −x + jy, θ = 180o − arctan (y/x) (segundo quadrante)
z = −x − jy, θ = 180o + arctan (y/x) (terceiro quadrante)
z = x − jy, θ = 360o − arctan (y/x) (quarto quadrante)
(11)
Dado o complexo z = x+jy = |z|ejθ , o seu conjugado é o complexo
z ∗ = x − jy = |z|e−jθ (12)
As operações de multiplicação e divisão na forma polar dos com-
plexos z1 = |z1 |ejθ1 e z2 = |z2 |ejθ2 são definidas por
z1 .z2 = |z1 ||z2 |ej(θ1 +θ2 ) (13)
|z1 | j(θ1 −θ2 )
z1 /z2 = e (14)
|z2 |
13

A potenciação z n é dada por


z n = |z|n ejnθ (15)
É fácil verificar que
1
x = Re(z) = (z + z ∗ ) (16)
2
1 −j
y = Im(z) = (z − z ∗ ) = (z − z ∗ ) (17)
2j 2
(z1 + z2 )∗ = z1∗ + z2∗ (18)
(z1 z2 )∗ = z1∗ z2∗ (19)
(20)

2. Fasores
O fasor representativo da excitação cossenoidal
e(t) = Am cos (wt + θ) t ∈ (−∞, ∞)
é definido por
Âm = Am ejθ . (21)
14

O fasor é então um complexo cujo módulo é a amplitude da cossenóide


e cujo argumento é a sua defasagem. Note-se que o fasor não contém
a informação da frequência; esta deve ser dada à parte. No caso do
Brasil, a rede elétrica opera a 60 Hz.
Como
Am ejθ ejwt + Am e−jθ e−jwt Âm ejwt + Â∗m e−jwt
Am cos (wt + θ) = =
2 2
então
Am cos (wt + θ) = Re[Âm ejwt ]. (22)
Proposição 1. Seja a excitação
s(t) = A1 cos (wt + θ1 ) + A2 cos (wt + θ2 ) + . . . + An cos (wt + θn ).
Então
Ŝ = Â1 + Â2 + . . . + Ân .

3. Relações Fasoriais nos Bipolos


Considere uma tensão v(t) = Vm cos (wt + θ), representada pelo fasor
V̂m = Vm ejθ , aplicada a um resistor ideal de resistência R. A corrente
Seção 3: Relações Fasoriais nos Bipolos 15

no resistor será então


1 Vm
i(t) =v(t) = cos (wt + θ) (23)
R R
à qual corresponde o fasor
1
Iˆm = V̂m = GV̂m (24)
R
ou
V̂m = RIˆm RESISTOR (25)
Para o capacitor, segue-se que
dv(t)
i(t) = C
dt
= −wCVm sin (wt + θ)
= wCVm sin (wt + θ + π)
= wCVm cos (wt + θ + π − π/2) = wCVm cos (wt + θ + π/2)
Seção 3: Relações Fasoriais nos Bipolos 16

Logo
Iˆm = wCVm ej(θ+π/2)
= wCVm ej(θ+π/2)
= wCVm ejθ ejπ/2
= wC V̂m j
= jwC V̂m

e
1 ˆ
V̂m = Im CAPACITOR (26)
jwC
A reatância capacitiva é dada por
1
Z= (27)
jwC
Seção 3: Relações Fasoriais nos Bipolos 17

Para o indutor, temos que


Z
1
i(t) = v(t) dt
L
Vm
= sin (wt + θ)
wL
Vm
= cos (wt + θ − π/2)
wL
Vm jθ −jπ/2
Iˆm = e e
wL
−j
= V̂m
wL
V̂m
=
jwL
Logo
V̂m = jwLIˆm INDUTOR (28)
Note que
Z = jwL (29)
18

é a reatância indutiva.

4. Forma Fasorial das Leis de Kirchhoff


Definição 2 (Rede em Regime Permanente Senoidal). Uma rede
em Regime Permanente Senoidal (RPS) é aquela em que todas as
tensões e correntes são senóides com uma mesma frequência.
Sejam as correntes de ramo
ik = Ak cos (wt + φk ), k = 1, 2, . . . , r
e seus respectivos fasores
Iˆk = Ak ejφk
Então demonstra-se que
X
±Iˆk = 0 (30)
k

A Eq. (30) é a expressão da forma fasorial da Primeira Lei de Kir-


chhoff, que é válida para qualquer nó da rede.
Seção 4: Forma Fasorial das Leis de Kirchhoff 19

Prova: partindo de ik (t) = Re[Iˆk ejwt ], temos que


X X
±ik (t) = ± Re[Iˆk ejwt ] = 0
k k
" #
X
Re [±Iˆk ]e
jwt
=0
k

Portanto X
[±Iˆk ] = 0 pois ejwt = [Link] 6= 0, ∀t.
k
De forma análoga, demonstra-se que para qualquer laço da rede
vale
X
±V̂k = 0 (31)
k

que é a forma fasorial da Segunda Lei de Kirchhoff.


Seção 5: A Dualidade nos Circuitos Elétricos 20

5. A Dualidade nos Circuitos Elétricos


Considere a Tabela 1.

Tabela 1: Algumas relações nos bipolos ideais e as Leis de Kirchhoff.


v = Ri i = Gv
i = C dvdt v di
= L Rdt
1 1
R
v = C i dt i = L v dt
P ˆ P
k ±Ik = 0 k ±V̂k = 0

Note que as relações de uma das colunas obtem-se das correspon-


dentes relações da outra coluna mediante as seguintes trocas ordena-
das de sı́mbolos:

Tabela 2: Lista de elementos duais:


v⇔i
R⇔G
L⇔C
Seção 5: A Dualidade nos Circuitos Elétricos 21

Em consequência, as grandezas indicadas numa mesma linha da


Tabela 2 se dizem duais. Dada então uma propriedade da Tabela 1, a
troca de termos por seus duais leva a uma outra propriedade, também
válida e dita dual da primeira.
As seguintes extensões são válidas (verifique):

Tabela 3: Relações de dualidade


ligação série ⇔ ligação paralelo
gerador ideal de tensão ⇔ gerador ideal de corrente
curto-circuito ⇔ circuito aberto

Justifiquemos a primeira propriedade dual da Tabela 3. Para tal,


basta notar que dois bipolos ligados em série têm a mesma corrente.
Dualmente, teremos dois bipolos à mesmo tensão, o que corresponde
a uma ligação paralela.
Seção 5: A Dualidade nos Circuitos Elétricos 22

Referências
[1] L. Q. Orsini, D. Consoni, Curso de Circuitos Elétricos - Volume
1. 2a ed., Editora Edgard Blücher Ltda, 2002.

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