0% acharam este documento útil (0 voto)
232 visualizações140 páginas

Fated

Em 'FATED', Jungkook e Jimin, que se amaram em uma vida passada, são irmãos nesta vida, enfrentando um amor proibido e complexo. O protagonista lida com seus sentimentos incestuosos e a dor de ver Jimin se relacionar com outros, enquanto tenta se afastar e superar essa paixão. A narrativa explora temas de amor, tabu e a luta interna entre desejo e moralidade.

Enviado por

thinkaboujuli
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
232 visualizações140 páginas

Fated

Em 'FATED', Jungkook e Jimin, que se amaram em uma vida passada, são irmãos nesta vida, enfrentando um amor proibido e complexo. O protagonista lida com seus sentimentos incestuosos e a dor de ver Jimin se relacionar com outros, enquanto tenta se afastar e superar essa paixão. A narrativa explora temas de amor, tabu e a luta interna entre desejo e moralidade.

Enviado por

thinkaboujuli
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

FATED • jjk + pjm

De youbabba

[CONCLUÍDA] Em outra vida, Jungkook e Jimin se


amaram. Nessa vida, Jungkook e Jimin são irmãos.

Incesto || reencarnação || short+sad!fic


1

"Nem que seja em outra vida, eu vou te encontrar


de novo"

⚫⚫⚫

Você pode procurar o significado da palavra "incesto" na


internet. Ou no dicionário. Ou na fatídica, repressora e
proibitiva opinião popular.

Em qualquer busca, o resultado é o mesmo. Existe um


consenso, afinal. A união sexual entre irmãos é suja. É pecado
e deve ser condenada.

Para Freud, o instinto do indivíduo é primitivo, mas este tem


suas crenças, comportamentos e regras moldadas de acordo
com a estrutura sócio- cultural a que é exposto ao longo de sua
vida.

Eu não preciso mentir pra você. Não sou grande fã da


psicanálise. Quer dizer, eu nem mesmo a entendo tão bem
assim.

Isso, entretanto, não quer dizer que eu não tenha as minhas


curiosidades, certo?

Talvez esse não tenha sido o primeiro, tampouco será o último,


mas é o questionamento que mais me intriga.
Será que a psicanálise explica por que, quando ainda criança,
eu me sentia tão sujo por amar o meu próprio irmão?

O conceito de tabu não estava esclarecido em minha mente


pueril. A palavra incesto, até então, não significava mais que
um agregado de letras com um peso que ainda não entendia.
Mas desde sempre, desde que tive a consciência de como me
sentia, eu odiei esse sentimento.

Na adolescência, as coisas não melhoraram. Ah, não, eu não


poderia contar com esse golpe de bondade do destino, porque
o destino sempre amou me foder, você sabe, não é?

Aos dezessete, era insuportável. Você era um ano mais novo


que eu, então você tinha dezesseis e estava na sua época de
arranjar namoros que eram tão intensos quanto passageiros.

Em poucos meses eu vi você, meu pequeno, amar tantas vezes


que os dedos de uma mão não dariam conta de numerar. Assim
como vi seu coração ser partido e ouvi suas lamúrias, incapaz
de fazê-lo entender o quanto aquilo me feria fundo na alma.

Quando fiz dezoito, eu entrei em uma nova fase de rebeldia.


Meus atos condiziam com a idade complicada, era o que meu
terapeuta dizia. Só que eu acho que eu já estava um pouco
velho demais para isso, certo?

Eu dormi com a minha primeira garota. Mas não senti nada.

Imaginei seu corpo enquanto fodia uma garota qualquer do


colegial. Senti, pela primeira vez. Nojo. E dor.

Porque não era real. Nunca seria. Nunca poderia ser.


Porque eu não deveria desejar que fosse.

E assim como os seus relacionamentos, os meus resultaram


em inúmeros corações partidos, mas nunca o meu.
Você então me dizia, irracionalmente magoado, que eu era
incapaz de sentir. Ah, Jimin, você nunca foi capaz de ver que
eu sentia, sentia demais, sentia por você?

Nunca foi capaz de ver que meu coração nunca saía ferido
porque, na verdade, você já o tinha destruído?
Hoje eu sei, eu não podia te culpar. O erro estava em mim, eu
era o pecador. Mas como fazer um garoto burro de dezoito anos
entender isso?

E então eu te odiei, enquanto te amava com toda a minha força.

A cada vez que você se interessava por um novo garoto, eu


morria um pouco mais. Até que veio aquele cara.

Eu lembro do seu medo. Lembro de como não queria deixar


ninguém mais descobrir que você estava sentindo aquelas
coisas por aquele garoto. Ah, Jimin, pela primeira vez você
sentiu um pouco do que eu senti por toda a minha vida.
E eu sou tão cruel que gostei de ver você sofrer.

Não, não, não. Não assim. Eu só me senti mais próximo. Senti


a esperança de que você poderia me entender. Pela primeira
vez, pensei em me declarar.
Me declarar ao meu irmão. Isso é tão doente,
Jimin.

Mas não foi nenhum surto de consciência que me fez desistir


de confessar que eu te amava e te desejava.
Você lembra desse cara? O primeiro por quem se apaixonou?
Parecia que você realmente gostava dele. Gostava tanto que,
sem me contar nada, enfrentou seu medo e se entregou a ele
durante a viagem da escola.

Você me deixou de fora. Não me disse antes, nem depois.


Lembra como eu descobri? Os garotos da sua sala ouviram
tudo. Ouviram você gemendo pra ele, "como uma cadela".

Na semana seguinte, era só disso que se falava. Jimin e Kyung.

Você dizia que não se importava, mas eu te ouvia chorando


sozinho, no seu quarto, no meio da noite.
Naquele dia eu tinha dezoito, você faria dezessete em menos
de um mês. Os garotos continuavam te provocando, falando
coisas obscenas. E eu perdi o controle, Jimin. Você lembra.
Você viu.

Eu tirei sangue do rosto de um deles. Eu o soquei até que o


filho da puta perdesse a consciência e depois o soquei ainda
mais.

Três garotos do terceiro ano precisaram me parar, ou eu


mataria aquele cara.

Até hoje você pensa que eu fiz aquilo por você. Não, Jimin, eu
fiz porque precisava descontar em alguém a dor que você
causou em mim.

Mas esse não foi o pior, foi?

Quando eu fiz dezenove, nosso pai já estava morto. Ele não


aceitaria nunca aquele babaca na nossa casa, mas nossa doce
mãe, sim. Então vocês se assumiram pra ela. Disse que estava
apaixonado por ele. Semanas depois, levou seu namorado em
nossa casa.

Você levou outro para o único lugar onde eu sentia que você era só
meu.

Aquilo me matou, amor. Me matou por dentro, então eu tentei


me matar por fora. Infelizmente, não consegui.

Mas consegui outra coisa. Consegui convencer nossa mãe a me


mandar para longe, para a cidade da nossa avó, com quem
sempre me dei tão bem. Eu precisava ficar longe de você,
precisava me desintoxicar desse amor doentio.

Por um ano, Jimin, eu me esquivei de tudo que te envolvia.


Nunca ouvia as novidades que nossa mãe tinha para me contar,
quando me ligava, muito menos te respondia quando você me
procurava.
Você ficou magoado, não foi?

Eu não ligo. Não liguei. Porque eu não pretendia voltar. Eu não


pretendia conviver com você de novo, mas então nossa avó
morreu e eu fui obrigado a voltar para Busan.

E mesmo não querendo, eu sabia que ia voltar para você.


2

Você não gostava de funerais, nunca gostou, então eu não te vi durante o


enterro da nossa avó. Mas eu sabia que, assim que chegasse em Busan, não
poderia mais fugir de você e eu não estava enganado.

Nossa mãe estacionou o carro em frente à nossa casa e me ajudou a carregar


todas as minhas coisas para dentro. Você nos ouviu chegando ou já estava na
sala nos esperando? Porque, quando ela abriu a porta, lá estava você, já ciente
do nosso retorno.

Quatorze meses, Jimin. Mais de um ano de reabilitação tentando me livrar


desse vício de você, jogado no lixo assim que revi seu rosto depois de todo esse
tempo. Você mudou. É claro, não é? Eu também mudei. Mas você mudou de
verdade. Tinha até descolorido seu cabelo. Você havia se tornado um homem
lindo.

Mais lindo que nunca. Mais irresistível, infinitamente mais tortuoso.

"O que aconteceu com o seu cabelo?", foi a primeira coisa que perguntei
quando parei diante de você, vendo seu olhar de expectativa.

"Você gostou?", sua expressão se tornou ansiosa, um pouco preocupada, até.

É claro que eu gostei. Eu te acharia lindo mesmo se cabelo nenhum sobrasse


em sua cabeça, mas admitir isso seria perigoso, Jimin, você entende, não é?

"Ficou horrível. Combina com o resto em você"


"Jungkook, por favor", nossa mãe pediu, cansada. Os últimos dias tinham sido
difíceis para ela, então minha crueldade intencional não era algo desejado,
principalmente naquele momento. "Eu preciso descansar antes de ir trabalhar,
então, por mim... não briguem, não hoje".

"Não se preocupe, mãe, eu não quero brigar", Você disse, tentando acalmá- la
com seu sorriso bonito. Depois, olhou para mim novamente, fingindo não estar
magoado com o que eu disse antes. "Quer que eu te ajude a subir com as
coisas?"

"Não", respondi, grosseiramente, enquanto já puxava uma das malas em


direção à escada. Não sei como pude achar que seria diferente, Jimin.
Amar você era como uma maldição. Eu não podia me livrar disso só porque
fugi. Não importava quanto tempo passasse, quanta distância fosse criada, meu
coração sempre seria seu.

O que eu sentia era tão errado, mas eu não podia controlar. Todo o meu ser
reagia ao seu como magnetismo. Você me atraía mais do que com o seu físico.
Era espiritual, Jimin, inexplicável.

É por isso que eu precisava te afastar, consegue entender? Nunca poderia me


livrar desse sentimento sujo, mas precisava escondê-lo. E quanto mais
próximo você estivesse, mais difícil seria manter isso só pra mim. Então eu te
afastei, mesmo te querendo tão perto.

"Jungkook?", você chamou depois de bater em minha porta, na mesma tarde


em que voltei para casa.

Respirei fundo enquanto arrumava minhas roupas em meu antigo armário,


antes de responder.

"O que é?"

Não era um convite, mas você abriu a porta mesmo assim e caminhou pelo
quarto até sentar em minha cama, acariciando a colcha limpa, sem me olhar.

"Como você está?", você perguntou, e eu virei as costas para voltar a arrumar
minhas blusas na prateleira. "A vovó... você ficou tão mais próximo dela. Deve
estar sendo mais difícil pra você."

Você sempre foi tão doce, Jimin, se preocupando comigo mesmo que eu não
fosse nada além de cruel com você. E era sua doçura que me deixava tão
amargo.

"As pessoas morrem. Não tem o que se fazer. Lamentar não vai mudar isso."

Você ficou em silêncio por algum tempo, antes de se manifestar outra vez.

"Eu te conheço, Jungkook. Por que você insiste em agir assim comigo? Eu sei
que você está sofrendo."

Eu sofri durante toda a minha vida, Jimin, por você, mas você nunca percebeu.

"Não vamos ter essa conversa sentimental que você está esperando," disse, me
abaixando para pegar a última muda de roupas na mala, "então pode desistir".
Você suspirou, talvez desistindo. "Tudo bem. Mas eu vou estar aqui quando
você quiser conversar sobre isso ou qualquer outra coisa."

"Poupe seu tempo. Isso não vai acontecer."

"Você pode me ouvir então?", você questionou quando eu acreditei que já tinha
se retirado silenciosamente do quarto.

"O que você tem pra falar?", rebati, tentando soar desinteressado, mas a
verdade é que eu não estava.

Você hesitou, o que era estranho. Virei para poder encarar seu rosto e vi que
você tinha um sorriso pequeno nos lábios que pareciam ser macios.

Céus, Jimin, eu amava seus lábios e doía tanto tê-los sempre tão longe dos
meus. "Eu sei que vai parecer fora de hora, mas eu realmente gostaria que você
conhecesse uma pessoa."

Ah, nós já tínhamos trilhado esse caminho tantas e tantas vezes. E eu sempre
saía machucado.
Sua inocência sempre foi tão cruel comigo, amor.

"Não estou com cabeça pra conhecer nenhum dos seus namorados.", respondi,
rude.

"Você já o conhece, na verdade.", seu sorriso aumentou ao dizer isso. "Quer


dizer, você sabe quem ele é. Lembra do Kyung?"

Eu lembrava do Kyung. Eu lembrava de todos os garotos por quem você já se


apaixonou. Como eu poderia esquecer? Cada um deles foi responsável por me
destruir um pouco mais.

"O que te fez gemer como uma cadela durante a viagem da escola?",
questionei, ácido. Você não gostou do meu jeito de falar, tampouco da minha
escolha de palavras, mas eu não me desculpei. "Lembro."

Você ficou calada por um tempo, até suspirar com cansaço.

"Eu sei que você usa palavras cruéis pra acobertar a dor e eu sei que você está
sofrendo por causa da vovó. Mas eu também estou, Jungkook, então não me
machuque mais. Eu não mereço a sua maldade."
Eu consegui sentir a mágoa em suas palavras e no seu rosto bonito se tornando
triste.
O impulso de correr até você e me desculpar foi tão forte, Jimin, que eu quase
não conseguia me conter. Mas apertei meus punhos, sentindo minhas unhas se
enterrarem na carne da minha palma, e me obriguei a ficar parado, calado.

Você respirou fundo e ficou de pé.

"Eu realmente gostaria de ficar bem com você." Você disse, parando de
caminhar antes de passar pela porta aberta. Seu olhar encontrou o meu, mas eu
desviei imediatamente. "Por favor, não torne isso tão difícil."

Sem esperar uma resposta, talvez por saber que ela nunca viria, você
finalmente saiu, me deixando sozinho.

Sozinho, amor. Exatamente como eu nasci para ser


3
Sempre me perguntei se existia, em algum lugar do mundo,
alguém que odiasse a própria existência tanto quanto eu.
Eu já disse, Jimin, e sei que não podia te culpar por esses
sentimentos imorais. O erro morava unicamente em mim. E
toda essa merda estava tão enraizada no meu ser que, mesmo
quando dormia, ela não me deixava em paz.

Lembra quando éramos mais novos e eu dizia que tinha


sonhado com você? Você sempre me perguntava como tinha
sido o sonho e eu sempre respondia, falsamente, que não
lembrava.
Mas sempre lembrei, lembro até hoje.

Os sonhos pareciam seguir um roteiro. O seguinte sempre se


conectava ao anterior, como se fossem pedaços de uma
história.

Nesses sonhos, nós não éramos irmãos. Você me amava de


volta, do jeito que eu sempre te amei, e nós éramos tão felizes
juntos, mas então eu sempre acordava, angustiado, instantes
depois de ouvir você dizendo, com lágrimas nos olhos, a
mesma frase.

"Nem que seja em outra vida, eu vou te encontrar de novo."

Essa noite, duas semanas depois de ter voltado para casa, eu


sonhei novamente com você. O mesmo tipo de sonho, você
acredita? Mais um pedaço da história, mais uma promessa
sobre vidas futuras.
Como sempre, acordei desolado, porque me deparei com a
realidade emque era impossível te amar e ser amado por você.
O sábado mal tinha começado para mim, apesar de já ter
passado das onze da manhã, e eu descobri que me sentir
sufocado por sonhos que nunca se concretizariam não seria o
pior acontecimento do dia.

Quando cheguei à cozinha, vi você, e você estava


acompanhado. Não precisou dizer nada, porque eu o reconheci
de imediato.

Você trouxe Kyung à nossa casa, sorriu para mim quando me


viu e segurou a mão dele com a sua.

"Jungkook, o Kyung veio almoçar com a gente.", você disse


como se essa fosse mesmo uma grande notícia. "Kyung, você
lembra do meu irmão, o Jungkook?"

"Ele destruiu o rosto daquele garoto do terceiro, é claro que eu


lembro", ele respondeu, rindo com a lembrança.

"Fala dessa merda de novo e eu destruo o seu rosto também",


ameacei, sem pensar. Ele não fazia ideia do que eu senti pra
reagir daquela forma.

Você me olhou, chocado, seu namoradinho também.


Eu não queria ser assim, você acredita, não é?

Mas eu não podia ver aquele cara ali, não em nossa casa. Eu não
podia ver o seu primeiro homem voltando do passado para se tornar
o seu presente, falando de dias que foram dolorosos
para mim como se fossem memórias divertidas.

"Jungkook!", você repreendeu, ainda horrorizada, quando viu


que eu não fiz a menor menção de retirar minhas palavras.
"Peça desculpas!"

Eu sorri, Jimin, mas sem alegria alguma. Então virei de costas para
os dois.

"Vou deixar os pombinhos a sós." Foi o que eu disse, sumindo


de suas vistas.

Entrei no banheiro, pensando que um banho frio me ajudaria


a recobrar a sensatez, mas você entrou logo em seguida,
escancarando a porta com toda sua fúria.

"Você quer ser um imbecil comigo, eu entendi, mas não pode


ser pelo menos civilizado com uma visita?!"

Eu arranquei a blusa de meu corpo, irritado. Você desviou os


olhos, seu rosto se tornando um misto avermelhado de raiva e
constrangimento.

Olhar para meu corpo sempre pareceu uma tarefa tão difícil
para você, não é, amor?

Devia ser algo natural. Era só pele exposta, só partes do seu


irmão mais velho, de alguém que cresceu com você. Mesmo
assim, você nunca me olhava, como se tivesse medo.

"Traga uma visita com quem valha a pena ser civilizado e eu


penso no caso", rebati, ignorando o rubor em seu rosto, sem
saber o que ele significava.
"E por que o Kyung não merece seu respeito? Porque ele está
comigo?! Você odeia absolutamente tudo que está relacionado
a mim! Por que, Jungkook? O que eu te fiz de tão ruim?".

"Ele já te fez chorar uma vez." Relembrei, desviando de suas


perguntas. "Você é um otário por acreditar que agora vai ser
diferente".

"Você que é um otário!", você perdeu a cabeça, o que me


assustou um pouco. "O Kyung mudou e eu estou feliz com ele
agora, então é melhor você tratá-lo com o mínimo de
respeito".

"Não me diga o que fazer!", ordenei, possesso. Por que você


o defendia tanto quando ele já tinha te magoado? Por que não
conseguia ver que eu estava machucado? "Você não sai do
meu pé desde que eu voltei! Por que você não me deixa em
paz de uma vez?!"

Você balançou a cabeça em negação, rindo sem humor algum.

"Quer saber? Eu não sei porque ainda tento. Você é tão


amargo que vai acabar sozinho."

"E você acha que vai ser diferente? Você vai acabar sozinha
também, Jimin, mas depois de ter sido fodido por todos os
caras dessa cidade".
"Você não disse isso"

Eu respirei fundo, sentindo o peso do que tinha acabado de


dizer, sabendo que fui longe demais.
"Eu não quis..."

"Eu vou te deixar em paz", você me interrompeu, incapaz de


ouvir meu pedido de desculpas. "A partir de agora, se
considere livre de mim."
4

Você estava me ignorando por três dias. Pela manhã, também


começou a sair mais cedo para a escola só para não ter que
tomar café comigo.

Na escola, quando eu passei por lá para tentar conversar de


novo com você no caminho de volta para casa e pedir desculpas
pelo ocorrido, os alunos me trataram como se eu fosse de outro
planeta. Talvez porque eu tenha do nado aparecido na escola,
no meio do ano letivo, mas provavelmente porque todos ainda
lembravam da surra que eu dei naquele garoto da sua turma.

Eles todos me olhavam com desprezo, mas eu realmente não


me importava.

A solidão sempre foi uma visita inconveniente que fez morada em


mim.

O que me machucava era quando você também me olhava


assim, como se me desprezasse.

Qual é o meu problema, Jimin? Eu queria te manter afastado


do meu pecado e de mim, o pecador, mas quando finalmente
consegui, eu só sabia pensar em como te fazer querer se
aproximar de novo.
Eu sempre fui assim, não é? Inconstante, a perfeita definição
de contradição.

De tanto te querer perto, eu te mantinha longe, e isso doía.


Mas naquela noite foi especificamente difícil.

Nossa mãe estava em mais um de seus plantões no hospital


onde trabalhava e nós estávamos sozinhos em casa. Eu no meu
quarto, você no seu, a casa completamente silenciosa como se
nenhum ser vivo estivesse ali.

Eu estava tentando ajudar alguns alunos virtualmente com a


matéria de história, não porque era alguém de bom coração,
mas porque precisava tirar você da minha cabeça.

Você já deve saber, não funcionou. Como um desistente, mais


derrotado que a Alemanha nazista pós-guerra, eu deixei de
lado o livro e o caderno e me dirigi ao banheiro.

Quando éramos mais novos, você sempre esquecia de levar sua


toalha para o banho e ficava minutos seguidos gritando para
que nossa mãe levasse uma para você. Você mudou muito,
Jimin, mas isso parecia não ter mudado.

Quando saí do quarto, você saiu do banheiro. Seu corpo estava


completamente molhado e você tentou dar um jeito vestindo a
calça de moletom que provavelmente já estava usando antes de
ir tomar seu banho. O tecido cinza estava marcado pela
umidade em suas pernas, e seu tronco estava exposto.

De tão hipnotizado, fui capaz de ver as gotículas de água


deslizando por sua pele bronzeada e os pelos finos de seus
braços eriçados por não ter se secado apropriadamente.

Você parou de andar quando me viu. Eu também parei de


andar quando te vi, não conscientemente.
Mantive meus olhos bem atentos ao seu corpo exposto,
acompanhando dolorosamente o percurso de uma gota que
desceu pela linha entre seu pescoço e deslizou por sua pele
bonita até se chocar contra o cós de sua calça.

Sem perceber, eu deixei minha língua deslizar por meu lábio,


umedecendo-o num gesto afetado pela maravilha que era seu
corpo.

Mas então eu lembrei que você também estava me observando


e finalmente levantei meus olhos, encontrando os seus.

Você era sempre tão transparente, Jimin, mas dessa vez foi
impossível interpretar a expressão em seu rosto.

Você percebeu o desejo em meus olhos?

Apavorado, eu senti como se um bolo estivesse se formando


em minha garganta e foi difícil forçá-lo para baixo,
principalmente porque você parecia tão atento ao movimento
do meu pomo-de-adão.

Depois, você subiu lentamente até fixar seus olhos em minha


boca, e eu te vi soltar o ar com lentidão.

"Jungkook...", você chamou, num fio inconsistente de voz.

Quando nossos olhares se encontraram pela segunda vez, você


prolongou o contato por apenas mais dois segundos. Então,
como se arrastados para fora de um transe, eu te vi arregalar os
olhos, assustado, antes de correr de volta ao seu quarto e fechar
a porta com urgência.

Você ficou com medo de mim, amor?


Ainda atordoado, eu segui meu caminho ao banheiro e me
forcei a esquecer os segundos que compartilhamos no corredor.

Tentei esquecer daquela gota de água pousando graciosamente


em sua calça. Tentei apagar o meu desejo de sugar cada uma
daquelas gotículas em sua pele.

Mas a imagem permaneceu viva em minha cabeça e de


repente, eu me imaginei em cima de você, sugando
suavemente um de seus mamilos, descendo com a boca pelo
caminho no centro de sua linda barriga até alcançar o elástico
de sua calça.

Imaginei os seus gemidos quando sentisse minha boca em sua


pele. Quase consegui ouvir o seu suspiro de antecipação
quando minhas mãos alcançassem sua calça, puxando-a para
baixo e revelando que você estava duro. Que ficou tão excitado
quanto eu.

Então me imaginei beijando todas as partes de sua coxa,


provocando-a, mordendo a carne macia de suas partes internas.

Totalmente fora de mim, eu encarei meu reflexo no espelho


manchado pelo vapor do banho morno que você tomou. Vi
minhas pupilas dilatadas e senti minhas bochechas quentes
pelo calor provocado por minha imaginação.
Meu corpo todo foi atiçado, me fazendo sentir como um
animal, incapaz de controlar o instinto.
Pedindo perdão a Deus por meu pecado, eu então desci minha
mão e desabotoei minha calça.

Meu falo duro ficou livre, mas não por muito tempo, porque eu
logo o agarrei com minha palma quente e comecei a estimulá-
lo com movimentos obscenos de vai e vem.

Enquanto meus gemidos se tornavam mais altos, misturados ao


som imoral da masturbação, minha mente se tornou mais vazia,
livre de qualquer coisa que não estivesse relacionada a você.
Livre de culpa.

Mas então eu jorrei, forte e quente, sobressaltado pelo gozo


acertando minha barriga. E a culpa voltou, como um pêndulo
sempre volta à posição inicial.

Minha respiração irregular não me permitiu oxigenar meus


pulmões adequadamente, e eu me senti fraco.

Quando percebi o que tinha acabado de fazer, meu corpo


desabou no chão frio do banheiro, minhas costas apoiadas
contra a parede de azulejos brancos e meu coração apertado.

Antes mesmo que eu percebesse, as lágrimas já estavam


escorrendo de meus olhos e manchando meu rosto, até que o
primeiro soluço escapou, alto e dolorido.
Eu cobri minha boca, tentando desesperadamente conter um
grito de dor e repúdio depois de me tocar pensando em meu
próprio irmão.

Me diz, amor, por que eu sempre fui tão doente assim?


5

Eu não consegui dormir naquela noite. No dia seguinte, quis


me desculpar com você, mas não o fiz. Você não sabia o que
tinha acontecido naquele banheiro, afinal, e não te faria bem
algum descobrir.

Então nós seguimos com nossa rotina distante, ignorando um


ao outro sempre que nos encontrávamos pela casa.

Eu estava começando a acreditar que poderíamos continuar


dessa forma. Por mais doloroso que fosse, era o melhor a se
fazer, não era? Contabilizei cinco dias sem qualquer palavra
além de monossílabos trocados com você. Esse tempo poderia
ser contado como uma vitória, caso eu não me sentisse tão
derrotado.

Mas você sempre dava um jeito de me arrastar de volta para


perto, não importava o quanto eu tentasse continuar longe.

Era mesmo como magnetismo. Você sempre foi o pólo


positivo; eu, o negativo. Conotação pura e ainda assim tão
literal, não é, amor?

E foi seu magnetismo que me arrastou ao seu quarto naquela

madrugada. Seu magnetismo e seus gemidos de dor.

Com cuidado, abri a porta e te vi deitado na cama. Suas pernas


perdidas na confusão de lençois, seu peito subindo e descendo
com violência e os sons sofridos deixando seus lábios
enquanto sua mente te prendia a um pesadelo.

Sem saber o que fazer, me sentei ao seu lado e levei minha mão
as suas costas para tentar te acordar do sonho ruim. Então eu
reconheci, Jimin. A camiseta que você estava vestindo era
minha, a que eu tinha esquecido em nossa casa quando fui
morar com nossa avó.

O tecido azul já estava desbotado e cheio de bolinhas,


completamente desgastado.

Você a usou por todo aquele tempo?

Sem querer, se espalhando como veneno em minha corrente


sanguínea, senti essa esperança boba reivindicando seu lugar.

Meu coração se aqueceu tanto, Jimin, e você nem precisou


estar acordado para conseguir isso.

"Jungkook, não...", você gemeu, desesperada, se remexendo na


cama como se estivesse em agonia.

Aflito por saber que eu estava presente em seu pesadelo,


finalmente balancei seu ombro com cuidado, chamando seu
nome. Na terceira tentativa, você abriu os olhos, desnorteado,
com a testa molhada de suor.

Seus olhos se fixaram em meu rosto e você pareceu prestes a


chorar, se sentando com um movimento rápido que me pegou
completamente de surpresa. Então você me abraçou. Seus
braços se prenderam ao meu pescoço e sua cabeça se enterrou
em meu ombro como se me ver ali te enchesse de alívio.
"Jungkook...", você gemeu quando eu te abracei de volta,
sentindo todo meu corpo parar de lutar contra o desejo de te ter
tão próximo, mesmo que minha mente dissesse que não
deveria. "Eu fiquei com tanto medo..."

"Foi só um pesadelo, pequeno..."

Você apertou os braços ao meu redor e eu senti sua respiração


quente e incerta queimando minha pele. Minha mente gritava
para que eu te afastasse e não prolongasse aquele abraço que
me feria ao mesmo tempo em que me curava. Mas não
consegui obedecer, Jimin, meu corpo simplesmente não queria
mais ficar longe do calor do seu e então te abracei mais forte
também.

Uma vez ultrapassando o limite, impossível voltar atrás.

"Mas sempre parece tão real, Jungkook", você confessou com


a voz trêmula. "Eu sempre acordo com tanto medo de descobrir
que não consegui cumprir minha promessa, de não te ter
mais..."

Eu senti a confusão tomar conta de mim, sem entender sobre o


que você estava falando. Você também sonhava comigo, com
frequência?

E sua promessa... Não. Não poderia ser, não é, amor? Não


poderia ser a mesma promessa que eu sempre te ouvia fazer
em meus próprios sonhos.
Então eu afastei esse pensamento louco e me concentrei em te
acalmar. "Eu estou aqui, Jimin", te tranquilizei enquanto
deslizava minha mão por suas costas, por cima da camisa que um
dia foi minha. "Você nunca vai me perder. Eu sempre vou ser
seu"

Você prendeu a respiração e eu senti seu toque se tornar mais


tenso. Consciente de como minha confissão poderia ter te
assustado, por mais verdadeira que fosse, tentei me corrigir.

"Nós sempre vamos ser irmãos, não importa o que aconteça",


sussurrei, também como um lembrete para que nenhum outro
limite fosse ultrapassado.

Eu senti seu suspiro contra minha pele, então a ponta do seu


nariz me tocando num carinho despretensioso, mas que ateou
fogo em todos os meus sentidos.

"Sempre vamos ser irmãos", você repetiu, mas não parecia


estar dizendo aquilo para mim.

Então sua mão subiu por meu peito e agarrou o tecido da minha
blusa quando você suspirou mais uma vez, demorada e
pesadamente, empurrando seu corpo contra o meu. Sem
controle, eu passei uma mão por sua perna, sentindo sua pele
tão macia sob meu toque cheio de desejo.

"Promete que nunca vai me deixar sozinho, não importa o que


descubra sobre mim", você pediu, com a voz baixa, ainda me
torturando com seu calor.

Nada que eu pudesse descobrir sobre você me faria querer sair


do seu lado, Jimin, mas isso ia além da minha vontade. Mesmo
querendo estar sempre por perto, meus sentimentos por você
me forçavam a ficar longe.
"Promete, Jungkook", você insistiu ao se afastar um pouco,
parecendo assustado diante do meu silê[Link]ão eu segurei
suas mãos e as levei aos meus lábios. Beijei os dedos da
esquerda, depois os da direita, demoradamente.

"Você nunca vai ficar sozinho, eu prometo", disse, enfim, vendo


sua expressão se tornar mais suave.

Então você deitou a cabeça em meu ombro outra vez,

aliviado. Tão inocente que nem conseguiu perceber, não é,

Jimin?

Você nunca ficaria sozinha, mas eu não seria a pessoa ao seu


lado até o final.
6

Eu gostaria de dizer que nossa relação melhorou depois daquela noite, mas
não foi exatamente isso que aconteceu, foi?

Tudo bem, nós não nos evitávamos mais. Ou, se quiser cobrar de mim a
mais pura verdade, posso dizer que você não me evitou, mas eu continuei
fugindo de você.

Sutil, sempre com desculpas vazias, tentando não te magoar mais, mas,
ainda assim, fugindo. Correndo milhas, mas sem sair do lugar.

Porque, afinal, você sempre me teve nas suas mãos.

Então quando você entrou no meu quarto naquela tarde de sábado, eu não
soube dizer não ao seu convite. Eu tentei, você viu como eu tentei, mas
você insistiu e acabou me convencendo a te acompanhar até aquela praça
perto de casa, só para ficarmos um tempo juntos.

Parecia que para você, assim como para mim, estar dentro de casa,
comigo, era desconfortável, mas tudo se amenizava um pouco quando
saíamos de lá.

O meu motivo para não me sentir bem em me aproximar de você,


especialmente lá, era que estar no lugar onde crescemos juntos
funcionava como um lembrete doloroso de que éramos irmãos. Mas e
você, amor? Qual a sua razão?
"Deixa eu matar a saudade de você", você disse, um pouco retraído,
enquanto tentava me fazer ceder. "Fica um tempo comigo..."

Como eu poderia te recusar quando você falava assim, me olhando daquele


jeito?

Então eu fui, atraído por você como um animal ingênuo se deixa ser atraído
por uma armadilha.

Quando chegamos, você me levou até um dos bancos vazios e me fez sentar
ao seu lado, segurando minha mão, exatamente como fazíamos
quando éramos mais novos, antes de tudo se tornar tão manchado.

Naquele tempo ainda me parecia um gesto tão inocente, mesmo que eu já


sentisse meu coração acelerar por você, mas quando já tinha me tornado
consciente sobre a forma como me sentia, aquele gesto parecia tão errado.

Então separei minha mão da sua, fingindo precisar ver alguma coisa no meu
celular.

"Nunca vou entender essa sua mania de comprar camisetas maiores que o
ideal", você disse, risonho, enquanto repuxava o tecido preto da minha
blusa.

Eu olhei para baixo, checando a vestimenta, e depois ergui os ombros com


displicência. Foi quando lembrei de você usando a minha camisa na outra
noite, então olhei para você, curioso.

"Você sempre usa a minha blusa para dormir?"

Você pareceu surpreso, talvez incomodado, e desviou o olhar enquanto


brincava com seus próprios dedos apoiados sobre suas pernas.

"Eu realmente senti sua falta.". Você confessou, ainda sem me olhar.
"Você foi embora de repente, sem me dizer porque estava indo, sem me
dizer porque tinha feito... aquilo", você olhou para uma das marcas do
corte em meu pulso, exposta. Não a escondia, nunca pensei em esconder.

Eu não tinha vergonha dos cortes, não tinha vergonha de ter tentado tirar
minha própria vida.

Minha única vergonha era saber que nunca, nem mesmo uma vez, eu amaria
outra pessoa além de você.

"Eu não entendi porque você foi. Não sabia se você voltaria... e sua camisa
estava lá, esquecida, como você pareceu me esquecer", você terminou,
ressentido.

"Eu não te esqueci", rebati de imediato, incomodado por você sequer ter
pensado nisso. "Eu só precisava me afastar dessa cidade. Dessas
pessoas." "E de mim.”

Eu queria dizer que não, mas foi exatamente isso que eu fiz. Eu me afastei
desesperadamente de você.

"Mas eu voltei", relembrei, olhando adiante para não ter que olhar em seus
olhos.

"Eu sei que você não queria. Se a escolha fosse sua, você não voltaria.",
você disse, parecendo ter tanta certeza disso. "E então você continuaria me
deixando completamente de fora. Continuaria sem responder minhas
mensagens ou atender minhas ligações."

Eu continuei mantendo meu olhar longe, com medo de tentar descobrir se


aquilo em sua voz era raiva ou mágoa.

"Eu sei que nossa relação sempre foi cheia de altos e baixos, mas você não
podia me abandonar daquele jeito, Jungkook."

Senti minha boca se tornar mais seca à medida que me tornava mais
consciente de que você nunca sentiu raiva de mim, não por eu ter ido
embora daquele jeito. Tudo que você sentia era mágoa, não é?

Eu te deixei tão triste, amor.

"Me perdoa", foi tudo que consegui dizer, deixando meus olhos
finalmente deslizarem em sua direção.
Então, pego de surpresa, me assustei ao ver você secando uma lágrima. Até
hoje, todos esses anos depois, não acredito que te fiz chorar.

"Ter vindo aqui não foi uma boa ideia", você ficou de pé. "Eu achei que
seria mais fácil tentar me reaproximar de você, mas parece que não estou
pronto. Vamos pra casa."

Por mais que eu quisesse acalmar seu coração ferido, não teria muito o que
fazer, então apenas concordei com sua sugestão de voltarmos para casa e te
segui pelo caminho, mantendo uma distância de três passos enquanto te via
caminhar à frente com a cabeça baixa.
Nós estávamos duas quadras de casa quando você começou a atravessar
uma avenida.

O sinal de pedestres estava fechado e uma caminhonete vinha com


velocidade o suficiente para te fazer voar caso te acertasse.

Tudo aconteceu tão rápido que eu quase não consegui entender. Primeiro a
buzina aguda, depois o grito de uma mulher dizendo pra você ter cuidado e,
por último, o som do seu corpo pequeno, o corpo do meu amor, sendo
atingido pelo carro.

E então meu mundo ferido e cor de cinza desmoronou, assim como seu
corpo caído no chão.
7
A ambulância nos levou ao hospital, mas não me deixaram
passar da recepção.

Meu coração doía com medo do que poderia acontecer, Jimin,


e eu me desmanchei em lágrimas enquanto esperava alguém,
qualquer um, me dizer como você estava.

Nossa mãe estava ao meu lado. Nós te levamos ao hospital


onde ela trabalhava e então ela ia e voltava o tempo todo,
buscando informações com as enfermeiras já conhecidas, mas
ninguém sabia dizer, de verdade, qual o seu estado.

Minhas mãos tremiam, banhadas de suor, e eu me sentia


sufocado, falhando em puxar o ar em meio ao meu choro
dolorido e silencioso.

Eu achava que já conhecia a dor e o desespero, amor, mas


depois que aquele carro te acertou e você não abriu os olhos
enquanto eu chamava repetidamente seu nome, eu percebi que
nada do que senti antes poderia se comparar ao medo de te
perder.

Então pela primeira vez em tempos, Deus me ouviu chamá-lo.


Eu implorei para que ele poupasse sua vida, Jimin, porque
seria impossível viver num mundo em que você deixou de
existir.
Quando aquele médico apareceu para falar com nossa mãe,
nada do que ele dizia me importava mais, porque eu só
consegui ouvir que ele não sabia quando você acordaria.

Você estava em coma, amor.


Depois de descobrir isso, tudo se tornou um grande nada,
ínfimo demais para capturar minha atenção, então eu nem
mesmo prestei atenção quando ele disse que suspeitava de
uma anormalidade nos seus exames.

Quando ele disse que nós já poderiamos te ver eu o segui


apressado. Nossa mãe foi a primeira a sentar na poltrona ao
lado do seu leito, acariciando seu rosto ferido com cuidado.
Eu me mantive afastado, do outro lado do quarto, observando
seu sono profundo, sem data para acabar, e o estrago em seu
corpo.

Não consegui me aproximar, Jimin porque doeu te ver daquele


jeito, mas também não me afastei, porque eu não teria coragem
de te deixar longe dos meus olhos, não quando você parecia
tão frágil.

Então sentei no pequeno sofá próximo à janela e, com a postura


totalmente derrotada, mantive toda minha atenção em você e
em nossa mãe checando seu estado a cada cinco minutos.

Ela também estava aflita e é claro que me preocupei com ela,


mas estava tão absorto em minha própria nuvem de culpa e
desespero que nem mesmo consegui dizer uma palavra de
apoio.

Mais tarde, quando a noite caiu e se estendeu, ela me disse que


eu deveria voltar para casa, mas eu me recusei. Disse que ela
quem deveria fazê-lo já que teria que trabalhar no dia seguinte
e também prometi que não sairia do seu lado. Talvez minha
determinação ao afirmar a última parte tenha sido tão grande
que, sem muita insistência, eu a convenci a ir embora.
Então durante a madrugada, naquele quarto branco e
impessoal, fomos só nós dois e minha consciência certa demais
de que a culpa tinha sido minha.

Aquele tempo todo eu te afastei, tentando me proteger do que


meus sentimentos poderiam causar. Em momento nenhum
pensei que você também poderia estar sofrendo, pequeno, mas
agora sei que a sua dor me machucava mais que minhas
próprias feridas.

Entre o arrependimento cruel e o desejo de me redimir, eu me


aproximei e sentei na poltrona em que nossa mãe estava sentada
antes, ao seu lado.

Perto demais, observei melhor os arranhões em seus braços e a


faixa cobrindo sua cabeça. Levado pelo impulso, puxei a
poltrona para que meu corpo ficasse mais próximo de você e
então beijei sua testa pálida, prolongando o contato enquanto
sentia meus olhos se apertarem com força.

Depois, segurei sua mão com a minha e cantei pra você. Você
sempre gostou de me ver cantando as letras das suas músicas
favoritas errado, não foi? Então eu cantei, baixinho, todas
aquelas músicas que eu sabia que você amava.

Sem perceber, com mente e corpo exaustos, eu caí no sono ao


seu lado, deixando minha cabeça usar uma parte do seu colchão
como apoio. Por quase um mês, minhas noites foram assim.
Pela manhã eu ia arrumar a casa para a nossa mãe, mas todo o
restante do tempo eu passava com você naquele quarto,
dormindo e acordando ao seu lado com o desejo de te ver
abrindo os olhos.

"Jungkook", foi a primeira coisa que você disse quando


acordou, vinte e três dias depois.
Sua voz estava rouca e fraca, carregando toda a dor que seu
corpo ainda deveria estar sentindo.

Com todo o corpo doendo pela posição em que estive durante


todas as últimas noites, eu levantei minha cabeça e vi seu rosto
bonito mesmo pálido, com olheiras profundas, e quase não
acreditei quando te vi ali, de olhos abertos, depois de tantos
dias.

Ali, pela primeira vez na vida, eu senti que o universo não me


odiava tanto assim, amor, porque ele devolveu você para mim.

"Pequeno...", eu te chamei, sem força alguma, com os olhos


queimando de esperança e alívio.

Você me olhou com os olhos ainda perdidos e o rosto


sonolento, parecendo se preocupar com algo depois de analisar
meu rosto por tempo demais.

"Você está bem?", você perguntou, então.

"Eu quem deveria fazer essa pergunta", rebati, ignorando a dor


em minhas costas para me concentrar em te olhar com atenção.
"Como você está? Eu preciso chamar nossa mãe, pode esperar
um pouco?"

"Espera.", você apertou minha mão com a pouca força que a


letargia lhe permitiu, piscando lentamente com o rosto virado
em minha direção. "Você chorou?"

Passei os dedos pela área abaixo do meu olho, imaginando o


quanto deveria estar inchada por chorar tanto por tantos dias.
"Achei que ia te perder", confessei. "Eu nunca me senti tão
perdido
assim, Jimin."
"É horrível, não é?" Você questionou com o olhar angustiado,
como se conhecesse a sensação. "O ar que entra nos pulmões
machuca, o corpo inteiro treme... a sensação sufocante de saber
que não tem nada que a gente possa fazer pra evitar o pior. Essa
dor machuca mais que qualquer dor física."

Você disse tudo olhando para mim com os olhos cheios de dor
e suas palavras se arrastavam para fora de sua boca com tanta
certeza que eu não pude deixar de imaginar que você já esteve
em meu lugar.

Você já achou que iria me perder para sempre, Jimin?

Então eu observei as cicatrizes dos cortes em meu pulso,


sabendo que você estava se referindo à vez em que tentei tirar
minha própria vida.

"Eu sei muito bem, Jungkoom. Você já me fez sentir isso duas
vezes... e da primeira vez, você nunca mais voltou pra mim"

"Nunca mais voltei?", repeti, com a cabeça a mil. Eu não sabia


do que você estava falando. "Como isso é possível, Jimin? Do
que você está falando?"

Você virou o rosto, fechando os olhos outra vez, recusando-se a


responder.

Eu achava que o coma prolongado estava te fazendo dizer


coisas sem sentido, mas hoje... hoje eu sei exatamente o que
você quis dizer, amor.
8

Dias depois, você recebeu alta. Nesse tempo, seu namorado não
apareceu sequer uma vez para te visitar no hospital.

Sabe o que me aliviou, amor? Perceber que você não se referiu


a ele. Nem com raiva, tampouco com saudades. Era como se
você não se importasse.

Isso me deixou tão feliz, Jimin, porque enquanto ele parecia


não fazer falta, você sempre abria um sorriso enorme quando
me via chegando no hospital.

Quando você voltou para nossa casa, cheio de recomendações


médicas e ainda com suturas pelo corpo, nós sabíamos que
você precisaria de cuidados. Então nossa mãe organizou todos
os plantões dela para que pudesse passar a manhã e parte da
tarde em casa, enquanto eu trabalhava, e eu cuidaria de você
durante o resto do tempo.

Era óbvio que você não iria à escola por boas semanas, então
nós passamos bastante tempo juntos, não foi?

Quando você cansava de ficar no quarto, sempre me pedia para


te carregar até a sala, mesmo que conseguisse fazer isso sozinha
se colocasse algum esforço. Mas eu o fazia, Jimin, porque
amava a sensação de carregar seu corpo tão próximo ao meu,
de sentir sua cabeça se aninhando em meu peitoral, como se
você apreciasse aqueles curtos instantes tanto quanto eu.
Durante quinze dias, nossa relação se tornou tão mais forte, pequeno.
Minha ligação com você estava cada vez mais intensa, cada vez
mais difícil de ser cortada. E isso me desesperava porque eu
sabia que não seria eterno, mas ao mesmo tempo me permitia
aproveitar os risos que compartilhávamos assistindo aqueles
programas bobos na TV, as conversas que tivemos enquanto eu
preparava nosso jantar e aqueles minutos, depois que eu te
ajudava a se deitar, quando você me pedia para ficar ao seu lado
até você cair no sono.

As vezes, quando estávamos juntos no sofá, você deitava a


cabeça em meu ombro e fazia carinho em minha coxa. Então
veio aquele dia, quando nós estávamos exatamente assim, a
televisão reproduzindo algum programa em que não conseguia
me concentrar porque sua palma em minha perna me
desnorteava completamente, e ela subiu cada vez mais, até
apertar a parte interna de minha coxa, quase na virilha.

Eu fui pego desprevenido, então não pude conter um suspiro,


mas me assustei quando ouvi sua respiração se tornar mais
pesada também, e então você inclinou o rosto, timidamente,
para passar a ponta do nariz em meu pescoço.

Sem perceber, fechei os olhos e apertei meu braço que tinha se


firmado ao redor de sua cintura, te puxando mais para perto
quando sua boca beijou minha pele depois de queimá-la com
sua respiração quente.

Cada pelo do meu corpo se arrepiou completamente mesmo


que, no fundo, eu acreditasse que aquilo não passava de uma
demonstração inocente de afeto, para você.
Mas era muito mais para mim, amor. Aquilo estava me
atiçando completamente, arrancando do estado de latência
todo o desejo que sempre tive por você.

"Jungkook", você me chamou, com sua boca ainda contra meu


pescoço. "Você sempre me dizia que sonhava várias vezes
comigo quando éramos mais novos... esses sonhos... você ainda
tem?"

Eu olhei para você e, um pouco tenso, fiz que sim com a cabeça.

"Como eles são?", você insistiu, então. Sua entonação baixa


não parecia ser só consequência do sono, era como se você
tivesse medo de falar sobre aquilo. "Eles são... estranhos?"

Eram. Sempre foram. Mesmo assim, eu só fiquei em silêncio


por tempo demais, talvez o suficiente para levantar alguma
suspeita, e então neguei.

"Eu nunca lembro como eles são." Menti, certo de que era
melhor que contar a verdade.

Você fechou os olhos e sua expressão entregou algo como


decepção, mas então você logo se recuperou e sorriu para mim,
se afastando.

"Certo. Foi uma pergunta boba, deixe para lá."


Eu assenti, em silêncio, sem querer falar para você os tipos de
coisa que aconteciam em meus sonhos, porque eu tinha medo
de te assustar e te afastar outra vez. E eu não conseguiria mais
lidar com a distância entre nós dois, amor, porque aqueles
foram dias de entrega quase espiritual.

Foram os melhores dias da minha vida. Então por

que você fez aquilo comigo?

Por que você chamou seu namorado, o cara que não se


importou em saber como você estava, para nossa casa? Por que
você deixou a porta do seu quarto aberta, sabendo que já estava
na minha hora de chegar?

Porque você me deixou te ver deitada em sua cama, com o


Kyung no meio de suas pernas enquanto te chupava?

Eu te ouvi gemer por ele. Eu te vi segurar os cabelos dele


enquanto você mordia os próprios lábios, ofegando.

Mesmo querendo me mover, mesmo querendo entrar no seu


quarto e chutar aquele cara para longe de você e te cobrar
explicações, eu não consegui sair do lugar. Eu continuei
assistindo aquela cena grotesca, continuei ferindo ainda mais
meu coração ao me obrigar a ouvir cada um dos seus gemidos.

Eu fiz isso porque precisava saber. Precisava saber que você


me amava, mas nunca do jeito que eu te amei.
Eu precisava saber de uma vez por todas que eu te desejava,
mas você sempre desejaria outros.
E então eu me odiei, Jimin. Eu queria odiar você, queria odiar
seu namorado, mas o único que merecia ódio era seu irmão
sujo. Sempre foi.

O que eu pensava? Que por estarmos nos dando bem todos os


laços que nos ligavam como irmãos se romperiam? Que você
poderia me corresponder ao ver quão bem eu sabia cuidar de
você?

Eu fui tão ingênuo, Jimin. Tão estúpido.

Mesmo sabendo que as coisas nunca mudariam, eu me deixei


iludir. Eu me deixei aproximar de você, eu permiti que aquele
sentimento se tornasse ainda mais real, ainda mais forte.

Então quando finalmente consegui sair dali, eu fui embora.


Deixei nossa casa para trás e vaguei pela cidade, sozinho,
sentindo meu peito queimar como se eu tivesse sido traído.

Doía e doía e doía. Doía como a lâmina cortando minha pele


não doeu quando tentei acabar com outra dor, um ano antes.
Doía como se nunca mais fosse parar de doer.

E entregue a essa dor, eu ignorei todas as suas chamadas


quando anoiteceu. Você ligou e fez meu celular vibrar até que
a bateria dele acabasse e eu estivesse livre de você. Depois,
continuei sentado naquele banco de praça, entorpecido demais
para prestar atenção em qualquer coisa ao redor, distante
demais para perceber que já estava tão tarde...
Ferido demais para perceber que as coisas ainda piorariam.
9

Três semanas depois, nossa mãe te levou ao hospital para que


você passasse por mais alguns exames, porque o médico
insistia que tinha encontrado algo fora do normal nos
resultados daqueles que você fez logo depois do acidente.

Ele não deixava tão claro as possibilidades, mas nossa mãe


tinha entendido muito bem e eu a ouvi chorando no meio da
noite enquanto falava no telefone com nossa tia.

Algo estava errado com o seu coração, amor.

Mas nós ficamos tão distantes depois daquele dia que eu me


recusei a acompanhar vocês. Eu disse que tinha outro
compromisso e você tentou fingir que isso não faria diferença,
mas eu vi a verdade por trás disso. Você ficou magoado.

Mesmo assim, eu continuei me recusando. Depois do meu


trabalho, então, para domar a vontade de ir correndo te
encontrar no hospital, eu caminhei pelo centro comercial
próximo à nossa casa, observando desleixadamente as vitrines
de várias lojas até ser atraído para uma em especial, aquela que
vendia vinis.

Quando nossa convivência não era tão conturbada, nós sempre


íamos juntos a ela, você lembra?
Estar ao seu lado nunca foi fácil, mas olhando para trás a partir
daquele exato momento, eu tive a certeza de que também
nunca foi tão difícil quanto estava sendo desde que eu voltei.

E entrar naquela loja sem você me fez sentir toda essa nostalgia
imprópria, quase sem sentido.
Mas você sabe, não é? Eu entrei sozinho, mas saí acompanhado.

Lalisa era um caso antigo. O único sem complicações porque,


assim como eu, ele não buscava nada além de sexo. Ela era
direta. Não esperava romance e não criava expectativas em
alguém como eu.

A Lisa era fácil, e eu nunca usaria essa palavra num sentido ruim.

Então quando o encontrei naquela loja, namorando vinis de


rock dos anos oitenta, não foi difícil conversar com ela, assim
como não foi difícil convidá- la para ir até nossa casa. Ela
aceitou, muito consciente do que eu estava propondo quando
disse que você e minha mãe estariam fora.

Não foram necessárias cerimônias ou explicações desajeitadas.


Quando chegamos, ela apenas me esperou trancar a porta para
começar a me beijar.

Eu correspondi, porque precisava me vingar de você. Não que


eu tivesse a pretensão de te deixar ver o que aconteceria entre
nós dois ou que sequer acreditasse que isso te causaria algum
impacto semelhante ao que eu senti quando te vi com o Kyung,
mas eu precisava daquilo.

Mas eu estava errado, não era? Não sobre acreditar que


precisava de sexo, mas sobre ter tanta certeza de que isso não
te afetaria de forma alguma.
No ritmo que as coisas estavam com a Lisa, não demorou para
que fossemos até meu quarto e nos livrassemos de nossas
roupas. Dali, pouco tempo se passou entre preliminares até que
eu a fodesse, deixando-a de quatro para mim.
E quando acabou, quando meu corpo nu caiu ao lado do dela,
demorou menos ainda para que você abrisse a porta do meu
quarto e entendesse rapidamente o que tinha acontecido ali.

Não foi isso que me assustou, apesar de ter enfrentado algum


espanto ao te ver abrir minha porta sem qualquer cerimônia. O
que realmente me deixou chocado foi ver a forma como você
reagiu ao que tinha visto.

Seu olhar era tão carregado, pequeno... Tão cheio de dor.

Ainda que não fizesse sentido algum, eu reconheci aquela dor,


porque foi a mesma que eu senti quando vi Kyung no meio de
suas pernas, semanas antes.

Mas como poderia ser? Como você poderia sentir algo sequer
parecido com o que eu senti?

Eu sabia que você me amava, Jimin, mas me amava como um irmão.

Então eu não entendi porquê, depois de me mirar com seus


olhos marejados por instantes mudos, você bateu a porta de
meu quarto e se trancou no seu.

Mais tarde, quando Lisa foi embora, eu te ouvi chorando.

Se você pudesse me ver naquele momento, saberia que eu


fiquei parado no corredor, diante de sua porta, tentando me
decidir entre ir até você ou ignorar seu choro tão sem sentido
para mim.

Mas por mais que cada fibra do meu corpo tentasse me


impulsionar a girar aquela maçaneta, correr até você e te
aninhar em um abraço protetor, eu mantive meus pés parados,
enterrados no mesmo lugar.
E quando finalmente me movi, não foi para me aproximar de
você e tentar entender porque seu choro soava tão dolorido.

Eu apenas dei as costas, amor, e te deixei sozinho com a sua


dor para que eu pudesse ficar sozinho com a minha.

"Ei... ", eu ouvi você me chamar através da porta do meu


quarto, horas depois. "Jungkook..."

Eu estava sentado no chão, empurrando minhas costas contra


a porta, sem forças de me arrastar até a cama. Meses depois,
na última conversa que tivemos, eu descobri que você fez o
mesmo, sentado do lado de fora do meu quarto, tocando a
porta como se através dela pudesse me tocar também.

Mesmo te ouvindo tão perto, eu não respondi. Eu estava no


meu limite, amor. Toda a confusão em minha cabeça e em meu
peito me sufocaram, e eu desabei em um choro silencioso.

Por que você fazia coisas que me davam esperanças e então


aparecia com outra pessoa bem diante dos meus olhos?

Eu não conseguia entender, acreditando que estava ficando


louco, acreditando que era minha mente que criava todos
aqueles momentos em que eu me sentia correspondido.
Sem controle sobre isso, os pensamentos venenosos de antes
se espalharam por todo meu ser. Talvez eu não devesse
continuar vivo.

O mundo não precisava de uma aberração como eu.

"Eu te amo tanto, Jungkook...", então você disse, ainda do outro lado,
com a voz corrompida pelo choro.
Eu apertei minhas mãos contra meus ouvidos, sem querer ouvir
aquilo, sem querer tentar entender o que significava quando, no
fundo, sentia que não significaria o que eu queria.

"Eu te amo tanto que doi." Você insistiu, chorando. "Doi como
o inferno, meu bem..."

Eu grunhi, quase arrancando meus cabelos com o desespero


que tomou conta de mim.

Você me chamou de meu bem.

Aquilo só podia ser coisa da minha cabeça, não é? Você, meu


irmão, nunca me chamaria daquela forma. Eu estava louco,
alucinando, a beira de um precipício criado por minha própria
mente.

Então eu continuei apertando meus ouvidos, tentando não escutar


todos os eu te amo que vieram depois.

Eu fui tão burro, não é, pequeno? E minha maior loucura foi


acreditar que estava louco. Acreditar que não era você, do
outro lado, repetidamente dizendo que me amava.

Mas era real. Era você, amor. E você me amava.


10

Na manhã seguinte, eu acordei com o corpo coberto de


suor, os olhos arregalados e o peito subindo e descendo
furiosamente. Era mais um daqueles sonhos, Jimin, e esse
continuava se repetindo noite atrás de noite.

Nele, eu sempre estava preso a uma cama, com a vida


deixando meu corpo pouco a pouco. Você chorava ao meu
lado, segurando minha mão, e então eu tinha a mais absoluta
certeza do que estava acontecendo. Eu estava morrendo,
amor.

E a última coisa que eu ouvia, antes de ser arrastado para a


realidade, era a sua voz em meio ao choro repetindo a
mesma promessa de sempre.

"Nem que seja em outra vida, eu vou te encontrar de novo"

E não pela primeira vez, eu fui assolado por aquela


estranha sensação de que esses devaneios do meu
subconsciente não eram apenas sonhos, mas isso parecia
tão impossível, Jimin, que eu me conformei em acreditar
que tudo era apenas uma piada de mal gosto que minha
própria cabeça estava fazendo.

Afetado por esse sonho que declarava minha morte iminente,


atordoado pelos sentimentos que isso despertou, eu passei
tempo demais sem conseguir sair da cama. Quando
finalmente consegui me levantar e saí do quarto, eu vi a sua
porta ainda trancada, mesmo que já estivesse tão tarde.
Aquele sábado seria apenas mais um daqueles dias em que
ficávamos sozinhos em casa, mas nos evitando como se
qualquer mínimo contato pudesse iniciar uma tragédia.

Essa sensação de distanciamento, de medo e repúdio já eram


quase familiares, então por mais que eu não estivesse feliz -
porque eu nunca estava feliz -, também não estava
especialmente abalado por isso.

Nesse mesmo dia, o relógio da cozinha mostrava que já


passava das três da tarde, mas eu ainda estava preparando
meu almoço.

Então você apareceu, com os cabelos molhados do banho


recém tomado e os olhos inchados e vermelhos.

Você chorou tanto assim, amor? Por mim?

Incapaz de entender, eu apenas te olhei, deixando que o


silêncio predominasse enquanto você me encarava com algo
que flutuava entre ressentimento e tristeza.

"Jungkook...", eu ouvi sua voz me chamar, fraca como nunca


esteve antes, segundos antes de ouvir o som da campainha
ecoar pela casa.

Eu estava com medo, amor. Na noite anterior eu me convenci


de que estava louco, mas então você apareceu, mostrando que
o sofrimento em sua voz não era coisa da minha cabeça.
Eu estava confuso e assustado, por isso ignorei seu
chamado, deixei a comida esfriando sobre o fogão e me
adiantei até a porta, fugindo de você.
Quando abri, era ela quem estava lá. Lisa.
"Quer dar uma volta?", ela perguntou, depois de ver meu
cumprimento um pouco surpreso. "Vou ser educada e te pagar
um sorvete antes de te convidar pra transar."

Eu olhei para trás e vi que você nos observava, parado na


divisória entre a cozinha e a sala.

Meu almoço ainda estava sobre o fogão e meu estômago


vazio começava a doer, mas mesmo assim eu aceitei o
convite dela, porque precisava sair, precisava ficar longe de
você para tentar entender o que estava acontecendo.

"Espera só um pouco", pedi, me afastando da porta para que


ela entrasse. "Pode sentar, eu já volto"

Lalisa assentiu, parecendo pouco acanhada quando caminhou


até o sofá e se acomodou sobre ele. Depois de observá-la mais
um pouco, eu voltei à cozinha e fui seguido por você quando
caminhei até a panela com a comida recém-preparada.

"Não vai.", você pediu com voz manhosa de choro.

"O que?", eu perguntei, respirando fundo quando olhei


para você. "Por que eu não iria?"

"Porque...", você hesitou, e o silêncio voltou enquanto eu


esperava uma resposta.

"Quer saber? Não importa o porquê", eu disse, guardando


a comida na geladeira e já começando a voltar para a sala.
"Eu vou com ela."

"Não!", você quase gritou, e foi isso que me fez parar outra vez.
Quando virei para te olhar novamente, vi que seus olhos
brilhavam, transbordando de lágrimas, e seu corpo tremia a
ponto de você precisar se apoiar no balcão.
Eu não entendia o que estava acontecendo, Jimin, mas
então você finalmente disse.

"Eu não aguento te ver com ela. Eu não aguento te ver


com nenhuma outra!"

"Como é?", eu questionei, sem conseguir acreditar no que


tinha escutado.

"Jungkook, eu...", você deixou sua voz morrer, pela segunda


vez. "Eu tenho mentido pra você por tanto tempo, mas... você
também sente, não é? Essa...essa coisa. Esse pecado."

Meus olhos estavam arregalados como nunca estiveram antes,


Jimin, porque eu nunca esperava ouvir aquilo de você. Mas
então eu passei as mãos por meu rosto, me convencendo de que,
não importava qual a loucura que você estava tentando me
dizer, não era o que eu pensava.

Você simplesmente não podia estar falando sobre me amar da


forma como eu te amava.

"Eu vou sair daqui", foi tudo que eu consegui dizer, assustado.

Mas antes que eu me virasse, você inflou o peito e pareceu se


encher de determinação para dizer o que finalmente me
deixou incapaz de me mover.
"Seus sonhos, Jungkook", você disse, caminhando em
minha direção com o rosto manchado de lágrimas. "São
iguais aos meus, não são?"

Meu coração parecia ter parado de bater, Jimin, e eu sentia


que estava ficando louco, porque aquilo não podia ser real.

"Não vamos mais fingir, por favor, eu não aguento mais",


você implorou, segurando meu rosto com suas duas mãos
quando parou em minha frente. "Meu coração... eu não tenho
mais tempo..."

Sua boca tocou a minha, seus lábios gelados e trêmulos


pressionando os meus pela primeira vez.

Você me deixou completamente sem ar e minha cabeça


parecia estar prestes a explodir com tudo que se passava
dentro dela depois desse simples toque.

Então você me olhou, com determinação em meio ao medo,


sem soltar meu rosto.

"Eu cumpri minha promessa. Eu te encontrei de novo, meu


bem, então vamos ficar juntos."
11

Por quanto tempo eu fiquei te olhando, em silêncio, com os


olhos arregalados e o coração pulsando dolorosamente?

Eu não sei, pequeno, de verdade. Porque, naquela hora, eu perdi


a noção de tudo ao redor, inclusive, e principalmente, do
tempo.

Eu estava mesmo louco? Depois de tantos anos me odiando e


te amando, será que a confusão do meu coração chegou à minha
mente? Eu tinha perdido o juízo, amor?

Mesmo querendo que não, aquela me pareceu a única


justificativa válida. Eu estava, oficialmente, louco.

"Jungkook", você me chamou, com sua voz doce e assustada,


ainda segurando meu rosto com suas duas mãos pequenas.
Quando tentei abaixar o olhar, você me segurou com mais
força, me obrigando a não olhar para nada além de você.
"Jungkook, por favor, me diz que eu não estou imaginando
coisas."

"Não...", eu lutei contra suas mão outra vez e abaixei o rosto.


Meus olhos ardiam, eu estava prestes a chorar. De desespero, e
de algo que nunca vou saber nomear. "Não brinca comigo, Ji."
"Eu te amo, Jungkook.", você disse, e eu senti seu corpo mais
próximo quando seus dedos se infiltraram por meus cabelos e
sua testa encostou na minha. "Eu te amo desde antes de nascer"

Eu não estava louco, não sozinho. Nós dois estávamos.

E eu tive essa certeza porque o que você disse não fazia sentido
nenhum, mas eu me sentia exatamente da mesma forma. Eu
também te amava desde antes de deixar o ventre de nossa mãe.

Eu te amava desde outra vida, amor.

"Manda a Lisa embora", você pediu enquanto eu lutava


contra meus braços que queriam te segurar num abraço
apertado. "Fica comigo, meu bem, só comigo"

"Me solta", eu pedi, ou ordenei, nem lembro mais.

Minha voz estava quebrada, assim como tudo em mim. Meu


coração, minha mente, minha fé. Nada mais estava inteiro.

Quando eu segurei seus braços e te forcei a me soltar, a dor foi


ainda maior, mas eu precisava fazer isso.

Você me olhou assustado, com os olhos arregalados e sem


esperança.
"Jungkook, por favor", eu te ouvi implorar, mas tudo que eu fiz
foi virar as costas para você e sair daquela cozinha.

Eu fui até a sala, onde Lalisa estava, e você demorou bastante


para também aparecer ali. Quando chegou correndo, como se
estivesse disposto a sair por aquela porta e me seguir para onde
quer que eu pudesse ter ido, você parou e me viu sozinho,
encolhido no chão.

Eu mandei a Lisa embora.

Eu queria ficar com ela, sei que precisava, mas não consegui te
deixar, amor.

Então pedi que ele fosse embora dizendo que não me sentia
bem, mas isso não era uma mentira. Eu estava me sentindo
zonzo, talvez acreditando que tudo aquilo não passava de um
sonho.

Mas era real. Seu toque quando se agachou em minha frente


foi real, assim como aquele desespero pulsando dentro de mim
era vivo, mais vivo que meu próprio corpo.

Ainda sentado no chão, encostado na porta, sem coragem de


me levantar e sem saber o que fazer quando olhasse para você,
você engatinhou para perto do meu corpo, até sentar sobre
minhas pernas. Seus olhos brilhavam de medo, desejo e
esperança quando suas mãos trêmulas seguraram meu rosto
outra vez.
Apavorado, eu tentei te afastar. Segurei sua cintura e te
empurrei, mas você manteve seu corpo firme sobre o meu.
"Não é errado", você disse encostando seus lábios, que eu
sempre desejei tanto, aos meus. "Isso não é errado,
Jungkook..."

Era errado. Sempre foi, amor. Mas como eu podia te recusar


quando você me olhava daquela forma, me tocava daquele
jeito, como a vida toda eu quis que tocasse?

Então minhas mãos, que antes tentavam te empurrar, pouco a


pouco ficaram frouxas, e sua respiração se mesclou à minha
antes que sua boca me tocasse outra vez.

Seu beijo era quente, inseguro no começo, com nossos lábios


suspirando uns contra os outros quando liberávamos lufadas de
ar que carregavam todo o peso do que estava prestes a
acontecer.

Suas mãos correram para trás da minha cabeça, seguraram


meus cabelos com força e nosso beijo pouco a pouco se
tornou mais rápido, mais intenso e mais desesperado
enquanto eu sentia minha mente se tornar cada vez mais
nublada, preenchida por nada além de você.
Sua boca parecia ter sido feita para a minha e nossa sincronia
era tão incrível, me deixava sem ar, mais louco do que sempre
fui.
Por isso meu corpo respondeu sozinho, minhas mãos te
puxaram mais para perto e começaram a reivindicar cada
pedaço de sua pele, tocando-a desesperadamente fazendo você
esquecer todos os outros que te tocaram da mesma forma.

Você fez o mesmo, descendo suas mãos por meus braços,


depois subindo- as por minha barriga quando começou a puxar
minha blusa. Nós interrompemos o beijo só para que nos
livrássemos dela, desastrosamente, um evitando olhar para os
olhos do outro para que não levássemos o choque de realidade
que nos forçaria a parar o que estávamos fazendo.

Então eu também tirei a sua blusa, joguei-a no chão, segurei


seu quadril e me levantei, te carregando junto comigo até o
sofá enquanto nossas bocas ainda se devoravam com aquele
desejo sujo.

Eu deitei seu corpo sobre o estofado e você me ajudou a tirar


sua calça. Antes de me deitar no meio de suas pernas, eu fiz o
mesmo com a minha, e então estávamos ambos nus, excitados,
na sala da casa onde crescemos juntos nos chamando de irmãos.

Minha mente me fez querer voltar atrás, mas meu coração


pulsava forte pedindo por você.

Não era só desejo, nunca foi. Era amor. Um amor feio, sujo e
imoral, mas era tudo o que tínhamos.
"Eu quero ser só seu." Você resfolegou contra minha boca
quando meu membro, que latejava por você, se encaixou na
sua entrada.

Então eu entrei em você, amor, empurrando meu corpo contra


o seu e minha testa contra a sua enquanto nossas respirações
atrapalhadas se misturavam em lufadas sonoras e quentes.

E depois de tanto tempo deitando com outras pessoas enquanto


pensava em você, finalmente era o meu amor quem estava nos
meus braços.

Aquela sensação era tão confusa. Era desespero, alívio e medo


do que nós dois estávamos nos tornando ao fazer aquilo. Por
isso, enquanto saía e entrava em você, eu chorei.

Lágrimas silenciosas e tão quentes quanto meu amor por você


escorreram por meu rosto enquanto eu apertava meus olhos,
incapaz de te olhar. Mas quando eu o fiz e vi suas bochechas
marcadas por suas próprias lágrimas e seus olhos estampados
com a culpa, eu chorei ainda mais, gemendo não de prazer. Era
de dor.

Mesmo assim, eu não conseguia parar. Meu corpo foi até o


final, com minha cabeça apoiada ao lado da sua, recebendo
vários beijos seus sobre minha pele e sentindo seu abraço
tentando nos confortar, até que gozei dentro de você.
Tudo já estava tão errado, amor, mas nós definitivamente não
poderíamos lidar com o que aconteceu logo depois.

Nós não poderíamos lidar com nossa mãe entrando em casa.


12

Se algo pode dar errado, dará.

Eu sempre odiei essa maldita lei de Murphy, porque ela parece


ter sido especialmente formulada para a minha vida.

Quais as chances de, justo nesse dia, nossa mãe ser dispensada do
serviço graças a um mal-estar?

Tão trágico e improvável que eu não tive dúvidas sobre o quanto o


universo sempre me odiou.

"O que é isso?", depois de longos segundos que se arrastaram


como horas, quando eu me afastei de você como se seu corpo
estivesse em chamas, ela perguntou.

A voz de nossa mãe carregava um peso que eu nunca quis


forçá- la a sentir. Era desespero... e nojo.

Nojo dos próprios filhos.

Você cobriu seu corpo como pôde, olhando para ela com suas
pálpebras bem abertas e o rosto sem cor, enquanto eu me
atrapalhei completamente tentando vestir minha roupa jogada
no chão.

Nós não dissemos nada. O que poderíamos dizer? De que


forma poderíamos fazer alguém, qualquer um, acreditar que o
que tinha acabado de acontecer ali não era errado?
Como eu podia tentar convencê-la se eu mesmo me sentia
manchado e sujo por ter me deitado com você?

"O que vocês estavam fazendo?", ela insistiu, mesmo que


aquele olhar desesperado e enojado carregasse a certeza que
ela já tinha.

Nós ainda não conseguíamos falar. O choro de antes,


ocasionado pela dor de termos passado tanto dos limites, se
misturou ao choro de desespero por ver nossa mãe daquele
jeito.

"Eu perguntei o que vocês estavam fazendo!", ela repetiu,


gritando alto como nunca antes, parecendo ter perdido
completamente o juízo quando avançou em nossa direção.

Você se encolheu, ainda nu, tentando se proteger quando ela


começou a estapear seus braços.

Os sons estalados dos tapas enquanto acertavam sua pele, os


gritos que fugiam da garganta dela e seu choro cada vez mais
sonoro me fizeram entrar em colapso. Desesperado, eu mesmo
gritei, cobrindo meus ouvidos e escondendo minha cabeça entre
meus joelhos.

Tudo estava tão errado, amor.


"Você!", nossa mãe gritou, e eu soube que era comigo quando
senti um de seus tapas dolorosos me acertando no braço. "Foi
você quem corrompeu seu irmão, não foi? Seu problemático!
Você sempre foi doente!"

Eu gritei ainda mais, quase arrancando meus cabelos quando


apertei os braços contra minhas orelhas, tentando silenciar
todos os sons enlouquecedores ao meu redor, sem perceber que
as piores vozes estavam dentro da minha cabeça.

Doente. Sujo. Imoral.

Minha própria consciência gritava aquilo em vários tons, várias


vozes, como se uma multidão inteira estivesse reunida em
minha mente, apontando quão nojento eu era.

Então os tapas continuaram, as ofensas de nossa mãe se


misturando a tudo que ecoava em minha própria cabeça.

"Seu monstro!", ela gritou e então me acertou, com o punho


fechado, e eu senti a saliva escapar de minha boca com o grito
de dor que deixei escapar.
"A gente se ama!", eu ouvi você gritar em meio ao choro e senti
seu corpo tentar se aproximar do meu, mas eu me encolhi,
mesmo sem conseguir impedir o abraço que você me deu,
tentando me proteger.
"Você é uma aberração! Vocês dois são!", ela gritou, tentando
nos separar, mas você se agarrou ainda mais firme a mim.

"A gente se ama!", você repetiu, mais convicta que da primeira


vez. "E amar não é um erro, mãe!"

Os olhos dela pareciam injetados com sangue, horrorizados,


quando eu levantei meu rosto.

"Saiam da minha casa", ela ordenou com a voz contida, mas


parecendo ainda mais alterada. "Saiam agora!"

Eu me encolhi ainda mais no sofá, sem coragem de levantar o


rosto depois de abaixá-lo outra vez, tremendo como nunca
antes.

Então você me abraçou com mais força, amor, me protegendo


do silêncio devastador depois que nossa mãe nos deixou ali
sozinhos.

"Vai ficar tudo bem", você disse, me envolvendo com seus


braços quentes e incertos e me balançando como se confortasse
uma criança. "Vai ficar tudo bem, meu amor, eu prometo"

Eu neguei, repuxando meus cabelos.


"O que a gente fez?", eu perguntei, apavorado. "O que a gente fez,
Jimin?"

"O que deveríamos ter feito muito tempo atrás", você garantiu,
segurando minhas mãos que cobriam minha cabeça para depois
me forçar a levantar meu rosto e olhar para você. "Eu amo
você, Jungkook, e eu sei que você me ama também"

"Não é fácil assim!", rebati atordoado, com a cabeça


explodindo em mil sensações diferentes, nenhuma delas boa.
"Não é, mas não precisa ser", eu te ouvi dizer com tanta
convicção que me assustou. "Eu me odeio por só perceber isso
agora que não temos mais tempo, mas é com você que eu quero
ficar até meu último segundo"

"Para de falar desse jeito...", eu pedi, sentindo cada terminação


do meu rosto queimar com o choro que parecia querer retomar
força. "Para de falar como se fosse morrer..."

Você sorriu ainda segurando meu rosto e me deu um beijo casto.

"Não tem mais jeito, Jungkook. Meu coração vai parar, mas
quando nos encontrarmos de novo, em outra vida, ele vai estar
batendo por você"

"Ji...", eu gemi, assustado. "Amor..."

Seus dedos deslizaram por baixo dos meus olhos, secando


minhas lágrimas.

"Só vem comigo", você pediu, determinado. "Pra qualquer


lugar, pra onde você quiser ir. Só vamos ficar juntos pelo tempo
que ainda temos, por favor"

Eu te olhei, ainda apavorado, e vi o medo nos seus olhos


também. Ainda assim, não existia hesitação nenhuma.
"Por favor", você insistiu. "Nós merecemos isso, Jungkook.
Vamos embora, por favor"

Talvez eu não estivesse louco antes, amor. Talvez minha


verdadeira loucura tenha sido abanar a cabeça, incapaz de
recusar seu pedido quando meu coração, sempre tão louco por
você, pareceu contaminar a pouca racionalidade que me
restava.
"Vamos...", eu disse, assustado, sem certeza alguma do que
estava dizendo.

Você sorriu. Eu também quis sorrir, mas o medo e a angústia


não permitiram. Mesmo assim, eu não voltei atrás. Você se
vestiu, depois nós fomos aos nossos quartos, pegamos o pouco
dinheiro que tínhamos, algumas roupas, juntamos nosso amor
e saímos daquela casa.

Então eu fui embora de novo, picinho. Mas, dessa vez, eu fui com
você.
13

Depois de fugirmos, nós não tínhamos para onde ir.

Não podíamos recorrer a ninguém de nossa família, tampouco


tínhamos amigos de verdade. Éramos eu e você, amor. Nós dois
e um mundo inteiro contra nós.

Por algum tempo, então, nossa casa foi aquele quarto de motel.
Era o que podíamos pagar, mas era suficiente.

Ir para a escola para você já não era mais uma prioridade, você
a abandonou no seu último ano.

E minha única preocupação era conseguir dinheiro para nós


dois, por isso arranjei um emprego que não exigia muitas
qualificações, nem mesmo pagava bem, mas era o suficiente.

E você, amor, só precisava se preocupar em fazer seu coração


continuar batendo por quanto tempo fosse possível.

Eu lembro do quanto chorei quando você me disse,


conformado, que médico nenhum poderia te curar. A única
solução seria um transplante e você já estava na lista para
receber um novo coração, mas nós dois sabíamos que nenhum
chegaria a tempo.
Hoje, picinho, eu sei. Naquele dia em que nossa mãe nos viu
juntos no sofá, ela tinha sido dispensada do trabalho porque não
conseguia parar de chorar por seu destino injusto.

Parece que a vida trabalhou cuidadosamente todos os detalhes


para que, no fim, nós chegássemos aonde estávamos.
Eu disse, então, que era culpa nossa. Seu coração estava doente
porque você me amava, mas você acreditou até o último
segundo que me amar foi a única coisa que o fez continuar
batendo por tanto tempo.

Eu não conseguia acreditar nisso naquela época, pequena.


Mesmo que estivéssemos juntos, tudo ainda parecia tão errado
que nós não nos tocávamos.

Por isso, nossa primeira vez foi a primeira e também a última

Ainda assim, eu não saí do seu lado, angustiado à espera do dia


em que não te teria mais comigo.

"A noite está tão bonita hoje", você disse, sorrindo para o céu,
quando eu te levei para caminhar depois de chegar de mais um
dia trabalhando.

Nessa noite nós fomos até uma praça, mas nas outras sempre
fazíamos algo diferente. Eu comprava algo novo para
comermos, ou assistíamos filmes e séries que nunca tínhamos
assistido antes, só para que você pudesse experimentar o
máximo de coisas que a vida e eu podíamos te dar.

Não era muito, amor, mas era o meu melhor.

Eu dei tudo de mim para que você tivesse os melhores últimos


dias da sua vida.

"Sim...", eu murmurei, segurando sua mão, sentado ao seu


lado. Mas enquanto você admirava o céu, eu admirava você.
"Jungkook." Você me chamou com um sorriso bobo no seu
rosto cansado, marcado pelas consequências da doença te
vencendo. "Eu posso te perguntar uma coisa?"

Eu assenti e você continuou com o sorriso bonito iluminando


seu rosto, enquanto seus olhos brilhavam para as estrelas acima
de nós.

Hoje, amor, eu também olho para elas, porque sei que é lá que você
está.

É lá em cima com as estrelas, no seu lugar, porque anjos


pertencem ao céu, não é?

"Você sempre me amou?", você perguntou, então, serena,


porque no fundo já sabia a resposta.

"Sempre.", respondi, então. "E sempre vou amar"

Você sorriu ainda mais, deitando a cabeça em meu ombro.

"Que bom...", eu te ouvi suspirar e apertar minha mão com mais


força. "Eu sempre te amei também, com tudo que existe em
mim."

Eu abaixei meus olhos, confuso, porque uma coisa ainda não


fazia sentido. Todos os seus relacionamentos, todas as vezes
que você chorou por outras pessoas... Como você poderia ter
me amado desde o começo se amou também tantos outros?

"Jimin", te chamei então, decidido a descobrir. "E todas as


outras pessoas? E o Kyung?"
Você se moveu, puxando meu braço para envolver seu ombro,
demorando até conseguir responder.

"Eu estava com tanto medo... Eu me sentia tão errado por te


amar que tentei desesperadamente me apaixonar por outras
pessoas, mas meu coração nunca teve espaço para outro
alguém, Jungkook...", eu te ouvir dizer, baixinho. "Quando
você me via chorando depois de um término, era porque eu não
sentia nada. Nada por eles, mas tudo por você, e isso me
assustava tanto..."

Eu fiquei em silêncio, remoendo sua confissão e amargurado


por esse medo que sempre existiu em nós.

"O Kyung foi minha última tentativa", você completou, então.


"Depois do meu acidente, nós ficamos tão próximos e isso me
fez perder o controle, eu não conseguia mais ficar longe de
você, por isso eu implorei para que ele fosse me ver, porque eu
precisava tentar mais uma vez, sem saber que nunca
funcionaria".

Eu senti o coração acelerar com a lembrança, mas não falei


nada. Eu não te acusaria, nunca, porque te entendia muito bem.

O medo nos fez cometer nossos maiores erros, pequeno.

"Me desculpe por ter demorado tanto para perceber, meu


bem...", você pediu, então. "Eu deveria ter confiado nos nossos
sonhos desde o começo..."

"Você acredita neles?", eu perguntei, ainda inseguro. "Nesses


sonhos que nós temos?"
"Eu acredito que nós já nos encontramos antes dessa vida e
acredito que vamos nos encontrar depois dela também", você
respondeu com a voz calma, seguro.

Eu sorri um pouco e abaixei meus olhos para observar nossos


dedos entrelaçados, unidos como nossos destinos pareciam
estar.

"E você acha que nós vamos sonhar com essa vida também,
quando ela acabar?", insisti, pensativo, mas sem parar de sorrir.

Era uma conversa louca, amor, mas era essa nossa loucura que
me fez sentir são pela primeira vez.

"Será?" Você riu. "Eu não sei. Mas se sim, eu quero sonhar
com esse momento, e eu quero que o novo eu faça o que eu não
fiz"

"O que?"

"Eu quero que ele te ame com toda a intensidade do mundo a


partir do momento que ele descobrir a pessoa maravilhosa que
você é, sem medo das consequências."

"E se nós não nos encontrarmos?", questionei, um pouco


assustado com sua certeza.

Você se moveu, então, se afastando de mim e ergueu seu mindinho.

"Vamos prometer agora, então, como fizemos da outra vez",


você disse. "Vamos prometer que nos encontraremos em todas
as nossas vidas"

Eu olhei para seu mindinho estendido, talvez um pouco cético,


mas com o coração me implorando para acreditar. Então uni
meu dedo ao seu, e vi seu sorriso quando pressionamos nossos
polegares, finalizando nossa promessa.
"Isso é loucura", eu disse, e você riu.

"Com toda certeza.", você concordou. "Mas quer saber? Eu não


me importo mais. Eu só quero amar você em todas as
oportunidades que tiver"

Eu te olhei, encantado pelo seu biquinho bobo, e te envolvi


com meus braços, te segurando perto como deveria ter feito
desde meu primeiro minuto nessa vida.

"Eu amo você", murmurei, então, para que você nunca mais
duvidasse.

"Eu amo você", você respondeu, sem dúvida alguma, quando


me abraçou de volta, deitando a cabeça sobre meu dedo.

Sem dizer nada, então, eu fiz mais uma promessa. Uma


promessa para mim mesmo.

Eu também não teria mais medo. Eu nunca mais deixaria o


mundo me impedir de amar você, não para sempre. Isso não
aconteceria nem nessa, nem em nenhuma outra vida.
14

Jungkook se moveu sobre os próprios pés, sentindo as


pernas cansadas por ter passado tanto tempo na mesma
posição, sentado diante do túmulo de seu amado irmão.

Ele gemeu fraquinho quando massageou o próprio pescoço,


aproveitando sua pausa para olhar para o céu.

O sol brilhava forte e as nuvens tinham desaparecido


completamente. Era um dia bonito e ensolarado no meio de
um mês conhecido pelas chuvas fortes.

Era como um milagre, assim como o amor que


compartilhou com aquele que carregava seu sangue.

— Foi você quem fez o dia ficar tão bonito? — Jungkook


perguntou, então, com um sorriso pequeno enquanto olhava
o nome de Jimin cravado na lápide.
— Você sabia que eu vinha hoje, não é, amor?

Em resposta, nada veio além do silêncio do cemitério onde,


dez anos antes, tinha sido enterrado o corpo de Jimin.

Mas talvez Jungkook estivesse certo. Talvez Jimin soubesse


que seria visitado nesse dia, já que seu irmão sempre aparecia
com flores e uma nova história para contar no dia do seu
aniversário.
E, talvez, ele tenha sido capaz de convencer o universo
inteiro a ter uma trégua com Jungkook porque nem mesmo
os deuses eram capazes de dizer não a Jimin.
— Você deve estar confusa. — Marcos murmurou, ainda
sem se levantar. — Por dez anos, eu vim aqui no dia vinte e
quatro de julho e te contei histórias diferentes. Contei sobre
como me reconciliei com nossa mãe, como consegui um
bom emprego e como conheci minha noiva. Então você
deve estar se perguntando porquê, hoje, eu te contei a
história de nós dois.

Sozinho, Marcos sorriu mais uma vez, antes de cocontinuar.

— Eu vou embora, picinho. — Ele disse, então. — Eu vou para Seul


e não sei se vou voltar. Eu tento viver bem aqui, tento ser feliz com
minha nova família, mas ainda tem algo que me machuca sempre
que eu olho para qualquer canto dessa cidade. Então hoje eu vim aqui
para me despedir de você.

Os dedos de Jungkook acariciaram as pétalas das flores que


tinha deixado sobre o túmulo do irmão, e ele respirou
fundo, olhando para a aliança em seu dedo.

Ele estava noivo de uma mulher que conheceu dois anos


antes, e ela carregava um filho seu no ventre.

Jungkook não diria que estava infeliz, porque amava sua


noiva, assim como amava seu filho, mesmo sem tê-lo
conhecido. Mas ele se sentia incompleto e sabia que se
sentiria assim até que pudesse finalmente reencontrar seu
Jimin.
— Mas não foi só para isso que eu vim aqui. Não foi só para
dizer um adeus. — Ele continuou. — Eu quis te contar tudo
isso para que nós dois sejamos capazes de aprender com
nossos erros. Eu quis relembrar cada detalhe doloroso desses
anos para que, no nosso reencontro, eu seja capaz de acertar.
Ele sorriu, determinado.

—Então eu prometo que não vou ter medo da próxima vez e eu não
vou te abandonar, pelo menos não para sempre. Eu vou dar tudo de
mim por você e eu juro que nós vamos ser felizes.

Jungkook fez algum esforço para ficar de pé, e então bateu


as mãos na calça para tirar os pedacinhos de grama presos
em sua roupa.

— Obrigado por ter existido, pequeno. Obrigado por ter me


amado e por ter sido corajoso para lutar por nós dois no final.
Eu nunca vou me esquecer da sua força.

Um suspiro escapou por entre os lábios de Jungkook e ele


sorriu mais uma vez, sabendo que estava na hora de ir
embora.

— Nunca esqueça que eu te amo desde outra vida, por todas


as outras vidas. — Ele murmurou, baixinho, e completou
em silêncio, sentindo a esperança ecoar em seu coração.

Te encontro na próxima vida, amor.

E você sabe, eu nunca vou deixar de te amar.


15

eucatastrophe: uma súbita e repentina resolução de


eventos em uma história; um final feliz inesperado.
⚫⚫⚫

Jungkook despertou do sono um pouco atordoado.


Era a primeira vez que tinha um sonho como aquele.

De algum jeito, sua mente criou um universo onde ele e


Jimin, seu namorado com quem tinha reatado recentemente
após um ano separados, eram irmãos, mas aquilo parecia
absurdo demais.

Ainda um pouco chocado com as cenas que seu


subconsciente reproduziu durante seu sono, ele demorou
algum tempo para perceber que seu Ji não estava ao seu
lado na cama.

Com o corpo cansado pelo trabalho excessivo, mas


principalmente pela noite que compartilhou ao lado do garoto
que amava, ele se sentou sobre o colchão macio e passou as
mãos pelo rosto antes de olhar ao redor.

O chão era uma bagunça de roupas, como um lembrete do


que fizeram horas antes.
Ele finalmente se sentia vivo novamente.
Sem perceber, Jungkook sorriu, sozinho, lembrando da
entrega de Jimin, de sua confiança e da forma como ele
mesmo se sentiu nervoso como nunca antes, com as mãos
tremendo, porque ele finalmente estava ali, sentindo prazer
junto de alguém que amava tão intensamente.

Era tudo tão natural e tão intenso que ele não cansava de
repetir para si mesmo que tinham sido feitos um para o
outro, mesmo com todas as dificuldades que suas vidas
criavam para o relacionamento que tentavam construir ao
longo de todos aqueles meses dentro da casa e não desistir
todas as vezes que eles se separaram.

Mas, Jungkook nunca teria medo. Algo dentro de seu coração


gritava para que ele nunca negasse aqueles sentimentos,
nunca deixasse ser afastado pelo receio do que poderia dar
errado.

Mesmo que fosse cético demais, ele não poderia negar que
pareciam predestinados.

Talvez só isso explique porque Jeon Jungkook, alguém


sempre tão centrado e focado em seu trabalho, é capaz de
abrir mão de tudo por Park Jimin.

Ele o ama, talvez desde a primeira vez que o viu.


E Jungkoom amaria intensamente Jimin com todas as suas
forças, mesmo no momento mais difícil.
— Já acordou, meu bem? — Ele ouviu aquela voz mansa,
suave e ainda sonolenta quando seu garoto entrou no quarto
vestindo nada além de uma blusa sua.

Quando olhou para a porta, ele viu Jimin entrar com o rosto
ainda inchado de sono, os cabelos amassados e as mãos
pequenas carregando uma bandeja com o café da manhã da
recepção do hotel na qual se hospedaram em Jeju. Então ele
sorriu, porque não importa quanto tempo passe, Park Jimin
sempre vai ser a imagem mais fiel de um anjo.

— Vem cá, anjo. — Marcos a chamou, com um sorriso


carinhoso e completamente apaixonado.

Jimin sorriu um pouco e mesmo ainda preguiçoso, se


adiantou para encaixar seu corpo no abraço do seu homem
depois de deixar a bandeja sobre o colchão.

— Eu já disse que sou o homem mais feliz do mundo por


ter você? — Jungkook perguntou, abraçando-o fortemente,
sentindo o corpo menor se aninhar contra o seu.

Jimin riu, olhando-o com uma curiosidade quase inocente.

— Você tá diferente. — Ele comentou, acariciando-o com


a mão pequena. — Ontem você tava com um medo tão
grande... Tava tão machucado...
—Você me curou. — Jungkook confessou, abraçando-a com
ainda mais força. — Como ninguém antes.

— Ah, e eu tive um sonho estranho. — Jimin ri novamente,


fazendo com que o mais velho ria também com os olhos
fechados. — Fique assim por mais um tempo, nenê...

Emilly assentiu, envolvendo-o seu rosto com suas mãos,


encostando-o em seu peito e se deixando ser protegido pelo
homem de sua vida.

E eles já sabiam. O mundo poderia ser contra, alguns


poderiam odia-lós, suas familias e amigos condena-lós,
mas eles não se importavam.

Seriam um do outro, como deveriam ser. Nessa e em todas as


outras vidas.

Porque sempre que um Jimin e um Jungkook existirem, eles


vão se encontrar e se amar de novo, e de novo... e de novo.

Seja como tiver que ser.

FIM

Você também pode gostar