Módulo 4 – Direito Comercial e do Consumidor
A DEFESA DO CONSUMIDOR EM JUÍZO
1 – A DEFESA COLETIVA DO CONSUMIDOR EM JUÍZO
Imaginem um grande chef de cozinha com larga experiência e inestimável dom. À sua
disposição na cozinha estão alguns alimentos de fraca qualidade, bem como facas que cortam
mal, panelas amassadas e um fogão muito antigo, com pouca “força” no fogo. Podemos
resumir que ele não tem à sua disposição instrumentos adequados para preparar o melhor
prato.
Da mesma forma, podemos imaginar o exercício da função jurisdicional para composição de
conflitos de interesses. Se não tivermos em mãos os instrumentos adequados, não podemos
compor satisfatória e efetivamente conflitos em juízo. Não podemos ‘preparar o melhor prato’.
Como já tivemos a oportunidade de observar ao longo deste curso, nossa realidade de
mercado e economia não permite mais as contratações tradicionais através do contrato
paritário, no qual as partes contratantes discutem o teor de cláusula a cláusula. Não
vivemos mais a produção artesanal e personalizada. Vivemos a produção em série, a
produção em massa. Os contratos que regulam esse mercado são, pois, os de massa,
em especial, os de adesão. As relações são despersonalizadas. É a nova realidade
socioeconômica.
Daí fácil concluirmos que, por muitas vezes, apenas as relações processuais
individualizadas (consumidor – Autor x fornecedor – Réu) não bastavam mais para um
acesso à prestação efetiva de tutela jurisdicional.
Por esta razão, o legislador sentiu a necessidade de adequação dos clássicos esquemas
processuais à realidade social contemporânea, a fim de garantir o acesso a uma ordem jurídica
justa.
E, com olhos nesta realidade, é que diplomas como a Lei da Ação Civil Pública (lei nº 7.347/85)
e o Código de Defesa do Consumidor deram início à criação de um processo civil coletivo. É a
defesa coletiva do consumidor em juízo.
Em suma, hoje é possível que a defesa em juízo dos interesses e direitos dos consumidores e
dos agentes equiparados (vide nosso modulo sobre a definição de consumidor) ocorra
individualmente ou a titulo coletivo. Esta é a regra do art. 81 do CDC.
1.1 – Interesses ou direitos coletivos
A tutela coletiva dispõe-se à proteção de situações cujos efeitos jurídicos ultrapassem o
patrimônio de uma só pessoa (interesses difusos e coletivos) ou a situações que, apesar de
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seus efeitos se exaurirem no patrimônio de uma só pessoa, a igualdade objetiva que entre elas
existe recomenda sejam tratadas de maneira coletiva (interesses individuais homogêneos).
1.1.1 – Interesses difusos
Interesses ou direitos difusos são os transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam
titulares pessoas indeterminadas ligadas por circunstâncias de fato (art. 81, parágrafo único, I
do CDC).
Referem-se a pessoas indetermináveis, solidariamente relacionadas por liames de ordem
fática, sem qualquer vínculo jurídico entre elas. É absolutamente inviável a individualização
destes interesses, mas todos suportam os efeitos igualmente.
Exemplo: Houve, há tempos, uma publicidade televisiva que foi retirada do ar em razão de sua
enganosidade. Era a publicidade do “Danoninho, aquele que vale por um bifinho”. A afirmação
induzia os pais a erro, uma vez que acreditavam que o iogurte poderia substituir uma refeição,
já que (em tese) possuía a mesma fonte de energia que a carne. Todos aqueles que assistiram
à publicidade na TV são ‘vítimas’ da enganosidade e merecem ter tutelado o seu direito de não
ser submetido ou induzido a erro, em especial se em detrimento da saúde de uma criança. Não
há como determinar quem assistiu ou não à publicidade. Estamos diante de um direito difuso.
O interessante é notar que todos aqueles que assistiram à publicidade, ainda que não hajam
adquirido ou consumido o produto são considerados consumidores. Como já estudamos no 1º
módulo, são os agentes equiparados a consumidores, em razão do art. 29 do CDC, que diz:
“Para fins deste capítulo e do seguinte, equiparam-se aos consumidores todas as pessoas
determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas.” O artigo refere-se aos capítulos das
práticas comerciais (e aqui se insere a publicidade enganosa e abusiva) e o da proteção
contratual.
Outro exemplo comum de direito difuso nos livros especializados é a colocação à venda no
mercado de produto com alto grau de periculosidade ou de nocividade. Esta conduta é vedada
pelo art. 10 do CDC, que dispõe: “O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo
produto ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou
periculosidade à saúde ou segurança.”
Basta a colocação no mercado deste tipo de produto ou serviço para que haja dano ao
consumidor, não sendo necessário que haja aquisição ou utilização do produto ou do serviço.
Suficiente também é a retirada do mercado do produto ou serviço para a cessação do dano.
Quanto à proteção dos interesses difusos, podemos concluir, então, que o bem jurídico
tutelado é sempre indivisível, atingindo uma multidão de ouvintes, telespectadores, leitores,
enfim, consumidores (ainda que por equiparação), que não podem ser determinados, por
inexistir uma relação jurídica base entre eles.
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Fácil entender a indivisibilidade do bem jurídico tutelado quando conseguimos visualizar que
basta uma única ofensa para que todos os consumidores sejam atingidos. Como
conseqüência, basta a cessação da ofensa para que todos sejam beneficiados ao mesmo
tempo.
1.1.2 – Interesses coletivos
Interesses ou direitos coletivos são os transindividuais, de natureza indivisível de que seja
titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por uma
relação jurídica base (art. 81, parágrafo único, II do CDC).
A lei indica como titulares desses interesses ou direitos coletivos pessoas determináveis. Isto
quer dizer que as pessoas podem até não ser determinadas em um dado momento, mas existe
a possibilidade de serem. Não é como nos direitos difusos, que como acabamos de estudar,
esta possibilidade de identificação, ainda que a posteriori, inexiste.
Estas pessoas estão solidariamente relacionadas por um liame, uma ligação, de ordem formal,
jurídica. É a chamada relação jurídica base. Elas estão ligadas entre si ou com a parte
contrária, como veremos logo a seguir.
A situação a que estas pessoas estão expostas é indivisível, é coesa, ou seja, o resultado será
igual para todo o grupo.
É importante destacar que a relação jurídica base a que a lei se refere já existe antes da
ocorrência do dano e não em razão do dano.
Conforme já adiantamos, esta relação jurídica base pode ocorrer entre as pessoas titulares do
direito (ex. condomínio – todos são condôminos, ligados entre si) ou entre cada pessoa e a
parte contrária (ex. todos os consumidores de um determinado banco – não há entre os
clientes um vínculo. O vínculo que existe, a relação jurídica base, é apenas dos mesmos com o
fornecedor). De uma forma ou de outra, estas pessoas podem ser determinadas em algum
momento, embora de início não o sejam.
Exemplo: Prestação insatisfatória de serviço de fornecimento de esgoto a um determinado
bairro da cidade. Todos os moradores daquele bairro reclamam que praticamente inexiste a
prestação do serviço e reclamam a implantação do mesmo com efetividade. Todos são vítimas
do fato do serviço, que já estudamos no módulo sobre responsabilidade civil. Existe uma
relação jurídica entre as pessoas que moram naquele bairro e a empresa concessionária de
serviço público e é possível que estas pessoas possam vir a ser determinadas, identificadas.
O resultado de uma ação coletiva proposta para defesa dos interesses e direitos dos
moradores deste bairro para a eficaz e adequada prestação do serviço de esgoto alcançará a
todos. Fica fácil observarmos que a situação é coesa. Ou se presta adequadamente o serviço
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de esgoto a todos os moradores do bairro ou não se presta a nenhum, pois a rede de esgoto é
a mesma e é uma só.
Outro exemplo: Uma Associação de Pais de uma determinada escola propõe uma ação
coletiva a fim de evitar um aumento abusivo da mensalidade imposto a todos os alunos, de
todas as séries, turmas e turnos daquela escola. Conseguindo êxito na ação, o resultado
alcançará todos os alunos, que podem ser identificados. Alcançará inclusive aqueles alunos
que não são associados à Associação autora da ação, uma vez que a mensalidade não pode
ter um valor para alguns e outro valor diferente para os demais. Por isto diz-se que o bem
jurídico tutelado é de natureza indivisível, que a situação é coesa. Ou se impede o aumento
para todos ou para nenhum aluno.
1.1.3 – Interesses individuais homogêneos
Interesses ou direitos individuais homogêneos são os decorrentes de origem comum (art. 81, III
parágrafo único do CDC).
Para identificarmos direitos ou interesses individuais homogêneos devemos estar diante de
situações jurídicas individuais, subjetivamente distintas (ou seja, com sujeitos diferentes), mas
objetivamente idênticas (ou seja, com o mesmo objeto), e por isso merecedoras de tratamento
jurídico uniforme.
Por serem situações jurídicas individuais, poderiam (e podem), em tese, ser tratadas
individualmente, com a propositura de várias ações individuais. A origem dos danos é comum,
mas os danos são individuais. Cada um pode sofrer um dano diferente do outro, ainda que a
situação que haja gerado o dano seja a mesma. Desta forma, cada um pode buscar
individualmente o Judiciário para ter ressarcido o seu dano individual.
É certo, porém, que se cada um propõe sua ação, separadamente, a sociedade corre o risco
de ter várias decisões diferentes para o mesmo caso, uma vez que cada Juiz é livre para julgar
da forma que entender justa.
A lei, por isso, facilita o tratamento das situações viabilizando a reunião de todas elas em uma
só ação (ação coletiva) para permitir ao titular do direito que foi lesado o acesso à ordem
jurídica justa, ou seja, permitir o acesso ao Judiciário, com a entrega efetiva da Justiça,
evitando-se decisões contraditórias, uma vez que na ação coletiva, a mesma decisão alcançará
todos os titulares do direito.
Vamos destacar, porém, que, se proposta uma ação coletiva para a tutela de interesses
individuais homogêneos, a decisão proferida nesta ação só obrigará a todos os titulares do
direito (ou seja, só fará coisa julgada erga omnes) se for favorável aos mesmos (ou seja, se o
pedido for julgado procedente). Sobre esta regra dispõe o art. 103, II do CDC.
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Exemplo: Na explosão do shopping center em Osasco, São Paulo, (Osasco Plaza Center), o
tratamento coletivo que foi dado ao caso, apesar de haver vários danos individuais, facilitou
muito a sua solução.
Todas as vítimas do evento (consumidores por equiparação, por força do art. 17 do CDC, como
vimos no Módulo 1 deste curso) tiveram reconhecido o direito de serem indenizados pelos
danos sofridos tanto pelo Tribunal de Justiça de São Paulo quanto pelo STJ.
Cada vítima (ou seus sucessores) passou a ter direito a uma indenização individualizada nos
limites do dano que cada qual sofreu. Este dano individualizado está sendo apurado na fase de
execução da sentença.
1.2 – Legitimidade
Para a proteção dos interesses ou direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos, a lei,
no art. 82 do CDC, confere legitimidade, concorrentemente, a:
1. Ministério Público;
2. União, Estados, Municípios e Distrito Federal;
3. entidades e órgãos da Administração Pública, direta ou indireta, ainda que sem
personalidade jurídica, especificamente destinados à defesa dos interesses e direitos
protegidos por este código;
4. associações legalmente constituídas há pelo menos um ano e que incluam entre seus
fins institucionais a defesa dos interesses e direitos protegidos por este código,
dispensada a autorização assemblear.
A Defensoria Pública enquadra-se na alínea c, também estando legitimada `a propositura de
ação coletiva em defesa do consumidor embora o tema não seja pacífico na jurisprudência.
O Núcleo de Defesa do Consumidor da Defensoria Pública do Rio de Janeiro – NUDECON
também teve a legitimidade para propor coletivas reconhecida em juízo, embora ainda haja
decisões contrárias.
Vejamos o seguinte caso concreto em que o NUDECON da Defensoria Pública do Rio de
Janeiro propôs ação coletiva em face de duas concessionárias de energia elétrica (Light e
CERJ) a fim de evitar a suspensão do serviço em caso de inadimplemento dos consumidores
(“corte por não pagamento”), com base nos argumentos que estudamos no modulo sobre
serviços públicos.
Na primeira instância (juiz de primeiro grau), não foi reconhecida a legitimidade do NUDECON.
Interposto recurso, em segunda instância (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro), foi reformada
a decisão para reconhecer a legitimidade, nos seguintes termos:
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"Direito Constitucional. Ação Civil Pública. Tutela de interesses consumeristas. Legitimidade
ad causam do Núcleo de Defesa do Consumidor - Defensoria Pública para a propositura
da ação. A legitimidade da Defensoria Pública, como órgão público, para a defesa dos
direitos dos hipossuficientes é atribuição legal, tendo o Código de Defesa do
Consumidor, no seu art. 82, III, ampliado o rol especificamente destinado à defesa dos
interesses e direitos protegidos pelo Código. Constituiria intolerável discriminação
negar a legitimidade ativa de órgão estadual - como a Defensoria Pública - as ações
coletivas se tal legitimidade é tranqüilamente reconhecida a órgãos executivos e legislativos
(como entidades do Poder Legislativo de defesa do consumidor). Provimento do recurso para
reconhecer a legitimidade ativa ad causam da apelante" (grifamos)
Porém, no STJ, os consumidores não tiveram melhor sorte neste mesmo caso. Inconformadas
com a decisão do Tribunal do Rio de Janeiro, as empresas recorreram (Recurso Especial nº
734.176 – RJ – Relator Ministro Francisco Falcão) e conseguiram decisão contrária, ou seja, de
ilegitimidade do NUDECON da Defensoria Pública para propositura de coletivas.
1.3 – Coisa Julgada
Coisa julgada é a eficácia que torna imutável e indiscutível a sentença, não mais sujeita a
qualquer recurso.
Em regra, vincula (obriga) apenas as partes que participaram da respectiva relação processual.
Nas ações coletivas, a coisa julgada poderá produzir diferentes efeitos (art. 103 do CDC),
dependendo da espécie de interesse ou direito protegido, objeto da ação, a saber:
I - erga omnes, exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas,
hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação, com idêntico fundamento
valendo-se de nova prova, na hipótese do inciso I do parágrafo único do art. 81;
Quando se tratar de interesses difusos, a coisa julgada se opera erga omnes, ou seja,
para todas as pessoas. Assim, ninguém mais poderá discutir aqueles fundamentos em
juízo, porque aquela sentença obriga a todos, seja procedente ou improcedente. Mas,
se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas, havendo novas
provas após o trânsito em julgado, um dos legitimados pode propor novamente a
mesma ação.
II - ultra partes, mas limitadamente ao grupo, categoria ou classe, salvo improcedência por
insuficiência de provas, nos termos do inciso anterior, quando se tratar da hipótese prevista no
inciso II do parágrafo único do art. 81;
Quando o interesse for coletivo, a coisa julgada também atingirá todas as pessoas que
compõem o grupo, categoria ou classe, titular do direito pleiteado, seja o pedido julgado
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procedente ou não. Mas, se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de
provas, havendo novas provas após o trânsito em julgado, um dos legitimados pode
propor novamente a mesma ação.
III - erga omnes, apenas no caso de procedência do pedido, para beneficiar todas as vítimas e
seus sucessores, na hipótese do inciso III do parágrafo único do art. 81.
Na hipótese de interesses individuais homogêneos, a coisa julgada só obrigará a todos
se o pedido for julgado procedente. Se for julgado improcedente, os interessados
podem propor ações individuais, se não houverem participado do processo coletivo
como litisconsortes.
Aquele que já houver proposto ação individual, em seu próprio nome, e tiver
conhecimento de ação coletiva com o mesmo objeto (direito ou interesse individual
homogêneo), deverá requerer a suspensão da ação individual no prazo de trinta dias, a
contar da ciência nos autos do ajuizamento da ação coletiva, para que possa vir a ser
beneficiado por eventual decisão favorável nesta última. O mesmo se aplica em caso
de interesses coletivos.
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2 – A DEFESA INDIVIDUAL DO CONSUMIDOR
Quando o direito do consumidor lesado ou ameaçado de lesão é meramente individual, não se
enquadrando nas hipóteses acima especificadas de direito coletivo, a defesa cabível em juízo é
apenas a individual.
Antes, porém, de estudarmos a defesa individual do consumidor em juízo, vale esclarecer que
nem sempre a busca ao Judiciário como primeira alternativa é a melhor forma de se alcançar a
Justiça mais efetiva, mais célere.
Por vezes, a solução extrajudicial dos conflitos pode ser a melhor alternativa. Se não houver
sucesso, aí sim, busca-se o Judiciário.
2.1 – Solução Extrajudicial de Conflitos
Instalado um conflito de consumo, o primeiro passo do consumidor deve ser, sempre, travar um
contato com o fornecedor, expondo a situação.
De preferência, o contato deve ficar documentado para facilitar eventual prova em juízo. Isto
quer dizer que, se for por telefone, o consumidor deve anotar o dia e o horário exato do
telefonema, o nome do funcionário com quem falou e, claro, o número de registro da
reclamação.
Se for por e-mail, este deve ser impresso, assim como a eventual resposta.
Se for pessoalmente, com a entrega do produto para conserto, por exemplo, exija a ordem de
serviço.
O mais indicado, porém, é que a reclamação ao fornecedor se dê por escrito, com a fixação de
prazo para resposta. O melhor instrumento para isto é a notificação.
Mas, eu preciso de um advogado para fazer uma notificação?
Não! Qualquer um pode fazer uma notificação. É simples. Vamos ver.
1. Em primeiro lugar, coloca-se o local e a data no topo da notificação, de preferência do
lado direito.
2. Mais abaixo, do lado esquerdo, coloca-se a quem o documento é endereçado (Ao Ilmo.
Sr. Representante Legal da empresa X).
3. Após um breve espaço, inicia-se o corpo da notificação, em regra, com o nome
completo do consumidor e seu número de CPF, seguidos da explicitação da qualidade
do consumidor, indicando a relação de consumo que deu origem ao conflito
(proprietário do veículo X, placa XXX1111, chassi xxxxxxx, que adquiriu na
Concessionária Y, no dia 01/01/06, através do contrato de financiamento com o Banco
A – contrato nº 1234).
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4. Logo após, deve seguir o seguinte texto “vem NOTIFICAR Vossa Senhoria para que...”
completando-se a oração com a conduta que o consumidor espera que o fornecedor
adote (providencie a imediata troca do sistema de ar condicionado do veículo em
referência, uma vez que vem apresentando problemas desde a aquisição do veículo).
Neste momento, o espaço é livre para que o consumidor esclareça em detalhes o
ocorrido, bem como para inserir a fundamentação jurídica que achar conveniente.
5. Ao final, em regra, segue o seguinte texto padrão: “Fica ciente a empresa Notificada
que o não atendimento à presente no prazo de x dias (ou x horas, ou x dias úteis), a
contar do recebimento desta, implicará na adoção das medidas judiciais cabíveis.”
Seguindo estes passos, assim ficará redigida a notificação do exemplo:
Rio de Janeiro, 10/02/06.
Ao Ilmo. Sr. Representante Legal da Calhambeque Ltda.
Marmanjo dos Santos Filho, inscrito no CPF nº 000.111.222-33, proprietário do veículo
zero quilômetro Calhambeque Supra, placa ABC4444, chassi defgh55, que adquiriu na
concessionária CarroFácil no dia 01/01/06, através do financiamento com o banco DinDin Pra
Você – contrato nº 1234, vem
NOTIFICAR
Vossa Senhoria para que providencie a imediata troca do sistema de ar condicionado
do veículo em referência, uma vez que vem apresentando problemas desde a aquisição do
veículo.
Como dito, o veículo foi adquirido no dia 01/01/06, portanto, há mais de um mês atrás
e, apesar de várias tentativas de consertos no ar condicionado, conforme ordens de serviço
anexas, o sistema ainda não está em seu pleno funcionamento.
O art. 18 do CDC prevê que não sendo sanado o vício em 30 dias, é opção do
consumidor exigir a substituição do produto, o que ora solicito.
Fica ciente a empresa Notificada que o não atendimento à presente no prazo de 3 dias
úteis, a contar do recebimento desta, implicará na adoção das medidas judiciais cabíveis.
Agindo desta forma, o consumidor fica documentado sobre sua reclamação. Para isso, porém,
não se pode esquecer que a notificação deve seguir sempre em duas vias. Uma delas será
entregue ao fornecedor (empresa Notificada). A outra ficará na posse do consumidor, com
protocolo de recebimento do fornecedor. Sem este protocolo, o documento não tem qualquer
valor.
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Se o consumidor preferir, porém, pode procurar uma entidade pública ou privada de proteção e
defesa do consumidor, a exemplo dos Núcleos Especializados da Defensoria Públicas, das
Promotorias do Consumidor (Ministério Público), dos PROCON’s, das Delegacias do
Consumidor, das Associações Civis de Defesa do Consumidor, para formular sua reclamação e
tentar uma conciliação com o fornecedor, que ficará documentada.
A Defensoria Pública pode tem a atribuição constitucional de prestar assistência jurídica à
população carente (art. 134 da Constituição), ou seja, àquele indivíduo que não tem condições
de arcar com as custas do processo e honorários de advogado sem prejuízo de seu sustento
próprio e de sua família.
O Defensor Público pode convidar o fornecedor para uma conciliação ou pode propor ações
individuais ou coletivas (como já vimos acima) em defesa do consumidor. Lembramos que o
acordo realizado na presença de um Defensor e com sua assinatura constitui um título
executivo, o que quer dizer que, em não sendo cumprido pode ser diretamente executado em
juízo.
Os PROCON´s são órgãos públicos, que podem ser estaduais ou municipais, que tem como
atribuição a proteção e a defesa do consumidor. Para isto, além de divulgar informações com o
fim de educar e conscientizar o consumidor, registrar reclamações e realizar audiências de
conciliação, podem aplicar penalidades às empresas que violam direitos do consumidor.
O art. 56 do CDC traz um rol das sanções administrativas (penalidades) que podem ser
aplicadas. Algumas delas: multa, apreensão do produto, inutilização do produto, cassação do
registro do produto junto ao órgão competente, proibição de fabricação do produto, suspensão
do fornecimento de produtos e serviços, suspensão temporária de atividades, cassação de
licença do estabelecimento ou de atividade, interdição, total ou parcial, de estabelecimento, de
obra ou de atividade, imposição de contrapublicidade.
A aplicação das penalidades deve obedecer a um prévio procedimento administrativo, que
deve assegurar ampla defesa ao fornecedor. Todavia, a lei prevê no parágrafo único do art. 56
a possibilidade de aplicação de medidas cautelares, ou seja, independentemente de prévia
manifestação da empresa.
A Delegacia do Consumidor é um órgão da polícia civil, cuja atribuição principal é apurar, por
meio do inquérito policial ou termo circunstanciado, os crimes praticados contra os
consumidores. Tais crimes estão previstos no CDC (arts. 61 a 80).
Após a conclusão das investigações, o inquérito policial ou termo circunstanciado são
encaminhados ao promotor, que decidirá pelo arquivamento ou instauração de processo
criminal contra os indiciados.
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As associações civis de defesa do consumidor têm enfoque especial na educação para o
consumo. É a sociedade civil organizada que busca a conscientização de direitos com a
criação de cartilhas e folders explicativos, com realização de campanhas e eventos.
Após um ano de sua constituição têm legitimidade para propor ações coletivas, cujo resultado
alcançará todos os consumidores, e não apenas os associados.
Podemos citar dois exemplos deste tipo de entidade privada, que realizam sério e destacado
trabalho na implementação do direito do consumidor: o Instituto Brasileiro de Política e Direito
do Consumidor – BRASILCON e o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – IDEC, que
podem ser visitados, para maiores informações, através dos sites [Link] e
[Link], respectivamente.
2.2 – Composição dos conflitos em juízo
Não obtendo sucesso na conciliação extrajudicial, a ultima saída para o consumidor é buscar
no Poder Judiciário a solução para o conflito.
Neste caso, o consumidor precisará, necessariamente, de um advogado ou de um Defensor
Público.
A única exceção ocorre no Juizado Especial em causas de até vinte salários mínimos, para as
quais o consumidor não precisará de advogado ou de Defensor Público. Basta comparecer a
um Juizado Especial Cível e relatar o seu caso. Ou, se preferir, agora que já conhece os seus
direitos enquanto consumidor, você mesmo pode relatar seu caso e fazer um pedido ao juiz e
levá-lo ao Juizado.
Vale lembrar que nos Juizados Especiais Cíveis só podem ser propostas ações de menor
complexidade e que tenham como valor máximo quarenta salários mínimos (conclui-se que nas
causas de 20 a 40 salários, é necessário advogado ou Defensor).
O Defensor Público só poderá prestar assistência ao consumidor carente, pois a atribuição
constitucional da Defensoria Pública, prevista no art. 134 da Constituição da República é de
prestação de assistência jurídica integral e gratuita para o juridicamente necessitado, ou seja,
para o cidadão que não tem condições de arcar com as custas do processo e honorários de
advogado sem prejuízo de seu próprio sustento e o de sua família.
O CDC, no art. 5º, inciso I reforça esta necessidade:
“Para a execução da Política Nacional das Relações de Consumo, contará o Poder Público
com os seguintes instrumentos, entre outros:
I – a manutenção de assistência jurídica, integral e gratuita para o consumidor carente.”
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Para os demais casos, deve-se contratar um bom advogado (art. 133 da Constituição da
República).
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3 – ATIVIDADES DO MÓDULO
3.1 – Auto-Avaliação
3.2 – Gincana - Pesquisa de Jurisprudência
Para esta atividade, a turma deve ser dividida em dois grupos: Grupo verde e Grupo vermelho.
Cada grupo elege um tema de sua preferência abordado neste curso.
Visitando a página do Superior Tribunal de Justiça na internet ([Link]), clique no link
Jurisprudência e digite palavras-chave sobre o tema que o grupo escolheu. Quanto mais
específico, melhor.
Vários acórdãos irão aparecer. Cada grupo deve eleger um caso que julgar mais interessante,
após ler todos. Escolhido o caso, cada grupo deve redigir um relatório sobre o caso que
escolheu.
O relatório de cada grupo deve ser encaminhado para o outro grupo, sem a respectiva decisão
final do STJ. Aquele que recebeu o relatório é que deve indicar uma decisão para o caso.
3.3 – Gincana – Pesquisa de Textos
Acesse a página do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – Brasilcon –
([Link]) e escolha um texto doutrinário (no link Artigos) ou uma notícia (no link
Noticias) sobre um tema de sua preferência. Elabore cinco questões sobre o artigo (ou a
notícia) que leu e escolha um colega de turma para que as responda. Após, corrija as questões
do seu “aluno”.
Observação: cada aluno só pode receber um bloco de cinco questões, para que todos tenham
cinco questões para responder e cinco para corrigir.
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