G. Liberdades Religiosas
G. Liberdades Religiosas
LIBERDADES RELIGIOSAS
HISTÓRIA ILUSTRATIVA
Egito: Ativistas Livres Detidos em Visita O tiroteio, o rescaldo (manifestações que ter-
de Solidariedade minaram com a detenção de Muçulmanos e
Cristãos; detenção de ativistas que davam as
A 6 de janeiro de 2010, seis Cristãos cop- condolências às famílias das vítimas do tiro-
tas e um guarda Muçulmano foram atingi- teio) e o tratamento do caso pelas autoridades
dos por tiros no Egito quando os Cristãos demonstram a situação precária dos Cristãos
deixavam uma igreja em Nag’ Hammadi Coptas no Egito. Os Coptas são vítimas de
depois da missa de Natal. Os tiros foram ódio religioso e de ataques com base na sua
disparados de um carro em andamento. afiliação e prática religiosas. No seu relatório
De acordo com relatórios, três homens fo- anual de 2010, a HRW acusou o Egito de “dis-
ram detidos dois dias depois, a 8 de ja- criminação disseminada contra os Cristãos
neiro, e condenados, a 9 de janeiro, por Egípcios, assim como de intolerância oficial
“homicídio premeditado, tendo posto a de seitas Muçulmanas heterodoxas.”
vida de cidadãos em perigo e também por (Fonte: Human Rights Watch. 2010. Egypt:
danos à propriedade pública e privada”. Free Activists Detained on Solidarity Visit; Hu-
Apesar de a detenção ser vista como um pas- man Rights Watch. 2011. World Report 2011)
so na direção certa pela Human Rights Watch
(HRW), não é suficiente. A HRW argumenta Questões para debate
que a rotina, em casos semelhantes, consis- 1. Que razões pensa terem estado na base do
te em chamar as famílias envolvidas para tratamento dos Cristãos Coptas no Egito?
que estas não prossigam com a investigação 2. Já ouviu falar de incidentes compará-
criminal e procedam à resolução do caso de veis no seu país ou região?
modo privado. Frequentemente é paga uma 3. Que parâmetros internacionais de direi-
compensação às famílias das vítimas. tos humanos foram violados?
Sarah Leah Whitson, Diretora da HRW 4. Como se poderão prevenir situações se-
para o Médio Oriente instou o governo melhantes?
egípcio a implementar uma “campanha 5. Que instituições e procedimentos inter-
séria de respeito pela diversidade religiosa nacionais existem para fazer face a es-
e de direitos iguais para todos.” tes casos?
A SABER
1. Liberdades Religiosas: ainda um lon- gá-lo, a deixar a família, a ser-se persegui-
go caminho a percorrer do, posto na prisão ou até morto.
Milhões de pessoas acreditam que existe No século III a.C., os Budistas eram perse-
algo superior à humanidade que nos guia guidos na Índia por acreditarem nos ensi-
espiritualmente. Por força daquilo em que namentos de Buda. A partir do século IX
se acredita, é possível ser-se forçado a ne- d.C. – a “Idade das Trevas” da Europa -
G. LIBERDADES RELIGIOSAS 253
Muçulmanos e outros crentes não Cristãos ódio de grupo. A perseguição por motivos
começaram a ser perseguidos “em nome religiosos pode ser vista em conflitos re-
de Deus”. Subsequentemente, a guerra centes entre crentes e não crentes, entre
para expandir o Império Otomano e o Is- religiões tradicionais e “novas”, ou entre
lão assustou a Europa. Os Judeus eram Estados com religião oficial ou preferida e
fechados em guetos por Cristãos, mas indivíduos ou comunidades que a ela não
também já o tinham sido anteriormente, pertencem.
por Muçulmanos. O extermínio dos habi-
tantes nativos da América Latina também “Por natureza, ninguém está vinculado a
foi levado a cabo durante o seu processo nenhuma igreja ou seita particular mas
de Cristianização. todos se juntam, voluntariamente, àquela
No passado e no presente, as pessoas têm sociedade em que acreditam ter encontrado
sido ameaçadas pelas suas crenças e con- aquela fé e culto que é, verdadeiramente,
vicções. A faculdade de acreditar em algo aceitável para Deus. A esperança na salva-
e de o manifestar é conhecida e protegi- ção, sendo a única razão para a sua entra-
da como liberdade religiosa. Esta é uma da nessa comunhão, só poderá ser a única
questão não só jurídica mas também mo- causa da sua permanência aí […] Assim,
ral. As crenças religiosas interferem bas- uma igreja é uma sociedade de membros,
tante com a esfera privada do indivíduo, voluntariamente, reunidos para aquele
uma vez que tocam convicções pessoais e fim.”
a compreensão do mundo. John Locke. 1689. Letter Concerning Toleration.
A fé é um dos maiores elementos de ex-
pressão da identidade cultural. É por esta
razão que as liberdades religiosas são um “Não haverá paz entre as nações sem paz
tópico particularmente sensível de abordar entre as religiões. Não haverá paz entre as
e parece causar mais dificuldades do que religiões sem diálogo entre as religiões. Não
outras questões de direitos humanos. haverá diálogo entre as religiões sem inves-
Um outro problema tem impedido a re- tigação dos fundamentos das religiões.”
gulação das liberdades religiosas no di- Hans Küng, Presidente da Global Ethic Foundation.
reito internacional dos direitos humanos.
Por todo o mundo, religião e crença são As violações atuais das liberdades religio-
elementos chave da política. As crenças sas ocorrem por todo o mundo. No en-
e liberdades religiosas são muitas vezes tanto, a supressão sistemática de certas
usadas incorretamente para exigências crenças manifesta-se presente nos seguin-
políticas e reivindicações de poder, o que tes países: na Birmânia, todas as minorias
resulta, frequentemente, em argumentos religiosas são perseguidas – em particular,
enganosos quando religião e política são os Muçulmanos Rohingya e também Pro-
ligadas. testantes e monges Budistas; o governo
Uma proteção adequada tem-se tornado Norte-Coreano considera todas as crenças
mais premente em anos recentes, uma e ritos religiosos além da ideologia Juche
vez que a intolerância religiosa e persegui- como uma ofensa ao culto da personali-
ção têm tido lugar de destaque em vários dade da família Kim e uma violação da
conflitos trágicos em todo o mundo que autoridade governamental; no Egito, as-
envolvem problemas de etnia, racismo ou sistimos a discriminação contra Coptas,
254 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS
Cristãos ortodoxos, Bahai, Ahmadis, Cora- sas. Se não pode acreditar num Deus
nistas, Shiitas e Muçulmanos Sufi, assim ou num qualquer conceito de universo
como antissemitismo virulento; na Eri- que queira, a liberdade e a segurança
treia, os seguidores das Testemunhas de pessoais continuarão fora do alcance.
Jeová, os Cristãos Evangélicos e o Movi- As ameaças à liberdade de pensamento,
mento de Pentecostes são alvos de supres- de crença, de consciência e de religião
são particulares; no Irão há discriminação afetam, diretamente, tanto indivíduos
e perseguição dos Bahai, Sufis, Muçul- como grupos no que respeita a assegu-
manos dissidentes e Cristãos; no Iraque e rar e desenvolver a integridade pessoal.
na Nigéria contra Cristãos e no Paquistão Quando a discriminação e a perseguição
contra Ahmadis. Na China, os Muçulma- baseadas na religião são sistemáticas ou
nos Uigures em Xinjiang, Protestantes, se- estão institucionalizadas, tal pode levar
guidores de Falun Gong e os Budistas Ti- à existência de tensões entre comunida-
betanos são particularmente afetados. No des ou mesmo a crises internacionais.
Sudão, os Cristãos são discriminados, e na Os agentes da insegurança podem ser
Árabia Saudita, os Muçulmanos Shiitas e quaisquer uns – indivíduos, grupos e
Ismaelistas. Por fim, assistimos a discrimi- até Estados. Esta ameaça, omnipotente e
nação forte contra grupos religiosos não omnipresente, à segurança pessoal, com
registados no Turquemenistão e Uzbequis- base na religião e na crença, precisa de
tão. As violações das liberdades religiosas medidas de proteção especiais. A educa-
variam do crescimento recente do funda- ção e aprendizagem para os direitos hu-
mentalismo Cristão nos EUA, à intensifica- manos são a solução para se respeitar as
ção do extremismo religioso islâmico, bem crenças religiosas e os pensamentos dos
como a novas formas de antissemitismo outros. A compreensão do respeito, da
(i.e., medo e ódio por Judeus/Judaísmo) tolerância e da dignidade humana não
em vários países e, especialmente, desde o pode ser alcançada à força. Tem de ser
11 de setembro de 2001, a uma Islamofobia um compromisso duradouro de todos na
(i.e. medo e ódio de Muçulmanos/Islão) construção conjunta da segurança indi-
crescente, embora muitas vezes ignorada, vidual e global.
nos EUA e na Europa.
Infelizmente, existem outros numerosos 2. DEFINIÇÃO E DESENVOLVIMENTO
casos que podem exemplificar a urgência DA QUESTÃO
de lidar com as liberdades religiosas, es-
pecialmente, quando estão ligadas a extre- O que é a Religião?
mismo. Este fenómeno tem de ser aborda- Não existe uma definição comum de re-
do separadamente. ligião nas discussões filosóficas ou socio-
lógicas. No entanto, nas diferentes defini-
Liberdades Religiosas e Segurança Hu- ções, vários elementos comuns têm sido
mana propostos.
Etimologicamente, religião, ligada ao La-
O direito de viver sem medo é um va- tim religare, refere-se a uma “vinculação”.
lor essencial da segurança humana. Este Religião é aquilo que vincula o crente a al-
valor essencial é extremamente ameaça- gum “Absoluto” – concetualizado em ter-
do pela violação das liberdades religio- mos pessoais ou impessoais. Normalmen-
G. LIBERDADES RELIGIOSAS 255
te, inclui uma série de ritos e rituais, regras Contrariamente a esta definição intelectu-
e regulações que permitem ao indivíduo al estrita de fé como ato de reflexão, a fé
ou comunidades relacionar a sua existên- significa um ato de crença ou confiança
cia com um “Deus” ou com “Deuses”. De em algo Supremo (seja esse algo pessoal
acordo com Milton J. Yinger, a religião re- ou não, como as Quatro Nobres Verdades
presenta um “sistema de crenças e práticas do Budismo).
pelos quais um grupo de pessoas luta com O Comité dos Direitos Humanos das Na-
os problemas derradeiros da vida”. ções Unidas, no seu Comentário Geral
Em comparação, o Dicionário de Black nº 22 sobre o artº 18º do Pacto Interna-
Law define religião como “Uma relação cional sobre os Direitos Civis e Políticos
[humana] com o Divino, a reverência, ado- (PIDCP) define a proteção da religião ou fé
ração, obediência e submissão a ordens e deste modo: “O artigo 18º protege fés teís-
normas de seres sobrenaturais ou superio- tas, não-teístas e ateístas tal como o direito
res. No seu sentido mais lato, [religião] in- a não professar qualquer religião ou fé.” O
clui todas as formas de crença na existên- Comentário Geral menciona também “Os
cia de um poder superior que exerce poder termos religião e fé devem ser entendidos
sobre os seres humanos, impondo sanções latamente. O artigo 18º, no que respeita à
e regras de conduta, juntamente com com- sua aplicabilidade, não se limita a religiões
pensações e punição futuras”. tradicionais ou a religiões e fés com carac-
Esta definição e outras semelhantes in- terísticas institucionais ou práticas análo-
corporam o reconhecimento da existência gas às das religiões tradicionais. O Comité,
de um Supremo, Sacro, Absoluto, Trans- consequentemente, encara com preocupa-
cendente, seja pessoal ou impessoal. O ção qualquer tendência para a discrimi-
“Supremo/Derradeiro” tem uma função nação de qualquer religião ou fé por um
normativa e os crentes devem seguir os qualquer motivo, incluindo o facto de as
ensinamentos e as regras de conduta da mesmas terem sido recentemente estabele-
sua religião, como o caminho até este cidas ou representarem minorias religiosas
Absoluto. Os crentes devem igualmente que possam ser alvo de hostilidade por par-
expressar as suas crenças religiosas sob te de um grupo religioso predominante”.
várias formas de adoração ou culto. Mui- (Fonte: Comité dos Direitos Humanos da
tas vezes, mas nem sempre, uma entida- ONU. 1993. Comentário Geral nº22, §48,
de legal, como uma igreja ou uma outra sobre o artº 18º do PIDCP)
instituição é estabelecida para organizar o Fés de outra natureza - seja política, cul-
grupo ou as práticas de adoração. tural, científica ou económica – não caem
sob esta proteção e têm de ser tratadas de
O Que É a Fé? forma diferente.
Fé é um conceito mais amplo do que re-
ligião. Inclui religião mas não se limita Liberdade de Expressão
ao seu significado tradicional. O Dicioná- Liberdade dos Meios de Informação
rio de Black Law define a mesma como
a “crença na verdade de uma proposição, O Que São
subjetivamente existente na mente e indu- as Liberdades Religiosas?
zida por argumentação, persuasão ou pro- Em direito internacional, as liberdades reli-
va direcionada ao julgamento”. giosas são protegidas enquanto liberdade
256 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS
Manifestar a Fé Estado e Fé
A liberdade de manifestar uma crença Uma das maiores diferenças, a nível mun-
religiosa inclui a proteção da linguagem dial, no que respeita à proteção das liberda-
religiosa, ensinamentos, rituais, adoração des religiosas faz-se sentir na relação entre
e observância dessa fé. Temos o direito a os Estados e as religiões ou fés dos seus
falar sobre a nossa fé, a ensiná-la, a pra- cidadãos. Existem vários modelos princi-
G. LIBERDADES RELIGIOSAS 259
pais no que respeita à forma como os Esta- x Pensa ser possível estabelecer um sis-
dos podem interagir com as fés: religiões de tema de igualdade entre todas as fés,
Estado, igrejas estabelecidas, neutralidade quando uma é privilegiada?
dos Estados relativamente à fé e às suas x Pensa ser legítima a possibilidade de
instituições, inexistência de religião oficial, constituição de partidos políticos con-
separação do Estado e Igreja e proteção de fessionais ou religiosos?
grupos religiosos legalmente reconhecidos.
As normas internacionais não exigem uma Apostasia – A Liberdade de Escolha e
separação entre o Estado e a Igreja e não pres- Mudança de Religião
crevem qualquer modelo particular de rela- O ato de apostasia – abandono de uma reli-
ção entre o Estado e as fés. Os mesmos não gião por uma outra ou por um estilo de vida
requerem a visão de uma sociedade secular secular – é uma das questões mais contro-
que exclua a religião dos assuntos públicos, versas entre culturas diferentes, apesar da
apesar da separação da religião relativamente clareza das normas internacionais.
ao Estado ser uma das maiores caraterísticas Uma pessoa será apóstata se deixar uma
das sociedades modernas (ocidentais). religião e adotar uma outra ou assumir
O único requisito internacional é que uma um estilo de vida secular. Historicamente,
tal relação entre Estado e Igreja não resul- o Islão, o Cristianismo e outras religiões
te na discriminação contra aqueles que não adotaram uma visão muito reprovadora
pertençam à religião oficial ou às fés reco- dos apóstatas. A pena era frequentemente
nhecidas. No entanto, quando apenas uma a morte.
religião é considerada como constitutiva da No que respeita ao Islão, a apostasia é ain-
identidade nacional, é difícil perceber-se da severamente punida em muitos países
como pode ser garantido o tratamento igual onde as respetivas sociedades se baseiam
de fés diferentes ou minoritárias. nas lei Sharia. Países como o Afeganistão,
Do ponto de vista ocidental, é mais provável Irão, Indonésia, Índia, Paquistão, a Arábia
que uma relação neutral entre a religião e o Saudita ou o Egito simbolizam muitos ou-
Estado garanta plenamente a liberdade reli- tros onde é possível impor a pena perpé-
giosa do indivíduo. Pelo contrário, a lei tra- tua ou a pena de morte pela rejeição aber-
dicional Islâmica, Sharia, por exemplo, liga ta da fé Islâmica. Na prática, isto significa
o Estado e a fé porque este sistema é visto que não existe liberdade de escolha ou de
como aquele que providencia uma melhor mudança de religião ou fé.
proteção da liberdade religiosa da comuni- Este facto está em clara contradição com o
dade. Poder-se-á, no entanto, argumentar direito internacional dos direitos humanos.
que quando o Estado está ligado a uma igre- O indivíduo tem o direito a escolher a sua
ja ou religião particulares, será difícil que as fé com liberdade e sem coerção. O deba-
minorias religiosas recebam uma proteção te sobre esta questão é altamente emotivo
igual. e sensível, uma vez que toca convicções
profundas e diferentes entendimentos das
Questões para debate liberdades religiosas. O debate ilustra tam-
x Qual é a atitude do seu país relativa- bém as diferenças culturais na perceção da
mente às diferentes fés? liberdade religiosa e de outras liberdades e
x O seu país reconhece instituições de di- parece estabelecer uma diferença entre o
ferentes fés? “Ocidente” e o “resto do mundo”.
260 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS
seculares têm uma obrigação igualmente que a sua fé é verdadeira. Uma cultura de
clara de salientar as violações dos Estados tolerância e respeito exige que nos recu-
e outros atores, de defender os persegui- semos a discriminar, denegrir ou difamar
dos e de promover a tolerância através de outras religiões e respeitemos o direito
campanhas informativas, campanhas de fundamental a ser-se diferente também em
sensibilização, programas educativos e termos religiosos. Significa igualmente que
educação. nos recusemos a discriminar o outro em
termos de emprego, habitação e acesso a
O Que Podemos Fazer? serviços sociais porque este tem outra fé. É
Nós podemos começar a prevenir a discri- também necessário, para uma efetiva mu-
minação e a perseguição religiosa, respei- dança de atitude, a promoção do diálogo in-
tando os direitos dos outros. A tolerância terreligioso e o encontro de crentes, numa
religiosa implica o respeito pelos seguido- plataforma comum, e não crentes para que
res de outras fés, quer acreditemos ou não aprendam a respeitar-se mutuamente.
CONVÉM SABER
1. BOAS PRÁTICAS x Parlamento Mundial das Religiões;
x Fundação Ética Mundial.
Diálogo Interreligioso Existem igualmente, por todo o mundo,
para o Pluralismo Religioso numerosas iniciativas locais e regionais
Durante as últimas décadas, as questões que promovem a resolução e prevenção de
sobre pluralismo religioso e cultural fize- conflitos, através do diálogo:
ram reavivar o interesse nas igrejas e co- x No Médio Oriente, a “Clergy for Peace”
munidades de crentes. Há um sentimento promove o encontro de rabinos, padres,
de urgência relativamente à construção de pastores e imãs em Israel e na Cisjordâ-
relações criativas entre pessoas de diferen- nia, tendo em vista o desenvolvimento
tes fés. Tal como o interesse no diálogo de uma ação comum e para ser teste-
tem crescido, assim também tem crescido munha da paz e justiça na região;
a sua prática, permitindo, deste modo, às x No Sul da Índia, o “Council of Grace” reú-
várias comunidades religiosas entende- ne Hindus, Cristãos, Muçulmanos, Budis-
rem-se melhor umas com as outras e tra- tas, Jains, Zoroastrianos, Judeus e Sikhs
balharem mais próximas na educação, re- numa tentativa de lidar com situações de
solução de conflitos e na vida quotidiana conflito comunitário (Comunalismo);
da comunidade. Entre muitas outras, estas x No Pacífico, a “Interfaith Search” reúne
ONG internacionais têm promovido o di- representantes de várias religiões nas
álogo religioso e a paz: Fiji com o objetivo de superar precon-
x Conselho Mundial das Igrejas; ceitos e promover o respeito e a apre-
x Conferência Mundial sobre Religiões e ciação mútuos;
Paz, com o seu grupo de trabalho per- x Na Europa, o “Project: Interfaith Europe”
manente sobre “religião e direitos hu- é a primeira iniciativa do género a con-
manos”; vidar políticos urbanos e representantes
G. LIBERDADES RELIGIOSAS 263
fo, muitas vezes acompanhado por rituais mes as penalizem ou mesmo ameacem as
únicos. suas vidas:
Considerando que ambos os termos são x A taxa de mutilação de meninas em zo-
definidos a partir da ideia de “desvio da nas rurais do Egito é de 95%. A muti-
norma”, a visão do que constitui seita ou lação genital feminina (MGF) é uma
culto será diferente entre as várias cren- tradição cultural em muitos países e é
ças. Enquanto o Budismo e o Hinduísmo severamente condenada pelos padrões
usam estes termos num sentido neutro, no internacionais de proteção dos direitos
mundo ocidental, “seita” ou “culto” são humanos. Graves problemas de saúde
conceitos frequentemente usados com co- podem surgir subsequentemente, po-
notação negativa. Este facto deriva não só dendo potencialmente resultar na morte.
da diferença destes grupos relativamente No entanto, em junho de 2003, foi alcan-
à norma, mas também do facto de serem çado um progresso a este respeito quan-
muitas vezes associados com uma comple- do representantes de vinte e oito países
ta devoção ou abusos em termos financei- africanos e árabes afetados por esta prá-
ros. Não estão protegidos pelas liberdades tica assinaram a Declaração Conjunta
religiosas grupos que se tenham formado do Cairo para a Eliminação da MGF na
como negócios, em vez de grupos religio- Consulta de Peritos Africanos e Árabes
sos. Um famoso e controverso exemplo é sobre “Medidas Legais para a Prevenção
a Igreja da Cientologia, que, em alguns da Mutilação Genital Feminina”.
países (sendo a Alemanha o mais famoso x Em zonas da Nigéria, Sudão, Paquistão
exemplo) não é reconhecida como religião e noutros países, são praticados casa-
por ser antes vista como uma empresa. mentos forçados que resultam frequen-
temente em escravidão. A necessidade
Questões para debate de consentimento da mulher não é res-
x As minorias religiosas são protegidas no peitada. Muitas vezes, as “esposas” não
seu país? Se sim, como? têm mais do que nove anos. No seio de
x Essas minorias têm os mesmos direitos/ determinados grupos na Europa e na
apoio do que a(s) principal(ais) fé(s)? América do Norte, são também prati-
cados casamentos forçados, defendidos
Mulheres e Fé ou tolerados em nome da cultura, tradi-
Durante toda a história, as mulheres têm ção e religião, apesar da existência de
sido discriminadas por praticamente todas proibições gerais de tal prática, nesses
as fés. Só tardiamente o seu direito hu- países.
mano à liberdade religiosa foi abordado. x A violação como forma específica de
A discriminação das mulheres na religião “limpeza étnica”: a afiliação religiosa
envolve dois aspetos. Por um lado, pode das vítimas foi em muitos casos a ra-
haver uma limitação da sua liberdade de zão por detrás de violações em massa
manifestar a sua fé, se não puderem ace- na ex-Jugoslávia, Geórgia, Sudão, Ru-
der em condições de igualdade a espaços anda ou Chechénia. A gravidez força-
de culto ou não puderem pregar ou lide- da de mulheres violadas garantia que
rar as suas comunidades. Por outro lado, publicamente as mesmas fossem vistas
podem ser vítimas de determinadas fés, como tendo sido violadas e, consequen-
quando as leis religiosas, práticas e costu- temente, desonradas e humilhadas, pro-
G. LIBERDADES RELIGIOSAS 265
a sua oposição à resolução pelo facto de a 1950 Convenção Europeia para a Pro-
mesma ameaçar a liberdade de opinião. Não teção dos Direitos Humanos
obstante, a resolução foi aprovada pelo Con- e das Liberdades Fundamentais
selho de Direitos Humanos. (Artº 9º)
Apenas em 2011, a Conferência dos Esta-
dos Islâmicos propôs uma resolução revis- 1965 Declaração sobre a Liberdade Reli-
ta que foi aceite por todos os estados do giosa pelo Conselho do Vaticano
Conselho de Direitos Humanos e preten- 1966 Pacto Internacional sobre os Direi-
de proteger pessoas que, por força da sua tos Civis e Políticos (Artos 18º, 20º,
religião ou crença, são confrontadas com 24º, 26º, 27º)
intolerância e violência. 1969 Convenção Americana sobre Direi-
(Fonte: Conselho de Direitos Humanos da tos Humanos (Artos 12º, 13º, 16º,
ONU. 2011. Combating intolerance, nega- 17º, 23º)
tive stereotyping and stigmatization of,
1981 Carta Africana dos Direitos Huma-
and discrimination, incitement to violence,
nos e dos Povos (Artos 2º, 8º, 12º)
and violence against persons based on reli-
gion or belief.) 1981 Declaração das Nações Unidas
sobre a Eliminação de Todas as
Questões para debate Formas de Intolerância e de Discri-
x Quais são as principais razões de confli- minação Baseadas na Religião ou
to no seio e entre comunidades religio- Crença
sas? Pode dar exemplos, tendo em conta 1989 Convenção sobre os Direitos da
a sua própria experiência? Criança (Artº 14º)
x Qual é o papel das fés na procura de paz
e na resolução de conflitos? Pense em 1990 Declaração do Cairo sobre Direitos
exemplos onde a religião tenha sido um Humanos no Islão
agente de reconciliação. 1992 Declaração das Nações Unidas so-
bre os Direitos de Pessoas Perten-
3. CRONOLOGIA centes a Minorias Étnicas, Religio-
sas e Linguísticas (Artº 2º)
Etapas importantes na história do de-
1993 Declaração para uma Ética Global,
senvolvimento das liberdades religiosas
apoiada pelo Parlamento das Reli-
1776 Declaração de Direitos da Virgínia giões do Mundo em Chicago
(1789 Carta de Direitos com Pri- 1994 Carta Árabe dos Direitos Humanos
meira Emenda) (Artos 26º, 27º)
1948 Declaração sobre a Liberdade Re- 1998 Carta Asiática dos Direitos Huma-
ligiosa do Conselho Mundial das nos (Artº 6º)
Igrejas
2001 Conferência Internacional Con-
1948 Declaração Universal dos Direitos sultiva das Nações Unidas sobre
Humanos (Artos 2º, 18º) a Educação Escolar em relação à
1948 Convenção sobre a Prevenção e a Liberdade de Religião e Crença, à
Repressão do Crime de Genocídio Tolerância e à Não Discriminação
(Artº 2º) (Madrid)
G. LIBERDADES RELIGIOSAS 267
2001 Congresso Mundial para a Preser- 2007 Declaração da OSCE sobre Intole-
vação da Diversidade Religiosa rância e Discriminação contra Mu-
(Nova Deli) çulmanos
2004 Carta Árabe dos Direitos Humanos
ATIVIDADES SELECIONADAS
ATIVIDADE I: Dividir os participantes em grupos de qua-
PALAVRAS QUE FEREM tro a seis pessoas. Uma pessoa de cada
grupo deve ler a primeira frase. Neste mo-
Parte I: Introdução mento, o grupo deve apenas aceitar que
Esta atividade visa mostrar os limites da se trata de um comentário ofensivo e de-
liberdade de expressão quando aquilo que bater a razão pela qual a pessoa magoada
se faz ou diz colide com as crenças religio- se sente dessa forma; se as pessoas devem
sas e sentimentos de outros. poder dizer tais coisas sem ter em conta os
seus possíveis efeitos e o que fazer quando
Parte II: Informação Geral isso acontece.
Tipo de atividade: Debate Repetir o processo para cada frase.
Metas e objetivos: Descobrir e aceitar os Reações:
sentimentos religiosos de outras pessoas; Como se sentiram os participantes durante
aprender sobre os limites que podem ser o debate? Foi difícil aceitar que os comen-
impostos à liberdade de expressão tários feriram alguém e ficar em silêncio?
Grupo-alvo: Jovens adultos e adultos Que limites devem ser impostos ao que se
Dimensão do grupo: 8-25 pode dizer sobre os pensamentos e cren-
Duração: pelo menos 60 minutos ças dos outros? Podemos dizer sempre
Material: quadro e marcador aquilo que queremos?
Preparação: Preparar um quadro e mar- Sugestões metodológicas:
cador. Assegurar-se de que é discreto e respeitoso
Competências envolvidas: Ouvir os outros, quando fizer esta atividade, não fazendo
ser sensível e aceitar opiniões diversas. ponderações ou valorizando subjetiva-
mente as afirmações.
Parte III: Informação Específica sobre a Outras Sugestões:
Atividade Como atividade final: uma carta para to-
Instruções: dos. Escrever os nomes dos participantes
Fazer com que os participantes elaborem uma em pequenos pedaços de papel, fazer
lista de comentários que firam e de estereóti- com que cada um tire um papel à sorte
pos relacionados com a consciência ou cren- e escreva uma carta dizendo coisas amá-
ças religiosas de alguém; comentários que os veis a essa pessoa – um final adequado a
participantes saibam que causem angústia. muitas atividades que evocam controvér-
Escolher alguns dos piores e escrevê-los. sias e emoções.
268 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Abduljalil Sajid, Imam. 2005. Islamo- Cookson, Catharine (ed.). 2003. Ency-
phobia: A new word for an old fear. clopedia of religious freedom. New York:
Available at: [Link]/documents/ Routledge.
cio/2005/06/15198_en.pdf.
Courage to Refuse. 2004. Reservist gets
Ahdar, Rex. 2005. Religious Freedom in 28 days for refusing Gaza duty – Lily
the Liberal State. Oxford: Oxford Univer- Galili and Charlotte Halle. Available
sity Press. at: [Link]/english/article.
asp?msgid=204.
Asma Jahangir. 2008. Interim report of
the Special Rapporteur on freedom of reli- Declaration on Religious Freedom by
gion or belief. UN Doc. A/63/161. the Vatican Council. 1965. Available
at: [Link]/archive/hist_coun-
Asma Jahangir. 2007. Report of the Spe-
cial Rapporteur on freedom of religion or cils/ii_vatican_council/documents/vat-
belief. UN Doc. A/HRC/4/21. ii_decl_19651207_dignitatis-humanae_
[Link].
Besier, Gerhard and Hubert Seiwert
(Hg.). 2011. Religiöse Intoleranz und Dis- Declaration on Religious Liberty of the
kriminierung in ausgewählten Ländern World Council of Churches. 1948. Avail-
Europas – Teil 1. Berlin et al: LIT Verlag. able at: [Link]/interdocs/docs/
[Link].
Bielefeldt, Heiner. 2011. Report of the Spe-
cial Rapporteur on freedom of religion or European Court of Human Rights. 2011.
belief. UN Doc. A/HRC/16/53. Lautsi et al. v. Italy (30814/06). Judgement
of 18 March 2011.
Bielefeldt, Heiner et al. (Hg.). 2008. Re-
ligionsfreiheit. Jahrbuch Menschenrechte European Court of Human Rights.
2009. Wien: Böhlau Verlag. 2008. Zeugen Jehovas et al. v. Austria
(40825/98). Judgment of 31 July 2008.
BBC. 2005. Forced marriage ‘could be
banned’. Available at: [Link] European Court of Human Rights. 2007.
[Link]/2/hi/uk_news/politics/4214308. Church of Scientology Moscow v. Russia
stm. (18147/02). Judgement of 5 April 2007.
Black, Henry Campbell. 1990. Black’s Evans, Malcolm D. and Rachel Mur-
Law Dictionary. 6th Edition. Eagan: West ray (eds.). 2002. The African Charter on
Group. Human and Peoples’ Rights. The System
in Practice. 1986-2000. Cambridge: Cam-
Center for Religious Freedom – Freedom
bridge University Press.
House. 2005. Saudi Publications on Hate
Ideology Invade American Mosques. Avail- Fabio, Udo di. 2008. Gewissen, Glaube,
able at: [Link] Religion: Wandelt sich die Religionsfrei-
pdfdocs/FINAL%[Link]. heit? Berlin: Berlin University Press.
G. LIBERDADES RELIGIOSAS 271
Gahrana, Kanan. 2001. Right to Freedom of Kamguian, Azam. 2004. Girls’ Nightmare
Religion: A Study in Indian Secularism. Den- in Muslim Families: Forced Marriages in
ver: International Academic Publishing. Europe. Available at: www. middleast-
[Link]/html/[Link].
Germany, Federal Constitutional Court.
1995. Crucifix judgement. BVerfGE 93, 1, Krishnaswami, Arcot. 1960. Study of
May 16, 1995, 1 BvR 1087/91. Discrimination in the Matter of Religious
Rights and Practices. New York: United Na-
Human Rights Watch. 2011. Viet-
tions Publisher.
nam: A Case Study in Religious Repres-
sion. Available at: [Link]/en/ Küng, Hans and Karl-Josef Kuschel
reports/2011/03/30/montagnard-chris- (eds.). 1993. A Global Ethic. The Declara-
tians-vietnam0. tion of the Parliament of World’s Religions.
London: Continuum.
Human Rights Watch. 2011. World Re-
port 2011. Available at: [Link]/en/ Marshall, Paul. 2000. Religious Freedom
world-report-2011. in the World: A Global Report of Freedom
and Persecution. Nashville: Broadman &
Human Rights Watch. 2010. Egypt: Free
Holman.
Activists Detained on Solidarity Visit. 16
January 2010. Available at: [Link]/ Lerner, Natan. 2000. Religion, Beliefs, and
news/2010/01/15/egypt-free-activists-de- International Human Rights. New York:
tained-solidarity-visit. Orbis Books.
Human Rights Watch. 2009. Denied Dig- Mühlberg, Tobias. 2002. Der Vorrang neg-
nity. Systematic Discrimination and Hostil- ativer Religionsfreiheit – oder: Freiheit als
ity toward Saudi Shia Citizens. Available Freisein von Religion im öffentlichen Leb-
at: [Link]/sites/default/files/re- en? Dresden: Juristische Fakultät.
ports/[Link].
Organization for Security and Coopera-
Human Rights Watch. 2009. Discrimina- tion in Europe (OSCE). 2005. Contribu-
tion in the Name of Neutrality. Headscarf tion of H.E. Prof. Ekmeleddin Ihsanoglu,
Bans for Teachers and Civil Servants in Secretary General of the Organization of
Germany. Available at: [Link]/en/ the Islamic Conference, to the Work of the
reports/2009/02/25/discrimination-name- 4th Session of the O.S.C.E. Conference on
neutrality. Anti-Semitism and on their forms of Intol-
erance. Available at: [Link]/docu-
Human Rights Watch. 2005. Devastating
ments/cio/2005/06/15198_en.pdf.
Blows. Religious Repression of Uighurs in
Xinjiang. Available at: [Link] Organization for Security and Coopera-
ports/2005/china0405. tion in Europe (OSCE). 2005. OSCE Con-
ference on Anti-Semitism and on Other
Informationsplattform humanrights.
Forms of Intolerance. Available at: www.
ch. 2011. Diffamierung von Religionen
[Link]/item/[Link].
als neues Menschenrechtskonzept? Avail-
able at: [Link]/home/de/ Organization for Security and Coopera-
Instrumente/Nachrichten/Diverse_Gre- tion in Europe (OSCE). 2004. OSCE Con-
mien/idcatart_8576-[Link]. ference on Tolerance and the Fight against
272 II. MÓDULOS SOBRE QUESTÕES SELECIONADAS DE DIREITOS HUMANOS