UNIVERSIDADE PAULISTA
Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia (ICET)
Conceitos Básicos e Bipolos:
Módulo 1
Alexandre B. de Lima
Diretório
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Copyright c 2009 ablima@[Link]
Atualizado em: 25 de fevereiro de 2009 Versão 1.0
Tabela de Conteúdo
1. Introdução
2. Carga e Corrente Elétricas
3. Bipolos Elétricos, Tensão e Potência
4. Potência Elétrica e Energia num Bipolo
5. Os Bipolos Elementares Passivos
5.1. Os Resistores
5.2. Os Capacitores
5.3. Os indutores
6. Os Geradores
6.1. Gerador Ideal de Tensão
6.2. Gerador Ideal de Corrente
6.3. Geradores Vinculados
7. As Funções de Excitação
7.1. Excitação Contı́nua
7.2. Excitação em Degrau
Tabela de Conteúdo (cont.) 3
7.3. Excitação Impulsiva
7.4. Excitação Exponencial
7.5. Excitação Cossenoidal
7.6. Excitação Exponencial Complexa
4
1. Introdução
A Engenharia Elétrica está fundamentada em duas teorias1 : Eletro-
magnetismo e Circuitos Elétricos. As leis básicas da Teoria das Redes
Elétricas (ou dos Circuitos Elétricos) podem ser deduzidas da Teoria
Eletromagnética, mediante a introdução de simplificações adequadas,
como será mostrado no curso de eletromagnetismo. Aqui adotaremos
um caminho mais simples, postulando diretamente um conjunto de
relações e leis que permitirão a construção da Teoria de Circuitos.
1 Uma teoria é uma sı́ntese aceita de um vasto campo do conhecimento, con-
sistindo de hipóteses que foram devidamente testadas, através de leis e fatos ci-
entı́ficos que descrevem os fenômenos naturais (mas refutável). É uma idéia que
tenta prever com alto grau de exatidão os fenômenos da natureza. Sempre que
observamos algum fato, que contraria a teoria, devemos abandonar ou modifi-
car a teoria, muito embora isso demore a acontecer na prática. As teorias são
construı́das sobre modelos (entes abstratos) dos sistemas reais. As teorias devem
ser logicamente consistentes e devem levar a uma descrição precisa e simples dos
fenômenos reais.
Seção 1: Introdução 5
Na Engenharia Elétrica, nós estamos comumente interessados em
transferir energia de um ponto para outro. Isto requer uma interco-
nexão dos dispositivos elétricos. Tal interconexão é conhecida como
circuito elétrico; cada componente do circuito é um elemento. Temos
a seguir 2 figuras que ilustram circuitos elétricos práticos.
Seção 1: Introdução 6
Alguns pioneiros da engenharia elétrica:
• Alessandro Antonio Volta (1796): inventou a bateria.
• Hans Christian Oersted (1820): demonstrou experimental-
mente que uma corrente elétrica deflete a agulha de uma bússola
(eletromagnetismo).
Seção 1: Introdução 7
• Andre-Marie Ampere (1820): definiu o conceito de corrente
elétrica e desenvolveu uma maneira de medi-la.
• Michael Faraday (1831): descobriu a indução eletromagnética,
o princı́pio por trás do gerador elétrico e do transformador elétrico.
• James Clerk Maxwell (1864): propôs a teoria do eletromag-
netismo clássico, que descreve o comportamento dos campos
elétrico e magnético, bem como suas interações com a matéria.
Previu que a luz é uma perturbação eletromagnética.
• Heinrich Rudolph Hertz (1888): demonstrou a existência da
radiação eletromagnética.
• Oliver Heaviside (a partir de 1880): cálculo operacional e
várias contribuições para a engenharia elétrica.
• Guglielmo Marconi (1901): inventor da telegrafia sem fio,
conseguiu que sinais radiotelegráficos (a letra S do código Morse)
emitidos da Inglaterra, fossem escutados claramente em St. Johns,
no Labrador, atravessando o Atlântico Norte.
Principal critério de validade da Teoria dos Circuitos Elétricos:
Seção 1: Introdução 8
A Teoria de Circuitos Elétricos só pode ser aplicada a sistemas
elétricos cuja maior dimensão seja muito inferior a λm /4, em que
λm , é o comprimento de onda, no vácuo, da onda eletromagnética
de maior frequência a ser considerada no sistema.
Lembre que
λ = c/f, (1)
8
em que c ≈ 3 × 10 m/s é a velocidade da luz no vácuo.
Exemplo. Considere o receptor de Frequência Modulada (FM) ope-
rando na frequência de 100 MHz.
8
Solução: λ = 3×10
108 = 3 m ⇒ λ/4 = 75 cm. Logo as dimensões do
circuito devem ser << 75 cm.
Exemplo. Rede de distribuição elétrica operando na frequência de 60
Hz, em que a 5a harmônica (300 Hz) é significativa.
8
Solução: λ = 3×10 6
300 = 10 m ⇒ λ/4 = 250 km. Portanto, a Teoria de
Circuitos Elétricos pode ser aplicada para sistemas elétricos contidos
Seção 1: Introdução 9
num raio de 10 km.
Para evitar a proliferação de potências de dez nos cálculos de cir-
cuitos, muitas vezes convém abandonar o Sistema Internacional (SI)
e usar um sistema consistente, conforme a faixa de frequência de inte-
resse. A Tabela 1 indica dois sistemas de unidades úteis para circuitos
nas faixas de ÁudioFrequência (AF) e RádioFrequência (RF).
Seção 1: Introdução 10
Tabela 1: TABELA DE UNIDADES CONSISTENTES.
Grandeza S. I. A. F. R. F.
Tensão V V V
Corrente A mA mA
Resistência Ω kΩ kΩ
Condutância S mS mS
Capacitância F µF nF
Indutância H H mH
Tempo s ms µs
Freq. angular rad/s krad/s Mrad/s
Freq. cı́clica Hz kHz MHz
11
2. Carga e Corrente Elétricas
A carga elétrica pode ser positiva ou negativa. A menor carga elétrica
que se pode isolar é igual à carga do elétron, ou seja, 1, 602 × 10−19
coulombs.
Seja uma superfı́cie orientada (por exemplo, a seção transversal de
um condutor, com um sentido positivo de referência). O deslocamento
de cargas através de uma superfı́cie constitui uma corrente elétrica .
O valor da corrente elétrica será determinado contando como positivas
as cargas positivas que se deslocam no sentido de referência e as cargas
negativas que se deslocam no sentido oposto.
A corrente média im que atravessa a superfı́cie durante o intervalo
Seção 2: Carga e Corrente Elétricas 12
de tempo ∆t pode ser definida por
∆q(t)
im (t) = ampères. (2)
∆t
A corrente instantânea é dada por
dq(t)
i(t) = . (3)
dt
O sentido da corrente é indicado graficamente por uma flecha ao lado
do condutor.
As correntes podem ser classificadas de acordo com o tipo de va-
riação temporal:
• correntes contı́nuas, que não variam com o tempo;
• correntes alternadas, descritas por funções periódicas no tempo,
satisfazendo ainda a condição de valor médio nulo;
Seção 2: Carga e Corrente Elétricas 13
• correntes pulsadas, também periódicas, mas com valor médio
não nulo num perı́odo.
Também podemos classificar as correntes de acordo com a sua
forma de onda, isto é, com o tipo particular da variação da corrente
i(t) com o tempo. Falaremos então de correntes senoidais, quadradas,
triangulares, em dente de serra, etc.
A corrente pode ser medida por meio de um amperı́metro inserido
14
no condutor. A figura a seguir ilustra um amperı́metro ideal, cuja
inserção não perturba a operação do circuito. O amperı́metro deve ser
intercalado no condutor de modo que a flecha do sentido de referência
positiva do condutor o atravesse do terminal “+” para o terminal “-”.
A carga elétrica transportada pela corrente entre o instante inicial
t0 e o instante atual t é dada por
Z t
q(t) = i(τ ) dτ + q(t0 ). (4)
t0
3. Bipolos Elétricos, Tensão e Potência
Um bipolo elétrico é um dispositivo com dois terminais acessı́veis,
através dos quais pode fluir uma corrente elétrica. Em qualquer ins-
tante a corrente que entra por um dos terminais deve ser igual à que
Seção 3: Bipolos Elétricos, Tensão e Potência 15
sai pelo outro terminal.
Considere um bipolo que é atravessado por uma corrente i(t). Du-
rante o intervalo de tempo dt o bipolo é atravessado pela carga elétrica
dq(t) = i(t) dt . (5)
A passagem desta carga transfere para o bipolo uma energia dw,
relacionada à carga por
dw(t) = v(t) dq(t) . (6)
Seção 3: Bipolos Elétricos, Tensão e Potência 16
A grandeza v(t) é a tensão elétrica ou voltagem entre os termi-
nais do bipolo:
dw(t)
v(t) = volts. (7)
dq(t)
A Eq. (7) mostra que
1 volt = 1 joule/coulomb .
Então
a voltagem ou diferença de potencial é a energia necessária para
mover uma carga unitária em um percurso, medida em volts (V).
A tensão2 é medida por meio de voltı́metros , constituı́do por
um aparelho indicador e dois fios condutores (pontas de prova) que o
interligam aos terminais do bipolo. Os terminais do voltı́metro não
são intercambiáveis, devendo ser distinguidos pelas marcas “+” e “-”.
2 Que também pode ser definida como o trabalho necessário para mover uma
carga unitária ao longo de um percurso.
Seção 3: Bipolos Elétricos, Tensão e Potência 17
Se num dado instante a indicação do aparelho for positiva, podemos
afirmar que o terminal “+” está a um potencial mais elevado que o
terminal “-”.
Um voltı́metro ideal não altera o comportamento dos circuitos em
que for ligado. Por outro lado, os voltı́metros reais sempre modificam
o circuito em que forem ligados. Cabe ao usuário certificar-se que essa
modificação é desprezı́vel.
Duas variáveis elétricas foram associadas aos dipolos: tensão e
corrente. Ao medir essas grandezas podemos associar o amperı́metro
e o voltı́metro de duas maneiras distintas, como indicado pelas figuras
a seguir.
Seção 3: Bipolos Elétricos, Tensão e Potência 18
19
4. Potência Elétrica e Energia num Bipolo
A potência instantânea fornecida ou recebida por um bipolo é dada
por
dw(t)
p(t) = watts . (8)
dt
Como dw = v. dq = [Link], então tem-se que
p(t) = v(t). i(t) . (9)
É importante saber se a potência está sendo absorvida ou fornecida
por um bipolo. Essa determinação é feita pelo sinal do produto v. i
e da convenção dos sentidos de referência do bipolo (convenção do
gerador ou do receptor). É fácil verificar que essa determinação pode
ser feita conforme se segue.
(
v. i > 0 → bipolo fornece potência
Convenção do gerador (10)
v. i < 0 → bipolo recebe potência
Seção 4: Potência Elétrica e Energia num Bipolo 20
(
v. i > 0 → bipolo recebe potência
Convenção do receptor (11)
v. i < 0 → bipolo fornece potência
A potência média num intervalo [t1 , t2 ], t2 > t1 , é definida como
Z t2
1
P = p(t) dt . (12)
t2 − t1 t1
Tem especial interesse o caso em que a corrente e a tensão são funções
periódicas do tempo. Se T é o perı́odo destas funções, define-se a
potência média (num perı́odo) por
1 t0 +T
Z
P = p(t) dt , (13)
T t0
ou
1 T 1 T /2
Z Z
P = p(t) dt = p(t) dt . (14)
T 0 T −T /2
21
A energia elétrica recebida ou fornecida por um bipolo num in-
tervalo [t0 , t] é determinada pela fórmula
Z t Z t
W (t, t0 ) = p(λ) dλ = v(λ) i(λ) dλ . (15)
t0 t0
Na prática, mede-se a energia elétrica em quilowatts-hora (kWh).
Um kWh é a energia correspondente a 1 kW agindo durante uma
hora. Logo, 1 kWh = 3, 6 × 106 joules.
5. Os Bipolos Elementares Passivos
5.1. Os Resistores
O resistor é um bipolo passivo, pois absorve ou dissipa energia. Os
resistores fixos serão descritos por uma das relações
v = r(i) resistor controlado por corrente, (16)
i = g(v) resistor controlado tensão, (17)
onde admitimos que v e i foram medidos com a convenção do receptor.
A figura a seguir mostra a curva caracterı́stica de um resistor não
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 22
linear.
Se a curva caracterı́stica de um resistor é uma reta que passa pela
origem, então diz-se que o mesmo é um resistor linear fixo ou ideal.
Formalmente, o resistor ideal é definido pelas seguintes relações entre
tensão e corrente:
v = Ri (18)
i = Gv (19)
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 23
em que R e G denotam, respectivamente, a resistência (medida em
ohms (Ω)) e a condutância (medida em siemens (S)) do resistor. As
Eqs. (18) e (19) correspondem à Lei de Ohm .
A potência instantânea consumida num resistor é dada por
p = vi = Ri2 = Gv 2 . (20)
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 24
Merecem também destaque os bipolos em que a relação tensão-
corrente é linear, mas com os coeficientes de proporcionalidade va-
riantes com o tempo. Esses bipolos são conhecidos como resistores
variáveis no tempo, sendo caracterizados por:
v(t) = r(t)i(t) , (21)
i(t) = g(t)v(t) . (22)
Exemplo. Um microfone de carvão, usado no telefone, consta de uma
resistência realizada por grânulos de carvão comprimidos entre uma
placa metálica e um diafragma, também metálico, que vibra com a
incidência de uma onda sonora. A resistência varia linearmente com
pressão sonora. Suponha que uma onda sonora cossenoidal incida
sobre o diafragma. Então a condutância do microfone será
g(t) = G0 (1 + cos w0 t)
Se aplicarmos uma tensão contı́nua V resultará uma corrente
i(t) = g(t)V = G0 V + G0 cos w0 t
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 25
Portanto, a corrente no microfone terá uma componente contı́nua e
uma componente alternada. Tipicamente, G0 = 0, 001S e V = 24 V.
O diodo ideal é um bipolo não linear e com terminais não inter-
cambiáveis.
O diodo se comporta um curto-circuito para tensões positivas e
como um circuito aberto para tensões negativas. O diodo ideal não
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 26
permite a passagem de correntes negativas nem o aparecimento de
tensões positivas entre os seus terminais. Os diodos são úteis na cons-
trução de modelos de circuitos eletrônicos, como veremos mais tarde
neste curso.
Finalmente, note que o curto-circuito corresponde a um bipolo
com resistência nula ou condutância infinita. O circuito aberto é
definido por um bipolo de resistência infinita ou condutância nula.
5.2. Os Capacitores
Um capacitor é um bipolo capaz de armazenar cargas elétricas, de
modo que a carga q(t) armazenada no instante t depende apenas da
tensão v(t) aplicada nos terminais do bipolo.
O capacitor ideal é caracterizado pela relação
q(t) = Cv(t) C > 0, (23)
em que C é a capacitância , medida em farads (F).
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 27
Derivando (23), obtemos
dv(t)
i(t) = C . (24)
dt
Resolvendo (24) para dv e integrando o resultado entre os instantes
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 28
inicial t0 e o atual t, temos que
1 t
Z
v(t) = i(τ ) d(τ ) + v(t0 ) , (25)
C t0
onde v(t0 ) é a tensão inicial no capacitor.
A Eq. (25) mostra que a tensão num capacitor é proporcional à
integral da corrente que o atravessou, a menos de uma constante ar-
bitrária. É por isso que se diz que os capacitores têm inércia de tensão
(a tensão nos terminais de um capacitor do mundo real não pode mu-
dar instantaneamente). Voltaremos a este ponto mais à frente no
curso.
A potência instantânea recebida por um capacitor é
dv(t) 1 dv 2 (t)
p(t) = v(t)i(t) = Cv(t) = C . (26)
dt 2 dt
A Eq. (26) mostra que a potência poderá ser positiva ou negativa.
Isto quer dizer que o capacitor pode receber ou fornecer energia. De
fato, um capacitor é um dispositivo que armazena energia no campo
elétrico presente no seu dielétrico (vide o curso de Eletromagnetismo)
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 29
de maneira reversı́vel: quando o campo no dielétrico diminui o capa-
citor devolve energia ao circuito.
Integrando-se (26) no intervalo [t0 , t] obtém-se a energia recebida
pelo capacitor
Z t Z v(t)
dv(τ )
W (t, t0 ) = Cv(τ ) d(τ ) = C v(τ )dv(τ ) =
t0 dτ v(t0 )
Z v(t)
C
=C vdv = [v 2 (t) − v 2 (t0 )] . (27)
v(t0 ) 2
Supondo que v(t0 ) = 0 (capacitor inicialmente descarregado ou
sem energia armazenada), então (27) indica que a energia armazenada
em qualquer instante de tempo arbitrário será dada por
Cv 2
W = (28)
2
ou
q2
W = . (29)
2C
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 30
Se a relação carga-tensão no capacitor for linear com um coeficiente
dependente do tempo
q(t) = C(t)v(t) (30)
o capacitor é dito linear variável no tempo; sua capacitância C(t) será
agora uma função do tempo. A corrente nesse capacitor é dada por
dq(t) 0 0 0 0
i(t) = = q(t) = [C(t)v(t)] = C (t)v(t) + C(t)v (t) . (31)
dt
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 31
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 32
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 33
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 34
5.3. Os indutores
Um indutor é um bipolo que pode armazenar energia no campo
magnético existente no seu interior. O campo magnético é produzido
pela corrente que o atravessa3 . Podemos implementar um indutor
construindo uma bobina com um fio condutor.
3 Você aprenderá a fı́sica do indutor em detalhes no curso de Eletromagnetismo.
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 35
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 36
Quando uma corrente atravessa um indutor ideal, a sua tensão é
dada por (convenção do receptor)
di(t)
v(t) = L , (32)
dt
em que L é a indutância, medida em henrys (H). A indutância mede
o grau de oposição oferecido pelo indutor à variação de corrente nos
seus terminais4 (que é imposta, obviamente por um agente externo).
É por isso que se diz que os indutores apresentam inércia de corrente
(a corrente que flui por um indutor prático não pode mudar instanta-
neamente).
4 Lei de Lenz, vide curso de Eletromagnetismo.
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 37
Seção 5: Os Bipolos Elementares Passivos 38
Resolvendo (32) em relação a di e integrando de t0 a t obtemos
1 t
Z
i(t) = v(τ )d(τ ) + i(t0 ) . (33)
L t0
A potência recebida pelo indutor é
di(t) L di2 (t)
p(t) = v(t)i(t) = Li = . (34)
dt 2 dt
A energia recebida no intervalo [t0 , t] é
Z t Z t
di(t)
W (t, t0 ) = v(t)i(t)dt = L i(t) dt =
t0 t0 dt
Z i(t)
L
=L i di = [i2 (t) − i2 (t0 )] . (35)
i(t0 ) 2
Quando i(t0 ) = 0 (condições iniciais quiescentes), a energia ar-
mazenada num indutor atravessado por uma corrente i, qualquer que
seja o tempo, é
Li2
W = . (36)
2
39
Portanto, a energia armazenada pelo indutor é função exclusiva da
corrente que o atravessa. Esta energia armazenada no campo magnético
é reversı́vel, sendo entregue ao circuito quando o campo diminui.
6. Os Geradores
Vamos agora definir uma classe de bipolos cuja função é introduzir
energia de forma continuada nas redes elétricas.
Seção 6: Os Geradores 40
6.1. Gerador Ideal de Tensão
O gerador ideal de tensão é um bipolo cuja tensão entre seus ter-
minais é dada por uma função do tempo, independentemente da cor-
rente que o atravessa. Esta função será designada por função de ex-
citação es (t). Note que es (t) = E, em que E é uma constante, para
os geradores de tensão constante ou contı́nua (como uma bateria).
Seção 6: Os Geradores 41
A indicação da polaridade (+ e -) é essencial, pois nos dá a regra
para ligar um voltı́metro que medirá a tensão es (t). É claro que o
”+´´ do gerador deve ser ligado ao ”+´´ do voltı́metro.
Um caso particular deste gerador é interessante: aquele em que a
função de excitação reduz-se à função nula. Diz-se então que o gerador
está inativado ou desativado. Neste caso, o gerador de tensão reduz-se
a um curto-circuito.
É importante ressaltar que a corrente que atravessa um gerador
de tensão é determinada pelo circuito externo que está acoplado ao
gerador.
6.2. Gerador Ideal de Corrente
O gerador ideal de corrente é um bipolo que fornece, por seus ter-
minais, uma corrente de valor fixado por uma função do tempo, in-
dependentemente do valor da tensão entre os seus terminais. Esta
função será designada por função de excitação is (t).
Seção 6: Os Geradores 42
Como caso particular, podemos ter is (t) = 0. Neste caso, o gerador
está inativado e corresponde a um circuito aberto.
Duas operações não podem ser feitas com os geradores acima de-
finidos: colocar geradores de tensão em curto-circuito (pois passaria
uma corrente infinita pelo gerador) ou colocar geradores de corrente
em circuito aberto (apareceria uma tensão entre os terminais do ge-
rador).
Seção 6: Os Geradores 43
Veremos que modelos de geradores reais podem ser construı́dos
associando-se os geradores ideais com os bipolos elementares já defi-
nidos.
6.3. Geradores Vinculados
Há geradores, dito vinculados ou controlados , em que a função
de excitação é controlada por alguma tensão ou corrente do circuito.
Com isso, a introdução de energia pode ser controlada pelo próprio
circuito, criando possibilidades interessantes. Tais fontes serão úteis
para construir modelos de transistores e máquinas elétricas. Podemos
considerar geradores de tensão ou corrente, controlados por outras
tensões ou correntes. Há então quatro possibilidades:
• fonte de tensão controlada por tensão (FVCV);
• fonte de tensão controlada por corrente (FVCI);
• fonte de corrente controlada por tensão (FICV);
• fonte de corrente controlada por corrente (FICI).
Seção 6: Os Geradores 44
As constantes de controle recebem os seguintes nomes:
• µ = coeficiente de amplificação de tensão ou ganho de tensão
(adimensional);
• rm = transresistência;
• gm = transcondutância;
• β = coeficiente de amplificação de corrente ou ganho de corrente
(adimensional).
45
7. As Funções de Excitação
7.1. Excitação Contı́nua
O valor da tensão ou da corrente neste geradores é constante
para qualquer valor de tempo. Os geradores correspondentes são de-
signados por geradores de tensão contı́nua ou geradores de corrente
contı́nua.
7.2. Excitação em Degrau
É descrita pela função degrau unitário ou função de Heaviside , re-
presentada por H(t), u(t) ou 1(t) e definida por
(
0, para t < 0
H(t) (37)
1, para t ≥ 0
Seção 7: As Funções de Excitação 46
Note que a excitação es (t) = EH(t) é um degrau de amplitude E
e que a excitação es (t) = EH(t − t0 ) é um degrau de amplitude E
cuja descontinuidade ocorre no instante t0 .
Seção 7: As Funções de Excitação 47
7.3. Excitação Impulsiva
Esta excitação é descrita pelas funções impulsivas , que se baseiam
no impulso unitário ou função Delta , introduzida por Paul Dirac
em 1930 na sua formulação matemática da mecânica quântica. As
funções impulsivas não são funções no sentido matemático habitual,
pertencendo à classe das distribuições ou funções generalizadas. Va-
mos aqui introduzir estas funções de maneira intuitiva, sem nenhum
rigor matemático.
Seção 7: As Funções de Excitação 48
Considere uma barra de metal de espessura variável. Se quisermos
descrever como a sua massa é distribuı́da ao longo do seu compri-
mento, devemos introduzir uma função densidade de massa ρ(x), que
é definida fisicamente como a massa por unidade de comprimento no
ponto x, e definida matematicamente com uma função tal que a massa
total da seção da barra no intervalo de a a b (distâncias medidas a
Rb
partir do centro da barra) é a ρ(x) dx. Esta descrição é satisfatória
para distribuições contı́nuas de massa; propriedades dinâmicas como
centro de massa e momento de inércia podem ser expressas em termos
da função ρ.
Mas se a massa estiver concentrada em um número finito de pon-
tos ao invés de estar distribuı́da de forma contı́nua, então a des-
crição acima não funciona. Considere, por exemplo, um fio estendido
de massa desprezı́vel e uma pedra muito pequena vazada de massa
unitária que é colocada no ponto x = 0 (centro) do fio. Como a pedra
é muito pequena, é razoável representá-la matematicamente como um
ponto. Então a massa total no intervalo (a, b) é zero se o ponto x = 0
cai fora desse intervalo e é unitária se o intervalo (a, b) inclui o ponto
Seção 7: As Funções de Excitação 49
x = 0. Não há nenhuma função ρ (pelo menos no sentido clássico de
função que você aprendeu no curso de Cálculo) que possa representar
essa distribuição discreta de massa. Se existisse essa função, então
deverı́amos ter ρ(x) = 0 para todo x 6= 0, porque a massa por uni-
dade de comprimento é zero exceto em x = 0. Mas se a função é igual
a zero para todo ponto exceto num único ponto, então é fácil provar
que a sua integral sobre qualquer intervalo deve ser zero, de modo que
a integração sobre um intervalo que inclua a origem não possa dar o
valor correto, 1. Do ponto de vista fı́sico, a densidade de massa é zero
para todo x 6= 0 e em x = 0 é infinita, porque uma massa finita está
concentrada num segmento de comprimento zero (isto é, num ponto);
e é tão infinitamente grande que a integral é não nula, muito embora
o integrando seja positivo somente numa região “infinitesimalmente
pequena”. Isto faz sentido do ponto de vista fı́sico, embora seja um
absurdo matemático (no sentido clássico). Dirac então introduziu a
função generalizada δ(x) que tem as seguintes propriedades:
Z b
δ(x) = 0 para x 6= 0, δ(x) = 1 se a < 0 < b . (38)
a
Seção 7: As Funções de Excitação 50
A função delta pode ser considerada como o limite de uma sequência
de funções ordinárias. Considere, por exemplo, a sequência de funções
rampa fi (t) e suas derivadas gi (t) = f˙i (t), i = 1, 2, 3, . . .. Fazendo
τi = τ1 , τ2 , τ3 , . . ., obtemos uma sequência de funções (derivadas) que
satisfazem à seguinte propriedade
Z t2
lim gi (t) dt = 1 ∀t1 , t2 > 0 . (39)
−t1
Seção 7: As Funções de Excitação 51
Seção 7: As Funções de Excitação 52
Quando os τi tendem a zero os pulsos retangulares tendem a uma
largura nula e uma altura infinita, mas sempre com área igual a 1. Va-
mos admitir que este limite seja a função de Dirac ou impulso unitário,
representado por δ(t). Às propriedades (38) devemos acrescentar a
propriedade de amostragem do impulso:
Z ∞
w(t)δ(t) dt = w(0) para w (.) contı́nua na origem . (40)
−∞
Vamos agora voltar ao problema da determinação da massa con-
centrada no ponto x = 0 do fio de massa desprezı́vel. Concluı́mos que
o “truque” introduzido por Dirac funciona, pois a integral da função
densidade de massa δ(x) no intervalo (−∞, ∞) é igual a 1 (resposta
correta!). O truque de Dirac intrigou os matemáticos puros de sua
época: uma ideia que é matematicamente absurda, mas que ainda
assim funciona, e que nos dá resultados corretos e úteis, deve estar
essencialmente certa ...
O desenvolvimento da teoria matemática das distribuições foi ini-
ciado por Sobolev (1936) e finalizado por Schwartz na década de 1950.
O ponto fundamental dessa teoria é o seguinte: a ideia é formalizar a
Seção 7: As Funções de Excitação 53
noção da função delta de Dirac como sendo algo que só faz sentido sob
uma operação de integração, possivelmente multiplicada por alguma
outra função φ.
Vamos aqui “provar”5 que a função impulso é a derivada (num
sentido generalizado) do degrau, ou seja, que vale
d
δ(t) = H(t) . (41)
dt
Note que
Z t
H(t) = δ(τ ) d(τ ) para t ≥ 0 . (42)
−∞
Rt
Como d
dt { −∞ δ(τ ) d(τ )} = δ(t), para t ≥ 0, então δ(t) = H 0 (t).
7.4. Excitação Exponencial
É uma excitação do tipo
e(t) = Eest , (43)
5 Consulte a Ref. [3] se quiser uma prova matematicamente correta.
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onde E e s são constantes. Se ambos forem reais teremos uma ex-
citação exponencial real. Se s for complexo, com E real ou complexo,
teremos uma excitação exponencial complexa.
Seja o caso em que E e s são reais, com s = −σ, σ > 0. Então
e(t) = Ee−σt , (44)
e a exponencial é decrescente. A constante σ é chamada frequência
neperiana da excitação e seu inverso
τ = 1/σ , (45)
é a constante de tempo da exponencial.
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7.5. Excitação Cossenoidal
É uma excitação do tipo
e(t) = Am cos (wt + θ) t ∈ (−∞, ∞) , (46)
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onde Am é a amplitude ou valor máximo (real e não nulo), w é a
frequência angular (real e medida em rad/s) e θ é a defasagem (real e
medida em radianos ou graus). Vale ainda a relação w = 2πf , em que
f é a frequência cı́clica, real e medida em Hz, e T = 1/f é o perı́odo,
real e medido em segundos.
7.6. Excitação Exponencial Complexa
São excitações do tipo Eest com s = −σ + jw, {σ, w} ∈ R, e E a
amplitude da exponencial. A variável s, definida no plano complexo,
será designada por frequência complexa da excitação. Sua parte real é
a frequência Neperiana porque corresponde, como veremos, ao amor-
tecimento da função; sua parte imaginária é uma frequência angular.
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NOTA: ALGUMAS FIGURAS DESTA AULA FORAM RETIRA-
DAS DO LIVRO [2] (vide Referências).
Referências
[1] L. Q. Orsini, D. Consoni, Curso de Circuitos Elétricos - Volume
1. 2a ed., Editora Edgard Blücher Ltda, 2002.
[2] C. K. Alexander, M. N. O. Sadiku, Fundamentos de Circuitos
Elétricos. Bookman, 2003. 57
[3] D. H. Griffel, Applied Functional Analysis. Dover, 2002. 53