Fig. 1-3. Anatomia do esôfago. (Fonte: Netter, Frank H. Atlas de Anatomia Humana. 2. ed. Porto Alegre, 2000.
CONTROLE NEURAL DA DEGLUTIÇÃO
O controle neural da deglutição envolve fibras motoras eferentes e aferentes dos nervos cranianos, cérebro,
mesencéfalo e cerebelo e tronco encefálico.10
OO centro da deglutição corresponde a uma organização complexa de elementos neurais do córtex cerebral e do
tronco encefálico.11 Não é totalmente conhecida a representação cortical do mecanismo de deglutição. Estudo com
ressonância magnética funcional mostrou que, durante a deglutição, há ativação de áreas motoras e somatossensoriais
corticais bilateralmente.12
No tronco cerebral, é representada pelo grupo de neurônios localizados na região dorsal do bulbo, junto ao núcleo
do trato solitário e grupo de neurônios da região ventral, situados no núcleo ambíguo. As duas regiões são
representadas nos dois lados do tronco cerebral e interconectadas, sendo cada lado capaz de coordenar as fases
faríngea e esofágica da deglutição.13,14 Os interneurônios essenciais para a resposta da deglutição estão no tronco
cerebral, porém, é o córtex que exerce o comando para a iniciação da mesma.15
A deglutição é um fenômeno fisiológico que pode ser iniciado por um ato consciente voluntário durante a
alimentação, contudo, a deglutição de saliva ocorre subconscientemente, em média, uma vez por minuto. O estímulo
primário é fornecido pelos receptores sensoriais da boca e faringe que ativam regiões centrais da deglutição. A partir
de seu início, as fases oral e faríngea parecem ser controladas, principalmente, por geradores de padrão programados,
localizados dentro dos centros de deglutição do tronco cerebral. A dinâmica de algumas dessas variáveis pode ser
modificada pelo volume e pela consistência do bolo.1
As fibras nervosas aferentes, através dos axônios sensoriais dos nervos glossofaríngeo (IX), vago (X),
especialmente ramo laríngeo superior, facial (VII) e trigêmeo (V),16 trazem as informações provenientes da cavidade
oral, faringe, laringe e esôfago e conduzem-nas até o núcleo do trato solitário. Os neurônios do núcleo do trato
solitário direcionam a informação ao córtex, sendo iniciado o comando da deglutição, que é transmitido aos
interneurônios localizados na região ventral. Os neurônios da região ventral, por sua vez, distribuem e coordenam a
informação gerada no grupo dorsal para os núcleos motores dos nervos cranianos.
Os principais nervos relacionados com a deglutição são: trigêmeo (V par craniano), facial (VII par craniano),
glossofaríngeo (IX par craniano), vago (X par craniano) e hipoglosso (XII par craniano) (Quadro 1-1).
Quadro 1-1. Pares cranianos envolvidos na deglutição
Nervo Inervação Sensorial Inervação Motora
V – Trigêmeo Sensação térmica, tátil, dor Motricidade
Ramo mandibular Ramo mandibular
• 2/3 anteriores da língua – nervo • mms. milo-hióideo; ventre anterior do
lingual digástrico; tensor do véu palatino
• Mucosa jugal, assoalho da boca – • mms. da mastigação: temporal, masseter,
nervo lingual pterigóideo medial/lateral
• Gengivas e dentes inferiores – Ramo alveolar inferior: músculos milo-hióideo e
nervos lingual e alveolar inferior ventre anterior do digástrico
• Articulação temporomandibular –
nervo
• Pele do lábio inferior e da
mandíbula – nervo mentual
Ramo maxilar
• Mucosa da nasofaringe – ramo
faríngeo
• Palatos mole e duro – nervos
palatinos menores e maiores,
nervos nasopalatinos
• Gengivas e dentes superiores –
nervo alveolar superior
• Tonsilas – nervo palatino menor
VII – Facial Paladar Motricidade
2/3 anteriores da língua mms. da expressão facial, estilo-hióideo, platisma
e ventre posterior do digástrico
Ramo marginal mandibular
• Superior: mms. orbicular superior e levantador
do ângulo da boca
• Inferior: mms. orbicular inferior e bucinador
IX – Glossofaríngeo Sensibilidade Motricidade
Orofaringe, tonsilas palatinas, mm. estilofaríngeo
fauces, 2/3 posteriores da língua
Paladar
1/3 terço posterior da língua
Sensação tátil, dor e temperatura
Membrana mucosa da orofaringe,
das tonsilas palatinas, dos arcos das
fauces (pilares) e do 1/3 posterior da
língua
X – Vago Sensibilidade Motricidade – via plexo faríngeo (IX + X)
Ramo faríngeo + XI
• Mucosa do véu palatino, • mms. palatoglosso, salpingofaríngeo e constritor
constritores superior e médio superior da faringe
Ramo interno do laríngeo superior • mms. constritores médio e inferior da faringe
• Mucosa laringofaringe, epiglote,
laringe acima das pregas vocais,
receptores localizados na laringe,
pregas ariepiglóticas e parte
posterior da língua
Ramo nervo laríngeo recorrente
• Mucosa da laringe, abaixo das
pregas vocais, constritor inferior
da faringe e esôfago
Ramo esofágico
• Mucosa e musculatura estriada do
esôfago
Paladar
Epiglote
XI – Acessório porção cranial Motricidade via plexo faríngeo
mms. elevador do véu palatino, uvular,
palatoglosso, salpingofaríngeo e constritor
superior da faringe
XII – Hipoglosso Motricidade
mms. intrínsecos e extrínsecos da língua
• mms. longitudinal superior e inferior, transverso,
vertical, hioglosso, genioglosso e estiloglosso
• mms supra-hióideos: gênio-hióideo e tíreo-
hióideo
mm. = músculo.
FASES DA DEGLUTIÇÃO
Didaticamente, classifica-se a deglutição em três fases: oral, faríngea e esofágica. A fase oral é voluntária, e as fases
faríngea e esofágica são involuntárias.17
Fase Oral
Apresenta os estágios de preparação, qualificação, organização e ejeção.18
Na fase de preparo, ocorre a mastigação e secreção salivar. Na fase de qualificação, ocorre a percepção do bolo em
seu volume, consistência, densidade e grau de umidificação. Na fase de organização, ocorre o posicionamento do bolo
pela língua e, finalmente, na fase de ejeção, a língua, em projeção posterior, gera pressão propulsiva que conduz o
bolo alimentar e transfere pressão para a faringe. Volumes maiores do bolo geram uma força de propulsão mais
intensa e latências mais curtas para desencadear a deglutição.19 A organização oral influi não só na qualidade da
ejeção oral, mas também na efetiva dinâmica da fase faríngea.20