1.
A Constituição Federal do Brasil estabelece a proibição da prisão civil por
dívida, ressalvadas duas hipóteses: a) a do responsável pelo incumprimento
voluntário de obrigação de alimentos; b) a do depositário infiel. Diferentemente,
o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, no seu art. 11.º, estabelece
que “ninguém será preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação
contratual”. O Supremo Tribunal brasileiro foi chamado a apreciar a lei interna
que regulava a prisão civil do depositário infiel. Numa primeira decisão, o
Tribunal afirmou a constitucionalidade da referida lei. Porém, em decisão
posterior o Tribunal inverteu a sua posição, determinando a revogação da
legislação ordinária. Apesar desta decisão, a norma da Constituição permanece
inalterada.
a) A posição do Supremo Tribunal brasileiro pode ser qualificada como monista ou
como dualista? Porquê?
b) Ao revogar a lei ordinária, mas não questionando a norma constitucional, que lugar
na hierarquia das fontes atribuiu o Supremo Tribunal brasileiro ao Pacto Internacional
sobre Direitos Civis e Políticos? (Selecionar 2)
i. Infralegal;
ii. Legal;
iii. Supralegal;
iv. Infraconstitucional;
v. Constitucional;
vi. Supraconstitucional.
c) Com base em que argumentos poderia ser defendida a eliminação da norma
constitucional que admite a prisão civil do depositário infiel? Pista para resolução:
classificação do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos.
d) Se a questão se colocasse em Portugal, que norma da Constituição convocaria para
justificar a revogação da lei ordinária?
2. A República de Trindade e Tobago dispunha de uma lei nacional, de 1953, que
autorizava a aplicação de castigo corporal a maiores de dezasseis anos. Mais
tarde, em 1991, ratificou a Convenção Americana de Direitos Humanos. A
Constituição nacional, de 1976, contém uma cláusula que obsta à revogação de
leis anteriores à sua entrada em vigor. Numa decisão relativa ao Ato do Castigo
Corporal, a Corte Interamericana de Direitos Humanos recusou àquela cláusula
constitucional o poder de contornar a revogação do Ato em causa, por violação
da Convenção.
a) A decisão da Corte Interamericana reflete que perspetiva sobre as relações entre o
direito interno e o direito internacional?
3. A Turquia decidiu realizar exercícios navais com fogo real no mar territorial da
ilha grega de Creta, no meio da tensão crescente em torno do gás e petróleo no
Mediterrâneo Oriental, tendo avisado oficialmente as embarcações civis para
evitarem a região. O Estado turco afirma que se limitou a exercer o seu direito
de passagem inofensiva na ilha de Creta, pois não pretendeu realizar qualquer
ataque.
a) A Turquia poderia realizar estes exercícios navais?
b) Apenas tendo tomado conhecimento dos exercícios após a sua realização, o Estado
Grego intercetou as embarcações turcas a 40 milhas náuticas, quando estas regressavam
à respetiva base. Alegou, para justificar a sua atuação, estar a exercer os poderes
policiais que o direito internacional lhe reconhece. Quid iuris?
4. A 8 de novembro de 2024, o Presidente das Filipinas assinou dois novos
diplomas legislativos que definem o Mar Territorial do Estado filipino no
denominado Mar do Sul da China. A zona delimitada é abrangida pela homóloga
delimitação do Estado chinês, que reivindica a quase totalidade das águas do
Mar do Sul da China. Embora uma decisão proferida em 2016 pelo Tribunal
Permanente de Arbitragem tenha rejeitado a delimitação efetuada pela República
Popular da China, o Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês reagiu à
publicação das novas leis filipinas afirmando que seriam tomadas todas as
medidas necessárias, ao abrigo do Direito, para defender a soberania marítima
chinesa.
a)Em 2021, a China aprovou legislação doméstica que permite a detenção de
estrangeiros suspeitos de entrar na zona marítima disputada. Será este diploma
conforme com o Direito Internacional?
b) Poderia a marinha filipina proibir a entrada de embarcações chinesas nas suas águas e
destacar embarcações de guerra para garantir o respeito pela proibição?
5. Nos últimos meses, 17 embarcações com bandeira venezuelana foram abatidas
pelas forças armadas dos EUA, resultando em mais de 60 mortes. A
Administração estadunidense tem justificado os ataques afirmando que se
tratariam de embarcações de narcotráfico com destino a território americano.
a)Suponha que os ataques tinham lugar em águas territoriais dos EUA. Seriam atos
lícitos à luz do Direito Internacional?
b) Caso novas embarcações fossem encontradas a 20 milhas da costa dos EUA, poderia
a tripulação ser detida?
6. Em fevereiro de 2022, o Conselho de Segurança das Nações Unidas deliberou a
aprovação da Resolução 2623(2022), por via da qual se pretendia convocar uma
sessão de emergência da Assembleia Geral, tendo em vista a análise da situação
em curso no território ucraniano, na sequência de pedido do Representante
Permanente da Ucrânia. Esta Resolução mereceu 11 votos a favor, 3 abstenções
(entre as quais, uma da República Popular da China) e 1 voto contra (da
Federação Russa).
a)Terá a Resolução sido aprovada ou rejeitada?
b)Caso a Federação Russa fosse excluída como membro das Nações Unidas, por
violação sistemática dos princípios da Carta (art. 6.º), uma nova Resolução a
autorizar a intervenção militar em território ucraniano que contasse exatamente com
a mesma votação seria aprovada?
7. Face ao conflito em território ucraniano, a República da Finlândia aderiu ao
Tratado do Atlântico Norte, de que Portugal faz parte. O Protocolo de Adesão foi
celebrado em julho de 2022, em Bruxelas.
a)Poderá o Protocolo ter sido aprovado por Decreto do Conselho de Ministros?
b) Suponha que o Presidente da República discordava da opção política de expandir a
NATO, considerando-a uma ameaça à paz no continente. Poderia recusar assinar o
Protocolo?
8. Por ocasião da Cimeira Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo,
destinada a promover a transferência de conhecimentos, foi concluída, em
Soldeu, a 21 de abril de 2021, a Convenção-Quadro para a Promoção da
Circulação do Talento no Espaço Ibero-Americano.
a)Suponha que, após negociações realizadas pela Presidente da Fundação para a Ciência
e Tecnologia, a Convenção foi aprovada na reunião do Conselho de Ministros a 3 de
setembro. Quid iuris?
b) Um investigador espanhol pretende fazer-se valer da Convenção para realizar uma
estadia de investigação em Portugal durante seis meses. Sabendo que o Presidente da
República ainda não havia ratificado a Convenção, o que lhe diria?
Em maio de 2003 foi concluído o Protocolo à Convenção Europeia para a Repressão do
Terrorismo. Este Protocolo veio alterar a pré-existente Convenção Europeia para a
Repressão do Terrorismo. Entre outras modificações, veio alterar os termos em que os
Estados podem ou não considerar determinadas infrações como infrações “políticas”, do
que depende a obrigação de extradição. Portugal formulou uma reserva ao Protocolo,
segundo a qual recusa a extradição quando as infrações em causa forem punidas com
pena de morte ou de prisão perpétua no Estado que solicita a extradição. 1. Suponha que
havia sido enviado o Secretário-Geral do Sistema de Informações da República
Portuguesa para representar o Estado no processo de elaboração do Protocolo. Estaria o
Estado português internacionalmente vinculado?
2. O Protocolo terá sido aprovado pelo Governo ou pela Assembleia da República?
3. Suponha que a Turquia, também Estado parte, não aceitou a reserva feita por
Portugal. Quid iuris quanto à aplicação do Protocolo entre os Estados?
9. Diga se, nas seguintes hipóteses, existem vícios nos tratados internacionais e, em
caso afirmativo, identifique-os.
a) O representante francês num processo de negociação concordou com a inclusão de
uma determinada cláusula na convenção elaborada porque o seu homólogo russo deu a
entender que revelaria publicamente pormenores da sua vida privada;
Coação sobre o representante do Estado » ameaça direcionada ao representante
do Estado, consubstanciada em chantagem (art. 51.º CVT);
b) O Presidente iraniano prometeu ao representante do Azerbaijão um futuro cargo na
empresa produtora de gás natural de que é acionista caso este aderisse a um tratado
militar previamente celebrado entre vários Estados do Médio Oriente;
Corrupção » exercício de uma influência imprópria sobre o representante do
Estado (art. 50.º CVT);
c) Os EUA ameaçaram aplicar um embargo total, incluindo as transações de bens
alimentares, ao Afeganistão se este não concordasse em celebrar um acordo de paz com
o vizinho Paquistão.
Problematizar a verificação de coação sobre o Estado» exercício da violência
sobre o Estado, em violação da Carta das Nações Unidas (art. 52.º CVT).
Diferenciar os cenários de sanções económicas direcionadas dos bloqueios
comerciais totais, considerando os efeitos destes últimos sobre a população civil,
nomeadamente no acesso a bens alimentares essenciais e ajuda humanitária.
10. Num encontro em Xangai, os ministros dos negócios estrangeiros do Japão e das
Filipinas acordaram que três das ilhas que pertencem ao território filipino
passariam a estar sob soberania japonesa. Em contrapartida, o Estado japonês
comprometia-se a prestar auxílio económico e técnico ao Estado filipino.
a) Mais tarde, as Filipinas pretendem desvincular-se do tratado alegando que
desconheciam a riqueza de recursos que carateriza as ilhas transferidas para a soberania
japonesa. Quid iuris?
b) Se fosse consultor jurídico do governo filipino, que conselho lhe daria quanto à
validade internacional do presente tratado?
11. Indique a consequência jurídica dos seguintes vícios:
a)O representante do Brunei participou na negociação de uma convenção internacional
multilateral em matéria comercial e, apesar de ter autenticado o texto final, não chegou
a ratificá-lo.
Ineficácia» os tratados não ratificados não produzem efeitos jurídicos em relação
ao Estado;
b) O Estado da Costa Rica vinculou-se a uma convenção internacional celebrada entre
vários países da América Latina de acordo com as normas constitucionais internas sobre
a competência de treaty making. Contudo, a convenção não foi publicada no respetivo
jornal oficial.
Não se verifica nenhuma invalidade internacional » a publicação das convenções
nos jornais oficiais dos Estados não é condição da sua validade ou eficácia.
c) O ministro dos negócios estrangeiros coreano foi induzido em erro pelo seu
homólogo chinês a respeito da taxa de câmbio entre as suas moedas, no contexto da
negociação de um acordo comercial.
Problematizar a verificação de dolo (art.º. 49 CVT) e consequente nulidade
relativa da convenção (problematizar a aplicação dos requisitos da
essencialidade e desculpabilidade).
12. Em setembro de 2020, seis jovens portugueses submeteram uma queixa ao
TEDH contra 33 Estados europeus, alegando que a respetiva inação em matéria
climática violava os seus direitos humanos, nomeadamente o direito à vida, à
vida privada e familiar e à não discriminação. Na queixa submetida, os jovens
explicavam que a questão sob juízo era urgente, donde resultaria a
impossibilidade de recorrer aos meios jurisdicionais internos, excessivamente
lentos. Ademais, demonstravam esse caráter urgente com os incêndios florestais
que, em 2018, ameaçaram as respetivas habitações na região de Pedrogão
Grande. Seria o processo admissível no TEDH?
13. A empresa russa ‘Side by Side’ organiza, anualmente, um festival de cinema
LGBT na Rússia. Em 2021, a empresa, o seu diretor e um espetador iniciaram
um processo junto do TEDH contra a Federação Russa alegando a violação da
respetiva liberdade de expressão dadas as sucessivas interrupções do festival
pelas autoridades, justificadas por alegadas ameaças de bomba e outros riscos de
segurança. Em 2022, a Federação Russa deixou de se fazer representar nos atos
processuais junto do Tribunal, na sequência da denúncia da Convenção Europeia
dos Direitos Humanos, da qual deixou de ser parte a 16 de setembro. Estariam
reunidas as condições de admissibilidade da queixa junto do TEDH?