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Este livro fala sobre a intensidade dos sentimentos, a fragilidade dos laços e a força
que nasce nos momentos de dor. É uma jornada entre encontros e despedidas, onde
cada escolha deixa marcas, e cada coração aprende, à sua maneira, o verdadeiro
significado do amor. Uma história poética, delicada e profunda, feita para quem
acredita que, mesmo entre cicatrizes, sempre existe espaço para recomeçar.
Nunca soube explicar quando o amor começou, apenas senti que algo em mim
mudou para sempre. Foi como se o mundo tivesse se reinventado em cores que eu
desconhecia. Desde então, carrego a certeza de que amar não é possuir — é ser
atravessado por algo tão imenso que nenhuma palavra é capaz de conter.
E foi nesse turbilhão silencioso que eu o encontrei. Não em ruas movimentadas, nem
em encontros planejados, mas no instante mais inesperado, quando o tempo
pareceu ceder, como se o universo sussurrasse: “preste atenção, aqui está o que
você procurava.”
Seus olhos não eram os mais claros, nem seu sorriso o mais perfeito, mas havia
algo ali que me desarmava. Algo que dizia: aqui, agora, tudo é possível. Eu quis me
aproximar, mas hesitei, porque já conhecia a verdade cruel de que o amor pode
chegar sem avisar, e ir embora do mesmo jeito, deixando apenas a saudade como
prova de sua existência.
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Ainda assim, havia uma força invisível me guiando, fazendo com que cada passo
meu o aproximasse, como se não houvesse escolha. E naquele instante, percebi
que o amor não espera pelo momento certo — ele cria o momento certo, mesmo que
você não saiba, mesmo que tente fugir.
Naquele primeiro encontro, mal sabíamos nossos nomes. Eu o observei por alguns
segundos, tentando memorizar cada detalhe como quem guarda um segredo
precioso. O jeito que ele mexia no cabelo distraído, a curva suave do seu sorriso, e
algo em seu olhar que parecia entender mais do que eu mesma conseguia dizer.
Foi estranho e inesperado, mas eu senti que algo havia começado ali. Não um conto
de fadas imediato, não promessas fáceis ou sorrisos fabricados. Era apenas uma
sensação, leve, mas insistente, como se o mundo tivesse conspirado para que
nossos caminhos se cruzassem.
E eu, que sempre acreditei em amores lentos e silenciosos, percebi que aquele
encontro, mesmo sem palavras, tinha o poder de mudar tudo. Porque às vezes o
amor não se anuncia com trovões; ele chega como uma brisa suave, mas que, se
você deixar, se infiltra em cada canto do coração.
No início, eu ainda era cautelosa. Mantinha meu tom sereno, meus gestos contidos,
como se precisasse medir cada palavra. Mas havia algo nele — a calma que não
pressionava, o sorriso que não cobrava — que fazia meu coração se abrir sem
medo.
Foi em uma tarde ensolarada, sentados na pracinha perto da escola, que algo
mudou. Ele estava contando uma história desajeitada sobre um desastre que
acontecera no trabalho, e eu ri — primeiro baixinho, depois de forma genuína, até
que minha risada tomou conta de tudo.
— Você ri alto demais! — ele disse, mas com os olhos brilhando, e não com
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reprovação.
— Eu? Ah, você é que fala sério demais! — retruquei, batendo de leve no braço dele.
— A vida é curta demais pra ficar com cara de tédio, sabia?
E foi ali que percebi que podia ser eu mesma com ele. A energia que sempre tentei
guardar para mim explodiu como fogos de artifício silenciosos: gestos exagerados,
risadas, comentários espontâneos, toda aquela minha parte alegre e um pouco
maluca.
Ele me observava com paciência e curiosidade, sem tentar mudar nada. Havia
respeito e interesse no jeito que me olhava, e isso me deu coragem para soltar todas
as camadas de quem eu era.
Eu não sabia exatamente o que dizer, e parecia que o silêncio queria se alongar
entre nós. Mas então ele sorriu de um jeito que não pedia nada e ainda assim
convidava tudo.
Por alguns segundos, ficamos ali, apenas nos observando. Era curioso como duas
pessoas poderiam se sentir tão próximas sem sequer ter trocado mais do que um
cumprimento.
— Você sempre fica assim tão pensativa? — ele perguntou, finalmente quebrando o
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silêncio, mas de uma forma tão gentil que meu coração quase saltou.
— Acho que sim — murmurei, tentando esconder o quanto meu peito batia rápido.
— Mas só com pessoas estranhas… — acrescentei, rindo nervosamente.
Ele riu também, um riso leve, sem pressa, que parecia carregar em si a promessa de
conversas longas e silenciosas ao mesmo tempo.
— Então hoje você vai ter que me suportar — disse ele, e eu senti uma pontada de
algo que não tinha nome ainda, mas que parecia doce e inquietante ao mesmo
tempo.
Era estranho pensar que, em tão pouco tempo, ele já conseguia mexer comigo de
um jeito que ninguém mais havia conseguido. Mas talvez fosse isso o amor: não
precisar de explicações para reconhecer a presença do outro como essencial.
E naquele instante, enquanto o sol começava a se pôr e tingia o céu de tons que
ninguém conseguia nomear, percebi que o primeiro passo de tudo já havia sido
dado. O caminho para o que quer que viesse a seguir começava ali, silencioso, mas
poderoso, como uma promessa que ninguém precisava escrever para saber que
existia.
Mas a vida, como sempre, tem um jeito de lembrar que a felicidade nunca é
completa.
Ele respirou fundo, e um silêncio pesado caiu entre nós, como uma sombra que não
se dissipava.
— É a minha avó… — disse ele, e algo em seus olhos me fez gelar. — Ela… ela não
está bem. Não vai melhorar.
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Meu coração apertou, e eu não sabia o que dizer. Nunca a tinha conhecido, mas
podia sentir a dor dele, profunda e silenciosa. Gustav, que sempre parecia tão calmo,
tão seguro, estava ali vulnerável, e a verdade o esmagava.
— Eu… eu não sei o que fazer — sussurrou ele, a voz quase quebrando. — Ela
sempre foi tudo para mim… minha mãe, meu porto seguro. E agora… — ele engoliu
em seco, tentando conter as lágrimas — agora eu não sei como seguir.
A mão dele tremeu quando a coloquei sobre a minha, e eu senti que, a partir daquele
momento, estar ao lado dele não seria só um desejo — seria uma necessidade. Uma
promessa silenciosa de que, aconteça o que acontecer, não o deixaria sozinho.
E assim, entre a luz que morria no horizonte e a sombra que se aproximava da vida
de Gustav, o primeiro capítulo chegava ao fim: com a certeza de que nada mais
seria igual, e que o verdadeiro teste do amor estava apenas começando.
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Gustav sentiu a ausência da avó como se o chão tivesse desaparecido sob seus
pés. A casa parecia maior, vazia, silenciosa — cada canto carregava a lembrança do
cheiro do pão, das histórias contadas antes de dormir, do abraço que sempre o
acalmava.
No entanto, a vida não esperava. Ele precisava continuar, mas cada passo era
pesado. Foi então que Anmy apareceu em seus pensamentos, com aquela energia
única que sempre o fazia rir, mesmo nos dias mais difíceis. Lembrar do jeito que ela
ria, da luz que parecia sair dela, trouxe a primeira sensação de alívio desde que a
notícia chegara.
E naquele dia, decidindo que não podia se afundar na tristeza sozinho, Gustav saiu
para encontrá-la. Queria dividir com Anmy não só sua dor, mas também o vínculo
que o unia à avó — porque, de alguma forma, ele sentia que ela entenderia.
— Gustav… você parece… diferente hoje — disse Anmy, com aquele sorriso que
sempre parecia iluminar tudo ao redor.
— Eu perdi alguém muito importante — respondeu ele, tentando não quebrar
a voz. — Minha avó… ela era… tudo para mim.
Anmy sentou-se ao lado dele e, sem dizer nada, segurou sua mão. Um gesto
simples, mas cheio de significado. — Eu sinto muito — disse ela, com sinceridade.
— Mas sabe, eu sei como é sentir que precisa ser forte por todos… e ainda assim,
continuar. Você não está sozinho.
Gustav respirou fundo e sentiu uma pontada de esperança. Talvez não fosse só
sobre perder. Talvez fosse sobre aprender a carregar o amor que ficou e dividir essa
carga com quem se importa.
— Obrigado, Anmy… — ele murmurou, e pela primeira vez em dias, sentiu que
podia confiar totalmente em alguém fora da família.
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E naquele instante, Gustav percebeu que, mesmo em meio à dor, havia espaço para
novas conexões, risadas e a leveza que Anmy trazia. Talvez, apenas talvez, a vida
ainda pudesse ter cores mesmo depois da tempestade.
Gustav ainda lembrava claramente das tardes passadas com a avó, quando a
pequena cozinha se transformava em um lugar mágico. Entre o cheiro de biscoitos e
o calor da lareira, ela lhe contava histórias de coragem e bondade, sempre com
aquela voz firme, mas cheia de ternura. Cada palavra dela parecia gravada dentro
dele, formando uma base invisível que sustentaria tudo que ele viria a ser.
Mas não eram apenas momentos felizes. Ele também conheceu o lado duro da vida
cedo demais. Pais ausentes, responsabilidades que pesavam mais do que ele podia
carregar, noites em claro pensando em como ajudar, em como ser forte. E sempre,
sempre, a avó estava ali. Ela era quem lhe lembrava que tudo tinha valor, que cada
ato de amor, por menor que fosse, importava.
Gustav aprendeu com ela que amar é cuidar, mesmo quando dói. Que proteger
alguém não é apenas abraçar, mas também ouvir, compreender e ser paciente. Era
como se cada gesto dela fosse uma lição silenciosa de humanidade, que ele
carregava consigo em cada decisão e pensamento.
Mesmo agora, sentindo o vazio da ausência dela, ele podia sentir a presença dela
em cada canto da casa. No silêncio do quarto, na estante de livros que ela amava,
no cheiro do chá que ele preparava sozinho. Cada lembrança era uma mistura de
dor e gratidão, lembrando-o de que aquilo que ela lhe deu era eterno, mesmo que
ela não estivesse mais ali.
Ele se permitiu fechar os olhos por um instante e lembrar da última vez que a viu
sorrir. O riso dela parecia ter a capacidade de acalmar tempestades. Gustav respirou
fundo, sentindo uma pontada de saudade que o fez apertar os punhos, mas também
uma determinação silenciosa: honrar tudo que ela lhe ensinou, vivendo e amando da
forma que ela queria que ele fosse.
E foi nesse momento, sozinho com suas lembranças, que ele percebeu que
precisava de alguém ao seu lado para compartilhar o peso e a leveza da vida.
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Alguém que o fizesse rir novamente, que trouxesse luz para os dias nublados. E,
sem perceber, o nome dela veio à sua mente: Anmy.
Mesmo antes de mais encontros, ele sentia que ela poderia ser aquela presença
capaz de equilibrar a dor e a esperança, a tristeza e a alegria, assim como a avó
fizera por tantos anos.
Mesmo com a lembrança da avó ainda viva em seu coração, Gustav começou a
perceber algo que o assustava. Ele se importava demais com Anmy. Cada sorriso
dela, cada risada, cada gesto espontâneo de energia e alegria fazia seu peito se
apertar de uma forma que ele ainda não sabia lidar.
Nos dias seguintes, Gustav começou a evitar os lugares onde sabia que poderia
encontrá-la. Não era raiva, não era desinteresse. Era medo — medo de se apegar,
medo de sofrer, medo de perder alguém que, de repente, já significava tanto.
Quando Anmy aparecia, como sempre com sua energia contagiante, ele desviava o
olhar, inventava desculpas para não se sentar ao lado dela, ou simplesmente
desaparecia antes que ela pudesse se aproximar. Cada ação doía, mas ele se dizia
que era necessário: proteger os dois.
— Ela merece alguém que possa estar presente sem medo… — sussurrou Gustav,
sozinho em seu quarto, olhando para a cadeira vazia onde antes a avó se sentava.
— E eu… eu ainda não consigo ser esse alguém.
O coração dele doía, mas a decisão estava tomada. Por mais que a distância o
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machucasse, era a forma que encontrara de manter Anmy segura. Era cruel, mas
acreditava que o amor verdadeiro, às vezes, precisava de sacrifício — mesmo que
custasse a própria felicidade.
Gustav tinha conseguido, por alguns dias, manter a distância. Evitava os lugares
onde sabia que Anmy estaria, diminuía as conversas, até inventava ocupações que
não existiam. Mas Anmy não era do tipo que deixava as coisas simplesmente
morrerem em silêncio.
Ela percebeu o afastamento, o modo como ele desviava o olhar, a falta daquelas
pequenas confidências que antes preenchiam suas tardes. E, pela primeira vez, algo
sério precisava ser dito.
— Gustav! — chamou ela, ao encontrá-lo por acaso na pracinha.
Eu sei que você está triste… mas fugir não resolve nada.
Ele desviou o olhar, o peito apertado. — Eu só… — murmurou, a voz baixa — eu
não quero te machucar. Eu não consigo lidar com tudo isso e ainda me aproximar de
alguém.
Anmy respirou fundo, sentindo a dor dele sem julgá-lo. Então, de repente, sorriu —
não um sorriso qualquer, mas aquele sorriso cheio de luz e energia que sempre o
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desarmava. — Gustav… — disse ela, suavemente — você acha que me protege
ficando longe de mim? Que se afastando, tudo vai ser mais fácil? Não, não vai. Eu
quero estar ao seu lado, mesmo nos dias difíceis. Eu não estou aqui só para rir com
você, estou aqui para te apoiar.
Ele a olhou, surpreso com a firmeza e a ternura dela. Cada palavra era uma ponte,
cada gesto uma mão estendida que ele temia pegar, mas sabia que precisava. —
Mas… e se eu te machucar? — disse ele, quase em sussurros.
— Então vamos lidar com isso juntos — respondeu ela, aproximando-se mais,
segurando a mão dele. — Você não precisa carregar tudo sozinho, Gustav. Eu não
vou desaparecer, e você não precisa me afastar para me proteger.
E, pela primeira vez desde a morte da avó, ele sentiu que talvez pudesse dividir a
dor e a alegria com alguém. Que talvez Anmy fosse justamente o que ele precisava
para aprender que amar não é apenas proteger, mas também se permitir sentir.
— Está bem… — murmurou ele, finalmente, apertando a mão dela. — Vamos tentar.
E naquele momento, uma ponte se refez entre eles, frágil, mas firme. Porque o amor,
quando verdadeiro, sabe que não se constrói sozinho — precisa ser compartilhado,
mesmo com medo.
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Alguns dias depois do reencontro com Gustav, Anmy voltou à pracinha com a
sensação de que a vida ainda podia trazer surpresas. O céu estava limpo, e a brisa
parecia convidar para risadas e pequenas aventuras.
Enquanto ela arrumava o cabelo e olhava ao redor, notou uma jovem sentada no
mesmo banco onde ela e Gustav costumavam se encontrar. A moça parecia
concentrada em um caderno, escrevendo ou desenhando alguma coisa, mas ao
notar Anmy, sorriu de forma tímida.
Desde o primeiro instante, houve uma química estranha e agradável entre elas.
Cleise tinha uma energia semelhante à de Anmy: curiosa, leve e com uma risada
fácil. Não demorou para que começassem a conversar sobre pequenas coisas,
compartilhando histórias do dia a dia, risadas e até alguns desabafos.
— Então você também vem aqui com frequência? — perguntou Anmy, inclinando-se
sobre o banco. — Mais ou menos… — respondeu Cleise, rindo. — Eu gosto de
ficar sentada, observar as pessoas, desenhar… e, às vezes, ouvir conversas que
não me pertencem — ela piscou, brincando.
Anmy riu alto, encantada com a naturalidade da nova amiga. — Olha só! Já temos
algo em comum — disse ela, sorrindo de orelha a orelha. — Mas você sabe, aqui é
meu lugar favorito da cidade, então cuidado, posso te conquistar e te tornar minha
cliente assídua de risadas!
Cleise riu, e o som se misturou com o vento, leve e contagiante. — Está bem,
desafio aceito — respondeu ela, e nesse instante, algo clicou entre as duas. Não era
apenas simpatia; era como se reconhecessem, uma na outra, uma energia que
combinava e se completava.
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própria vida, mesmo aquelas mais difíceis, sem medo de julgamento. Cleise ouvia
com atenção, às vezes comentando, outras apenas sorrindo e deixando Anmy se
abrir naturalmente.
Porque, às vezes, o amor e a amizade andam lado a lado, e novas conexões podem
trazer luz para dias que pareciam cinzentos demais.
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Quinze anos atrás, numa casa simples no interior do Rio Grande, vivia a pequena
Cleise. Uma criança doce, criativa, que adorava desenhar em folhas soltas e dar cor
ao mundo com sua imaginação. Mas dentro daquela casa havia sombras que
nenhuma criança deveria enfrentar.
O pai, dominado pelo vício e pela violência, roubava dela a inocência noite após
noite. Os gestos que deveriam ser de proteção se tornaram medo, e a confiança que
deveria ser refúgio virou prisão.
Cleise tentou contar à mãe. Chorou, implorou por ajuda, mas recebeu apenas a
rejeição mais cruel. — Não fale besteiras! — gritava a mãe, apaixonada demais
pelo marido para enxergar a verdade. — Ele é seu pai!
As palavras foram como lâminas, e Cleise aprendeu cedo que até o amor de uma
mãe pode falhar.
Na escola, porém, algo mudou. Sua professora, ao notar a tristeza nos olhos da
menina, não se conformou com o silêncio. Chamou-a de lado, segurou-lhe as mãos
e perguntou: — O que aconteceu, minha querida? Pode confiar em mim.
E, pela primeira vez, Cleise desabou. Entre lágrimas, contou sua dor. A professora
acreditou. Não questionou, não duvidou. Agiu. Ligou para as autoridades, denunciou
o pai e deu àquela criança a chance de ser protegida.
Mesmo assim, a ferida da rejeição da mãe permaneceu. Cleise cresceu com
cicatrizes invisíveis, que moldaram sua forma de ver o mundo.
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seco e respondeu com sua gentileza habitual: — Sim… seja bem-vindo. Posso te
ajudar a encontrar algo?
Habner caminhou entre as esculturas, observando cada detalhe com interesse
genuíno. Mas, vez ou outra, seu olhar voltava discretamente para Cleise, como se
fosse impossível não notar sua presença.
Naquele instante, ela percebeu que a vida, apesar das dores, ainda podia lhe
oferecer novos encontros — e, talvez, novas formas de [Link] caminhava
pela loja com passos calmos, os olhos percorrendo cada detalhe das esculturas e
quadros expostos. Cleise o observava à distância, curiosa com a sensibilidade dele.
Poucos clientes se demoravam tanto diante de uma peça.
Ela assentiu, com um leve sorriso, mas o olhar carregado de algo mais profundo.
— Eu quis retratar como a infância tenta segurar a luz mesmo quando a noite chega.
A criança desenhando o céu é uma forma de esperança… uma lembrança de que,
mesmo quando tudo parece escuro, ainda podemos criar nossa própria luz.
Habner voltou os olhos para o quadro, mas agora não via apenas a arte — via Cleise
nele. Via sua sensibilidade, sua dor escondida, sua força transformada em beleza.
— Parece tão vivo… — murmurou. — Como se essa criança estivesse tentando me
dizer algo que eu mesmo já senti, mas nunca consegui explicar.
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Cleise baixou os olhos, surpresa com a leitura dele.
— Talvez… porque, no fundo, todos nós já tentamos segurar um entardecer que não
quer ficar.
Um silêncio cheio de significado se fez entre os dois. Habner então respirou fundo e
disse, firme:
— Eu quero esse quadro. Não só porque é lindo, mas porque ele… fala comigo.
Cleise o encarou, surpresa pela intensidade nas palavras. Pela primeira vez em
muito tempo, sentiu-se realmente vista, não como vendedora, mas como artista,
como pessoa.
E Habner, sem perceber, já não estava apaixonado apenas pela obra diante de si,
mas pela alma que a havia criado.
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O namoro com Gustav deixava Anmy radiante. Mesmo com as dificuldades de casa
e as preocupações do dia a dia, bastava estar ao lado dele para que tudo parecesse
suportável. Era como se, pela primeira vez em muito tempo, alguém conseguisse
enxergar a sua essência e oferecer colo em meio ao caos.
— Uau… seu cantinho é lindo — disse Anmy, percorrendo o olhar pelo ambiente. —
Parece que cada detalhe guarda uma parte de você.
As duas se sentaram no sofá, o sol da tarde entrando pela janela e tingindo a sala de
dourado. Foi então que Anmy percebeu algo diferente na amiga: havia um brilho
novo nos olhos dela, uma serenidade inesperada.
Cleise riu também, mas baixinho, com aquele ar de quem guarda algo precioso.
— Talvez… mas não quero falar muito agora. Quero guardar esse começo só para
mim.
— Sabe, Anmy… — começou Cleise, segurando a xícara de café com as duas mãos
— tive uma ideia.
— Que tal… nós quatro sairmos para jantar hoje? — disse Cleise, com um sorriso
tímido. — Você e o Gustav, e eu… bem, estou conhecendo alguém que me faz
sentir coisas que eu não sentia há muito tempo — desviou o olhar, corando, mas não
disse o nome dele — e acho que seria divertido nos reunirmos em um lugar especial.
Cleise sentiu uma pontada de ansiedade misturada com alegria. Era a primeira vez
que pensava em reunir todos nesse tipo de encontro, mas ao mesmo tempo, sentia
que aquele momento poderia ser especial — um passo para novas memórias felizes,
para que cada um pudesse se abrir um pouco mais e deixar o passado doloroso
para trás.
— Você parece sempre tão… animada, Anmy — disse Habner, tentando chamar
atenção.
Habner percebeu que não iria avançar, mas não se importou, continuando a
conversar de forma amigável.
Enquanto isso, Cleise percebeu Gustav prestando atenção nela, sorrindo para suas
provocações sutis. Decidiu brincar um pouco mais:
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— E você, Gustav? Vai ficar só olhando ou vai participar das minhas “aulas de
flerte”? — disse, inclinando-se com um sorriso travesso.
Anmy percebeu a interação, mas não ficou feliz. Seu ciúmes surgiu imediatamente.
Ela se levantou abruptamente, com raiva:
— Espera… o que você está fazendo? Cleise, você está flertando com o Gustav?!
— Brincando?! — repetiu Anmy, visivelmente irritada. — Você sabe muito bem como
eu me sinto! Não quero que brinque com isso!
O jantar continuou, agora mais contido, mas Gustav ainda sorria discretamente para
Cleise, divertido com a situação, enquanto Anmy mantinha distância de Habner,
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mostrando que seu coração estava totalmente voltado para Gustav.
No final da noite, todos saíram do Lier Jiutsy com emoções misturadas: ciúmes,
amores leves e o sentimento de que aquela noite havia distanciado os quatro, ainda
que de formas diferentes.
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9 de janeiro. A manhã começou tranquila na casa de Cleise, que ainda se
recuperava das semanas agitadas no trabalho. Entre xícaras de café e algumas
tarefas domésticas, ela não esperava que aquele dia reservasse algo especial.
À tarde, a campainha tocou. Cleise abriu a porta e encontrou Gustav segurando uma
caixa cuidadosamente embrulhada e um buquê de flores coloridas. Ela arregalou os
olhos, surpresa.
Cleise pegou o buquê e a caixa, ainda com os olhos brilhando de surpresa. Havia
algo naquele gesto simples, mas carregado de carinho, que a fez sentir algo novo
borbulhar dentro de si.
— Eu… — Gustav começou, mas Cleise se aproximou dele antes que pudesse
terminar.
Sem dizer uma palavra, Cleise o beijou. Um beijo suave, porém intenso, cheio de
surpresa, expectativa e o começo de algo novo entre eles. Gustav correspondeu
imediatamente, segurando delicadamente seu rosto, como se quisesse gravar
aquele momento para sempre.
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Quando se separaram, ambos riram levemente, ainda sem conseguir acreditar no
que havia acontecido.
— Então… acho que esse aniversário começou muito bem — disse Cleise, sorrindo,
ainda segurando o buquê.
— E vai ficar ainda melhor — respondeu Gustav, piscando, segurando sua mão. —
Hoje é seu dia.
Aquele 9 de janeiro se tornou inesquecível para Cleise. Um dia simples, que ganhou
um toque mágico graças a gestos sinceros e à coragem de dois corações que,
finalmente, começaram a se aproximar de verdade.
O beijo entre Cleise e Gustav ainda ecoava no ar. Ambos riram baixo, meio
nervosos, meio animados, como se tivessem feito algo proibido, mas que não
conseguiam evitar.
— Esse foi… inesperado — disse Gustav, passando a mão pelo cabelo, sem jeito.
Anmy sentiu o ar sumir dos pulmões. Era Gustav. Gustav e Cleise. Os dois, no sofá
da sala dela, se beijando.
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— Não… isso não pode ser verdade… — sussurrou, com a voz quebrada.
O coração acelerava, cada batida doendo como facadas. Ela releu a imagem mil
vezes, esperando que fosse montagem, algum engano. Mas não. Era real. O homem
que ela amava… e a amiga que mais confiava.
A foto ainda brilhava na tela, cruel, como se zombasse dela. O mundo parecia ter
desabado em um único clique.
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O dia seguinte foi pesado para Anmy. Ela mal dormiu. Cada vez que fechava os
olhos, via a cena de Cleise e Gustav se beijando, como uma tortura constante. A
traição tinha arrancado dela não só um amor, mas também a confiança que tinha em
quem mais acreditava.
Sem pensar duas vezes, Anmy tomou uma decisão. Arrumou suas malas em
silêncio, sem deixar bilhetes, sem enviar mensagens. O coração apertava, mas a
mente dizia que ela precisava se afastar de tudo e de todos, se quisesse se
reconstruir.
Algumas horas depois, Anmy chegava ao seu novo destino. A cidade era diferente,
cheia de movimentos desconhecidos, pessoas que não sabiam nada de sua história.
Ali, ninguém a julgava, ninguém a traía. Era uma chance limpa de começar de novo.
Durante a primeira aula, enquanto ouvia o professor falar sobre a mente humana e
seus labirintos, Anmy pensou em si mesma.
“Talvez entender os outros seja a chave para entender a mim mesma também.”
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A sala de aula cheirava a livros recém-abertos e café. Anmy escolheu um lugar
próximo à janela, tentando se esconder na multidão. Foi então que ouviu uma voz
alegre ao seu lado:
No intervalo, Eloá a convidou para tomar um café na cantina. Entre uma xícara e
outra, contou que também estava animada para o estágio que fariam juntas no
próximo semestre.
— Vai ser incrível, você vai ver. E a gente vai sobreviver juntas às provas — disse,
piscando o olho de forma divertida.
Anmy sorriu, sentindo uma pontada de calor no peito. Não era amor, não era paixão.
Era amizade. Uma amizade que chegava de mansinho, oferecendo aquilo que ela
mais precisava naquele momento: alguém disposto a estar ao seu lado sem pedir
nada em troca.
Anmy se virou e deu de cara com uma garota loira, com roupas caras e expressão
de desprezo.
— Você não vê por onde anda? — disse, franzindo o nariz, claramente irritada.
Antes que Anmy pudesse responder, um rapaz alto, de cabelos escuros e olhar
confiante, se aproximou rapidamente.
— Deixa ela em paz, Mary — disse ele, com tom firme, mas sem perder a calma.
Mary bufou novamente e se afastou, lançando olhares furiosos, mas sem coragem
de discutir mais.
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— Atacada? — perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Acho que posso
considerar isso um elogio.
— Talvez a gente devesse se conhecer melhor — disse Luca, com um olhar firme,
mas amigável. — É Anmy, certo?
— Isso. — Ela assentiu, um pouco sem saber para onde olhar. — E você é o famoso
irmão protetor.
Os três começaram a andar juntos pelo corredor. Mary, de longe, observava, ainda
contrariada. Seus olhos se estreitaram, e um sorriso irônico surgiu em seu rosto —
algo em sua expressão deixava claro que aquilo ainda não tinha acabado.
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— Bom — disse ele, com um meio sorriso — se alguém te incomodar de novo, me
chama.
— Pode deixar. — Ela sorriu de leve, sentindo o coração acelerar sem entender
direito o motivo.
Anmy deu um passo para dentro, sentindo a calma do ambiente... mas, por um
instante, jurou ouvir um som vindo do fundo da sala — como se alguém tivesse
derrubado algo.
Quando se virou, não havia ninguém.
A biblioteca era ampla e silenciosa, iluminada pela luz suave que entrava pelas
janelas altas. As prateleiras cheias de livros davam uma sensação acolhedora, e o
som distante das conversas no corredor parecia desaparecer ali dentro.
Eloá riu.
— Pode ser também. — Ela olhou para o relógio e suspirou. — Droga, esqueci que
tenho que buscar uns papéis na secretaria.
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— Pode ir — disse Anmy. — Eu fico aqui um pouco.
Assim que a porta se fechou, o silêncio se instalou de novo. Luca deu alguns passos,
parando ao lado de Anmy.
— Ela te deixou sob minha responsabilidade, parece — disse ele, com um leve
sorriso.
Ela estava prestes a retrucar quando, de repente, um livro caiu da estante de cima
— rápido demais, como se tivesse sido empurrado.
— Cuidado! — gritou Luca, puxando Anmy pela cintura e a fazendo se inclinar contra
ele.
O livro bateu no chão com um som seco. Por um instante, o mundo pareceu parar.
Os dois ficaram tão próximos que Anmy pôde sentir o coração dele batendo
acelerado — ou talvez fosse o dela.
— Viu? — disse ele, ainda segurando-a. — Eu avisei. Livros podem ser traiçoeiros.
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Luca sorriu, sem soltar sua cintura.
— Missão cumprida, então.
Por um momento, eles ficaram em silêncio, trocando olhares. A distância entre eles
parecia cada vez menor, e o ar ficou carregado de algo novo — suave, mas intenso.
— Talvez — disse ele, baixinho. — Ou talvez o destino tenha dado uma ajudinha.
Antes que ela pudesse responder, a porta da biblioteca se abriu de novo e Eloá
entrou, com um monte de papéis na mão.
— Espero não estar interrompendo nada — disse, com um sorrisinho suspeito.
Luca apenas sorriu, abaixou-se para pegar o livro caído e o colocou de volta na
prateleira.
Mas, antes de sair, olhou para ela e disse em tom baixo:
— Da próxima vez que algo cair, prometo te salvar de novo.
Luca caminhou até uma das prateleiras e puxou um livro de capa azul.
— Esse aqui é um dos meus preferidos — disse ele, folheando as páginas. — Quer
ler comigo?
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— Por que não? — respondeu ele, com um sorriso tranquilo. — É mais divertido do
que parece.
— Fechado. — Ele puxou duas cadeiras perto da janela, onde a luz dourada da
tarde entrava suavemente.
Os dois se sentaram lado a lado, e Luca abriu o livro entre eles, de forma que
pudessem ler juntos. O vento fazia as cortinas balançarem devagar, e o som das
páginas sendo viradas era o único barulho no ar.
— “Ele olhou para ela, e naquele instante soube que nada seria como antes…” —
leu Luca, em voz baixa, quase sussurrando.
— Só um pouco.
Enquanto riam, uma sombra passou rapidamente pela janela. Mary, do lado de fora,
caminhava pelo corredor. Ao olhar para dentro, parou de repente.
Seus olhos se estreitaram ao ver Luca e Anmy sentados tão próximos, dividindo o
mesmo livro — e, no instante seguinte, Luca inclinou o braço sobre o encosto da
cadeira dela, puxando-a levemente para mais perto.
— Tá ventando — disse ele, num tom natural, ajustando a cortina. — Não quero que
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você fique com frio.
De volta à biblioteca, Anmy ainda estava perto o suficiente para sentir o calor do
braço de Luca.
— Obrigada… por, hm, “me proteger do vento” — disse ela, rindo baixinho.
Ele sorriu, olhando para ela com um brilho divertido nos olhos.
— Parece que eu tô me especializando nisso.
Anmy levantou o olhar e encontrou o dele. Por um segundo, o tempo pareceu parar.
E, mesmo sem dizer nada, os dois sabiam que aquele momento — simples,
silencioso e cheio de significado — ficaria gravado na memória deles.
Mary caminhava apressada pelo corredor, os saltos ecoando a cada passo firme. O
rosto ainda ardia de raiva ao lembrar da cena que acabara de ver: Luca e Anmy,
lado a lado, rindo, como se fossem feitos um para o outro. Aquilo a deixava furiosa.
— Ela acha que pode simplesmente chegar aqui e tomar tudo o que quiser? —
murmurou para si mesma, apertando o celular nas mãos.
Assim que chegou ao jardim, onde ninguém poderia ouvir, abriu a lista de contatos e
procurou um nome que não via há algum tempo: Gustav.
Seus dedos hesitaram por um instante, mas a raiva venceu a dúvida.
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O celular chamou duas vezes antes que uma voz masculina, firme e familiar,
atendesse:
— Mary? Isso é uma surpresa.
— Oi, Gus — disse ela, com um tom doce, mas carregado de segundas intenções.
— Quanto tempo, não é?
— Bastante. — Ele riu de leve. — Achei que você tivesse esquecido de mim.
Do outro lado, o silêncio durou alguns segundos. A voz dele veio um pouco mais fria:
— Claro que lembro.
— Quero dizer que ela anda muito… próxima do Luca — respondeu, enfatizando o
nome. — E eu sei que você não é do tipo que deixa as coisas assim, sem
explicações.
Houve outro silêncio. Mary podia quase sentir a tensão do outro lado da linha.
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— Entendi. — A voz dele soou mais dura. — Posso estar aí amanhã.
— Ótimo — disse ela, satisfeita. — Vai ser interessante ver como ela reage.
Assim que desligou, Mary cruzou os braços e olhou para o céu, onde o sol já
começava a se pôr.
Um vento frio soprou entre as árvores, e o sorriso em seu rosto se alargou.
— Vamos ver se ela ainda sorri quando o passado bater na porta — murmurou,
antes de sair andando com passos lentos, saboreando a própria vingança.
Perfeito, Kakau Aqui vai a continuação exatamente como você pediu — com um
clima doce e romântico entre Luca e Anmy, contrastando com a tensão do
reencontro inesperado com Gustav. Tudo no mesmo estilo leve, envolvente e
cinematográfico do resto da história:
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— Tava pensando… — ele começou, coçando a nuca, um pouco sem jeito — você
topa sair um pouco? Tem uma sorveteria ótima perto do parque do centro. Eu pago o
sorvete, mas você escolhe o sabor.
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— Então tá combinado. — Ele sorriu, satisfeito.
Pouco depois, os dois caminhavam lado a lado pelas ruas tranquilas da cidade. O ar
tinha aquele cheiro leve de fim de tarde, e as luzes começavam a se acender nas
vitrines. Luca falava sobre o colégio, sobre Eloá e até sobre as confusões que Mary
causava, e Anmy ria de cada comentário, sentindo-se cada vez mais à vontade.
— Sabe — disse Anmy, sentando-se num banco — fazia tempo que eu não me
sentia tão tranquila assim.
Antes que ela pudesse responder, algo chamou sua atenção. Um rapaz alto, de
jaqueta escura e expressão séria, atravessava a rua. Ele olhou rapidamente para o
parque — e seus olhos se encontraram com os de Anmy.
Ela congelou.
O sorvete quase escorregou de sua mão.
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O nome fez Luca olhar na mesma direção. O rapaz agora caminhava para o outro
lado, seguindo pela calçada que levava ao bairro de Mary.
O coração de Anmy batia rápido, uma mistura de surpresa e lembranças ruins.
Anmy levantou o olhar, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, Luca se inclinou
um pouco e depositou um beijo suave em sua testa.
O gesto foi simples, mas cheio de significado.
E, do outro lado da rua, Gustav desaparecia na esquina — sem imaginar que seu
retorno mudaria tudo novamente.
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Nem sempre Mary foi a garota fria e arrogante que todos conheciam.
Houve um tempo em que ela só queria ser notada.
O pai, Sr. Arthur Verdan, fazia tudo para agradá-la: comprava presentes, realizava
seus caprichos e a chamava de “minha princesinha”.
Mary acreditava que ele era o único que realmente se importava com ela.
A mãe, Sra. Helena, era o completo oposto. Fria, distante e mais preocupada com a
própria aparência e status do que com a filha, raramente demonstrava carinho.
Quando Mary tentava se aproximar, recebia apenas respostas curtas e olhares
indiferentes.
— Mamãe, olha o que papai me deu! — dizia Mary, sorridente, mostrando algum
presente novo.
— Que bom, querida — respondia Helena, sem desviar os olhos do espelho.
Com o tempo, Mary aprendeu a buscar atenção da única forma que sabia: sendo
perfeita.
Notas impecáveis, postura elegante, sorrisos forçados.
Mas por dentro, o que ela queria mesmo era um abraço.
Arthur, o pai que ela tanto idolatrava, morreu em um acidente de carro numa viagem
a negócios.
O mundo de Mary desabou.
Mas o que veio depois foi ainda pior.
Poucos meses após o funeral, a verdade veio à tona: Arthur tinha um filho fora do
casamento.
O nome dele era Gustav — fruto de uma relação antiga com a empregada da família.
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Mary ficou em choque.
— Você está dizendo… que papai me traiu? — perguntou ela à mãe, com lágrimas
nos olhos.
Helena apenas deu de ombros.
— Não é da sua conta. Isso aconteceu antes de você nascer.
Gustav, por outro lado, nunca pediu para nascer naquele escândalo.
Após a morte do pai, ele foi morar com a avó materna em outra cidade — uma
senhora simples e bondosa que o criou com amor e princípios.
Ainda assim, cresceu com o peso de ser “o filho bastardo”.
Mary, então, ficou sozinha com uma mãe que mal lembrava de sua existência.
As paredes da casa grande, antes cheias de risadas e presentes, agora eram frias e
silenciosas.
Helena raramente dormia em casa; passava noites em festas e viagens, deixando
Mary cada vez mais sozinha.
“Ele levou tudo o que era meu”, pensava Mary, olhando para o espelho.
"Mas agora... É minha vez de tirar algo deles"
Atualmente..
O som dos passos de Gustav ecoava pela calçada enquanto ele subia a rua em
direção à antiga mansão dos Verdan.
O tempo havia passado, mas o lugar parecia o mesmo: os portões de ferro, o jardim
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impecável, e aquele ar frio de casa que guardava segredos demais.
Ela deu alguns passos, o som dos saltos ecoando no piso de mármore.
— Digamos que… eu preciso de um favor.
— Um favor? — Ele cruzou os braços. — Depois de todos esses anos sem sequer
uma mensagem?
Mary virou o rosto para o portão, de onde se via parte da cidade iluminada pela lua.
— Uma garota nova no colégio. O nome dela é Anmy.
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— Vejo que lembra dela — disse Mary, com um brilho satisfeito no olhar. — Pois é.
Ela está de volta. E não veio sozinha.
— O filho do diretor do colégio. Popular, inteligente… o tipo de cara que gosta de ser
o herói da história. — Ela riu de leve. — E adivinha quem ele resolveu proteger?
— Chame como quiser — disse ela, fria. — Mas, no fim, os dois merecem uma lição.
O silêncio pairou por alguns segundos. Gustav respirou fundo, como se lutasse
contra si mesmo.
Por mais que não quisesse admitir, parte dele ainda sentia algo por Anmy — algo
entre arrependimento e saudade.
Mary percebeu.
— Não me diga que ainda sente alguma coisa por ela… — disse em tom debochado.
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— Eu… não sei — respondeu ele, baixo. — Mas sei que ela não é como você pensa.
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