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Entrevista Com A Escritora Ruth Rocha

Ruth Rocha, renomada escritora de literatura infantil no Brasil, discute a importância dos livros na formação de professores e crianças, destacando que o livro é um guia e um meio de ampliar horizontes. Ela compartilha sua trajetória pessoal e profissional, enfatizando a necessidade de conexão entre o autor e a criança na narrativa. Além disso, Rocha critica a censura na literatura infantil e aconselha futuros educadores a se tornarem leitores apaixonados para inspirar seus alunos.

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Entrevista Com A Escritora Ruth Rocha

Ruth Rocha, renomada escritora de literatura infantil no Brasil, discute a importância dos livros na formação de professores e crianças, destacando que o livro é um guia e um meio de ampliar horizontes. Ela compartilha sua trajetória pessoal e profissional, enfatizando a necessidade de conexão entre o autor e a criança na narrativa. Além disso, Rocha critica a censura na literatura infantil e aconselha futuros educadores a se tornarem leitores apaixonados para inspirar seus alunos.

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ENTREVISTA COM A ESCRITORA RUTH ROCHA

Luciane Maria Schlindwein 1


Monica Fantin2

Data: 22/11/2012
Entrevistadores: Luciane Maria Schlindwein e Mônica Fantin
Duração: 1h30m
Filmagem e Edição: Luís Gustavo S. Garcia
Transcrição: Fabieli Tatiani de Souza

Ruth Rocha é uma das escritoras mais conhecidas de livros


infantis no Brasil. Sua vasta obra fez e faz parte da vida de muitas
crianças brasileiras, além de ser referência obrigatória nos estudos
sobre literatura infantil na formação de professores!
Gentilmente ela recebeu a Revista EntreVer para uma
entrevista em sua casa, em São Paulo e, enquanto a Profa. Luciane
Maria Schlindwein fazia as perguntas, a Profa. Monica Fantin
participava por skipe, no contexto da sala de aula, com uma turma
de Pedagogia na Universidade Federal de Santa Catarina.
Registramos esse momento em audiovisual para compartilhar
com o leitor e oferecer outras possibilidades de fruição, em que a
palavra, a voz, o gesto e a imagem de Ruth Rocha enriquecem o
sentido da entrevista e possibilitam outras formas de experiência e
interação. Assim, optamos por transcrever a entrevista mantendo o
contexto informal da oralidade de uma conversa que agora
compartilhamos com o leitor.

Luciane: Gostaria de agradecer a gentileza da Ruth ao receber a

1
Doutora em Educação (Psicologia da Educação) pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (1999). Atualmente é bolsista do CNPq, professora do
Departamento de Metodologia do Ensino e do Programa de Pós-graduação em
Educação do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC). E-mail: lucmas@[Link]
2
Professora do Departamento de Metodologia do Ensino e do Programa de Pós-
graduação em Educação do Centro de Ciências da Educação da Universidade
Federal de Santa Catarina. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Núcleo Infância
Comunicação Cultura e Arte, NICA, UFSC/CNPq. mfantin@[Link]

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revista EntreVer e dar essa contribuição para o curso de
Pedagogia, para a formação de professores e conversar um
pouco sobre a importância dos livros na formação de
professores e das crianças.

Ruth Rocha: Bom, importância do livro é uma coisa tão grande que
não dá nem para dizer o que é. O livro é um companheiro, o livro é
um guia, o livro é um esclarecedor, o livro é a possibilidade de a
gente viver outras vidas, a possibilidade de a gente conhecer outras
pessoas, a possibilidade de a gente aumentar o nosso horizonte
enormemente, então o livro é importantíssimo na vida de qualquer
pessoa. Mas na vida do professor é mais importante ainda, porque o
professor é aquele que vai ter que ser o guia, que vai ter que ser o
iluminador, que vai ter que ser ampliador de horizontes. Então ele
precisa ter seus próprios horizontes ampliados, precisa ter sua
própria vida mais rica, ele precisa ter sua parte intelectual mais
desenvolvida. O professor é aquele que tem como seu instrumento
mais importante o livro. Então eu acho que o livro é de uma
importância total!

Mônica Fantin: Quem é Ruth Rocha?

Ruth Rocha. Olha, se eu tiver que dizer quem eu sou, eu penso


primeiro que sou uma mãe; primeira coisa que acho que sou. Eu sou
uma brasileira, eu sou escritora e eu sou, sei que não se usa mais
isso, mas eu sou patriota. Eu sou socióloga formada em Sociologia
Política, sou formada em Orientação Educacional, mas o que mais
sou agora profissionalmente é escritora.

Mônica Fantin: Nessa trajetória como professora e orientadora,


como a literatura apareceu na sua vida?

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Ruth Rocha: Apareceu assim... Eu acho que apareceu, porque eu
fui uma criança que ouvi muita história. Eu tinha um avô contador de
histórias que contava tudo quanto era história: Andersen, Pierrot,
Grimm, Mil e uma noites, histórias folclóricas. Ele sabia todas! E eu,
então, ouvia muita história. Minha mãe lia Monteiro Lobato desde
muito cedo para nós, e meu pai também contava histórias. Minha
avó cantava com a gente. Então eu tive contato muito forte com a
palavra, com a narrativa, desde muito cedo. Daí eu cresci e fui
ficando com intenções outras. Com a Sociologia Política, passei a ler
livros mais especializados. E houve um momento na minha vida em
que eu fui convidada a fazer uma coluna de educação na Revista
Claudia. Eu era companheira da Carmem da Silva que fazia [uma
coluna] sobre feminismo. Então eu fiz [a coluna sobre educação]
durante três anos. Uma moça, a Sonia Robatto, que é uma baiana
escritora, tinha esse projeto da Revista Recreio, que foi uma revista
muito importante. E comecei a escrever na Revista Recreio. Ela me
pediu para escrever. Eu disse para ela que não sabia escrever. Ela
disse: “não, escreve aquela história que você conta para sua filha”,
que era a história do Romeu e Julieta Borboleta; foi minha primeira
história. Então comecei a escrever, escrevi muito, quase cinquenta
histórias para a Revista Recreio, e depois comecei a publicar em
livros. Em 1976 publiquei meus primeiros livros, publiquei treze de
uma vez e então comecei a publicar e publico até hoje.

Luciane: O que uma história precisa ter para capturar o coração


de uma criança?

Ruth Rocha: Isso não tem receita. Eu diria que a primeira coisa para
capturar uma criança é falar com ela. A história tem que ter um tom...
porque a gente está se dirigindo para ela. Não uma história que a
gente está contando para um adulto. A história..., você está contando
para uma criança, então acho que isso é a coisa mais importante da

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história. Depois tem varias coisas..., tem a magia, tem o inesperado,
tem o humor, tem muita coisa que criança gosta! Criança gosta de
história que chora, tem criança que gosta mais de história que ri, tem
criança que gosta mais de contos de fadas, tem criança que gosta
mais de histórias mais atuais! Não há um segredo, eu acho que há é
essa sintonia entre o escritor e a criança, e daí a gente pode contar
a história que a gente quiser porque a criança recebe.

Mônica Fantin: E nessa diversidade que você esta falando, de


criança, de público e de repertório, como você percebe essa
relação da literatura infantil, do livro impresso com a cultura
digital e com essas outras formas de contar histórias para as
crianças?

Ruth Rocha. Olha, eu acho que são coisas diferentes. Eu acho


que..., o desenho animado, não tem coisa que a criança goste mais.
Acho que existem varias formas de chegar à criança, e as formas
áudio visuais principalmente são muito ricas, tem a ação animada,
tem cores, tem ruídos... Mas existe uma coisa específica que eu
acho que é da leitura. Acho que a leitura é uma coisa que leva a
gente para um estado diferente, onde a imaginação da gente é que
trabalha. Então eu acho que existe um encanto no livro lido! Agora,
vai ter muito encanto no livro digital também, mas eu acredito mais
no livro lido. Eu sou de uma geração tão antiga, e eu acho que não
substitui nada, de jeito nenhum.

Luciane: E os livros didáticos, os livros que são utilizados em


sala de aula, você tem escrito livro para o professor e para as
crianças em sala de aula... Como você vê a importância desses
livros e qual o diferencial que eles deveriam ter ou poderiam ter
para capturarem também as crianças?

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Ruth Rocha. Olha..., eu acho, em primeiro lugar, que os livros
didáticos têm que ser bonitos. É uma tristeza livros didáticos feios,
com ilustradores ruins! Então é uma coisa que gente tinha
vontade..., que eles fossem bonitos, atraentes. Na verdade, nós
trabalhamos muito na beirada do lúdico, porque a minha sócia, a
Anna Flora, que escreveu esses livros comigo, ela tem uma tese
sobre o jogo e a literatura. Ela é muito interessada nisso e eu
também sou. Eu trabalhei muito com atividades para crianças e tal.
Então a gente fez uns livros muito lúdicos, muita brincadeiras, muito
versinho, muitas sugestões de brincadeiras, para que a lição fosse
um conjunto de coisas divertidas, de coisas alegres e que as
crianças pudessem aprender se divertindo muito, e ligados com
jogo. Sempre muito jogo, sempre muita brincadeira verbal, sempre a
preocupação que as crianças encontrassem nos livros uma
distração, uma brincadeira. Por isso nós criamos esses
personagens, fizemos livros didáticos com personagens, que é uma
coisa que nunca teve em livro didático. Nós temos essa
preocupação: fazer cada passo do aprendizado acompanhado de
muita brincadeira, de muita alegria, de arte, muita arte, pela
imaginação. E nós fizemos também um livro muito brasileiro. As
coisas que nós oferecemos para as crianças são assuntos muito
brasileiros. Nós fizemos até exercícios motores com figuras
brasileiras. Por exemplo: renda para a criança seguir, fazendo o
exercício motor; tem uma coisa de casinhas... casinhas para a
criança seguir os tetos, para fazer exercícios motor... Tudo muito
brasileiro! Muita preocupação com a arte! A parte de artes desses
livros é muito bonita. Tem obras de artes lindas, grandes, coloridas e
nós nos preocupamos muito com essa coisa brasileira. Então...,
como é a pescaria no Nordeste, como é que o mato na Amazônia,
quem é que mora na Mata Amazônica. Nós fizemos entrevistas com
crianças reais, com famílias reais: o que faz o vaqueiro, o pescador...
Muito legal! Eu acho... gostei muito porque ficou um conjunto de

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obras muito brasileiras, é uma coisa com que a gente se preocupava
bastante.

Mônica Fantin: Nessas suas andanças pelo país, conversando


com crianças e professores em escolas, feiras de livros, o que
mais te surpreendeu

Ruth Rocha: Olha, eu não cheguei a visitar o Brasil depois da obra


feita, porque atualmente não estou podendo viajar muito, mas eu já
me surpreendi muito no interior do Brasil, antes. Porque eu passei
quarenta anos viajando pelo Brasil. Então eu me surpreendi em cada
lugar, em cada favela, em cada cidade litorânea. A gente sempre se
surpreende com a esperteza das crianças, sempre. As crianças
sempre são uma surpresa, são alegria, são uma coisa diferente;
mimam o trabalho da gente. Isso é uma coisa que sempre acontece.

Luciane: Então a gente sabe que o Monteiro Lobato foi uma das
fontes da tua formação, e eu gostaria de saber como você
percebe esse viés do politicamente correto querendo alterar as
obras do Monteiro Lobato?

Ruth Rocha: Eu acho um horror, eu acho um empobrecimento, eu


acho uma tolice! Já quiseram mexer no meu saci. Não queriam que
ele fumasse cachimbo, então teria que tirar o cachimbo. Eu falei:
“quem vocês são para querer mudar o folclore?” Não é verdade? O
folclore é uma coisa tão antiga, uma coisa que foi cultivada durante
tanto tempo... Hoje em dia é raridade! Eu aprendi folclore na
Sociologia Política, e eles querem mexer no folclore! Isso é uma
coisa absurda! Eu acho que existe um viés que é do governo
comprar bastante livro; então as pessoas, as editoras ficam numa
preocupação que o pessoal que escolhe os livros não goste desse
jeito mais atrevido que a gente tem, esse viés mais libertário; então

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começam a querem tirar essas coisas. Teve um livro meu também,
era um livro de literatura, era um livro pequeninho, Tem corpo de
menino e cara de tatu, esses meninos lá pelas tantas vão tomar
banho de rio, e queriam implicar com aqueles meninos... Meninos de
oito anos nus, brincando, e eu consegui manter as coisas! Eu não
tirei não. Mas eu acho que essa forma politicamente correta está
prejudicando muito a literatura infantil, muito! A literatura infantil
perdeu muito com isso, tem muito livro chato, bobo. Reduz muito a
possibilidade de críticas. Monteiro Lobato, por exemplo..., são obras
de arte, e ninguém tem que mexer numa obra de arte! Mas por outro
lado eles podem criticar você. Se pode conversar com as crianças
sobre o fato de chamarem a Tia Anastácia de beiçuda... Vamos
conversar sobre isso... Que época foi essa? Monteiro Lobato tinha
escravo..., Tia Anastácia era escrava dele! Então era outro tempo,
era outra coisa. Inclusive isso pode servir como um bom argumento
para um debate.

Mônica Fantin: Eu estou em sala de aula com alunas de


pedagogia da 7º fase, que estão fazendo estágios na Educação
Infantil e em breve estarão nas salas de aulas dos anos iniciais.
Que recado você daria para essas estudantes-professoras que
estão aqui te assistindo?

Ruth Rocha: Daria o seguinte recado: eu acho que a primeira coisa


que um professor precisa quando lida com crianças é gostar das
crianças, compreender as crianças. Ouvir é muito importante. Saber
falar é muito importante. O diálogo é muito precioso para o
desenvolvimento da língua, para o desenvolvimento do raciocínio...
Então, falem com seus alunos, tentem ouvir, ouvir é muito
importante. Depois, acho que..., tente ler livros infantis e levar para
as crianças só aquilo que vocês leram e gostaram. Não levem livros
porque os outros acham que são bons... Vocês leiam e levem a sua

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emoção para eles, porque é dessa emoção que nasce a emoção das
crianças também, o interesse da criança, a vontade de ler. O
professor tem que ser um leitor e tem que levar o que ele gosta para
as crianças lerem, esse é meu recado.

Para acessar a entrevista clique no link:


<[Link]

Recebido em 26/09/2012
Aprovado em 16/11/2012

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