Modulo 3
Modulo 3
CLÁUSULAS ABUSIVAS
1 – CONTRATOS DE ADESÃO
Este acordo deve ser estabelecido livremente entre as partes contratantes e deve respeitar os
limites traçados pela legislação, sendo o mais importante deles o limite estabelecido pela
função social do contrato.
No início, bastava que os contratos cumprissem sua função econômica, de fazer circular bens e
de gerar riquezas. Apenas esta função satisfazia o espírito de uma lei (o Código Civil de 1916 –
chamado de “código antigo”) que valorizava mais o patrimônio do que o próprio sujeito.
Respeitava-se mais o ter do que o ser, por caracterizar-se como extremamente individualista.
Isso fez com que as leis infra-constitucionais (como o Código Civil então em vigor – o de 1916)
sofressem uma “releitura”.
Nesse ínterim, surgiu o CDC e o novo Código Civil (o de 2002), já com um novo espírito,
inspirados pela Constituição, deixando para trás o individualismo e respeitando a nova fase do
solidarismo social, na qual o sujeito é mais importante do que o patrimônio.
Surge a chamada “Nova Teoria Contratual”, que impõe que ao contrato, não basta cumprir
apenas a função econômica, pois agora o sujeito que contratou é o mais importante.
Com base nisto, a lei exige que o contrato, além de cumprir sua função econômica, cumpra
também a sua função social.
E o Código Civil de 2002 traz essa idéia expressamente, no art. 421: “A liberdade de contratar
será exercida em razão e nos limites da função social do contrato.”
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Módulo 3 – Direito Comercial e do Consumidor
Premido pelas necessidades de uma economia moderna, o mercado de consumo vale-se, para
sua sobrevivência, de contratações em massa em nítida oposição aos contratos individuais ou
paritários. Pode-se dizer até mesmo que o mercado moderno inexistiria sem essa massificação
das relações, sem a celeridade das contratações.
Fossem as grandes empresas discutir cada cláusula de seus contratos com cada um de seus
consumidores... seria a estagnação total da economia!
Os contratos não são mais discutidos, cláusula a cláusula pelas partes contratantes. São agora
elaborados pelo fornecedor em bloco, em massa, para atender a um sem número de
consumidores com idênticos objetivos.
Os produtos passaram a ser fabricados em série: milhares, milhões, todos com os mesmos
moldes e padrões para atender consumidores também premoldados, seja pela mídia, pela
moda ou pela necessidade em bloco que a ocasião sugira.
Os contratos paritários (ou negociáveis) dão lugar, então, aos contratos de massa. Estes
últimos impõem ao consumidor regras que não foram debatidas previamente pelas partes. São
predeterminadas e indicadas pelo fornecedor que, naturalmente, o faz em seu benefício, como
melhor lhe convém, garantindo-lhe várias vantagens.
Contrato de adesão é aquele que se forma pela aceitação de uma das partes de cláusulas
contratuais gerais propostas pela outra, que prévia e unilateralmente as redigiu.
Nas relações de consumo, a maior parte das contratações (senão todas) é feita através de
contratos de adesão. Neste caso, os contratos são elaborados prévia e unilateralmente pelo
fornecedor, sendo apenas oferecido ao consumidor para optar por aderir ou não, sem que lhe
seja oferecida uma oportunidade de qualquer questionamento sobre as cláusulas
preestabelecidas.
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Módulo 3 – Direito Comercial e do Consumidor
“Contrato de adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade
competente ou estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor de produtos ou serviços, sem
que o consumidor possa discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo.”
Nos contratos que regulam as relações de consumo a redação do instrumento contratual tem
que ser clara e com linguagem de fácil compreensão para os consumidores. Além disto, deve
ser de fácil leitura, o que significa dizer que não pode ser redigido com letras minúsculas (muito
pequenas), mas sim de forma legível e com caracteres ostensivos. O instrumento deve, ainda,
ser apresentado ao consumidor antes da contratação, para que ele possa analisá-lo.
Se não for desta forma, o consumidor não está obrigado a cumprir o contrato. Esta é a norma
do art. 46 do CDC:
“Os contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão os consumidores, se não
lhes for dada a oportunidade de tomar conhecimento prévio de seu conteúdo, ou se os
respectivos instrumentos forem redigidos de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e
alcance.”
Outra regra importante é que “as cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais
favorável ao consumidor” (art. 47 do CDC). Regra esta que tem como objetivo garantir o
equilíbrio do contrato. É natural que aquele que elaborou o contrato (o fornecedor) insira
cláusulas que lhe beneficiem em qualquer situação. Às vezes maliciosamente, às vezes não.
De qualquer forma, a cláusula deve ser interpretada da maneira mais favorável àquele que não
redigiu o contrato (o consumidor).
Exemplo: Vamos analisar um contrato de seguro de vida e acidentes pessoais que possui uma
cláusula que exclui a responsabilidade da empresa em pagar a indenização em caso de
suicídio.
Devemos ler esta cláusula da seguinte forma: fica excluída a responsabilidade de pagamento
da empresa em caso de suicídio premeditado, e não em qualquer suicídio, para alcançarmos a
interpretação mais favorável ao consumidor. Vamos entender por quê.
Em primeiro lugar, devemos saber que por se tratar de uma cláusula que implica em limitação
de direito do consumidor, deve ser redigida com destaque, permitindo sua imediata e fácil
compreensão (art. 54, §4° do CDC). Só assim será vá lida. Obedecida esta regra, vamos
interpretar a cláusula.
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Módulo 3 – Direito Comercial e do Consumidor
Por que o suicídio exclui a obrigação de indenizar no contrato de seguro de vida? Para evitar a
contratação de má-fé daquele consumidor que, pensando em se matar, de forma premeditada,
contrata um seguro de vida para “deixar sua família bem” após sua morte.
Diferente é o caso de um consumidor que, há mais de 10 anos tem um seguro de vida e, por
razões íntimas, resolve por fim à sua vida ou é vítima de um acidente pessoal (ex. sujeito vai
limpar a arma e ela dispara, lhe atingindo). Este suicídio não é premeditado. Não é razoável
negar o pagamento da indenização a seus beneficiários.
O STJ vem decidindo desta forma e já pacificou o assunto com a edição da Súmula nº 61: “O
seguro de vida cobre o suicídio não premeditado.”
Vejamos, ainda e para reforçar, a seguinte ementa: "Direito Civil. Seguro. Suicídio involuntário.
É inoperante a cláusula que, nos seguros de acidentes pessoais, exclui a responsabilidade de
seguradora em casos de suicídio involuntário. À seguradora, ainda, compete a prova de que o
segurado se suicidou premeditadamente, com a consciência de seu ato. Recurso conhecido e
provido.” (REsp 194/PR, Rel. Min. BARROS MONTEIRO).
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2 – CLÁUSULAS ABUSIVAS
Tanto isso é verdade que a regra para interpretar tais contratos, imposta por lei, é a da
interpretação contra proferentem, ou seja, contrária àquele que os elaborou (o fornecedor) e,
consequentemente, da maneira mais benéfica para o consumidor, como já vimos anteriormente
(art. 47, CDC).
Para tentar trazer de volta o equilíbrio nas contratações, o Código de Defesa do Consumidor
considera nula de pleno direito toda cláusula abusiva inserida em um contrato de consumo (art.
51).
Isto ocorre em respeito à nova teoria contratual (que já estudamos), pela qual os princípios do
pacta sunt sevanda (os contratos - pactos - têm que ser cumpridos) e da autonomia da vontade
ficam limitados, condicionados à função social do contrato.
Não vale mais tudo o que está escrito, só porque está escrito e o consumidor assinou embaixo.
O legislador proíbe a inclusão no contrato de determinadas cláusulas, a fim de garantir o
equilíbrio do contrato e proteger o consumidor, que é a parte mais fraca da relação. Em outras
palavras, a lei (CDC) não mais tolera a inserção no contrato de qualquer cláusula que seja
considerada abusiva. Caso seja inserida, mesmo diante dessa proibição, será considerada nula
de pleno direito, ou seja, não produzirá qualquer efeito.
Esta norma que dispõe sobre a nulidade da cláusula abusiva (art. 51 do CDC) é uma norma de
ordem pública, assim como todas as normas do CDC (art. 1º do CDC). Isto quer dizer que é
uma norma imperativa, cogente, inafastável pela vontade das partes.
É toda cláusula contratual que viola a boa-fé objetiva ou qualquer dever anexo criado pela boa-
fé, como o dever de cuidado, de cooperação/lealdade ou de informação.
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Esse princípio (da boa-fé objetiva) possui algumas funções no mundo jurídico. Uma delas é a
de criação de deveres anexos. É como se essa função nos dissesse: não basta cumprir o dever
principal do contrato. Há deveres secundários (anexos) que também são tão importantes
quanto o principal e que devem ser cumpridos. São deveres anexos criados pela boa-fé
objetiva: dever de cuidado ou segurança, dever de cooperação ou lealdade e dever de
informação.
Assim, se um consumidor contrata uma empresa de ônibus para que o leve de Belo Horizonte
a São Paulo, não basta que o fornecedor o leve ao seu destino, cumprindo apenas o dever
principal do contrato de transporte. Ele tem que levar o consumidor ao seu destino com cuidado
e segurança, deve informar, previamente, se aquele ônibus faz alguma parada durante o
trajeto, se no carro em que o consumidor vai viajar tem banheiro, se é leito, etc.
Assim, aquele que violar a boa-fé objetiva (o padrão de comportamento esperado pelo parceiro
contratual) ou qualquer um dos deveres anexos ao contrato criados por ela (dever de cuidado,
de cooperação e de informação), está atuando com abusividade.
A cláusula contratual que violar a boa-fé ou os deveres anexos criados por ela, será
considerada cláusula abusiva e, por isso, nula de pleno direito, como vimos.
O fornecedor pode ter inserido no contrato certa cláusula abusiva por má-fé, com a intenção de
prejudicar a outra parte, ou pode ter inserido de boa-fé (subjetiva), ou seja, sem a intenção de
prejudicar, por puro desconhecimento da carga de abusividade.
Na verdade, não é isso que importa para o estudo das cláusulas abusivas. Não estamos
perquirindo se o ato é ilícito, se é contrário ao direito ou não. Não buscaremos repreender o
fornecedor.
Estamos avaliando o resultado que esta determinada cláusula pode trazer para aquela relação
contratual, o desequilíbrio que ela pode desencadear, para buscarmos de volta o equilíbrio,
através do afastamento da cláusula.
O art. 51 do CDC traz um rol exemplificativo (não exaustivo) de cláusulas abusivas, com a
seguinte redação:
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Módulo 3 – Direito Comercial e do Consumidor
“São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de
produtos e serviços que:”
Assim o legislador nos indica um parâmetro para o que ele considera abusividade. Porém, esta
lista não engessa o conceito. O próprio artigo esclarece que aquelas cláusulas ali expostas são
abusivas, “entre outras”. Conclui-se que podem existir cláusulas abusivas, embora não
enquadradas casuisticamente em quaisquer dos incisos que estudaremos a seguir. Basta que
o teor da cláusula viole a boa-fé, não sendo necessário que conste do rol trazido pela lei.
Exemplo: Art. 25 do CDC prevê que “É vedada a estipulação contratual de cláusula que
impossibilite, exonere ou atenue a obrigação de indenizar prevista nesta e nas seções
anteriores.” O artigo menciona exatamente as duas seções que tratam da responsabilidade civil
do fornecedor, tanto pelo fato quanto pelo vício, e a da qualidade dos produtos e serviços,
prevenção e reparação dos danos. O legislador proibiu uma conduta no art. 25 e no art. 51
destacou que se essa conduta fosse praticada apesar da proibição, seria nula de pleno direito,
ou seja, não surtiria efeitos.
João Alegre deixa seu carro em um estacionamento privado no centro da cidade de Porto
Alegre. Recebe um ticket como comprovação, que contém os dados do veículo, horário, etc. No
verso do ticket, está escrito que o estacionamento EstacioneAqui não é responsável por
objetos deixados no interior do veículo, nem por acessórios do carro, tais como antena, rádio,
CD player, entre outros. João Alegre recebe o ticket e guarda-o no bolso.
Duas horas depois, ao retornar de suas tarefas para buscar seu carro e logo após pagar pelo
serviço, percebe, de longe, que o veículo havia sido arrombado. Entrou e não encontrou seu
CD player, nem seu porta CD’s com seus discos favoritos.
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Módulo 3 – Direito Comercial e do Consumidor
Ao reclamar com o gerente do estabelecimento, este defende-se sugerindo que João Alegre
lesse o verso do ticket que tinha em mãos.
Pergunta-se: quem está com a razão? Que argumentos jurídicos poderia invocar João Alegre
em sua defesa?
Para respondermos às perguntas acima é importante sabermos que o que está escrito no verso
do ticket do estacionamento é uma cláusula contratual. Assim seria também se o mesmo texto
estivesse em um cartaz afixado próximo ao caixa para pagamento. Podemos concluir que
cláusula contratual não é só o que está escrito no instrumento do contrato. É toda e qualquer
condição ou regra imposta pelo fornecedor, escrita ou não escrita (lembre-se que a oferta
integra o contrato que vier a ser celebrado – art. 30 do CDC, passando a cláusula contratual).
Podem ser as chamadas condições gerais dos contratos. Quem nunca observou atrás da porta
do seu quarto de hotel algumas regras ali impostas? São condições gerais do contrato
celebrado com o hotel.
O art. 42, parágrafo único e o art. 53 do CDC são exemplos de normas que prevêem o
reembolso pelo fornecedor de quantia já paga pelo consumidor. Não pode haver cláusula
contratual que impeça essa devolução. Temos outros exemplos, tais como o art. 18, II e 20, II
do CDC que prevêem a restituição de quantia paga em caso de vício do produto ou do serviço,
se esta for a opção do consumidor (se necessário, reveja nosso módulo sobre responsabilidade
civil). Mas vamos nos deter, neste momento, ao estudo dos artigos 42 e 53 do CDC.
O parágrafo único do art. 42 diz que “O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à
repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de
correção monetária e juros legais, salvo hipótese de engano justificável.” Já estudamos esta
regra quando vimos o tópico sobre cobrança de dívidas. Remeto à leitura.
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O importante aqui é sabermos que o consumidor tem direito, por lei, à devolução em dobro
daquilo que pagou indevidamente. Nenhuma cláusula contratual pode lhe tirar este direito.
O art. 53, por sua vez, dispõe: “Nos contratos de compra e venda de móveis ou imóveis
mediante pagamento em prestações, bem como nas alienações fiduciárias em garantia,
consideram-se nulas de pleno direito as cláusulas que estabeleçam a perda total das
prestações pagas em benefício do credor que, em razão do inadimplemento, pleitear a
resolução do contrato e a retomada do produto alienado.”
Sandra buscava realizar o sonho da casa própria. Contratou a compra e venda de um imóvel a
ser pago em 60 meses. Um ano após a contratação, Sandra perdeu o emprego que tinha há
mais de 10 anos em uma sólida empresa. Conseguiu novo emprego, mas o salário era bem
inferior ao anterior. Sandra fica sem condições de continuar pagando as prestações da casa
própria e atrasa três prestações. Um preposto do banco que financiou a compra liga para
Sandra cobrando as prestações e ameaçando-a de retomar o imóvel. Sandra prefere, então,
solicitar a extinção do contrato, com a devolução do bem ao fornecedor e o reembolso das 15
parcelas que já havia pago. O banco argumenta sua defesa com uma cláusula contratual que
prevê a retenção dos valores pagos. É a chamada cláusula de decaimento ou cláusula de
perdimento. Esta é vedada pelo art. 53 do CDC.
Porém, se ainda assim for inserida em algum contrato, como o foi no de Sandra, não produzirá
qualquer efeito, pois o art. 51, II do CDC a considera abusiva e, portanto, nula de pleno direito.
É claro que Sandra não receberá as 15 prestações que pagou, pois há as despesas de
administração, a cláusula penal e outros valores que podem ser retidos. O fornecedor não pode
é reter TUDO o que foi pago.
O CDC proíbe esta cláusula de negativa de reembolso por importar em disposição de direitos
do consumidor, o que é inadmissível.
Hipótese muito comum é a do fornecedor que contrata uma seguradora para garantir-se de
eventual prejuízo causado a um consumidor de sua empresa.
Havendo o dano ao consumidor, não pode a empresa que o causou negar-se a cumprir com
sua obrigação de indenizar, repassando esta responsabilidade para a seguradora que
contratou.
O consumidor deve processar a empresa que lhe causou o dano. Ela é que é a responsável.
Esta, se quiser, pode até chamar a seguradora ao processo. Se isto acontecer, vamos ver
quais são as regras.
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Art. 101 do CDC: “Na ação de responsabilidade civil do fornecedor de produtos e serviços, sem
prejuízo do disposto nos Capítulos I e II deste título, serão observadas as seguintes normas:
I – (...)
É o dispositivo do CDC que trata da cláusula geral de boa-fé objetiva, que é um padrão de
conduta que deve ser exigido das partes contratantes de atuar com lealdade, com
transparência, com fidelidade e que deve ser considerada inserida em todas as relações de
consumo, ainda que não escrita.
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Dentre as funções da boa-fé objetiva, apenas para relembrar, destaca-se a função de criação
de deveres anexos: dever de cuidado ou segurança, dever de lealdade ou cooperação e dever
de informação.
Mais um exemplo: quando faço sinal para o ônibus e nele ingresso, celebro contrato com a
empresa de transporte. Ela tem o dever de me transportar ao meu destino e eu, consumidor,
tenho o dever de pagar o preço da passagem. Mas a boa-fé objetiva diz que além de me
transportar, a empresa tem que me transportar com segurança (dever de cuidado/segurança)
ao meu destino.
Concluindo, para não esquecermos: a violação à boa-fé objetiva ou aos deveres anexos por ela
criados vão importar em abusividade. Assim, qualquer cláusula que viole a boa-fé objetiva é
considerada cláusula abusiva, pois coloca o consumidor em desvantagem exagerada frente ao
fornecedor. É o que diz o art. 51, IV do CDC, que ora estudamos.
A lei explica (art. 51, §1º do CDC) que considera-se exagerada a vantagem que:
Vejamos um exemplo concreto, julgado pelo STJ sobre o caso de um paciente que sofreu
limitação no número de horas de internação, em razão de uma cláusula contratual imposta pela
empresa operadora de Plano de Saúde. Com base nesta cláusula, a empresa recusou-se a
pagar a internação, a partir da 12ª hora, afirmando ser o pagamento responsabilidade do
consumidor a partir deste limite. Ou seja, a empresa pagaria apenas as 12 horas iniciais de
internação.
O STJ entendeu abusiva esta cláusula, por afrontar a boa-fé objetiva (quem contrata com uma
operadora de plano de saúde cria uma expectativa legítima de cobertura total, até a
recuperação).
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É regra geral de direito processual civil que o ônus da prova incumbe ao autor da ação, ou
seja, àquele que propõe a ação, àquele que alega um fato que constitui, em tese, um direito
(art. 333 do Código de Processo Civil).
Nas relações de consumo, a seguir esta regra, o ônus de provar os fatos alegados seria do
consumidor.
Tal tarefa seria árdua demais para o consumidor, uma vez que ele não dispõe de meios
técnicos que poderiam lhe permitir fazer tal prova na maior parte das situações.
Imagine o consumidor ter que provar que o acidente de carro de que ele foi vítima aconteceu
porque o freio não funcionou no momento necessário por um defeito de fábrica...
Assim, para facilitar o acesso do consumidor à Justiça, o legislador apontou a inversão do ônus
da prova em favor do consumidor, como um direito básico, previsto pelo art. 6º, VIII do CDC,
transferindo o ônus para o fornecedor. Este sim, detém todos os meios técnicos necessários à
produção da prova.
Nenhuma cláusula contratual pode dispor o contrário, pois um direito básico garantido ao
consumidor pela lei, não pode ser usado contra ele.
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Módulo 3 – Direito Comercial e do Consumidor
“VIII - imponham representante para concluir ou realizar outro negócio jurídico pelo
consumidor;”
É vedado ao fornecedor inserir no contrato uma cláusula que imponha representante para
concluir ou realizar outro negócio jurídico, diferente daquele que o contrato está regendo, em
nome do consumidor. Em outras palavras, o fornecedor não pode impor ao consumidor um
representante para agir em seu nome.
Essa é a cláusula popularmente conhecida como cláusula mandato, muito utilizada por bancos
e administradoras de cartão de crédito. Estas empresas impõem ao consumidor um
representante indicado pela própria empresa, do mesmo grupo econômico – em regra, para
que em nome do consumidor contrate, emita notas promissórias, letra de câmbio, etc.
A Súmula 60 do STJ proíbe a conduta: “É nula a obrigação cambial assumida por procurador
do mutuário vinculado ao mutuante, no exclusivo interesse deste.”
Há, também, decisões do STJ neste mesmo sentido, a exemplo das seguintes:
“É nula a cláusula contratual que outorga poderes à pessoa jurídica vinculada ao credor para
contrair obrigação em nome do devedor. Aplicação do CDC 51 VIII e STJ 60” Ag. 196.602-RS,
Rel. Min. Waldemar Zveiter, 3ª. Turma.
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Ocorre que o banco fez incluir no contrato de conta-corrente que celebrou com o consumidor a
cláusula mandato e, valendo-se dela, emite nota promissória, em nome do consumidor, como
se seu representante fosse, no valor do saldo devedor.
Todo contrato deve ser pautado pelo equilíbrio. A cláusula que permite apenas ao fornecedor a
opção de concluir ou não o contrato, cabendo ao consumidor apenas aceitar, é nitidamente
abusiva, por desequilibrar a relação, gerando vantagem exagerada para o fornecedor.
É uma cláusula potestativa, que sujeita o negócio jurídico (contrato) ao puro arbítrio de uma
das partes. In casu, exatamente ao arbítrio da parte mais forte: o fornecedor.
Não bastasse a carga de abusividade que torna a cláusula ora estudada nula de pleno direito,
ainda temos o Código Civil que proíbe qualquer cláusula potestativa no art. 122, parte final.
A variação unilateral do preço gera, sem dúvidas, desequilíbrio contratual, o que não pode ser
permitido. Aqui também se incluem as taxas de juros e os encargos, enfim, qualquer despesa
prevista no contrato, que faz parte de seu preço final.
O texto da lei é claro ao afirmar que a variação não será permitida de forma direta nem indireta.
Assim, é nula a cláusula contratual que diz que o reajuste se dará com base no índice x, y ou z,
sendo escolhido pelo fornecedor aquele com maior percentual à época do reajuste. A permitir
esta cláusula, estaríamos permitindo a variação indireta de preços de forma unilateral.
Desta forma já decidiu o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul: “Arrendamento mercantil.
Leasing. Cláusula abusiva. (...). É abusiva a cláusula que dispõe, diante da previsão de
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Módulo 3 – Direito Comercial e do Consumidor
alternativas de cálculos dos reajustes das prestações, que sejam os mesmos feitos sempre
observando aquele critério que maior valor conferisse a contraprestação devida pelo
arrendatário. Controle judicial da cláusula abusiva deve ser admitido por razões fundadas no
exercício abusivo do direito, no desvio da finalidade economico-social perseguida, no excesso
aos limites impostos pela boa-fé, a moral e os bons costumes, ou quando a condição imposta
contrarie norma imperativa. Apelação improvida.” (Apelação Cível Nº 190145979, Sexta
Câmara Cível, Tribunal de Alçada do RS, Relator: Moacir Adiers, Julgado em 20/12/1990)
Não restam dúvidas, pois, sobre a abusividade da cláusula comentada ainda que a variação de
preço se dê de forma indireta.
“XI - autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente, sem que igual direito
seja conferido ao consumidor;”
O cancelamento do contrato não pode ser opção de apenas uma das partes contratantes. Com
muito mais razão a proibição quando a parte que detém este poder é a mais forte da relação,
pelo franco desequilíbrio que isso pode gerar.
Todas as partes da relação contratual podem ter o direito de cancelar o contrato, com prévia
notificação à parte contrária.
Também já tivemos a oportunidade de estudar que o Código Civil proíbe qualquer cláusula
potestativa no art. 122, parte final, além de o CDC, no art. 51, XI considerar nula de pleno
direito e, portanto, sem qualquer efeito, a cláusula em discussão.
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Módulo 3 – Direito Comercial e do Consumidor
A lei, porém, abre caminho para que o fornecedor possa repassar estes custos ao consumidor:
basta que ele insira no contrato uma cláusula que permita também ao consumidor ser
ressarcido dos custos com cobrança das obrigações do fornecedor.
Os contratos de consumo são em sua maioria contratos de adesão. Sendo assim, são impostos
ao consumidor sem que lhe seja dada a oportunidade de discussão sobre qualquer cláusula. O
fornecedor impõe as cláusulas que bem entender antes de apresentar o contrato ao
consumidor. Porém, a partir do momento em que o consumidor aderir ao contrato, este não
pode mais ser modificado pelo fornecedor, sem que haja expressa autorização do consumidor.
E, apesar de autorizada a eventual alteração pelo consumidor não podemos esquecer que o
contrato, se alterado, deve permanecer com as prestações equilibradas.
Exemplo: Vande contrata com o plano de saúde Viver Bem que, após pesquisa de mercado,
verifica ser o único que oferece cobertura para atendimento no hospital em frente à sua casa,
com preço que cabe em seu orçamento familiar. Após vários anos de contratação, Vande
machuca o pé no futebol que joga aos domingos. Dirige-se, com muita dor, ao hospital, como
de costume. O atendimento lhe é negado com a informação de que aquele hospital não é mais
credenciado ao seu plano de saúde. Em contato com a empresa, a afirmação é confirmada.
Sendo insuportável a dor, Vande submete-se a consulta e exames por conta própria naquele
hospital e descobre que está com uma fratura no tornozelo. Após colocado um gesso e
prescritos os medicamentos, Vande paga a consulta e o raio-x e vai embora. Há alguma coisa
que ele possa fazer?
Resposta:
Se há cláusula no contrato que Vande assinou com o plano de saúde permitindo a modificação
do contrato, ela é nula de pleno direito. Não pode a empresa de plano de saúde descredenciar
o hospital sem aviso prévio. Assim agindo ela está modificando o conteúdo do contrato e,
consequentemente, a qualidade da prestação contratual. Vande pode ingressar com ação em
face da operadora de plano de saúde para reaver o valor que gastou naquele domingo no
hospital, em dobro, uma vez que o pagamento foi indevido (art. 42, parágrafo único do CDC).
Garante a proteção do meio ambiente em geral, ou seja, meio ambiente natural (ar, água,
florestas, fauna, flora, etc), meio ambiente urbanístico (zoneamento, poluição visual e sonora,
etc), meio ambiente cultural (patrimônio e bens de valor histórico, estético, turístico,
paisagístico, artístico e arquitetônico) e meio ambiente do trabalho (salubridade e segurança no
ambiente de trabalho, etc).
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Módulo 3 – Direito Comercial e do Consumidor
Não precisa haver dano concreto. Basta que a cláusula ameace de lesão ao meio ambiente.
O sistema de proteção ao consumidor vai muito além do CDC. Aliás, o Direito vai muito além
das leis. Existem princípios gerais de direito que também devem ser observados. Sobre Direito
do Consumidor, podemos destacar, além do CDC, a Lei de Planos de Saúde (lei nº 9.656/98),
a Lei das Anuidades Escolares (lei nº 9.870/99), a Lei dos Crimes contra a Ordem Econômica
(lei nº 8.137/90), dentre muitas outras.
Assim, de acordo com este inciso, qualquer cláusula que desrespeitar uma norma do sistema
de proteção ao consumidor será abusiva, o que abre a possibilidade ao Judiciário e à doutrina
de identificarem um sem-número de cláusulas abusivas a partir desta regra.
Esta é uma cláusula muito comum nos contratos de locação. São benfeitorias necessárias, de
acordo com o art. 96, §3° do Código Civil: “ ... as que têm por fim conservar o bem ou evitar que
se deteriore.” Toda benfeitoria necessária realizada no imóvel objeto de locação pelo locatário
devem lhe ser indenizadas. É um direito do locatário. Excluir este direito através de cláusula
contratual não produzirá qualquer efeito.
Quanto às benfeitorias úteis e voluptuárias, em tese, pode-se dispor, não havendo direito à
indenização, se assim não previsto no contrato. São voluptuárias “... as de mero deleite ou
recreio, que não aumentam o uso habitual do bem, ainda que o tornem mais agradável ou
sejam de elevado valor” (ex. construção de piscina) e são úteis “... as que aumentam ou
facilitam o uso do bem” (ex. construção de garagem).
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3 – CONTROLE JUDICIAL
Já vimos que nenhuma cláusula abusiva pode integrar os contratos de consumo. Se isto
acontecer, o CDC as considerará nulas de pleno direito, ou seja, as considerará como não
escritas. Não produzirão qualquer efeito.
Esta nulidade pode ser declarada por um Juiz. É a isso que chamamos de controle judicial das
cláusulas abusivas.
Estudamos, também, que o Código do Consumidor é composto por normas de ordem pública e
interesse social (art. 1º do CDC). Isso quer dizer que a desobediência a qualquer norma do
CDC implicará em matéria que o juiz pode apreciar de ofício, ou seja, sem o requerimento das
partes do processo.
Se nem o autor nem o réu de uma ação requerer a nulidade da cláusula de um contrato que
estiver em discussão no Judiciário, se o Juiz a identificar como abusiva, pode declarar esta
nulidade de ofício, seja em que fase estiver o processo e em qualquer grau de jurisdição (1ª.
instância – juiz; 2ª. instância – tribunal do estado; Tribunais Superiores – STJ e STF).
Esta alteração pode acontecer através da revisão ou da modificação contratual, que é direito
básico do consumidor.
A melhor doutrina, capitaneada pela Professora Cláudia Lima Marques entende que estas
alterações no contrato só podem ocorrer nas cláusulas que disponham sobre preço.
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A primeira hipótese (de modificação) trata da lesão enorme. É um desequilíbrio que já nasce
com o contrato. O contrato já nasce impondo vantagens exageradas para uma das partes. Em
geral, para o fornecedor, que além de ser o mais forte da relação, foi quem redigiu o contrato.
Ex.: contrato de abertura de crédito rotativo (cheque especial) que fixa juros de 11% ao mês e
170% ao ano. As cláusulas que fixam tais juros são evidentemente abusivas, porque tornam as
prestações desproporcionais, o que faz com que o contrato já nasça desequilibrado. O
consumidor toma um capital emprestado e paga por isso um valor muito superior ao que seria
justo como reposição dos gastos do banco mais o lucro a que tem direito. E isto acontece
desde que o contrato foi assinado. Mas o juiz pode, com base na lesão enorme, modificar esta
cláusula, fixando juros menores.
Estas são, enfim, as três modalidades de controle judicial das cláusulas abusivas: declaração
de nulidade, modificação (lesão) ou revisão (onerosidade excessiva).
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Módulo 3 – Direito Comercial e do Consumidor
4 – ATIVIDADES DO MÓDULO
4.1 – Auto-Avaliação
Para realizar esta atividade, você deve analisar o caso de João Alegre x EstacioneAqui
apresentado neste módulo, na unidade 2 (item 2.2), respondendo às perguntas formuladas:
1. João é consumidor?
2. EstacioneAqui é fornecedor?
3. Qual o serviço prestado?
4. Aplica-se o CDC à relação em discussão?
5. Houve falha na prestação do serviço?
6. Se houve, foi fato ou vício do serviço?
7. Quem seria o responsável?
8. Ele (o responsável) pode afastar, por cláusula contratual, essa responsabilidade?
9. A partir do momento em que ele afasta a responsabilidade através de cláusula
contratual, esta cláusula é válida? Por que?
Com as respostas às perguntas servindo de argumentação jurídica, elabore um texto para ser
apresentado em sala de aula para discussão com seus colegas.
Respostas:
João é destinatário final do serviço prestado por EstacioneAqui, sendo, portanto, consumidor. O
estacionamento oferece serviço de guarda de veículos, mediante remuneração, sendo,
portanto, fornecedor. Aplicando-se o CDC, verificamos que o serviço foi prestado sem a
qualidade devida, causando prejuízo ao consumidor, evidenciando um acidente de consumo
(fato do serviço – art. 14 do CDC), sendo responsável pelo mesmo o fornecedor
(EstacioneAqui). E mais. Já sabemos que não basta o cumprimento do dever principal do
contrato (guarda de veículos). A boa-fé objetiva impõe o cumprimento dos deveres anexos,
dentre eles, o dever de segurança ou cuidado. Este último, não cumprido pelo fornecedor. Fácil
constatar a abusividade da cláusula em discussão, diante de tais argumentos. O fornecedor
não pode afastar a sua responsabilidade pelo fato do serviço. A cláusula é abusiva e, por isso,
não produzirá efeitos. Aplica-se o art. 51, I do CDC.
A turma agora deve ser divida em dois grupos. O Grupo A deve sustentar uma tese para
defesa de João Alegre. O Grupo B deve sustentar uma tese para defesa do EstacioneAqui.
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Módulo 3 – Direito Comercial e do Consumidor
Respostas:
Ocorrendo qualquer problema com o veículo ali estacionado (furto, arranhão, batida), o
estacionamento é responsável, de acordo com as regras do CDC. A cláusula contratual (que
pode estar no verso do ticket, na placa pendurada na parede, ou qualquer outro local) que
afirma que o estacionamento não é responsável por qualquer dano ocasionado ao consumidor,
é nula de pleno direito, isto é, é como se não estivesse escrita.
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