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O livro explora a intensidade dos sentimentos e a fragilidade dos laços humanos, destacando a jornada do amor entre encontros e despedidas. A narrativa é centrada em Anmy e Gustav, que, em meio a momentos de alegria e dor, descobrem a importância de se apoiar um ao outro diante das adversidades. A história revela que o amor é uma mistura de risos e tristezas, e que mesmo nas cicatrizes, há espaço para recomeços.
Direitos autorais
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O livro explora a intensidade dos sentimentos e a fragilidade dos laços humanos, destacando a jornada do amor entre encontros e despedidas. A narrativa é centrada em Anmy e Gustav, que, em meio a momentos de alegria e dor, descobrem a importância de se apoiar um ao outro diante das adversidades. A história revela que o amor é uma mistura de risos e tristezas, e que mesmo nas cicatrizes, há espaço para recomeços.
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Resumo

Este livro fala sobre a intensidade dos sentimentos, a fragilidade dos laços e a força
que nasce nos momentos de dor. É uma jornada entre encontros e despedidas, onde
cada escolha deixa marcas, e cada coração aprende, à sua maneira, o verdadeiro
significado do amor. Uma história poética, delicada e profunda, feita para quem
acredita que, mesmo entre cicatrizes, sempre existe espaço para recomeçar.

Nunca soube explicar quando o amor começou, apenas senti que algo em mim
mudou para sempre. Foi como se o mundo tivesse se reinventado em cores que eu
desconhecia. Desde então, carrego a certeza de que amar não é possuir — é ser
atravessado por algo tão imenso que nenhuma palavra é capaz de conter.

E foi nesse turbilhão silencioso que eu o encontrei. Não em ruas movimentadas, nem
em encontros planejados, mas no instante mais inesperado, quando o tempo
pareceu ceder, como se o universo sussurrasse: “preste atenção, aqui está o que
você procurava.”

Seus olhos não eram os mais claros, nem seu sorriso o mais perfeito, mas havia
algo ali que me desarmava. Algo que dizia: aqui, agora, tudo é possível. Eu quis me
aproximar, mas hesitei, porque já conhecia a verdade cruel de que o amor pode
chegar sem avisar, e ir embora do mesmo jeito, deixando apenas a saudade como
prova de sua existência.

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Ainda assim, havia uma força invisível me guiando, fazendo com que cada passo
meu o aproximasse, como se não houvesse escolha. E naquele instante, percebi
que o amor não espera pelo momento certo — ele cria o momento certo, mesmo que
você não saiba, mesmo que tente fugir.

Naquele primeiro encontro, mal sabíamos nossos nomes. Eu o observei por alguns
segundos, tentando memorizar cada detalhe como quem guarda um segredo
precioso. O jeito que ele mexia no cabelo distraído, a curva suave do seu sorriso, e
algo em seu olhar que parecia entender mais do que eu mesma conseguia dizer.

Foi estranho e inesperado, mas eu senti que algo havia começado ali. Não um conto
de fadas imediato, não promessas fáceis ou sorrisos fabricados. Era apenas uma
sensação, leve, mas insistente, como se o mundo tivesse conspirado para que
nossos caminhos se cruzassem.

E eu, que sempre acreditei em amores lentos e silenciosos, percebi que aquele
encontro, mesmo sem palavras, tinha o poder de mudar tudo. Porque às vezes o
amor não se anuncia com trovões; ele chega como uma brisa suave, mas que, se
você deixar, se infiltra em cada canto do coração.

Nos dias seguintes, nossos encontros começaram a se tornar menos acidentais e


mais… inevitáveis. Não que tenhamos planejado nada, mas cada conversa parecia
criar um fio invisível entre nós, puxando-nos um para o outro.

No início, eu ainda era cautelosa. Mantinha meu tom sereno, meus gestos contidos,
como se precisasse medir cada palavra. Mas havia algo nele — a calma que não
pressionava, o sorriso que não cobrava — que fazia meu coração se abrir sem
medo.

Foi em uma tarde ensolarada, sentados na pracinha perto da escola, que algo
mudou. Ele estava contando uma história desajeitada sobre um desastre que
acontecera no trabalho, e eu ri — primeiro baixinho, depois de forma genuína, até
que minha risada tomou conta de tudo.

— Você ri alto demais! — ele disse, mas com os olhos brilhando, e não com
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reprovação.
— Eu? Ah, você é que fala sério demais! — retruquei, batendo de leve no braço dele.
— A vida é curta demais pra ficar com cara de tédio, sabia?

E foi ali que percebi que podia ser eu mesma com ele. A energia que sempre tentei
guardar para mim explodiu como fogos de artifício silenciosos: gestos exagerados,
risadas, comentários espontâneos, toda aquela minha parte alegre e um pouco
maluca.

Ele me observava com paciência e curiosidade, sem tentar mudar nada. Havia
respeito e interesse no jeito que me olhava, e isso me deu coragem para soltar todas
as camadas de quem eu era.

— Sério, você é impossível! — ele disse entre risos.


— Impossível de não gostar, né? — brinquei, piscando para ele com aquele brilho
que só aparecia quando eu me sentia completamente à vontade.

E naquele momento, percebi que o amor não é apenas silêncio contemplativo ou


momentos calmos. Ele também é riso alto, energia compartilhada, pequenas
loucuras que ninguém mais entende. É nessa mistura que se reconhece alguém que
vale a pena.

Eu não sabia exatamente o que dizer, e parecia que o silêncio queria se alongar
entre nós. Mas então ele sorriu de um jeito que não pedia nada e ainda assim
convidava tudo.

— Oi — disse ele, simples, como se fosse a coisa mais natural do mundo.


— Oi — respondi, sentindo que a minha voz soava mais trêmula do que eu
imaginava.

Por alguns segundos, ficamos ali, apenas nos observando. Era curioso como duas
pessoas poderiam se sentir tão próximas sem sequer ter trocado mais do que um
cumprimento.

— Você sempre fica assim tão pensativa? — ele perguntou, finalmente quebrando o
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silêncio, mas de uma forma tão gentil que meu coração quase saltou.
— Acho que sim — murmurei, tentando esconder o quanto meu peito batia rápido.
— Mas só com pessoas estranhas… — acrescentei, rindo nervosamente.

Ele riu também, um riso leve, sem pressa, que parecia carregar em si a promessa de
conversas longas e silenciosas ao mesmo tempo.
— Então hoje você vai ter que me suportar — disse ele, e eu senti uma pontada de
algo que não tinha nome ainda, mas que parecia doce e inquietante ao mesmo
tempo.

Era estranho pensar que, em tão pouco tempo, ele já conseguia mexer comigo de
um jeito que ninguém mais havia conseguido. Mas talvez fosse isso o amor: não
precisar de explicações para reconhecer a presença do outro como essencial.

E naquele instante, enquanto o sol começava a se pôr e tingia o céu de tons que
ninguém conseguia nomear, percebi que o primeiro passo de tudo já havia sido
dado. O caminho para o que quer que viesse a seguir começava ali, silencioso, mas
poderoso, como uma promessa que ninguém precisava escrever para saber que
existia.

Sentados na pracinha, o tempo parecia suspenso. Rimos, conversamos e, por


alguns instantes, esquecemos os pesos que carregávamos em casa. Era raro me
sentir assim: leve, sem precisar segurar cada emoção. E eu podia ver que Gustav
também se sentia mais aberto, mais vivo.

Mas a vida, como sempre, tem um jeito de lembrar que a felicidade nunca é
completa.

— Anmy… — sua voz quebrou o momento, hesitante.


— O que foi? — perguntei, percebendo que havia algo errado.

Ele respirou fundo, e um silêncio pesado caiu entre nós, como uma sombra que não
se dissipava.
— É a minha avó… — disse ele, e algo em seus olhos me fez gelar. — Ela… ela não
está bem. Não vai melhorar.
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Meu coração apertou, e eu não sabia o que dizer. Nunca a tinha conhecido, mas
podia sentir a dor dele, profunda e silenciosa. Gustav, que sempre parecia tão calmo,
tão seguro, estava ali vulnerável, e a verdade o esmagava.

— Eu… eu não sei o que fazer — sussurrou ele, a voz quase quebrando. — Ela
sempre foi tudo para mim… minha mãe, meu porto seguro. E agora… — ele engoliu
em seco, tentando conter as lágrimas — agora eu não sei como seguir.

E naquele instante, enquanto o sol se punha e tingia o céu de tons de ouro e


sangue, percebi que nossas vidas haviam mudado. O vínculo que começava a
nascer entre nós não era apenas alegria e riso; era também dor, responsabilidade e
perda.

A mão dele tremeu quando a coloquei sobre a minha, e eu senti que, a partir daquele
momento, estar ao lado dele não seria só um desejo — seria uma necessidade. Uma
promessa silenciosa de que, aconteça o que acontecer, não o deixaria sozinho.

E assim, entre a luz que morria no horizonte e a sombra que se aproximava da vida
de Gustav, o primeiro capítulo chegava ao fim: com a certeza de que nada mais
seria igual, e que o verdadeiro teste do amor estava apenas começando.

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Gustav sentiu a ausência da avó como se o chão tivesse desaparecido sob seus
pés. A casa parecia maior, vazia, silenciosa — cada canto carregava a lembrança do
cheiro do pão, das histórias contadas antes de dormir, do abraço que sempre o
acalmava.

Ele se pegava revivendo memórias pequenas e grandes: o riso dela, os conselhos,


até as pequenas broncas que hoje pareciam tão doces. Tudo isso doía, e ao mesmo
tempo, mostrava o quanto ela havia moldado quem ele era.

No entanto, a vida não esperava. Ele precisava continuar, mas cada passo era
pesado. Foi então que Anmy apareceu em seus pensamentos, com aquela energia
única que sempre o fazia rir, mesmo nos dias mais difíceis. Lembrar do jeito que ela
ria, da luz que parecia sair dela, trouxe a primeira sensação de alívio desde que a
notícia chegara.

E naquele dia, decidindo que não podia se afundar na tristeza sozinho, Gustav saiu
para encontrá-la. Queria dividir com Anmy não só sua dor, mas também o vínculo
que o unia à avó — porque, de alguma forma, ele sentia que ela entenderia.
— Gustav… você parece… diferente hoje — disse Anmy, com aquele sorriso que
sempre parecia iluminar tudo ao redor.
— Eu perdi alguém muito importante — respondeu ele, tentando não quebrar
a voz. — Minha avó… ela era… tudo para mim.

Anmy sentou-se ao lado dele e, sem dizer nada, segurou sua mão. Um gesto
simples, mas cheio de significado. — Eu sinto muito — disse ela, com sinceridade.
— Mas sabe, eu sei como é sentir que precisa ser forte por todos… e ainda assim,
continuar. Você não está sozinho.

Gustav respirou fundo e sentiu uma pontada de esperança. Talvez não fosse só
sobre perder. Talvez fosse sobre aprender a carregar o amor que ficou e dividir essa
carga com quem se importa.
— Obrigado, Anmy… — ele murmurou, e pela primeira vez em dias, sentiu que
podia confiar totalmente em alguém fora da família.

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E naquele instante, Gustav percebeu que, mesmo em meio à dor, havia espaço para
novas conexões, risadas e a leveza que Anmy trazia. Talvez, apenas talvez, a vida
ainda pudesse ter cores mesmo depois da tempestade.

Gustav ainda lembrava claramente das tardes passadas com a avó, quando a
pequena cozinha se transformava em um lugar mágico. Entre o cheiro de biscoitos e
o calor da lareira, ela lhe contava histórias de coragem e bondade, sempre com
aquela voz firme, mas cheia de ternura. Cada palavra dela parecia gravada dentro
dele, formando uma base invisível que sustentaria tudo que ele viria a ser.

Mas não eram apenas momentos felizes. Ele também conheceu o lado duro da vida
cedo demais. Pais ausentes, responsabilidades que pesavam mais do que ele podia
carregar, noites em claro pensando em como ajudar, em como ser forte. E sempre,
sempre, a avó estava ali. Ela era quem lhe lembrava que tudo tinha valor, que cada
ato de amor, por menor que fosse, importava.

Gustav aprendeu com ela que amar é cuidar, mesmo quando dói. Que proteger
alguém não é apenas abraçar, mas também ouvir, compreender e ser paciente. Era
como se cada gesto dela fosse uma lição silenciosa de humanidade, que ele
carregava consigo em cada decisão e pensamento.

Mesmo agora, sentindo o vazio da ausência dela, ele podia sentir a presença dela
em cada canto da casa. No silêncio do quarto, na estante de livros que ela amava,
no cheiro do chá que ele preparava sozinho. Cada lembrança era uma mistura de
dor e gratidão, lembrando-o de que aquilo que ela lhe deu era eterno, mesmo que
ela não estivesse mais ali.

Ele se permitiu fechar os olhos por um instante e lembrar da última vez que a viu
sorrir. O riso dela parecia ter a capacidade de acalmar tempestades. Gustav respirou
fundo, sentindo uma pontada de saudade que o fez apertar os punhos, mas também
uma determinação silenciosa: honrar tudo que ela lhe ensinou, vivendo e amando da
forma que ela queria que ele fosse.

E foi nesse momento, sozinho com suas lembranças, que ele percebeu que
precisava de alguém ao seu lado para compartilhar o peso e a leveza da vida.
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Alguém que o fizesse rir novamente, que trouxesse luz para os dias nublados. E,
sem perceber, o nome dela veio à sua mente: Anmy.

Mesmo antes de mais encontros, ele sentia que ela poderia ser aquela presença
capaz de equilibrar a dor e a esperança, a tristeza e a alegria, assim como a avó
fizera por tantos anos.

Mesmo com a lembrança da avó ainda viva em seu coração, Gustav começou a
perceber algo que o assustava. Ele se importava demais com Anmy. Cada sorriso
dela, cada risada, cada gesto espontâneo de energia e alegria fazia seu peito se
apertar de uma forma que ele ainda não sabia lidar.

— Não posso me aproximar… — murmurou para si mesmo, enquanto caminhava


sozinho pelas ruas silenciosas da cidade. — Não quero que ela sofra se algo
acontecer comigo… ou se eu não estiver forte o suficiente.

Nos dias seguintes, Gustav começou a evitar os lugares onde sabia que poderia
encontrá-la. Não era raiva, não era desinteresse. Era medo — medo de se apegar,
medo de sofrer, medo de perder alguém que, de repente, já significava tanto.

Quando Anmy aparecia, como sempre com sua energia contagiante, ele desviava o
olhar, inventava desculpas para não se sentar ao lado dela, ou simplesmente
desaparecia antes que ela pudesse se aproximar. Cada ação doía, mas ele se dizia
que era necessário: proteger os dois.

E ainda assim, mesmo afastando-se, não conseguia apagar a lembrança do toque


da mão dela, do brilho nos olhos, da risada que invadia qualquer tristeza. Era como
se Anmy fosse uma luz que ele tentava ignorar, mas que insistia em brilhar em cada
canto do seu coração.

— Ela merece alguém que possa estar presente sem medo… — sussurrou Gustav,
sozinho em seu quarto, olhando para a cadeira vazia onde antes a avó se sentava.
— E eu… eu ainda não consigo ser esse alguém.

O coração dele doía, mas a decisão estava tomada. Por mais que a distância o
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machucasse, era a forma que encontrara de manter Anmy segura. Era cruel, mas
acreditava que o amor verdadeiro, às vezes, precisava de sacrifício — mesmo que
custasse a própria felicidade.

E assim, enquanto a cidade seguia sua rotina indiferente, Gustav começou a se


afastar de Anmy, silenciosamente, criando uma barreira entre eles que só ele sabia
que existia. Uma barreira feita de medo, proteção e a certeza de que, por mais que
desejasse, não podia se entregar de imediato.

Gustav tinha conseguido, por alguns dias, manter a distância. Evitava os lugares
onde sabia que Anmy estaria, diminuía as conversas, até inventava ocupações que
não existiam. Mas Anmy não era do tipo que deixava as coisas simplesmente
morrerem em silêncio.

Ela percebeu o afastamento, o modo como ele desviava o olhar, a falta daquelas
pequenas confidências que antes preenchiam suas tardes. E, pela primeira vez, algo
sério precisava ser dito.
— Gustav! — chamou ela, ao encontrá-lo por acaso na pracinha.

A voz carregava urgência, mas também cuidado. — Precisamos conversar.


Ele engoliu em seco, os músculos tensos. Tentou dar meia-volta, mas algo na
determinação dela o fez parar. — Anmy… — começou, hesitante — eu… eu pensei
que…
— Que o que? — interrompeu ela, aproximando-se, olhos fixos nos dele. — Que
podia se afastar sem me explicar? Gustav, eu sei que algo está acontecendo com
você.

Eu sei que você está triste… mas fugir não resolve nada.
Ele desviou o olhar, o peito apertado. — Eu só… — murmurou, a voz baixa — eu
não quero te machucar. Eu não consigo lidar com tudo isso e ainda me aproximar de
alguém.

Anmy respirou fundo, sentindo a dor dele sem julgá-lo. Então, de repente, sorriu —
não um sorriso qualquer, mas aquele sorriso cheio de luz e energia que sempre o

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desarmava. — Gustav… — disse ela, suavemente — você acha que me protege
ficando longe de mim? Que se afastando, tudo vai ser mais fácil? Não, não vai. Eu
quero estar ao seu lado, mesmo nos dias difíceis. Eu não estou aqui só para rir com
você, estou aqui para te apoiar.

Ele a olhou, surpreso com a firmeza e a ternura dela. Cada palavra era uma ponte,
cada gesto uma mão estendida que ele temia pegar, mas sabia que precisava. —
Mas… e se eu te machucar? — disse ele, quase em sussurros.

— Então vamos lidar com isso juntos — respondeu ela, aproximando-se mais,
segurando a mão dele. — Você não precisa carregar tudo sozinho, Gustav. Eu não
vou desaparecer, e você não precisa me afastar para me proteger.

Por um instante, tudo ficou em silêncio. O vento soprava suave, misturando a


tristeza e a esperança, como se a própria cidade tivesse parado para ouvir. Gustav
sentiu o peso da decisão em suas mãos: podia continuar se afastando ou se permitir
confiar novamente.

E, pela primeira vez desde a morte da avó, ele sentiu que talvez pudesse dividir a
dor e a alegria com alguém. Que talvez Anmy fosse justamente o que ele precisava
para aprender que amar não é apenas proteger, mas também se permitir sentir.
— Está bem… — murmurou ele, finalmente, apertando a mão dela. — Vamos tentar.

E naquele momento, uma ponte se refez entre eles, frágil, mas firme. Porque o amor,
quando verdadeiro, sabe que não se constrói sozinho — precisa ser compartilhado,
mesmo com medo.

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Alguns dias depois do reencontro com Gustav, Anmy voltou à pracinha com a
sensação de que a vida ainda podia trazer surpresas. O céu estava limpo, e a brisa
parecia convidar para risadas e pequenas aventuras.

Enquanto ela arrumava o cabelo e olhava ao redor, notou uma jovem sentada no
mesmo banco onde ela e Gustav costumavam se encontrar. A moça parecia
concentrada em um caderno, escrevendo ou desenhando alguma coisa, mas ao
notar Anmy, sorriu de forma tímida.

— Oi! — disse Anmy, aproximando-se com seu jeito espontâneo e energético. — Eu


sou Anmy.
— Oi… — respondeu a jovem, fechando o caderno. — Eu me chamo Cleise.

Desde o primeiro instante, houve uma química estranha e agradável entre elas.
Cleise tinha uma energia semelhante à de Anmy: curiosa, leve e com uma risada
fácil. Não demorou para que começassem a conversar sobre pequenas coisas,
compartilhando histórias do dia a dia, risadas e até alguns desabafos.

— Então você também vem aqui com frequência? — perguntou Anmy, inclinando-se
sobre o banco. — Mais ou menos… — respondeu Cleise, rindo. — Eu gosto de
ficar sentada, observar as pessoas, desenhar… e, às vezes, ouvir conversas que
não me pertencem — ela piscou, brincando.

Anmy riu alto, encantada com a naturalidade da nova amiga. — Olha só! Já temos
algo em comum — disse ela, sorrindo de orelha a orelha. — Mas você sabe, aqui é
meu lugar favorito da cidade, então cuidado, posso te conquistar e te tornar minha
cliente assídua de risadas!

Cleise riu, e o som se misturou com o vento, leve e contagiante. — Está bem,
desafio aceito — respondeu ela, e nesse instante, algo clicou entre as duas. Não era
apenas simpatia; era como se reconhecessem, uma na outra, uma energia que
combinava e se completava.

Enquanto conversavam, Anmy percebeu que podia compartilhar pequenas partes da

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própria vida, mesmo aquelas mais difíceis, sem medo de julgamento. Cleise ouvia
com atenção, às vezes comentando, outras apenas sorrindo e deixando Anmy se
abrir naturalmente.

E naquele banco da pracinha, entre folhas balançando ao vento e o sol se pondo


suavemente, nasceu uma nova amizade. Uma amizade que prometia risadas, apoio
e muitas histórias compartilhadas, e que logo se tornaria um elo importante na vida
de Anmy — e, de maneira indireta, também de Gustav.

Porque, às vezes, o amor e a amizade andam lado a lado, e novas conexões podem
trazer luz para dias que pareciam cinzentos demais.

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Quinze anos atrás, numa casa simples no interior do Rio Grande, vivia a pequena
Cleise. Uma criança doce, criativa, que adorava desenhar em folhas soltas e dar cor
ao mundo com sua imaginação. Mas dentro daquela casa havia sombras que
nenhuma criança deveria enfrentar.
O pai, dominado pelo vício e pela violência, roubava dela a inocência noite após
noite. Os gestos que deveriam ser de proteção se tornaram medo, e a confiança que
deveria ser refúgio virou prisão.
Cleise tentou contar à mãe. Chorou, implorou por ajuda, mas recebeu apenas a
rejeição mais cruel. — Não fale besteiras! — gritava a mãe, apaixonada demais
pelo marido para enxergar a verdade. — Ele é seu pai!
As palavras foram como lâminas, e Cleise aprendeu cedo que até o amor de uma
mãe pode falhar.
Na escola, porém, algo mudou. Sua professora, ao notar a tristeza nos olhos da
menina, não se conformou com o silêncio. Chamou-a de lado, segurou-lhe as mãos
e perguntou: — O que aconteceu, minha querida? Pode confiar em mim.
E, pela primeira vez, Cleise desabou. Entre lágrimas, contou sua dor. A professora
acreditou. Não questionou, não duvidou. Agiu. Ligou para as autoridades, denunciou
o pai e deu àquela criança a chance de ser protegida.
Mesmo assim, a ferida da rejeição da mãe permaneceu. Cleise cresceu com
cicatrizes invisíveis, que moldaram sua forma de ver o mundo.

Anos depois, no presente.


Cleise agora é uma jovem formada em Artes. Trabalha em uma loja de esculturas no
centro da cidade, cercada por estátuas de mármore, peças em madeira e pinturas
que, de algum modo, também contavam histórias de dor e de superação. A arte era
o seu refúgio, sua forma de transformar lembranças pesadas em algo belo.
Certa tarde, enquanto organizava algumas peças na vitrine, um jovem entrou na loja.
O sino da porta tilintou, e Cleise levantou os olhos.
Ele era alto, de postura firme e olhar sereno. Seus traços eram marcantes, e havia
algo em sua presença que imediatamente chamou atenção.
— Boa tarde, meu nome é Habner— disse ele, com um sorriso discreto,
aproximando-se do balcão. — Você trabalha aqui?
Cleise sentiu o coração acelerar, como se uma energia diferente invadisse o
ambiente. Havia muito tempo que ela não se surpreendia com alguém. Engoliu em

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seco e respondeu com sua gentileza habitual: — Sim… seja bem-vindo. Posso te
ajudar a encontrar algo?
Habner caminhou entre as esculturas, observando cada detalhe com interesse
genuíno. Mas, vez ou outra, seu olhar voltava discretamente para Cleise, como se
fosse impossível não notar sua presença.
Naquele instante, ela percebeu que a vida, apesar das dores, ainda podia lhe
oferecer novos encontros — e, talvez, novas formas de [Link] caminhava
pela loja com passos calmos, os olhos percorrendo cada detalhe das esculturas e
quadros expostos. Cleise o observava à distância, curiosa com a sensibilidade dele.
Poucos clientes se demoravam tanto diante de uma peça.

De repente, ele parou. O olhar se fixou em um quadro em relevo, esculpido em


madeira clara e pintado à mão: uma criança sentada sob a sombra de uma árvore,
desenhando o céu que se transformava do dourado do entardecer para o azul
profundo da noite.

Habner ficou imóvel, como se o tempo tivesse parado ao redor.


— Esse… — disse, quase num sussurro — esse quadro é… incrível.

Cleise se aproximou devagar, sentindo o coração acelerar.


— Essa obra é muito especial. — fez uma pausa, respirou fundo e completou: — Eu
a fiz.

Habner virou-se para ela, surpreso.


— Você?

Ela assentiu, com um leve sorriso, mas o olhar carregado de algo mais profundo.
— Eu quis retratar como a infância tenta segurar a luz mesmo quando a noite chega.
A criança desenhando o céu é uma forma de esperança… uma lembrança de que,
mesmo quando tudo parece escuro, ainda podemos criar nossa própria luz.

Habner voltou os olhos para o quadro, mas agora não via apenas a arte — via Cleise
nele. Via sua sensibilidade, sua dor escondida, sua força transformada em beleza.
— Parece tão vivo… — murmurou. — Como se essa criança estivesse tentando me
dizer algo que eu mesmo já senti, mas nunca consegui explicar.
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Cleise baixou os olhos, surpresa com a leitura dele.
— Talvez… porque, no fundo, todos nós já tentamos segurar um entardecer que não
quer ficar.

Um silêncio cheio de significado se fez entre os dois. Habner então respirou fundo e
disse, firme:
— Eu quero esse quadro. Não só porque é lindo, mas porque ele… fala comigo.

Cleise o encarou, surpresa pela intensidade nas palavras. Pela primeira vez em
muito tempo, sentiu-se realmente vista, não como vendedora, mas como artista,
como pessoa.

E Habner, sem perceber, já não estava apaixonado apenas pela obra diante de si,
mas pela alma que a havia criado.

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O namoro com Gustav deixava Anmy radiante. Mesmo com as dificuldades de casa
e as preocupações do dia a dia, bastava estar ao lado dele para que tudo parecesse
suportável. Era como se, pela primeira vez em muito tempo, alguém conseguisse
enxergar a sua essência e oferecer colo em meio ao caos.

Numa tarde de sábado, Anmy resolveu visitar Cleise. O pequeno apartamento da


amiga era simples, mas aconchegante: quadros coloridos cobriam as paredes,
esculturas ocupavam as prateleiras, e o aroma suave de café recém-passado
tomava conta do ar.

— Uau… seu cantinho é lindo — disse Anmy, percorrendo o olhar pelo ambiente. —
Parece que cada detalhe guarda uma parte de você.

Cleise sorriu, servindo duas xícaras de café fumegante.


— Talvez guarde mesmo. A arte sempre acaba revelando o que a gente não
consegue dizer.

As duas se sentaram no sofá, o sol da tarde entrando pela janela e tingindo a sala de
dourado. Foi então que Anmy percebeu algo diferente na amiga: havia um brilho
novo nos olhos dela, uma serenidade inesperada.

— Você está diferente — disse Anmy, estreitando os olhos com um sorriso


brincalhão. — Diferente de um jeito bom. O que aconteceu?

Cleise respirou fundo, mordendo levemente o lábio antes de responder:


— Eu conheci uma pessoa.

Anmy arregalou os olhos, surpresa.


— O quê? Uma pessoa? Me conta!

Cleise desviou o olhar, corando.


— É… alguém que me fez sentir coisas que eu pensei que nunca mais sentiria.
Alguém que me olhou como se pudesse ver além de mim.

Anmy riu, entusiasmada, e segurou a mão dela.


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— Então você está apaixonada!

Cleise riu também, mas baixinho, com aquele ar de quem guarda algo precioso.
— Talvez… mas não quero falar muito agora. Quero guardar esse começo só para
mim.

Anmy assentiu, compreensiva.


— Tudo bem. Mas seja quem for, ele deve ser muito especial para fazer seus olhos
brilharem desse jeito.

Cleise encostou-se no sofá, abraçando a xícara de café. O nome Habner ecoava em


silêncio em sua mente, junto com a lembrança do olhar dele diante do quadro que
ela mesma havia feito.

Enquanto as duas conversavam no sofá, rindo e compartilhando confidências, Cleise


tomou coragem para propor algo. Ela sabia que a amizade delas, e agora os novos
romances surgindo, poderiam se fortalecer ainda mais com um momento divertido e
leve.

— Sabe, Anmy… — começou Cleise, segurando a xícara de café com as duas mãos
— tive uma ideia.

Anmy ergueu a sobrancelha, curiosa.


— Ah é? Qual seria?

— Que tal… nós quatro sairmos para jantar hoje? — disse Cleise, com um sorriso
tímido. — Você e o Gustav, e eu… bem, estou conhecendo alguém que me faz
sentir coisas que eu não sentia há muito tempo — desviou o olhar, corando, mas não
disse o nome dele — e acho que seria divertido nos reunirmos em um lugar especial.

Anmy riu, animada com a ideia.


— Nossa, isso seria incrível! Um jantar para celebrar a vida, os amigos e… quem
sabe um pouco de romance também!

Cleise assentiu, animada.


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— E pensei em um lugar perfeito: o Lier Jiutsy, o restaurante mais famoso da cidade.
A comida é maravilhosa, o ambiente é elegante, e o clima… ótimo para conversas,
risadas e talvez alguns olhares discretos para quem está apaixonado.

Anmy sorriu, encantada com a empolgação da amiga.


— Perfeito! Então está combinado. Hoje à noite, nós quatro no Lier Jiutsy. Vai ser
incrível!

Cleise sentiu uma pontada de ansiedade misturada com alegria. Era a primeira vez
que pensava em reunir todos nesse tipo de encontro, mas ao mesmo tempo, sentia
que aquele momento poderia ser especial — um passo para novas memórias felizes,
para que cada um pudesse se abrir um pouco mais e deixar o passado doloroso
para trás.

E assim, naquele apartamento simples e acolhedor, os planos começaram a se


formar: uma noite de risadas, confidências e talvez, no meio disso tudo, o início de
algo ainda maior para cada um deles.

O jantar no Lier Jiutsy estava animado. Risadas e conversas preenchiam a mesa.


Habner olhava para Anmy, tentando um sorriso e pequenos comentários, mas ela
apenas sorria educadamente, ignorando qualquer flerte.

— Você parece sempre tão… animada, Anmy — disse Habner, tentando chamar
atenção.

Anmy apenas riu, de forma gentil, mas desviou o olhar:


— Ah, obrigada. Você realmente gosta da comida daqui? — perguntou, mudando o
foco, sem dar abertura para o flerte.

Habner percebeu que não iria avançar, mas não se importou, continuando a
conversar de forma amigável.

Enquanto isso, Cleise percebeu Gustav prestando atenção nela, sorrindo para suas
provocações sutis. Decidiu brincar um pouco mais:

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— E você, Gustav? Vai ficar só olhando ou vai participar das minhas “aulas de
flerte”? — disse, inclinando-se com um sorriso travesso.

Gustav riu, sentindo-se divertido e entretido, e respondeu:


— Acho que vou precisar dessas aulas… mas só com você! — disse, piscando,
encantado com a ousadia dela.

Anmy percebeu a interação, mas não ficou feliz. Seu ciúmes surgiu imediatamente.
Ela se levantou abruptamente, com raiva:
— Espera… o que você está fazendo? Cleise, você está flertando com o Gustav?!

Cleise ergueu as sobrancelhas, surpresa:


— O quê? Não, Anmy, eu só estava brincando!

— Brincando?! — repetiu Anmy, visivelmente irritada. — Você sabe muito bem como
eu me sinto! Não quero que brinque com isso!

Gustav tentou intervir, mas Cleise falou antes:


— Anmy, calma! Não estou tentando te machucar! É só uma brincadeira!

— Uma brincadeira? — Anmy cerrou os punhos, tentando não chorar. — Parecia


que você realmente estava flertando com ele!

Cleise suspirou, percebendo o quanto tinha sido mal interpretada:


— Tá… eu entendi. Desculpa mesmo. Não vai acontecer de novo.

Anmy respirou fundo, tentando se acalmar:


— Tá… tudo bem. Mas da próxima vez, me avisa antes de brincar assim com
alguém que eu gosto.

Cleise sorriu timidamente:


— Combinado. Prometo.

O jantar continuou, agora mais contido, mas Gustav ainda sorria discretamente para
Cleise, divertido com a situação, enquanto Anmy mantinha distância de Habner,

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mostrando que seu coração estava totalmente voltado para Gustav.

No final da noite, todos saíram do Lier Jiutsy com emoções misturadas: ciúmes,
amores leves e o sentimento de que aquela noite havia distanciado os quatro, ainda
que de formas diferentes.

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9 de janeiro. A manhã começou tranquila na casa de Cleise, que ainda se
recuperava das semanas agitadas no trabalho. Entre xícaras de café e algumas
tarefas domésticas, ela não esperava que aquele dia reservasse algo especial.

À tarde, a campainha tocou. Cleise abriu a porta e encontrou Gustav segurando uma
caixa cuidadosamente embrulhada e um buquê de flores coloridas. Ela arregalou os
olhos, surpresa.

— Gustav? O que você… — começou, sem conseguir terminar a frase, surpresa


com o gesto inesperado.

— Feliz aniversário, Cleise! — disse Gustav, sorrindo, entregando os presentes e as


flores. — Espero que goste.

Cleise pegou o buquê e a caixa, ainda com os olhos brilhando de surpresa. Havia
algo naquele gesto simples, mas carregado de carinho, que a fez sentir algo novo
borbulhar dentro de si.

— Isso é… inesperado — murmurou ela, ainda segurando os presentes. Mas ao


mesmo tempo, algo no olhar dele a fez sentir-se acolhida. — Mas… entra, vai.

Gustav entrou, ainda segurando o sorriso e o buquê de flores. O ambiente simples


da casa de Cleise parecia ter se transformado em algo especial, quase mágico
naquele instante.

Ela o conduziu até a sala, e por um momento ficaram em silêncio, apenas


observando um ao outro, o clima carregado de emoção.

— Eu… — Gustav começou, mas Cleise se aproximou dele antes que pudesse
terminar.

Sem dizer uma palavra, Cleise o beijou. Um beijo suave, porém intenso, cheio de
surpresa, expectativa e o começo de algo novo entre eles. Gustav correspondeu
imediatamente, segurando delicadamente seu rosto, como se quisesse gravar
aquele momento para sempre.
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Quando se separaram, ambos riram levemente, ainda sem conseguir acreditar no
que havia acontecido.

— Então… acho que esse aniversário começou muito bem — disse Cleise, sorrindo,
ainda segurando o buquê.

— E vai ficar ainda melhor — respondeu Gustav, piscando, segurando sua mão. —
Hoje é seu dia.

Aquele 9 de janeiro se tornou inesquecível para Cleise. Um dia simples, que ganhou
um toque mágico graças a gestos sinceros e à coragem de dois corações que,
finalmente, começaram a se aproximar de verdade.

O beijo entre Cleise e Gustav ainda ecoava no ar. Ambos riram baixo, meio
nervosos, meio animados, como se tivessem feito algo proibido, mas que não
conseguiam evitar.

— Esse foi… inesperado — disse Gustav, passando a mão pelo cabelo, sem jeito.

— Mas eu gostei — confessou Cleise, sorrindo, com os olhos brilhando.

Enquanto isso, em outro canto da cidade, Anmy ajeitava os livros na escrivaninha de


seu quarto, tentando se distrair. O celular vibrou em cima da mesa. Ela pegou o
aparelho distraidamente, sem imaginar que aquele toque mudaria seu dia — e seu
coração.

Na tela, uma notificação. Uma mensagem anônima. Ela clicou.

Era uma foto.

Anmy sentiu o ar sumir dos pulmões. Era Gustav. Gustav e Cleise. Os dois, no sofá
da sala dela, se beijando.

A mão tremeu, os olhos marejaram em segundos.

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— Não… isso não pode ser verdade… — sussurrou, com a voz quebrada.

O coração acelerava, cada batida doendo como facadas. Ela releu a imagem mil
vezes, esperando que fosse montagem, algum engano. Mas não. Era real. O homem
que ela amava… e a amiga que mais confiava.

As lágrimas desceram sem pedir permissão. A raiva e a tristeza se misturavam, um


nó sufocante na garganta.
— Eu amava você… Gustav… — murmurou, abraçando o próprio corpo, como se
tentasse se segurar de não desmoronar.

A foto ainda brilhava na tela, cruel, como se zombasse dela. O mundo parecia ter
desabado em um único clique.

Naquela noite, o aniversário de Cleise se transformava em um marco de dor para


Anmy. Um momento que jamais seria esquecido, porque foi o dia em que ela
descobriu que até o amor mais puro e silencioso, pode se tornar uma dor
terrivelmente dolorosa na vida de uma garota.

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O dia seguinte foi pesado para Anmy. Ela mal dormiu. Cada vez que fechava os
olhos, via a cena de Cleise e Gustav se beijando, como uma tortura constante. A
traição tinha arrancado dela não só um amor, mas também a confiança que tinha em
quem mais acreditava.

Sem pensar duas vezes, Anmy tomou uma decisão. Arrumou suas malas em
silêncio, sem deixar bilhetes, sem enviar mensagens. O coração apertava, mas a
mente dizia que ela precisava se afastar de tudo e de todos, se quisesse se
reconstruir.

Na madrugada, ela entrou em um ônibus rumo a outra cidade. Sentada na poltrona,


observava as luzes da sua antiga vida ficando para trás pela janela embaçada. Uma
lágrima escorreu, mas junto dela veio um suspiro de alívio.
— É hora de recomeçar… por mim. — disse baixinho, como uma promessa.

Algumas horas depois, Anmy chegava ao seu novo destino. A cidade era diferente,
cheia de movimentos desconhecidos, pessoas que não sabiam nada de sua história.
Ali, ninguém a julgava, ninguém a traía. Era uma chance limpa de começar de novo.

Logo na semana seguinte, ela deu início às aulas na faculdade de Psicologia. Ao


entrar no campus, sentiu um frio na barriga. Os corredores cheios de estudantes, a
energia de novidade no ar… tudo a lembrava de que ela estava abrindo um novo
capítulo de sua vida.

Durante a primeira aula, enquanto ouvia o professor falar sobre a mente humana e
seus labirintos, Anmy pensou em si mesma.
“Talvez entender os outros seja a chave para entender a mim mesma também.”

Ela sorriu de leve, sentindo uma faísca de esperança.


O sol da manhã iluminava o campus, e Anmy sentia os passos pesados ao
atravessar o portão da faculdade. Tudo ali era novo: os corredores largos, as vozes
misturadas de desconhecidos, os murais cheios de anúncios coloridos. O coração
dela batia forte, não só pelo nervosismo do primeiro dia, mas pelo peso de estar
começando uma vida totalmente distante do que havia deixado para trás.

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A sala de aula cheirava a livros recém-abertos e café. Anmy escolheu um lugar
próximo à janela, tentando se esconder na multidão. Foi então que ouviu uma voz
alegre ao seu lado:

— Essa também é sua primeira aula? — perguntou uma jovem de cabelos


cacheados, olhos vivos e um sorriso caloroso.

— Sim… é tudo meio novo pra mim — respondeu Anmy, tímida.

— Pra mim também. — A garota estendeu a mão. — Eu sou a Eloá.

Anmy hesitou por um instante, mas retribuiu o gesto.


— Eu sou a Anmy.

Eloá sorriu ainda mais.


— Acho que a gente vai se dar bem.

Durante a aula, enquanto o professor falava sobre a mente humana e suas


complexidades, Eloá puxava pequenas conversas discretas, arrancando risadas
tímidas de Anmy. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que talvez fosse
possível construir algo novo — sem medo, sem feridas expostas o tempo todo.

No intervalo, Eloá a convidou para tomar um café na cantina. Entre uma xícara e
outra, contou que também estava animada para o estágio que fariam juntas no
próximo semestre.
— Vai ser incrível, você vai ver. E a gente vai sobreviver juntas às provas — disse,
piscando o olho de forma divertida.

Anmy sorriu, sentindo uma pontada de calor no peito. Não era amor, não era paixão.
Era amizade. Uma amizade que chegava de mansinho, oferecendo aquilo que ela
mais precisava naquele momento: alguém disposto a estar ao seu lado sem pedir
nada em troca.

Anmy caminhava pela cantina, observando as prateleiras de doces, tentando se


distrair e aproveitar aquele pequeno momento de liberdade. Ela escolheu um
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chocolate, estendeu a mão… e de repente, sentiu um esbarrão forte.

— Ei! Cuidado! — uma voz aguda soou atrás dela.

Anmy se virou e deu de cara com uma garota loira, com roupas caras e expressão
de desprezo.
— Você não vê por onde anda? — disse, franzindo o nariz, claramente irritada.

Antes que Anmy pudesse responder, um rapaz alto, de cabelos escuros e olhar
confiante, se aproximou rapidamente.

— Deixa ela em paz, Mary — disse ele, com tom firme, mas sem perder a calma.

Mary bufou, revirando os olhos, claramente incomodada com a presença dele.

Anmy ficou surpresa, olhando para o rapaz que a havia defendido.

Eloá, que estava próxima, sorriu e comentou:


— Ah, você não conhece? Esse é meu irmão, Luca. Sempre protege quem precisa.

Anmy piscou, surpresa e aliviada.


— Ah… então é ele! Que bom que estava por perto.

Mary bufou novamente e se afastou, lançando olhares furiosos, mas sem coragem
de discutir mais.

Eloá olhou para Anmy, rindo baixo:


— Eu disse que ele ia cuidar de você. Meu irmão não deixa ninguém maltratar quem
ele gosta de proteger.

Anmy sorriu de leve, sentindo um misto de alívio e curiosidade sobre Luca.


— Bom, pelo menos não fui a única a ser atacada hoje — disse, guardando o
chocolate.

Luca deu um pequeno sorriso ao ouvir o comentário de Anmy.

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— Atacada? — perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Acho que posso
considerar isso um elogio.

Anmy corou levemente, tentando disfarçar.


— Eu quis dizer… atacada por pessoas irritadas — respondeu, rindo sem graça.

Eloá balançou a cabeça, divertida.


— Vocês dois parecem até que já se conhecem há tempos.

— Talvez a gente devesse se conhecer melhor — disse Luca, com um olhar firme,
mas amigável. — É Anmy, certo?

— Isso. — Ela assentiu, um pouco sem saber para onde olhar. — E você é o famoso
irmão protetor.

Ele riu, passando a mão pelos cabelos.


— Famoso? Espero que por bons motivos.

Eloá fez um gesto com as mãos.


— Vamos, gente. O sinal já vai bater. E eu ainda quero mostrar a biblioteca nova pra
Anmy.

Os três começaram a andar juntos pelo corredor. Mary, de longe, observava, ainda
contrariada. Seus olhos se estreitaram, e um sorriso irônico surgiu em seu rosto —
algo em sua expressão deixava claro que aquilo ainda não tinha acabado.

Enquanto seguiam, Anmy sentia um peso estranho no peito, como se o encontro


com aquela garota loira tivesse sido mais do que um simples esbarrão. Havia algo
naquela troca de olhares que ela não conseguia esquecer — uma sensação fria,
quase como um aviso.

— Tá tudo bem? — perguntou Luca, notando o silêncio dela.

— Hm? — Ela piscou, voltando à realidade. — Sim, só... distraída, eu acho.

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— Bom — disse ele, com um meio sorriso — se alguém te incomodar de novo, me
chama.

— Pode deixar. — Ela sorriu de leve, sentindo o coração acelerar sem entender
direito o motivo.

Eloá abriu a porta da biblioteca, e um cheiro de livros novos e madeira encerada


tomou o ar.
— Aqui é o meu lugar favorito da escola — disse ela, animada. — E acho que vai ser
o seu também.

Anmy deu um passo para dentro, sentindo a calma do ambiente... mas, por um
instante, jurou ouvir um som vindo do fundo da sala — como se alguém tivesse
derrubado algo.
Quando se virou, não havia ninguém.

Luca franziu o cenho.


— Estranho... você ouviu isso também?

A biblioteca era ampla e silenciosa, iluminada pela luz suave que entrava pelas
janelas altas. As prateleiras cheias de livros davam uma sensação acolhedora, e o
som distante das conversas no corredor parecia desaparecer ali dentro.

— Uau… — murmurou Anmy, deslizando os dedos sobre as lombadas coloridas. —


É ainda mais bonita do que eu imaginei.

— Eu disse, né? — respondeu Eloá, sorrindo orgulhosa. — Quase ninguém vem


aqui, então é o lugar perfeito pra fugir um pouco da bagunça.

Luca se encostou na parede, observando as duas com um olhar tranquilo.


— E pra se esconder da Mary, talvez — comentou, em tom brincalhão.

Eloá riu.
— Pode ser também. — Ela olhou para o relógio e suspirou. — Droga, esqueci que
tenho que buscar uns papéis na secretaria.
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— Pode ir — disse Anmy. — Eu fico aqui um pouco.

— Tem certeza? — perguntou Eloá, arqueando a sobrancelha.

— Tenho, sim. Prometo não me perder entre os livros.

Eloá sorriu, pegou a mochila e caminhou até a porta.


— Então tá. Luca, fica de olho nela, hein? — falou antes de sair, piscando para o
irmão.

Assim que a porta se fechou, o silêncio se instalou de novo. Luca deu alguns passos,
parando ao lado de Anmy.
— Ela te deixou sob minha responsabilidade, parece — disse ele, com um leve
sorriso.

Anmy riu baixo.


— Não acho que eu precise de proteção aqui dentro.

— Nunca se sabe — respondeu ele, fingindo mistério. — Livros podem ser


perigosos.

Ela estava prestes a retrucar quando, de repente, um livro caiu da estante de cima
— rápido demais, como se tivesse sido empurrado.
— Cuidado! — gritou Luca, puxando Anmy pela cintura e a fazendo se inclinar contra
ele.

O livro bateu no chão com um som seco. Por um instante, o mundo pareceu parar.
Os dois ficaram tão próximos que Anmy pôde sentir o coração dele batendo
acelerado — ou talvez fosse o dela.

— Viu? — disse ele, ainda segurando-a. — Eu avisei. Livros podem ser traiçoeiros.

Anmy olhou pra ele, o rosto corando.


— Acho que você acabou de me salvar de um ataque literário.

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Luca sorriu, sem soltar sua cintura.
— Missão cumprida, então.

Por um momento, eles ficaram em silêncio, trocando olhares. A distância entre eles
parecia cada vez menor, e o ar ficou carregado de algo novo — suave, mas intenso.

Anmy desviou o olhar primeiro, tentando disfarçar o sorriso.


— Acho que… o livro só caiu.

— Talvez — disse ele, baixinho. — Ou talvez o destino tenha dado uma ajudinha.

Antes que ela pudesse responder, a porta da biblioteca se abriu de novo e Eloá
entrou, com um monte de papéis na mão.
— Espero não estar interrompendo nada — disse, com um sorrisinho suspeito.

— Não… nada demais — respondeu Anmy rápido, se afastando um passo.

Luca apenas sorriu, abaixou-se para pegar o livro caído e o colocou de volta na
prateleira.
Mas, antes de sair, olhou para ela e disse em tom baixo:
— Da próxima vez que algo cair, prometo te salvar de novo.

Anmy sentiu o rosto esquentar e sorriu, sem conseguir responder.

Depois daquilo, o silêncio voltou a tomar conta da biblioteca. Eloá já estava


concentrada nos papéis que havia trazido, e Anmy tentava ignorar o coração ainda
acelerado.

Luca caminhou até uma das prateleiras e puxou um livro de capa azul.
— Esse aqui é um dos meus preferidos — disse ele, folheando as páginas. — Quer
ler comigo?

Anmy arqueou as sobrancelhas, surpresa.


— Ler… juntos?

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— Por que não? — respondeu ele, com um sorriso tranquilo. — É mais divertido do
que parece.

Ela riu de leve, balançando a cabeça.


— Tudo bem. Mas só se você me deixar escolher o próximo.

— Fechado. — Ele puxou duas cadeiras perto da janela, onde a luz dourada da
tarde entrava suavemente.

Os dois se sentaram lado a lado, e Luca abriu o livro entre eles, de forma que
pudessem ler juntos. O vento fazia as cortinas balançarem devagar, e o som das
páginas sendo viradas era o único barulho no ar.

— “Ele olhou para ela, e naquele instante soube que nada seria como antes…” —
leu Luca, em voz baixa, quase sussurrando.

Anmy sorriu, encantada com o tom suave dele.


— Você lê bem… parece até que faz parte da história.

— Talvez eu queira fazer — respondeu ele, olhando-a de canto, com um meio


sorriso.

Ela desviou o olhar, tentando esconder o rubor no rosto.


— Você é terrível.

— Só um pouco.

Enquanto riam, uma sombra passou rapidamente pela janela. Mary, do lado de fora,
caminhava pelo corredor. Ao olhar para dentro, parou de repente.
Seus olhos se estreitaram ao ver Luca e Anmy sentados tão próximos, dividindo o
mesmo livro — e, no instante seguinte, Luca inclinou o braço sobre o encosto da
cadeira dela, puxando-a levemente para mais perto.

— Tá ventando — disse ele, num tom natural, ajustando a cortina. — Não quero que

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você fique com frio.

Mas, para Mary, do lado de fora, aquilo parecia um abraço.


O rosto dela se fechou, o maxilar trincou, e ela cruzou os braços, irritada.

— Ótimo… — murmurou, virando-se e saindo apressada, os saltos ecoando pelo


corredor.

De volta à biblioteca, Anmy ainda estava perto o suficiente para sentir o calor do
braço de Luca.
— Obrigada… por, hm, “me proteger do vento” — disse ela, rindo baixinho.

Ele sorriu, olhando para ela com um brilho divertido nos olhos.
— Parece que eu tô me especializando nisso.

Anmy abriu o livro novamente, tentando disfarçar o nervosismo.


— Então… onde a gente parou mesmo?

Luca inclinou a cabeça, e com um tom calmo respondeu:


— Na parte em que o rapaz finalmente percebe que a garota é especial.

Anmy levantou o olhar e encontrou o dele. Por um segundo, o tempo pareceu parar.
E, mesmo sem dizer nada, os dois sabiam que aquele momento — simples,
silencioso e cheio de significado — ficaria gravado na memória deles.

Mary caminhava apressada pelo corredor, os saltos ecoando a cada passo firme. O
rosto ainda ardia de raiva ao lembrar da cena que acabara de ver: Luca e Anmy,
lado a lado, rindo, como se fossem feitos um para o outro. Aquilo a deixava furiosa.

— Ela acha que pode simplesmente chegar aqui e tomar tudo o que quiser? —
murmurou para si mesma, apertando o celular nas mãos.

Assim que chegou ao jardim, onde ninguém poderia ouvir, abriu a lista de contatos e
procurou um nome que não via há algum tempo: Gustav.
Seus dedos hesitaram por um instante, mas a raiva venceu a dúvida.

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O celular chamou duas vezes antes que uma voz masculina, firme e familiar,
atendesse:
— Mary? Isso é uma surpresa.

— Oi, Gus — disse ela, com um tom doce, mas carregado de segundas intenções.
— Quanto tempo, não é?

— Bastante. — Ele riu de leve. — Achei que você tivesse esquecido de mim.

Mary olhou em volta, certificando-se de que ninguém estava por perto.


— Esquecer de você? Nunca. — Fez uma pausa, mudando o tom. — Escuta… você
ainda lembra da Anmy, não lembra?

Do outro lado, o silêncio durou alguns segundos. A voz dele veio um pouco mais fria:
— Claro que lembro.

Mary sorriu, satisfeita com a reação.


— Pois é… ela está aqui. Na nossa cidade. E, acredite, já arrumou alguém pra ficar
de olho nela.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou ele, intrigado.

— Quero dizer que ela anda muito… próxima do Luca — respondeu, enfatizando o
nome. — E eu sei que você não é do tipo que deixa as coisas assim, sem
explicações.

Houve outro silêncio. Mary podia quase sentir a tensão do outro lado da linha.

— Onde exatamente ela está? — perguntou Gustav, num tom baixo.

Mary sorriu de canto.


— No colégio municipal, no turno da tarde. Mas, se você vier, não precisa dizer que
fui eu quem contou. Vamos dizer que… o destino quis que vocês se reencontrassem.

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— Entendi. — A voz dele soou mais dura. — Posso estar aí amanhã.

— Ótimo — disse ela, satisfeita. — Vai ser interessante ver como ela reage.

Assim que desligou, Mary cruzou os braços e olhou para o céu, onde o sol já
começava a se pôr.
Um vento frio soprou entre as árvores, e o sorriso em seu rosto se alargou.

— Vamos ver se ela ainda sorri quando o passado bater na porta — murmurou,
antes de sair andando com passos lentos, saboreando a própria vingança.
Perfeito, Kakau Aqui vai a continuação exatamente como você pediu — com um
clima doce e romântico entre Luca e Anmy, contrastando com a tensão do
reencontro inesperado com Gustav. Tudo no mesmo estilo leve, envolvente e
cinematográfico do resto da história:

---

O sol da tarde já começava a se esconder quando as aulas terminaram. Anmy ainda


pensava na cena da biblioteca — no jeito como Luca a olhara, e nas palavras que
pareciam ter outro significado por trás.

Enquanto guardava os livros na mochila, ouviu a voz dele atrás de si:


— Ei, Anmy.

Ela se virou, sorrindo sem querer.


— Oi.

— Tava pensando… — ele começou, coçando a nuca, um pouco sem jeito — você
topa sair um pouco? Tem uma sorveteria ótima perto do parque do centro. Eu pago o
sorvete, mas você escolhe o sabor.

Anmy riu, ajeitando o cabelo.


— Um convite desses é difícil recusar.

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— Então tá combinado. — Ele sorriu, satisfeito.

Pouco depois, os dois caminhavam lado a lado pelas ruas tranquilas da cidade. O ar
tinha aquele cheiro leve de fim de tarde, e as luzes começavam a se acender nas
vitrines. Luca falava sobre o colégio, sobre Eloá e até sobre as confusões que Mary
causava, e Anmy ria de cada comentário, sentindo-se cada vez mais à vontade.

Quando chegaram à sorveteria, escolheram seus sabores favoritos — ele, chocolate


com amendoim; ela, morango com flocos — e seguiram para o parque em frente,
onde o vento fazia as folhas das árvores dançarem.

— Sabe — disse Anmy, sentando-se num banco — fazia tempo que eu não me
sentia tão tranquila assim.

Luca a olhou por um momento, o sorriso suave.


— Que bom. Você merece isso.

Ela desviou o olhar, tentando esconder o rubor.


— Às vezes parece que eu só atraio confusão.

— Não comigo — respondeu ele, com firmeza. — Comigo você tá segura.

Antes que ela pudesse responder, algo chamou sua atenção. Um rapaz alto, de
jaqueta escura e expressão séria, atravessava a rua. Ele olhou rapidamente para o
parque — e seus olhos se encontraram com os de Anmy.

Ela congelou.
O sorvete quase escorregou de sua mão.

Luca percebeu na hora.


— Anmy? Você tá bem?

Ela demorou um instante para responder, a voz falhando um pouco:


— Aquele… aquele cara. Eu o conheço. É o Gustav.

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O nome fez Luca olhar na mesma direção. O rapaz agora caminhava para o outro
lado, seguindo pela calçada que levava ao bairro de Mary.
O coração de Anmy batia rápido, uma mistura de surpresa e lembranças ruins.

Luca se levantou e ficou em frente a ela, bloqueando parte da visão.


— Ei, olha pra mim — disse, com voz calma. — Você tá segura, entendeu? Ninguém
vai te machucar enquanto eu estiver aqui.

Anmy levantou o olhar, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, Luca se inclinou
um pouco e depositou um beijo suave em sua testa.
O gesto foi simples, mas cheio de significado.

Ele então a puxou para um abraço, firme e protetor.


— Eu prometo — murmurou, com a voz próxima ao ouvido dela — que dessa vez,
ninguém vai te fazer mal.

Anmy fechou os olhos, sentindo o coração se acalmar aos poucos. No meio do


barulho distante da cidade e do vento leve que passava entre as árvores, ela
percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, realmente acreditava nessas
palavras.

E, do outro lado da rua, Gustav desaparecia na esquina — sem imaginar que seu
retorno mudaria tudo novamente.

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Nem sempre Mary foi a garota fria e arrogante que todos conheciam.
Houve um tempo em que ela só queria ser notada.

Filha única de um empresário rico e influente da cidade, Mary cresceu cercada de


tudo o que o dinheiro podia comprar — roupas caras, festas, viagens e mimos.
Mas, por trás da aparência perfeita, existia um vazio que nem todos viam.

O pai, Sr. Arthur Verdan, fazia tudo para agradá-la: comprava presentes, realizava
seus caprichos e a chamava de “minha princesinha”.
Mary acreditava que ele era o único que realmente se importava com ela.

A mãe, Sra. Helena, era o completo oposto. Fria, distante e mais preocupada com a
própria aparência e status do que com a filha, raramente demonstrava carinho.
Quando Mary tentava se aproximar, recebia apenas respostas curtas e olhares
indiferentes.

— Mamãe, olha o que papai me deu! — dizia Mary, sorridente, mostrando algum
presente novo.
— Que bom, querida — respondia Helena, sem desviar os olhos do espelho.

Com o tempo, Mary aprendeu a buscar atenção da única forma que sabia: sendo
perfeita.
Notas impecáveis, postura elegante, sorrisos forçados.
Mas por dentro, o que ela queria mesmo era um abraço.

Até que um dia, tudo mudou.

Arthur, o pai que ela tanto idolatrava, morreu em um acidente de carro numa viagem
a negócios.
O mundo de Mary desabou.
Mas o que veio depois foi ainda pior.

Poucos meses após o funeral, a verdade veio à tona: Arthur tinha um filho fora do
casamento.
O nome dele era Gustav — fruto de uma relação antiga com a empregada da família.
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Mary ficou em choque.
— Você está dizendo… que papai me traiu? — perguntou ela à mãe, com lágrimas
nos olhos.
Helena apenas deu de ombros.
— Não é da sua conta. Isso aconteceu antes de você nascer.

Mas para Mary, isso não importava.


Na cabeça dela, aquele garoto era o símbolo da traição, da mentira… e da perda.

Gustav, por outro lado, nunca pediu para nascer naquele escândalo.
Após a morte do pai, ele foi morar com a avó materna em outra cidade — uma
senhora simples e bondosa que o criou com amor e princípios.
Ainda assim, cresceu com o peso de ser “o filho bastardo”.

Mary, então, ficou sozinha com uma mãe que mal lembrava de sua existência.
As paredes da casa grande, antes cheias de risadas e presentes, agora eram frias e
silenciosas.
Helena raramente dormia em casa; passava noites em festas e viagens, deixando
Mary cada vez mais sozinha.

E foi nessa solidão que ela começou a mudar.

A menina doce que sonhava em ser amada se transformou na garota orgulhosa e


manipuladora que todos conheciam.
Por dentro, ainda havia dor — mas ela a escondia sob uma máscara de arrogância.
E, quando Gustav voltou à cidade anos depois, o rancor dela renasceu junto.

“Ele levou tudo o que era meu”, pensava Mary, olhando para o espelho.
"Mas agora... É minha vez de tirar algo deles"
Atualmente..

O som dos passos de Gustav ecoava pela calçada enquanto ele subia a rua em
direção à antiga mansão dos Verdan.
O tempo havia passado, mas o lugar parecia o mesmo: os portões de ferro, o jardim
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impecável, e aquele ar frio de casa que guardava segredos demais.

Mary o esperava na varanda, encostada na grade, com os braços cruzados.


Quando o viu se aproximando, um sorriso quase imperceptível surgiu em seu rosto.

— Vejo que ainda lembra o caminho — disse ela, em tom provocante.

Gustav parou diante dela, observando-a com expressão séria.


— Difícil esquecer o lugar que destruiu metade da minha vida.

Mary arqueou uma sobrancelha.


— Sempre tão dramático.

Ele suspirou, cansado.


— Por que me chamou, Mary? — perguntou direto. — Você nunca faz nada sem
motivo.

Ela deu alguns passos, o som dos saltos ecoando no piso de mármore.
— Digamos que… eu preciso de um favor.

— Um favor? — Ele cruzou os braços. — Depois de todos esses anos sem sequer
uma mensagem?

Mary o encarou, firme.


— Não me olha assim, Gustav. Eu não sou sua inimiga. Pelo menos… não agora.

Ele deu um leve sorriso irônico.


— Então quem é?

Mary virou o rosto para o portão, de onde se via parte da cidade iluminada pela lua.
— Uma garota nova no colégio. O nome dela é Anmy.

Gustav franziu o cenho ao ouvir o nome.


— Anmy? — murmurou, com a voz mais baixa.

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— Vejo que lembra dela — disse Mary, com um brilho satisfeito no olhar. — Pois é.
Ela está de volta. E não veio sozinha.

Gustav desviou o olhar, apertando as mãos nos bolsos.


— Eu… pensei que nunca mais fosse ver essa garota.

— Pois prepare-se — respondeu Mary, andando lentamente até ele. — Porque


agora ela anda com o Luca.

— Luca? — perguntou, confuso.

— O filho do diretor do colégio. Popular, inteligente… o tipo de cara que gosta de ser
o herói da história. — Ela riu de leve. — E adivinha quem ele resolveu proteger?

Gustav a observava em silêncio, sem entender onde ela queria chegar.


— O que você quer que eu faça, Mary?

Ela se aproximou mais, parando a poucos centímetros dele.


— Quero que você a afaste. Quero que ela sinta o mesmo que eu senti… ser
deixada, traída, esquecida. — Sua voz saiu baixa, quase um sussurro. — E quem
melhor pra isso do que o ex que ela ainda não esqueceu?

Gustav desviou o olhar, hesitando.


— Isso é vingança, não é?

— Chame como quiser — disse ela, fria. — Mas, no fim, os dois merecem uma lição.

O silêncio pairou por alguns segundos. Gustav respirou fundo, como se lutasse
contra si mesmo.
Por mais que não quisesse admitir, parte dele ainda sentia algo por Anmy — algo
entre arrependimento e saudade.

Mary percebeu.
— Não me diga que ainda sente alguma coisa por ela… — disse em tom debochado.

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— Eu… não sei — respondeu ele, baixo. — Mas sei que ela não é como você pensa.

Mary deu um passo para trás e o olhou com desprezo.


— Então prove. Me ajuda a abrir os olhos dela — e, se quiser, os do seu “herói”
também.

Ele ficou em silêncio, depois assentiu lentamente.


— Tá bom, Mary. Eu vou te ajudar. Mas do meu jeito.

Ela sorriu, satisfeita.


— É tudo o que eu precisava ouvir.

Os dois se entreolharam — um pacto silencioso se formando ali, sob a luz fria da


varanda.
E, enquanto Gustav olhava para o céu tentando entender no que estava se metendo,
Mary apenas pensava:

“Agora é minha vez de mudar a história.”

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