“O MELHOR TREINADOR QUE VOCÊ
PODE SER”
Reflexão: a sua melhor tática.
Lisboa, 2020
SOBRE O AUTOR
Meu nome é Dorian Junior, tenho 30 anos, sou natural de Fortaleza-CE e atualmente resido na
cidade de Lisboa, Portugal.
Como grande parte dos brasileiros, eu vivo e respiro futebol desde o meu nascimento. Joguei
futsal e futebol até os 19 anos, quando tive que optar por seguir jogando ou percorrer o caminho
dos estudos. Desde então, sou um entusiasta do futebol inteligente, pensado, reflexivo, divertido
e integrador de pessoas. Hoje me dedico a estudar, pensar e desenvolver o futebol como uma
ferramenta para o desenvolvimento de pessoas e de atletas, nesta ordem.
Sou graduado em Educação Física pela Universidade Estácio do Ceará, com reconhecimento
de grau acadêmico de Licenciado em Ciências do Desporto pela Universidade de Lisboa, e sou
mestrando em Futebol pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia de Lisboa.
Durante o período em que vivi no Brasil, tive a oportunidade de atuar nos departamentos de
Preparação Física e Fisiologia do Fortaleza Esporte Clube e Ceará Sporting Club. Também tive
experiência no clube Malahide United Football Club, da cidade de Dublin, Irlanda. Hoje,
integro a equipe de Infantis A (sub-13) do Sporting Clube de Portugal e destino o meu tempo e
esforços a estudar e pensar o futebol, para poder contribuir com toda a comunidade envolvida
com a modalidade.
INTRODUÇÃO
Pep Guardiola, José Mourinho, Phil Jackson, John Wooden, Jürgen Klopp...Você sabe
o que estes treinadores têm em comum e que também está ao seu alcance? Uma mente que
pensa e repensa sobre seus atos para além do futebol. Eles possuem um entendimento de mundo,
do funcionamento da sociedade, da vida como um todo, onde o futebol está inserido. Isso é
reflexão. O pensamento reflexivo é um fator determinante na liderança que um treinador
pretende exercer sobre seu grupo. Estes grandes treinadores, antes de serem campeões e
reconhecidos como os melhores do mundo nas suas profissões, líderes e ótimos gestores de
grupos, já estavam navegando nos mares do autoconhecimento e da evolução pessoal.
Somente depois de possuirem autoconsciência e autogestão, eles puderam ser capazes de
conscientizar seus jogadores a seguirem a estratégia traçada, alcançando mais facilmente a
gestão dos seus atletas.
Imagino que o termo autoconhecimento pode causar uma certa repulsa em você, mas
isso se deve ao fato de que nós não procuramos saber como as coisas funcionam e ficamos
satisfeitos com a opinião alheia. Então, de cara, já vou pedir pra você fazer um teste que vai te
mostrar as suas forças de caráter. Seus pontos fortes e os menos fortes, pra que você entenda
quem você é e como você pode usar estas habilidades a seu favor durante o trabalho. Vale muito
a pena!
Exercício!
[Link]
Impactante, né? Você esperava por esse resultado?
Agora que você já conhece seus pontos mais fortes e menos fortes, já é capaz de
trabalhá-los nas suas atividades pessoais e profissionais. Entendendo bem como você funciona,
você é capaz de ser mais compreensível e tolerante nas relações que tem.
CAPÍTULO 1 – NOVOS TEMPOS
Vivemos em tempos em que a velocidade da informação é altíssima e, portanto, atletas
têm acesso e demonstram cada vez mais interesse nas estratégias das equipes adversárias e de
oponentes diretos. Cada vez menos existem jogadores desinformados e cada vez mais estes se
tornam conscientes das estratégias de treinamento e da parte tática do jogo. O treinador, hoje,
precisa sim entender de tática, técnica e estratégias, mas o diferencial não está em quem entende
mais disso, está em quem conhece mais seu elenco. E como se conhece mais o elenco?
Conhecendo a pessoa que “está por trás” do jogador. Pep Guardiola, fala no seu livro “Pep
Confidencial” que o tratamento com cada jogador deve ser diferente, pois um é diferente do
outro. Mas como conhecer os jogadores? Conhecendo a si mesmo. O treinador precisa se
conhecer, buscar a evolução própria, para, a partir daí, entender onde ele é melhor e pior,
consequentemente, melhorando as suas práticas de treinamento e de relacionamento com
jogadores, que por sua vez, irão se desenvolver também. Confuso? É simples: se eu evoluo
como pessoa eu evoluo como profissional e essa evolução se reflete nos jogadores que também
irão evoluir.
Hoje se discute muito o fato de alguns treinadores da velha guarda, supostamente,
estarem ficando para trás em termos metodológicos. Mas isso não tem nada a ver com a idade
deles. Isso tem a ver com a reciclagem que todos os profissionais, não apenas no esporte, devem
se submeter frequentemente. Todos os profissionais devem, de tempos em tempos, refletir sobre
suas atuações. Se o método utilizado está adequado ao cliente. Se o cliente está satisfeito com
o atendimento/relacionamento. É completamente descartado aquele profissional que, por ter
tido êxito com um determinado método de trabalho, não se atualiza e não adapta seus produtos.
Novas tendências e formas mais eficazes de se trabalhar surgem e fica para trás quem não
acompanhar. Assim também é para os treinadores. Se seu método de treino, a sua gestão e a sua
liderança já não suprem as expetativas dos jogadores e do clube, não irá existir confiança no
trabalho, e provavelmente não irá existir entrega. E o final nós já conhecemos bem. Rua. Tudo
isso pode passar, primeiramente, pelo autoconhecimento, autogestão e autoconfiança que não
existiu.
Dito isto, te convido a ler este ebook de mente aberta a novos conhecimentos, se dando
a oportunidade de iniciar um processo de autoconhecimento em busca da autoevolução e da
evolução de quem está ao seu redor. Boa leitura!
CAPÍTULO 2 - VOCÊ É UM SER HUMANO TREINADOR, NÃO O CONTRÁRIO
Mais uma vez: você é um ser humano treinador. Para o treinador ir bem e crescer dentro
de um clube e no cenário competitivo, o ser humano precisa estar bem dentro das paredes de
casa e, principalmente, dentro da sua própria cabeça. Estar bem consigo mesmo é uma condição
para estar bem dentro do clube, com os colegas de trabalho e com o grupo de atletas.
O autoconhecimento é fundamental no processo de amadurecimento do ser humano e
nos faz ver a vida com um filtro leve, nos tornando mais tolerantes, mais suscetíveis a ajudar o
próximo, éticos, mais abertos a novas situações e mais curiosos por entender como a nossa vida
está interligada. Se conhecer é, também, conhecer o próximo, mesmo este sendo um
desconhecido. Essa frase fez sentido para você? Quando você sabe que, antes de ser um
treinador, você é uma pessoa que tem limitações e necessidades, você sabe que o outro também
as tem. Portanto, entender a si é entender o outro.
Imagino que você pode estar pensando: “Ah, mas eu me conheço muito bem!”. Não
discordo que você pode conhecer bem suas manias, o que você gosta de comer e de fazer no
tempo livre. Mas você conhece exatamente quais são as suas respostas e ações diante dos
desafios e obstáculos que surgem na sua vida? É muito comum ver pessoas surpreendidas
positivamente e negativamente com suas respostas aos obstáculos da vida. O autoconhecimento
é um mergulho para dentro de si, em que suas vulnerabilidades e maiores qualidades serão
expostas. Aposto que você concorda comigo que é muito mais fácil e indicado usar uma
ferramenta quando se conhece bem sua utilidade e como ela funciona, certo? Assim é conosco.
Entender como nós somos e onde somos melhores e piores nos ajuda no nosso
autorelacionamento e, consequentemente, nas diversas relações que temos na vida.
CAPÍTULO 3 - PENSAMENTO REFLEXIVO
Quando você se coloca em um momento de reflexão, pensando em como vai solucionar
problemas de gestão de jogadores, problemas do jogo passado ou do próximo adversário, você
deve ter em conta que:
nossos hábitos ou o que nós falamos geram pensamentos;
pensamentos geram sentimentos;
sentimentos geram ações!
Também tome consciência que existem 4 tipos de pensamentos:
- o pensamento que apenas vem e passa;
- o pensamento que tem alguma ordem lógica;
- o pensamento que tem ordem e que se baseia em uma crença;
- o pensamento reflexivo, que tem ordem e que se baseia em uma crença com
fundamentos e com indagações ao longo de um raciocínio.
John Dewey foi um filósofo e pedagogo norte-americano e, no seu livro Como
Pensamos, definiu o pensamento reflexivo como “a ativa, persistente e cuidadosa consideração
de qualquer crença ou suposta forma de conhecimento à luz dos fundamentos que a sustentam
e das conclusões a que tende”. Ou seja, é um ato de dúvida ou de resolução de um problema,
no qual se origina um pensamento que gera o ato de buscar e investigar uma solução para a
confusão existente.
Ainda segundo Dewey, “um indivíduo necessita de três atributos para se engajar em um
pensamento reflexivo: ser (1) “mente-aberta”, que é ter a capacidade de escutar todos os lados
e reconhecer a possibilidade de erro, mesmo nas mais fortes crenças; (2) ter capacidade de se
entregar por completo ou “inteireza”, que é ser profudamente interessado em um assunto e (3)
ser responsável, que é o fato de não apenas considerar consequências de suas cranças, mas
támbém aceitá-las”.
O pensamento reflexivo é uma ferramenta que pode proporcionar melhorias nas relações
sociais dentro da equipe, havendo consequentemente um aumento da performance em
treinamentos e melhores resultados. Quando os atletas notam que o treinador é bem resolvido
e tem suas convicções, é justo e aberto ao diálogo, imediatamente começam a jogar para ele. O
grupo de jogadores se torna mais comprometido com as convicções da equipe técnica, até
quando o trabalho é muito complexo e não se enxerga imediatamente o seu propósito.
É certo que o treinador é quem comanda e lidera todo o grupo de jogadores e a equipe
técnica, mas todos nós já ouvimos aquela famosa frase: “duas cabeças pensam mais que uma”.
Em uma equipe técnica, dependendo do nível do clube, há muitas pessoas que são especialistas
em diferentes áreas. É normal se ter, hoje, pelo menos um fisiologista, um médico, um
fisioterapeuta, um preparador físico/personal trainer, um analista de desempenho e um treinador
adjunto. Repare que todas estas pessoas vivem diariamente no mesmo espaço que você, mas
que são pessoas totalmente diferentes e que veêm a vida de formas diferentes, portanto seja
aberto às opiniões delas e escute sem nenhum julgamento prévio. Tenha a mente aberta para
receber visões diferentes que vão contra as suas verdades, mesmo aquelas que são mais antigas
e que parecem verdades absolutas. Se dê a oportunidade de estar errado ou de não estar 100%
no caminho mais adequado e veja quantas coisas positivas podem acontecer.
Imagino e espero que você tenha escolhido estar no meio esportivo porque ama e respira
o esporte, é interessado em aprender coisas novas e em se atualizar e não se vê muito bem em
outro contexto. Então, você já está no caminho de possuir um pensamento reflexivo e ser um
treinador reflexivo, pois o fato de ser interessado no assunto o faz pensar mais profundamente
nele. Neste caso, estamos falando tanto das suas crenças relacionadas ao trabalho e estratégias
quanto para as crenças de vida limitantes que você traz consigo desde quando era uma criança.
Verdades impostas pela sociedade e que você nunca se perguntou o porque de acreditar no que
acredita e de fazer o que faz. Outro fator importante no processo de reflexão é a sua
responsabilização às consequências dos seus pensamentos. Ou seja, tenha consciência do que
pode ou não acontecer em consequência das suas ações e aceite isto.
EXERCÍCIO!
A MESA
Ser o melhor treinador que você pode ser requer muita resiliência, dedicação e amor
pela profissão. É uma construção composta pelo conhecimento profissional e os
relacionamentos intrapessoal e interpessoal.
E por falar em construção, para já, façamos um simples exercício de analogia à
construção de uma mesa. Queremos construir uma mesa grande onde há espaço para todos. A
mesa será de cristal e terá duas estruturas de apoio. Para o nosso exercício, imagine que o cristal
é o conhecimento profissional e as estruturas de apoio são os relacionamentos interpessoal e
intrapessoal. Imagine também que estas três peças necessitam de utensílios fixadores e
estabilizadores, que são as competências pessoais do treinador. Paixão pelo trabalho, empatia,
respeito, liderança, iniciativa, paciência, consistência em palavras e ações, antecipação das
necessidades, experiência e sabedoria (Gilbert, Nater, Siwik, & Gallimore, 2010) irão ser partes
estabilizadoras das estruturas de apoio. Honestidade e sinceridade, fixarão o cristal nos apoios.
Não podemos esquecer da transparência, claro.
Agora que sabemos o que é um pensamento reflexivo e o que precisamos para construir
a mesa, vamos fabricar as peças. Neste guia, apenas iremos abordar a estrutura que é a base
mais forte: o relacionamento intrapessoal.
CAPÍTULO 4 - RELACIONAMENTO INTRAPESSOAL
Reflexão
O treinador é uma pessoa, antes de qualquer coisa, e esta pessoa é para o seu exterior
(ambiente familiar, laboral e social) o reflexo do que é o seu interior. Como está o seu interior?
Você possui um bom relacionamento com você mesmo? Você se aceita exatamente como é e
entende que não é perfeito, não é pior e nem melhor que ninguém? Você costuma refletir sobre
seus pensamentos e sobre o porquê das coisas serem como são? Porque você faz o que faz e
não faz o que não faz? E o treinador que habita em você costuma pensar sobre os seus métodos
e estratégias de treinamento? Será que há algo a melhorar/adaptar para que haja um melhor e
mais eficaz entendimento dos seus atletas?
Vale ter aqui uma breve definição de “pensamento” no dicionário. Pensamento:
faculdade de conceber, de combinar e comparar ideias, ato particular da mente que resulta em
reflexão. Nossos pensamentos são muito poderosos. Os pensamentos geram atitudes, que
geram resultados e que geram consequências. Está claro que se conseguimos ter controle sobre
nossos pensamentos, nós teremos consciência de quais consequências poderemos lidar depois
da atitude tomada. Isso vale tanto para os bons quanto para os maus pensamentos. Este mero
treinador que vos escreve, com a experiência que tenho no futebol, desde os escalões mais
inferiores até os adultos, entendo que o treinador deve ser um lider que antecipa crises e etá
sempre à frente dos problemas, assim pensando muito no que pode vir a enfrentar para preparar
melhor a sua equipe para os desafios futuros. Porém, é muito importante canalizar os
pensamentos para o que você quer que aconteça no próximo jogo ou competição, por exemplo.
Para os jogos coletivos, por exemplo, pensar que seu processo ofensivo será melhor que o
processo defensivo adversário, não o contrário. Sei que pode parecer tudo muito bonito aqui,
mas lembre-se que os pensamentos que você tem irão moldar suas atitudes, que irão gerar
resultados e consequências.
Quando pensamos, automaticamente uma mensagem é enviada para o nosso
subconsciente. Este é profissional em executar uma ordem. Nosso subconsciente não filtra se
uma coisa é boa ou má para nós. Ele simplesmente recebe a ordem e age. Lembra aquela vez
que você falou ou fez algo que não deveria (pelo menos naquele momento) para seu atleta ou
colega de clube? Isto, provavelmente, poderia ter sido evitado ou ter sido diferente se você
conseguisse ter um pensamento reflexivo.
“Então como eu posso usar o pensamento reflexivo para melhorar meu processo de treino e
gerar mais resultados?”
Considere agora pegar um papel e uma caneta e fazer uma lista com 10 qualidades ou
competências que você gostaria de ter e outra com 5 qualidades ou competências que você já
possui. Para ajudá-lo, eu já indiquei duas competências de um bom lider. LISTA COM
COMPETÊNCIAS. 1- Conhece a si mesmo, 2- senso de realidade.....
Tome 5 minutos para isso e continuamos. É importante que faça.
Já fez? Foi difícil? Imagino que sim. É normal. Nós não temos o hábito de pensar sobre
nós mesmos e, portanto, se torna difícil realizar esse exercício.
Agora, olhe para as qualidades ou competências que você ainda não possui e pense como
pode possuí-las.
-Você não conhece a si mesmo? Saiba que para lidar e liderar um grupo de pessoas que
possuem pensamentos e formas de ver as situações distintas, você precisa buscar o
autoconhecimento constantemente. Antes de tentar entender o outro, entenda-se. Saiba
reconhecer no que você é bom e também onde você não é. O reconhecimento de um ponto fraco
pode fazer você melhorá-lo tanto à partir de si quanto com a colaboração de um profissional
interno ou externo ao clube.
-Você não costuma entender exatamente onde pisa, não reconhece o nível do grupo de
jogadores/atletas e equipe técnica e quer fazer muito com pouco? O seu esforço é elogiável,
mas um bom treinador deve entender que nem sempre as coisas vão corrrer como ele quer. Nem
sempre aqueles jogadores irão corresponder às expectativas e nem sempre o treinador vai fazer
apenas o que gosta de fazer. Portanto, é preciso fazer também o que não se desejaria fazer, mas
que é necessário, para o sucesso do atleta ou do grupo.
Agora, sabendo e reconhecendo mais seus pontos fortes e fracos, é sua vez de refletir
sobre estas competências.
EXERCÍCIO!
E já que o assunto é ensinar, aqui vai mais uma indicação de teste. O teste do VARK
tmabém nos diz muito sobre nós. A versão para professores e treinadores nos diz como nós
ensinamos de forma mais eficiente. É mais uma ferramenta para te auxiliar no processo de
treino.
[Link]
CAPÍTULO 5 - FAIR PLAY
Fair play é um termo que foi adotado no mundo desportivo que prega o jogo justo,
limpo, onde não haja desonestidade e falta de ética com os adversários. Mas o fair play não se
limita ao esporte. Vai além do clube. É também uma filosofia de vida.
Uma rápida definição extraída da Wikipedia. A palavra "ética" vem do grego ethos e
significa caráter, disposição, costume, hábito, sendo sinônima de "moral", do latim mos, mores
(que serviu de tradução para o termo grego mais antigo, significando também costume, hábito).
Tendo como base a definição acima, podemos entender que ética é o hábito de praticar
bons gestos e ter bom caráter. Portanto, como o ser humano pessoa e o ser humano profissional
são um só, na minha visão, não pode existir um bom marido ou boa esposa dentro de casa e ser
o contrário no ambiente profissional, com o contrário também sendo aplicável. Você ama e
respeita sua família, filhos, marido e esposa, trata-os com justiça, dignidade e se procupa com
o bem-estar deles, certo? No ambiente profissional, no dia-a-dia do clube, nos treinamentos,
não pode ser diferente com os companheiros e com seus jogadores. E tudo parte de si. Tenha
sempre em mente que você é indissociável. Você é bom exemplo em casa, portanto é bom
exemplo no trabalho. Você é ético, honesto e justo no seu clube, portanto também deve ser em
casa. E mais importante: se você se respeita, se valoriza, é ético e bom caráter com você mesmo,
na sua relação mais íntima, isso irá transparecer para os que estão à sua volta, e você irá tratá-
los igualmente e receberá o mesmo tratamento. Não há segredos!
Para falar de honestidade, vamos à sua definição no dicionário. Honestidade é a
qualidade de quem age com retidão, de acordo com a verdade. Qualidade de quem age com a
verdade e se pode confiar. Você é honesto? Pratica o fair play durante as competições? Pois
bem, meus amigos, infelizmente o que mais se vê no esporte é desonestidade. Esta parte do
ebook poderia ser enorme, mas o melhor é deixar refletir quem deve refletir.
CAPÍTULO 6 - CONTEXTO DE TRABALHO
Existem dois tipos de contextos desportivos: o contexto recreativo e o contexto de alta
competição. Dentro do contexto competitivo existem duas ramificações: o treino participativo
e o treino de desempenho
Você sabe bem o contexto de treinamento em que está inserido e se você está no
contexto em que gostaria de estar?
Se o treinador não tem consciência do seu contexto, ele não consegue transmitir esta
consciência aos seus atletas também, como é óbvio.
Considerando que as habilidades e conhecimentos exigidos diferem dentro dessas
formas de treinamento, Lyle (2002) advertiu que um treinador pode erroneamente desejar estar
associado a atletas em contextos para os quais suas habilidades/conhecimentos disponíveis não
são adequados, como pode ser o caso quando um treinador de desempenho deseja trabalhar com
um atleta que está claramente em um contexto de participação. Lyle, juntamente com Trudel e
Gilbert (2006), sugeriu que, para ser eficaz, os treinadores devem estar atentos ao excesso de
contexto desportivo em que eles trabalham.
Há um problema, que na minha visão é muito sério, que é o fato de treinadores estarem
a trabalhar no contexto de participação, mas que, para eles, é apenas um trampolim para o
chegar ao contexto de desempenho. Sendo mais claro: os treinadores que iniciam suas carreiras
com crianças, mas querem mesmo é estar a trabalhar com os adultos. Este fato faz com que os
treinadores e seus atletas não estejam em sintonia, impossibilitando a evolução do grupo. A
trajetória é mais ou menos assim: o treinador ingressa em um clube, geralmente na menor
categoria (referente à idade cronológica) e inicia sua capacitação com diversos cursos visando
chegar ao nível dos profissionais. Nestes cursos, ele estuda temas relacionados aos profissionais
e que não se aplicam às crianças e adolescentes das categorias de formação, que muitas vezes
carecem de mais acompanhamento e abordagem específica para o estágio de desenvolvimento.
Estas são tratadas como miniadultos e têm seus sonhos e objetivos de chegar ao mais alto nível,
assim como o próprio treinador, esquecidos.
Para deixar claro, não é um julgamento. Eu sei, por experiência própria, que em grande
parte do mundo, os profissionais dos escalões mais baixos são muito mal remunerados para
tamanha responsabilidade que carregam, por isso entendo aqueles que buscam por melhores
condições.
E é aqui que as respostas para as perguntas do primeiro parágrafo podem ser
respondidas, seguidas de mais reflexão. Você sabe qual seu contexto de trabalho? Você quer
estar neste contexto? É importante ter consciência destas questões para a eficácia no trabalho,
para que não haja um excesso de contexto esportivo e para que você se sinta bem e transpareça
esse bem-estar, que será contagioso.
DESFECHO
Falamos aqui sobre uma vertente importantíssima para se tornar uma melhor pessoa: o
relacionamento intrapessoal. Ela compõe a tríade, juntamente com o relacionamento
interpessoal e o conhecimento profissional, que é fundamental para ser um treinador exemplar.
Este é um projeto beta, de teste, que vai poder me dar um feedback se este tema é
pertinente ou não para falar das outras vertentes. Para isso, você se importa de me dar um
feedback através do Instagram? Pode me encontrar procurando por @dorianjotaerre.
Esse ebook foi idealizado com o intuito de poder ajudar pessoas, mesmo que
minimamente. Espero ter ajudado!
Obrigado!
Dorian Jotaerre.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Cassidy, T., Jones, R. L., & Potrac, P. (2009). Understanding sports coaching: The
social, cultural and pedagogical foundations of coaching practice. London: Routledge.
Côté, Jean & Gilbert, Wade. (2009). An Integrative Definition of Coaching
Effectiveness and Expertise. International Journal of Sports Science & Coaching - INT J
SPORTS SCI COACH. 4. 307-323. 10.1260/174795409789623892.
Dewey, J. Como pensamos: como se relaciona o pensamento reflexivo com o processo
educativo: uma reexposição. (1979). Tradução de Godofredo Rangel. Sâo Paulo: Nacional, 1ª
ed. 1933. Nova tradução e notas de Haydée de Camargo Campos. São Paulo: Nacional, 1959.
Lyle, J., Sports Coaching Concepts: A Framework for Coaches’ Behaviour, Routledge,
London, 2002.
Trudel, P. and Gilbert, W.D., Coaching and Coach Education, in: Kirk, D., O’Sullivan,
M. and McDonald, D., eds., Handbook of Physical Education, Sage, London, 2006, 516-539.