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Playground

Katsuma Kagumi, um jovem de 18 anos, descobre que é o herdeiro de um poder ancestral, a chama negra, enquanto enfrenta figuras misteriosas que o atacam na floresta. Após um confronto intenso, ele percebe que seu destino está ligado a uma luta maior entre reinos e forças sobrenaturais. Com a ajuda de Chronas, o Guardião do Elo entre os Reinos, Katsuma inicia uma jornada para entender e controlar seu poder, prometendo proteger sua vila e enfrentar os desafios que virão.

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Katsuma Kagumi, um jovem de 18 anos, descobre que é o herdeiro de um poder ancestral, a chama negra, enquanto enfrenta figuras misteriosas que o atacam na floresta. Após um confronto intenso, ele percebe que seu destino está ligado a uma luta maior entre reinos e forças sobrenaturais. Com a ajuda de Chronas, o Guardião do Elo entre os Reinos, Katsuma inicia uma jornada para entender e controlar seu poder, prometendo proteger sua vila e enfrentar os desafios que virão.

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# Capítulo 1: O Herdeiro das Chamas Negras

Katsuma Kagumi acordou com o som de trovões rugindo ao longe. O céu sobre a pequena
vila em que vivia estava pintado com tons de cinza, vermelho e dourado, como se o
horizonte refletisse um inferno distante. Ele olhou pela janela de seu quarto simples e viu a
densa fumaça que subia de uma forja no centro da vila, onde armas rústicas eram feitas
para os aldeões. Aquela cena lhe trazia uma estranha melancolia.

Havia completado 18 anos naquela manhã, e algo dentro dele parecia estar mudando. Era
como se uma tempestade se formasse, não no céu, mas em seu próprio corpo. Seus
sonhos naquela noite haviam sido intensos. Ele se lembrava de duas vozes sussurrando
para ele, uma feminina, suave e cheia de carinho, enquanto a outra era grave, ardente e
carregada de autoridade.

"Katsuma, o tempo chegou", disse a voz da mulher, enquanto uma luz dourada o cercava.
"Seu destino é grandioso, mas também cruel."

"A chama negra é sua herança", a outra voz completou, ressoando como um rugido
vulcânico. "Use-a com sabedoria, ou será consumido por ela."

Katsuma balbuciou aquelas palavras enquanto lavava o rosto no pequeno balde ao lado da
cama. Ele era um jovem alto, com pele escura como ônix e cabelos brancos como a neve.
Seus olhos, de um vermelho intenso, pareciam queimar como carvões vivos, mas sua
expressão era tranquila, quase apática. Embora aparentasse calma, dentro dele um
turbilhão se formava. O que aquelas vozes significavam? Por que ecoavam em sua mente
como memórias que ele nunca teve?

Os primeiros sinais

Ao sair de casa, o vento soprou forte, como se o mundo o estivesse cumprimentando. Sua
técnica de combate com espadas era conhecida em toda a vila. Embora jovem, Katsuma
treinava sozinho desde que podia caminhar. Era um dom natural, uma habilidade que
parecia correr em suas veias. Ninguém sabia que ele era o filho da deusa das armas e do
demônio da fúria, nem ele mesmo tinha plena consciência disso.

Enquanto caminhava pela estrada principal, os olhares dos aldeões o seguiam. Era como
se todos sentissem que algo estava prestes a acontecer. Ele entrou na floresta, o único
lugar onde podia treinar em paz. Mas ao atravessar as árvores densas, algo estranho
aconteceu.

Uma presença.

Ele parou, os olhos atentos e a mão automaticamente indo para a espada que carregava na
cintura. O ar ao seu redor ficou pesado, quase sufocante. Então ele os viu: três figuras
vestidas com mantos negros, suas faces escondidas por capuzes. As figuras irradiavam
uma energia que Katsuma nunca havia sentido antes.

O confronto
— Você é Katsuma Kagumi — disse uma das figuras, com uma voz gélida. —filho da Deusa
Heket

— Viemos por sua chama.—

Katsuma franziu a testa, confuso e furioso.

— Quem são vocês? E do que estão falando?

Os três apenas riram, uma risada seca e sombria, que parecia ecoar entre as árvores como
um presságio de morte. Então atacaram. Era como se o tempo desacelerasse. Katsuma
sacou sua espada em um movimento fluido e bloqueou o primeiro golpe. A segunda figura
apareceu em seu flanco, mas ele girou o corpo e contra-atacou com uma precisão letal. Era
instintivo, como se ele sempre soubesse onde estaria o inimigo antes mesmo de ele se
mover.

O metal das lâminas cintilava sob a pouca luz que penetrava as copas das árvores.
Katsuma recuava e avançava com maestria, mas algo estava errado. Os inimigos não eram
humanos. Seus movimentos eram inumanamente rápidos, e a energia que emanavam
parecia corroer o ar ao redor.

— Oque vocês são? — murmurou Katsuma entre os golpes, o suor escorrendo por sua
testa. — O que são?

— Sua perdição — respondeu um deles, antes de conjurar uma esfera de energia negra e
lançá-la contra ele.

Katsuma ergueu sua espada para se defender, mas a explosão o jogou contra uma árvore.
Ele gemeu de dor, sentindo o impacto ressoar em seus ossos. Foi então que algo explodiu
dentro de si. Uma chama negra emergiu de seu corpo, queimando tudo ao redor. Era fria e
quente ao mesmo tempo, como um fogo vivo que ansiava por consumir e destruir.

Os agressores gritaram enquanto eram engolidos pelas chamas. Katsuma, em pânico,


tentou controlá-las. Ele sentia a energia queimando suas veias, uma força bruta e
indomável. As vozes retornaram, mais claras desta vez.

"Controle sua raiva", sussurrou a voz feminina.

"Aceite a fúria, Katsuma. Ela é parte de você", rugiu a voz masculina.

Com um esforço titânico, Katsuma conseguiu reprimir as chamas. Quando tudo terminou,
ele estava de pé no centro de uma clareira carbonizada. Os corpos dos agressores haviam
desaparecido, como se nunca tivessem existido.

Ele caiu de joelhos, respirando com dificuldade. Olhando para suas mãos, viu pequenos
resquícios das chamas negras dançando nas pontas de seus dedos, como se o
provocassem. Ele não sabia o que fazer com aquele poder. Era aterrorizante, mas, ao
mesmo tempo, intoxicante.

— O que… eu sou? — murmurou, sua voz embargada. A floresta, agora silenciosa, parecia
aguardar sua resposta.

O aviso

De repente, ele ouviu passos. Virou-se, a espada ainda em mãos, mas era apenas o vento
brincando com as folhas. Ainda assim, sentiu-se observado, como se olhos invisíveis
estivessem fixos nele. Então, no chão, um símbolo começou a brilhar em vermelho. Parecia
uma marca antiga, pulsante como um coração.

As vozes retornaram, mas desta vez mais severas.

"Eles não pararão", disse a voz feminina. "O mundo inteiro teme o que você carrega."

"Você é a forja e o vulcão", continuou a voz masculina. "Seu caminho será solitário. Confie
apenas em sua espada e no fogo que arde em você."

Katsuma tentou responder, mas sua voz parecia engolida pelo silêncio. Ele sabia que aquilo
era apenas o início. O que quer que fosse aquele poder, ele o marcava como um alvo.
Ainda assim, ele não fugiria.

Com sua espada na mão e o peso de um legado que ainda não entendia completamente,
Katsuma ergueu o rosto para o céu. A tempestade acima parecia responder ao seu
chamado, trovões ecoando em sincronia com sua determinação. Sua jornada estava
apenas começando, e ele estava determinado a descobrir a verdade sobre si mesmo,
mesmo que precisasse enfrentar o próprio inferno para isso.

Katsuma voltou à vila após aquele encontro. O calor residual das chamas negras ainda
parecia pulsar em sua pele, e seu coração batia descompassado. Ele sabia que algo havia
mudado. As vozes, as chamas, os estranhos que o atacaram... tudo aquilo o perturbava
profundamente. Ao atravessar os portões improvisados da aldeia, sentiu os olhares dos
moradores novamente recaírem sobre ele. Era como se eles soubessem, instintivamente,
que ele não era mais o mesmo.

Ao chegar em casa, encontrou sua mãe adotiva, Ayame, uma mulher de aparência simples,
mas de olhos sábios e coração gentil. Ela o observou enquanto ele entrava, coberto de
fuligem e com uma expressão de inquietação que ela nunca havia visto antes.

— Katsuma? — Ayame perguntou, sua voz carregada de preocupação. — O que aconteceu


com você?

Ele hesitou. Poderia contar a verdade? Mesmo sem entender totalmente, algo dentro dele
dizia que sua mãe já sabia mais do que demonstrava.
— Nada, apenas treinos na floresta. Me distraí mais do que devia, é tudo — respondeu,
desviando o olhar.

Ayame permaneceu em silêncio por um momento, mas não pressionou. Em vez disso,
colocou um prato de sopa quente diante dele.

— Coma, Katsuma. Amanhã será um dia longo.

Ele assentiu e começou a comer, mas as palavras dela pairaram em sua mente. "Amanhã
será um dia longo". O que isso significava? Ele sentia que havia algo que ela não lhe dizia,
algo que talvez pudesse explicar o turbilhão que vivia dentro dele.

---

**O Presságio**

Naquela noite, Katsuma foi novamente tomado pelos sonhos. Estava em um campo de
batalha, cercado por soldados e demônios. No horizonte, uma enorme figura de fogo e
sombra ergueu-se, carregando uma espada flamejante. Era Groak, o demônio dos vulcões,
fogo e ira... . A criatura rugiu, sua voz ressoando como um trovão enquanto as chamas
negras se erguiam ao redor de Katsuma.

" A destruição está em sua essência", Groak proclamou. "Aceite o caos ou pereça com ele."

De repente, uma figura feminina emergiu das chamas. Era Heket, a deusa das armas e mãe
de Katsuma. Sua presença era imponente e serena, um contraste direto com a fúria de
Groak.

"Não o escute, ", disse ela, sua voz carregada de tristeza. "Você é mais do que as chamas .
Use seu poder para proteger, não para destruir. O mundo precisará de você."

As palavras deles ecoaram na mente de Katsuma, até que ele acordou, suando e ofegante.
A luz da manhã entrava pela janela, mas ele não se sentia revigorado. Em vez disso,
sentia-se mais confuso do que nunca.

---

**O Chamado**

Antes que pudesse refletir sobre os sonhos, um som de sinos ecoou pela vila. Era um
chamado de emergência. Katsuma se levantou rapidamente, vestiu-se e correu para a
praça central, onde uma multidão já se reunia. No centro, um homem velho, que servia
como líder da vila, discursava com uma expressão grave.

— Irmãos e irmãs, fomos alertados sobre uma nova ameaça. Criaturas das sombras foram
vistas nas proximidades, destruindo tudo em seu caminho. Não sabemos de onde vieram,
mas sabemos que são perigosas. Precisamos nos preparar para lutar!
Katsuma sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele sabia exatamente do que o líder
estava falando. As figuras que o atacaram na floresta eram apenas o começo. Algo muito
maior estava se movendo, e ele estava no centro disso.

Antes que pudesse se oferecer para ajudar, uma voz irrompeu na multidão.

— Katsuma deve liderar! — gritou um dos aldeões. — Ele é o melhor espadachim da vila.
Se alguém pode nos proteger, é ele.

A princípio, Katsuma hesitou. Ele nunca buscara ser um herói, muito menos liderar. Mas ao
olhar ao redor e ver os rostos de seus amigos e vizinhos, percebeu que não tinha escolha.
Ele era a única chance deles.

— Está bem. Eu irei — disse ele, sua voz firme apesar do nervosismo que sentia. — Mas
vocês devem confiar em mim. Não será uma luta fácil.

Os aldeões assentiram, e Katsuma começou a organizar um pequeno grupo de guerreiros.


Enquanto preparavam armas e armaduras improvisadas, Ayame apareceu ao lado dele,
segurando algo envolto em um pano.

— Katsuma, tome isto. Pertencia ao seu pai — disse ela, revelando uma espada longa,
intricadamente forjada, com runas negras brilhando em sua lâmina.

Ele pegou a espada, sentindo um peso familiar e reconfortante em suas mãos.

— Obrigado, mãe — respondeu, olhando-a com gratidão. — Prometo que farei o meu
melhor.

Com a espada em mãos e a chama negra ainda pulsando dentro de si, Katsuma sentiu que
seu destino estava se revelando aos poucos. Ele não sabia o que o futuro reservava, mas
estava pronto para enfrentá-lo, com o coração ardendo como um vulcão prestes a entrar em
erupção.

Katsuma sentia o peso do destino sobre seus ombros enquanto empunhava a espada
herdada de seu pai. As runas negras que pulsavam em sua lâmina pareciam sussurrar
segredos antigos, ecos de uma guerra que transcendeu eras. Era como se aquela arma
contivesse fragmentos de histórias esquecidas, de batalhas travadas nos confins dos reinos
celestiais e infernais.

Ele sabia que a aldeia era apenas um grão de areia em um vasto oceano, e agora, sua
jornada o chamava para além das fronteiras que conhecia.

---

**Os Reinos Ancestrais**

Naquele mesmo dia, enquanto Katsuma liderava os aldeões em um breve confronto com
criaturas das sombras que rondavam os limites da vila, algo inesperado aconteceu. No
ápice do combate, enquanto suas chamas negras consumiam os inimigos, um portal rasgou
o ar diante de seus olhos. A abertura era um vórtice de luzes douradas, prateadas e
púrpuras, irradiando um poder avassalador.

Katsuma deu um passo para trás, sua espada ainda firme nas mãos. Uma figura emergiu do
portal. Era alta, envolta em uma armadura reluzente decorada com símbolos de várias
culturas – runas nórdicas, hieróglifos egípcios, mandalas hindus e insígnias de outras
civilizações mitológicas.

— Herdeiro das Chamas Negras — disse a figura, sua voz reverberando como um trovão.
— Sou Chronas, Guardião do Elo entre os Reinos. Seu destino não pertence apenas a esta
vila ou ao seu mundo. Você carrega uma chama que pode unificar ou destruir os domínios
de toda existência.

Katsuma o encarou, confuso e exausto.

— Do que está falando? Que reinos são esses?

Chronas ergueu a mão, e o portal se expandiu, revelando imagens de um vasto cosmos,


dividido em camadas e esferas.

— Existem muitos reinos, Katsuma. O Reino dos Deuses Olímpicos, onde Zeus governa o
Monte Olimpo com seu trovão. As terras geladas de Asgard, lar dos Aesir, onde Thor e Odin
preparam-se para o Ragnarök. Os reinos ocultos do Egito, onde Anúbis pesa os corações
dos mortos, e Rá guia o sol em sua barca celestial. As dimensões espirituais do Oriente,
onde dragões celestiais guardam as portas do Nirvana, e entidades como Amaterasu e
Susano'o moldam a realidade no Japão.

Katsuma observava aquelas imagens, um misto de fascínio e terror se apoderando de si.


Cada reino parecia pulsar com sua própria energia única, e mesmo sem ter estado lá, ele
sentia que uma parte de si pertencia a cada um deles.

— E onde eu me encaixo nisso tudo? — perguntou, sua voz carregada de inquietação.

— Você é o equilíbrio — respondeu Chronas. — A Chama Negra é um fragmento do fogo


primordial que criou os mundos e também aquele que pode destruí-los. Seu pai, Rodrik,
tentou usar esse poder para conquistar todos os reinos. Sua mãe, Heket, lutou para
contê-lo. Agora, esse poder está em você.

**A Jornada pelos Reinos**

Chronas estendeu a mão para Katsuma.

— Venha. Seu caminho começa agora.


Apesar de suas dúvidas, Katsuma sentiu que não poderia recusar. Ele olhou para Ayame,
que observava de longe com olhos marejados, como se soubesse que aquele momento
chegaria.

— Eu voltarei, mãe — prometeu, antes de segurar a mão de Chronas.

O portal os engoliu, e em instantes, Katsuma sentiu como se estivesse sendo arrastado


através do tempo e espaço. Ao abrir os olhos, ele estava em um novo mundo.

Era o Reino de Asgard, um plano de existência banhado por luzes douradas e cercado por
montanhas geladas. Valquírias sobrevoavam os céus, e ao longe, ele pôde ver a majestosa
ponte Bifrost, ligando aquele reino ao cosmos. Thor o aguardava no alto de uma colina,
segurando Mjölnir, seu martelo.

— Então este é o garoto que carrega a Chama Negra? — disse Thor, sua voz grave e seu
olhar avaliador. — Espero que esteja à altura, jovem mortal. A guerra está se aproximando,
e todos os reinos serão afetados.

Katsuma mal teve tempo de respirar antes que Thor continuasse.

— Você precisará visitar todos os reinos para entender o poder que carrega. Não será fácil.
Hades no Submundo Grego tentará corrompê-lo. Os dragões celestiais na China testarão
sua determinação. Até mesmo os deuses menores, como os Loas do Vodu, podem
interferir.

— Por que tudo isso depende de mim? — perguntou Katsuma, frustrado.

Thor deu um leve sorriso.

— Porque apenas o fogo pode moldar o ferro mais resistente. E você, garoto, é a chama
que forjará o futuro de todos os mundos, vá agora para a Grécia.

---

**Primeira Provação: O Submundo de Hades**

A jornada de Katsuma começou imediatamente. Chronas o guiou até o Reino Grego, onde
as portas do Submundo se erguiam como um labirinto eterno. A paisagem era desoladora,
com rios de lava cortando o terreno e almas penadas vagando sem rumo.

No centro de tudo, Hades, com sua coroa de ossos e olhar frio, aguardava.

— O herdeiro das chamas negras — disse Hades, com um sorriso pérfido. — Veio entregar
seu poder a mim?

Katsuma sentindo a chama negra pulsar dentro de si.

— Não vou ceder meu poder a ninguém.


Hades riu, sua voz ecoando como o rugido de mil tempestades.

— Veremos, garoto. Veremos.

A jornada por todos os reinos ainda estava apenas começando, mas uma coisa era certa:
Katsuma não seria o mesmo quando ela terminasse.

# CAPÍTULO 2: O Submundo e o Primeiro Julgamento

O Submundo de Hades era um lugar onde até a luz parecia se perder. Katsuma sentia o
peso das almas vagando ao seu redor, suas vozes sussurrando segredos de
arrependimento e dor. O ar era sufocante, impregnado com o cheiro de enxofre e podridão.

Chronas havia desaparecido no momento em que atravessaram os portões, deixando


Katsuma sozinho com seus pensamentos e sua espada. Diante dele, a vastidão do
Submundo se estendia como um pesadelo sem fim: rios de lava serpenteavam o terreno,
florestas de árvores mortas erguiam-se como garras e, ao longe, a fortaleza de Hades
brilhava com um sinistro brilho verde-esmeralda.

**A Travessia do Estige**

Katsuma não precisou andar muito antes de encontrar a primeira barreira. O Rio Estige, que
separava os vivos dos mortos, fluía à sua frente como um rio de almas em agonia. As águas
negras emanavam energia sombria, e Katsuma sabia que tocá-las significaria perder sua
humanidade.

Uma figura emergiu da escuridão, remando um barco de madeira velha. Era Caronte, o
barqueiro, com seu rosto encoberto por um manto esfarrapado e olhos que brilhavam como
brasas.

— Você não pertence a este lugar, mortal — disse Caronte, sua voz arrastada e grave. — E
mesmo assim, ousa cruzar o rio?

Katsuma ergueu sua espada, a chama negra dançando levemente ao longo da lâmina.

— Não tenho escolha. Meu destino me trouxe até aqui.

Caronte riu, um som seco e vazio.

— Destino é apenas uma desculpa para tolos que não entendem o peso de suas escolhas.
Mas se insiste, terá de pagar o preço.

— Que preço? — perguntou Katsuma, já cauteloso.

O barqueiro o encarou, apontando para o coração do jovem.


— O preço é uma memória. Uma lembrança que você considera preciosa. Algo que te
define.

Katsuma hesitou. Ele sabia que o Submundo testaria não apenas sua força, mas também
sua mente. Mesmo assim, assentiu.

— Então tire.

Caronte ergueu uma mão esquelética, e Katsuma sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
Uma cena de sua infância veio à tona: sua mãe, Ayame, ensinando-o a manejar uma
espada pela primeira vez. Ele tinha apenas seis anos, mas lembrava-se claramente da
sensação de conforto em sua presença. Lentamente, a memória começou a se dissipar
como fumaça ao vento.

Quando acabou, Katsuma caiu de joelhos, o peito apertado pela perda.

— Lembre-se, mortal — disse Caronte, enquanto o ajudava a embarcar. — Toda decisão


que você toma aqui tem um custo.

**O Encontro com Cérbero**

Depois de atravessar o Estige, Katsuma foi recebido por um rugido ensurdecedor que
reverberou pelo Submundo. O chão tremeu, e ele viu a gigantesca silhueta de Cérbero, o
guardião dos portões. O cão de três cabeças tinha olhos flamejantes e presas que
brilhavam como lâminas.

Cérbero bloqueava o caminho para a fortaleza de Hades, e suas cabeças rosnavam em


uníssono, cada uma irradiando uma aura diferente: uma gélida como a morte, outra ardente
como o inferno, e a terceira impregnada com a podridão da corrupção.

Katsuma firmou os pés no chão, segurando sua espada com as duas mãos.

— Não estou aqui para causar problemas, guardião. Só quero passar.

Cérbero, no entanto, não era uma criatura que ouvia palavras. Ele atacou, suas três
cabeças movendo-se em uníssono como serpentes. Katsuma desviou do primeiro golpe por
um triz, sua espada colidindo com os dentes de uma das cabeças. A força do impacto
quase o derrubou.

A batalha foi brutal. Cada golpe que Katsuma desferia parecia insignificante contra a pele
endurecida de Cérbero. As chamas negras que ele invocava queimavam as patas da
criatura, mas não eram suficientes para detê-la.

As vozes retornaram à sua mente:

"Não lute contra ele. Compreenda-o", disse a voz feminina.

"Subjugue-o. Prove que é digno", rugiu a voz masculina.


Katsuma respirou fundo, lembrando-se das palavras. Ele sabia que Cérbero era mais do
que um monstro; era um guardião, um protetor do Submundo. Em vez de tentar derrotá-lo,
Katsuma abaixou a espada e ergueu uma mão, permitindo que as chamas negras
dançassem entre seus dedos.

— Eu não sou seu inimigo — disse ele, a voz firme. — Quero apenas encontrar Hades.
Deixe-me passar, e prometo que não trarei destruição ao seu domínio.

Cérbero hesitou. Suas cabeças o encararam com olhos avaliadores, como se medindo a
verdade em suas palavras. Finalmente, a criatura deu um passo para trás, abrindo caminho.
Katsuma passou, mas não sem antes sentir o olhar do guardião em suas costas, como um
aviso silencioso.

**O Encontro com Hades**

A sala do trono de Hades era grandiosa e sombria. Colunas de ossos sustentavam o teto
abobadado, e no centro, em um trono feito de pedra obsidiana, estava o deus do
Submundo. Sua presença era imponente, com uma túnica negra que parecia absorver a luz
e olhos que brilhavam como esmeraldas envenenadas.

— Você chegou mais longe do que eu esperava, garoto — disse Hades, com um sorriso
frio. — Mas antes que continue, preciso saber se você é digno de carregar essa chama que
tanto teme.

Com um estalar de dedos, Hades conjurou uma arena ao redor de Katsuma. No centro,
surgiram figuras que ele reconheceu imediatamente: eram aldeões de sua vila, mas seus
olhos estavam vazios, como se fossem fantoches sob o controle do deus.

— Mostre-me o quanto está disposto a sacrificar por esse poder — disse Hades. — Ou irá
perecer junto aos seus.

Katsuma apertou o punho ao redor da espada. Ele sabia que aquela era uma armadilha, um
teste para quebrar sua determinação. Mas mesmo assim, precisava encontrar uma maneira
de salvar as almas que estavam sendo usadas contra ele.

O combate começou, mas Katsuma sabia que aquela batalha era mais do que física. Ele
precisava entender como derrotar Hades sem sacrificar aquilo que mais valorizava: sua
humanidade.

Ele apertou a empunhadura de sua espada, sentindo o peso da decisão que precisava
tomar. Se lutasse contra eles, estaria ferindo inocentes, mas se hesitasse, daria a Hades
exatamente o que ele queria: Sua fraqueza.

— O que fará, guerreiro? — Hades perguntou, sua voz ecoando pela arena. — Irá matá-los
para sobreviver, ou se renderá diante do inevitável?
Katsuma recuou, os olhos arregalados em puro desespero. Ele não queria lutar contra seu
próprio povo. Suas mãos tremiam, e o suor frio escorria por sua testa. A mera ideia de
levantar sua lâmina contra eles era insuportável. Mas o medo maior era outro: ele não sabia
controlar seus poderes. O que aconteceria se tentasse usá-los?

— Eu… EU NÃO POSSO— ele grita em desespero com sua respiração irregular. — ISSO
NÃO ESTÁ CERTO!

A risada de Hades ecoou pela arena, cruel e divertida.

— Mas você precisa. E você não é o Herdeiro das Chamas Negras?!.

Os aldeões avançaram contra ele, seus olhos vazios refletindo apenas o comando do deus.
Katsuma tentou recuar ainda mais, mas sentiu a parede invisível da arena bloqueando sua
fuga. Ele ergueu sua espada instintivamente, o medo percorrendo cada fibra de seu corpo.

Então, aconteceu.

As chamas negras que ele ainda não compreendia explodiram de sua lâmina, como uma
fera selvagem libertada de sua jaula. Ele não queria usá-las, não queria machucar ninguém,
mas o fogo dançava fora de seu controle. As labaredas se espalharam pela arena,
consumindo tudo ao seu redor.

Os gritos dos aldeões o atingiram como punhais. Ele tentou deter as chamas, tentou apagar
o incêndio que ele mesmo havia criado, mas a energia fugia de suas mãos, indomável. Seu
desejo de proteger havia se transformado em destruição.

Quando as chamas finalmente se dissiparam, tudo o que restava eram cinzas. Os aldeões,
aqueles que ele deveria proteger, haviam desaparecido. Katsuma caiu de joelhos, os olhos
arregalados em choque, as mãos tremendo ao ver o que tinha feito.

O deus do Submundo estreitou os olhos, seu sorriso agora mais afiado, quase satisfeito.

— Fascinante — ele murmurou. — Você não recusou minha escolha binária. Você apenas
se perdeu nela.

Hades se levantou, caminhando em direção a Katsuma. A energia ao seu redor era


sufocante, como se a própria morte pairasse sobre ele. Katsuma, exausto e consumido pela
culpa, mal conseguia se mover.

— A chama que carrega é especial — Hades continuou. — Mas agora entende o preço que
ela exige. Quanto mais tentar controlá-la sem domínio, mais ela consumirá você. Está
disposto a carregar esse fardo?

Katsuma olhou para suas mãos, vendo os resquícios das chamas negras tremeluzindo. Ele
sabia que não havia retorno. Desde o momento em que pisara no Submundo, seu destino já
estava selado.
Hades soltou uma risada baixa.

— Cada escolha tem um preço.

— VOCÊ ME FEZ MATÁ-LOS! — Katsuma rugiu, sua voz carregada de dor e fúria. — EU
NUNCA VOU TE PERDOAR POR ISSO! — Seu corpo inteiro tremia, seus olhos brilhavam
com ódio e desespero. — SE ISSO É UM TESTE, ENTÃO QUEIME JUNTO COM ELE! Seu
peito queimava com fúria e culpa. Seu corpo se moveu antes que pudesse pensar: ele
avançou contra Hades, a lâmina em chamas buscando o deus que o havia manipulado.

Hades ergueu uma sobrancelha, como se já esperasse a reação. Com um simples estalar
de dedos, uma onda de pura escuridão atingiu Katsuma, lançando-o para trás. Ele colidiu
contra o chão, arfando de dor.

— Você ainda não entende nada — murmurou Hades, caminhando até ele. — A fúria pode
lhe dar força, mas sem controle, você nunca será mais do que uma marionete do próprio
poder.

Hades olhou Katsuma com um olhar de desdém, sua presença como uma sombra
opressiva.

— Você realmente acredita que é digno do que carrega dentro de si? — disse Hades, com
uma voz compartilhada de decepção. — Eu não preciso de guerra

Com outro estalar de dedos, Katsuma foi arremessado novamente ao chão, seu corpo
quebrando o silêncio com o impacto. Hades entregou uma mão, como se estivesse
dispensando a tentativa

— Você é uma piada, Katsuma. Sua raiva é apenas uma fachada, uma ilusão que o
engana. Como se você fosse capaz

Katsuma tentou erguer novamente, mas o olhar de Hades impediu qualquer tentativa. A
presença do deus era esmagadora.

— Você não está pronto para o que está por vir. Acho que está em um caminho de força,
mas está apenas se afundando mais fundo na escuridão, onde nem mesmo sua fúria pode
te alcançar.

Hades com um sorriso enigmático, mas cheio de desprezo. Ele se moveu lentamente

— Sua arrogância é quase comovente, Katsuma — disse Hades, a voz baixa, mas
carregada de desprezo. — Você acha que a força brutal é o suficiente, mas o que você
realmente não

Com um movimento sutil de seus dedos, a terra ao redor de Katsuma começou a se agitar,
e o ar se tornou mais denso. Hades chamou a mão, e uma onda de energia escura o
envolvida, esmagando-o de dor.
Katsuma acordou com um sobressalto, o ar fresco e carregado de uma energia vibrante
preenchendo seus pulmões. Sua visão estava turva, a sensação de ter sido transportado
abruptamente fazendo sua cabeça girar. Quando finalmente se recompôs, olhou ao redor e
percebeu que estava no centro de Atenas.

A cidade era deslumbrante, uma mistura de arquitetura grandiosa e ruínas antigas, com
colunas majestosas que se erguiam ao redor dele. O som de conversas e o eco distante de
passos reverberavam pelas ruas de pedra, mas algo naquele lugar parecia... diferente. O
ambiente estava carregado de uma energia que parecia observar tudo, como se a cidade
tinha consciência de sua presença. O sol brilhava intensamente, mas sua luz tinha um tom
dourado, quente e quase hipnotizante. Katsuma pôde sentir a pulsação daquela cidade
histórica, cheia de memórias de deuses e heróis antigos. Cada pedra parecia carregar
séculos de sabedoria, e ele não poderia deixar de sentir o peso da expectativa sobre seu
ombros.

Com os olhos fixos nas colunas imponentes ao redor, Katsuma deu um passo hesitante. O
som de suas botas ecoou nas ruas vazias enquanto ele avançava, mas logo foi interrompido
por uma voz suave, mas firme.

— Você não pertence a isso — disse o homem, sua voz suave, mas cheia de uma
sabedoria ancestral. — Eu sou Tiresias, ó profeta, e fui enviado para guiá-lo.

Katsuma parou abruptamente, seus olhos se fixando no homem que se aproximava.


Tiresias, o profeta cego, o observava com uma serenidade inquietante. O fato de o homem
ser cego não parecia limitar sua visão de Katsuma, como se ele pudesse ver além da
matéria e penetrar na alma do jovem.

— Eu… — Katsuma começou, sem saber como reagir, ainda atordoado pelos eventos
recentes. Ele estava preso em uma espiral de dor e confusão, lutando contra o peso de
suas ações no Submundo e agora se via diante de um homem que parecia saber mais
sobre seu destino do que ele próprio.

— Você está perdido, Katsuma — disse Tiresias, interrompendo-o suavemente. — Mas


todos os heróis que vagaram por este mundo também estiveram. A diferença entre você e
os outros é que você não está buscando a glória ou a vitória. Você está buscando a
redenção, e isso, meu jovem, não é algo que você pode encontrar sozinho.

Katsuma sentiu o peso daquelas palavras. A dor de ter matado sem querer aqueles da sua
vila ainda queimava como uma ferida aberta, e ele não sabia como se libertar disso. Como
poderia encontrar redenção? Como poderia apagar as marcas que deixara nas vidas
daqueles que jamais esqueceriam seu erro?

— Mas eu não posso mudar o que fiz — disse Katsuma, sua voz falha, cheia de desespero.
— Eu matei pessoas, destrui vidas. Não importa o que eu faça, isso não pode ser desfeito.

Tiresias sorriu, um sorriso triste, como se já tivesse ouvido tais palavras de outros muitos
antes.
— Nada no mundo pode apagar o passado Katsuma. Mas o que você fizer daqui para
frente, as escolhas que tomar, isso sim pode definir o que você se tornará. O poder da
chama negra que você carrega não é uma maldição, mas uma oportunidade. Uma chance
de salvar ou destruir, mas, para isso, você precisa entender que, ao contrário do que você
acredita, a força não está em suas mãos. Está em sua mente. Em sua capacidade de
escolher.

Era como se Tiresias estivesse vendo diretamente em seu coração, tocando uma verdade
que ele sempre evitou encarar. O que significava "escolher" em um lugar onde ele se sentia
totalmente impotente? Onde ele só tinha causado dor?

— Você está dizendo que eu posso... mudar? — perguntou Katsuma, ainda duvidoso.

— Sim — respondeu Tiresias, com uma voz que soava como uma promessa e uma
advertência ao mesmo tempo.

Tiresias observou Katsuma com uma profundidade que parecia atravessar sua alma, suas
palavras carregando o peso de uma sabedoria ancestral.

— O julgamento, Katsuma, não será um momento isolado. Ele começará dentro de você.
Não é um julgamento dos deuses ou dos homens, mas de sua própria alma. Cada escolha
que você fez até agora o trouxe até este ponto, e cada decisão futura será crucial.

Katsuma olhou para o profeta, ainda abalado, as memórias daquelas vidas perdidas, os
gritos e o cheiro da carne queimando, tudo ainda muito vívido em sua mente. Sua garganta
apertava, e ele sentia uma dor lancinante no peito. Mas Tiresias continuou, sua voz suave,
mas firme.

— A verdade, Katsuma, é que cada decisão que tomamos tem um peso. E isso não
significa que você tenha que carregar o fardo da culpa eternamente. O que importa agora é
o que você fará com o que carrega dentro de si. Você pode escolher continuar no ciclo de
arrependimento ou aprender a abraçar a dor, usá-la para se transformar. A escolha será
sempre sua. A verdadeira força não vem de tentar apagar o que foi feito, mas de viver com
isso e seguir em frente.

Katsuma ficou calado,olhando para o chão com um olhar de culpa.

Tiresias observou o garoto, sabendo que suas palavras ainda não haviam penetrado
completamente no coração do jovem. O profeta podia ver as sombras de arrependimento e
culpa pesando sobre ele, ainda tão pesadas quanto antes.

Katsuma, com os olhos baixos e o peito apertado, sentiu que não conseguia abraçar a ideia
de escolha que Tiresias lhe oferecia.

Tiresias observou Katsuma por mais alguns momentos, vendo a luta interna que ainda o
dominava. O jovem estava distante, suas emoções um turbilhão de culpa e arrependimento,
mas, ao mesmo tempo, havia algo nele que ainda buscava uma saída. Não seria fácil, mas
Tiresias sabia que o primeiro passo era dar a Katsuma o tempo e o espaço necessários
para processar tudo aquilo.

— Venha comigo — disse Tiresias finalmente, com uma suavidade inesperada em sua voz.
— Eu tenho um lugar onde você pode descansar e refletir,você precisa de calma para poder
treinar sua mente e suas decisões.

Katsuma hesitou por um momento, sentindo que ainda não estava pronto para se afastar da
dor que o consumia. Mas a voz de Tiresias era firme, e, de algum modo, ela oferecia algo
que ele ainda não tinha: uma oportunidade para parar e respirar. Ele assentiu, mesmo que
com relutância, e seguiu o profeta.

Tiresias conduziu Katsuma por ruas estreitas e silenciosas de Atenas até sua casa, um
lugar simples, mas acolhedor. As paredes eram adornadas com símbolos antigos e livros
empilhados, como se cada canto tivesse um pedaço da sabedoria acumulada ao longo dos
anos. Lá, o profeta preparou uma cama simples para Katsuma, oferecendo-lhe um local
seguro onde ele poderia descansar, sem mais distrações do mundo exterior.

— Você está exausto — disse Tiresias, enquanto Katsuma se acomodava. — O corpo e a


mente precisam de descanso, mas também precisam de treino. Ajudarei você a se
fortalecer, mas é necessário que você queira dar esse primeiro passo.

Katsuma se deitou, olhando para o teto, sentindo o peso de sua culpa e arrependimento
ainda muito vivo em sua mente.

Tiresias sentou-se ao seu lado, em silêncio por um tempo. Quando finalmente falou, sua voz
era calma e firme.

— O julgamento não é apenas uma série de perguntas e respostas. É um processo, ele


começa com a compreensão de quem você é e do que fez. E você pode escolher o que
fazer com isso.

Katsuma fechou os olhos, tentando bloquear as lembranças, mas não conseguia. Ele sabia
que teria que enfrentar aquilo mais cedo ou mais tarde, mas, por agora, ele não sabia como.
Só sentia que precisava descansar, talvez mais do que qualquer outra coisa.

— Descansaremos agora — disse Tiresias. — Amanhã, começaremos o treino. O que você


precisa não é apenas de tempo, mas de um caminho. E, para isso, precisa aprender a
dominar seus próprios pensamentos, sua própria mente.

Katsuma, ainda perturbado, fechou os olhos. Mesmo que não acreditasse completamente
nas palavras de Tiresias, algo dentro dele parecia querer tentar. Ele sabia que não havia
como voltar atrás, então, por ora, ele se permitiria descansar.

# **Capítulo 3: Perspectiva justa


Katsuma acordou com os olhos saltados, ainda respirando com dificuldade. O cheiro
nauseante de carne queimando estava impregnado em sua mente, e os ecos dos gritos das
almas que ele não conseguiu salvar ainda o atormentavam. Ele queria vomitar, mas o
estômago estava vazio, uma sensação amarga que não o deixava em paz. O peso da culpa
esmagava seus ombros, fazendo cada passo parecer mais difícil do que o anterior.

Ele sentia o coração apertado, como se fosse esmagado por uma força invisível. Cada
respiração era um lembrete da dor que ele carregava, e a memória da batalha no
Submundo era vívida como uma faca cravada em sua mente.

A carne queimando. Os gritos. As almas que ele havia perdido. Não importava onde
estivesse, Katsuma sentia como se o fogo ainda o consumisse. Ele tentava afastar as
imagens, mas elas estavam lá, implacáveis, sempre voltando. O peso do arrependimento
era um peso que ele nunca imaginou carregar. Ele sabia que nunca poderia voltar atrás,
mas se houvesse uma maneira de reparar, ele faria qualquer coisa.

A sensação de estar preso entre a culpa e o medo o estava destruindo por dentro. Ele não
sabia mais quem ele era ou o que deveria fazer para lidar com isso. Cada passo era uma
tentativa de escapar, mas ele sabia que o verdadeiro confronto era consigo mesmo.

Ele sentou-se, tentando controlar a respiração, mas a dor não ia embora. Cada lembrança
das chamas negras, de sua incapacidade de controlar seu poder, fazia seu corpo tremer.
Ele sentia como se sua própria essência estivesse sendo corroída, e a culpa o afogava.

— Eu não queria isso... — ele sussurrou, as palavras saindo de sua garganta com
dificuldade. — Eu não queria...

Mas a verdade era clara: ele estava indo por um caminho do qual não conseguia voltar. O
primeiro trauma de sua vida o havia marcado, e agora ele precisava aprender a viver com o
peso do que fez. Mas o que ele não sabia era se seria capaz de carregar essa dor para
sempre, ou se um dia, ele poderia encontrar uma forma de se redimir.

A porta se abriu suavemente, interrompendo seus pensamentos, e a figura de Tiresias


apareceu na entrada. O profeta estava calmo, com o olhar profundo, como se já soubesse o
que se passava na mente de Katsuma.

— Não há como fugir de suas lembranças, Katsuma. Elas são agora parte de você — disse
Tiresias, com uma voz firme, mas suave. — A verdadeira batalha não é contra o que você
fez, mas contra o que você sente. É contra a dor que você carrega.

Katsuma levantou a cabeça, seus olhos marejados pela angústia.

— Eu nunca vou me livrar disso. Eu... Eu matei pessoas. Eu fui um monstro. — Sua voz
falhou, e ele fechou os olhos, tentando controlar as lágrimas que insistiam em surgir.

Tiresias sorriu suavemente, quase como se soubesse a batalha em sua mente,como se


tivesse passado por isso.
— A primeira coisa que você precisa entender, Katsuma, é que não existe redenção sem
uma decisão. Você pode continuar se afundando no peso de sua culpa, ou pode começar a
aprender com ela. A escolha é sua. Mas lembre-se de que cada passo que você der agora,
mesmo os mais pequenos, será uma decisão para sua jornada.

Katsuma olhou para o profeta, ainda sem acreditar nas palavras do profeta. Ele sabia que o
caminho à frente não seria fácil, mas, precisava continuar sua jornada com esta culpa em
sua mente, que agora seria um de seus maiores tormentos.

— Eu... Eu tentarei. Mas não sei se sou capaz. — disse ele, apenas para tranquiliza seu
recém professor.

— Você não precisa ser capaz de tudo de uma vez, Katsuma. Só precisa dar o primeiro
passo — disse Tiresias, com um olhar sereno. — Vamos começar agora. Com o treino.
Você começará a entender o que é verdadeiramente importante, e a partir daí, verá que as
escolhas que você faz, por mais difíceis que sejam, podem levá-lo à paz.

Katsuma não sabia como seria o próximo passo, mas sabia que não poderia mais viver com
o peso da culpa. Ele se levantou lentamente, respirando fundo, e olhou para Tiresias. A
jornada estava apenas começando, e ele estava pronto para aprender, por mais difícil que
fosse.

O treino com Tiresias não era como qualquer outro que Katsuma já havia experimentado.
Não havia espadas, não havia batalhas físicas, mas algo mais profundo, mais desafiador. O
verdadeiro treino era para a mente e para o espírito.

Tiresias começou explicando a Katsuma como as escolhas moldam o destino. Ele o levou a
um jardim tranquilo, longe da agitação das ruas de Atenas, onde árvores antigas se
erguiam, protegendo-os da luz intensa do sol. Ali, o profeta começou a lhe mostrar o poder
da calma e da reflexão.

— Cada escolha que você faz tem consequências. Mas também tem o poder de transformar
o futuro. Você carrega o peso de suas decisões, sim, mas elas não precisam ser a sua
sentença de morte. Você pode transformá-las, se escolher fazer isso.

Katsuma ouvia com atenção, tentando entender as palavras de Tiresias. Mas a dor ainda
estava lá, latente, e a culpa não parecia diminuir. Ele se perguntava como poderia avançar
enquanto ainda sentia o peso daquilo que havia feito. Como poderia acreditar nas palavras
de Tiresias quando, em sua mente, as chamas e os gritos ainda o perseguiam?

Katsuma fechou os olhos por um momento, tentando entender.

— Como posso fazer isso? — perguntou ele, a voz carregada de incerteza.

Tiresias sorriu com paciência, seus olhos profundos e compreensivos.

— Você não precisa se livrar de tudo de uma vez. O que você precisa é começar a enxergar
a verdade de quem você é, sem as máscaras da culpa. Você tem medo de olhar para o que
fez, e é esse medo que o mantém preso. Mas só quando você olhar para a sua própria
escuridão, será capaz de encontrar a luz. Não se apresse. O tempo não é o seu inimigo. A
pressa é.

— Mas se eu não dominar meu poder... se eu não souber quem eu sou a tempo... o mundo
estará perdido... — disse Katsuma, com a voz pesada e triste, o medo transbordando em
suas palavras.

Tiresias parou por um momento, observando-o com seus olhos cegos, mas carregados de
sabedoria. Ele sabia o peso das palavras de Katsuma, a pressão que sentia por carregar a
responsabilidade de salvar algo maior do que ele mesmo. Mas Tiresias também sabia que a
verdadeira luta não estava apenas em controlar o poder, mas em entender o ser por trás
dele.

— O que você tem que entender, Katsuma — disse Tiresias, com calma —, é que o mundo
não depende de uma única pessoa. Não depende de você dominar seu poder de imediato
ou de encontrar todas as respostas agora. A verdadeira luta não está em controlar o que
você não entende, mas em entender o que você pode controlar: suas escolhas, suas
intenções.

Katsuma olhou para o chão, sentindo a dor da dúvida se espalhando por sua mente. Como
ele poderia fazer isso? Como poderia seguir em frente sem saber se seu poder seria capaz
de salvar ou destruir?

Tiresias, percebendo a luta silenciosa de Katsuma, continuou com uma suavidade que só
ele possuía.

— O poder que você carrega é imenso, isso é verdade. Mas é a sua visão de si mesmo que
o torna perigoso ou salvador. Não é o que você pode fazer com seu poder, mas como você
escolhe usá-lo. Sua jornada não é sobre encontrar a maneira perfeita de controlar tudo, mas
sobre aprender a tomar responsabilidade por suas ações. E isso começa em saber quem
você é, não no que você pode fazer.

Katsuma olhou para Tiresias, a confusão estampada em seu rosto. As palavras do profeta
reverberavam em sua mente, mas ele ainda não conseguia entender completamente.

— Você entenderá, Katsuma. Em breve, tudo fará sentido. — disse Tiresias com uma
tranquilidade que só alguém com sua experiência poderia transmitir. — Mas por agora,
vamos começar. O caminho da autocompreensão não é fácil, e você precisará de mais do
que palavras para lidar com a força que carrega dentro de si. Vamos treinar.

Katsuma, com os olhos ainda carregados de dúvidas, assentiu. Ele sentia o peso da
responsabilidade em seus ombros, mas também sabia que precisava fazer algo. Ele não
podia mais se dar ao luxo de esperar pela clareza que ainda não tinha. O treinamento, a
jornada, começariam ali, naquele momento.

Tiresias se afastou um pouco e então fez um gesto com a mão, como se chamasse
Katsuma para seguir. A sua voz voltou, calma, mas carregada de autoridade.
— O treinamento não será apenas físico, Katsuma. Você vai aprender a observar, a
controlar seus pensamentos, e a confrontar suas sombras. Não é apenas o poder que você
precisa dominar, mas a sua própria mente. Você ainda pensa que o que tem de mais forte
está em suas habilidades, mas, no fim, o que realmente define o seu poder é como você
lida com os monstros dentro de você. E a verdadeira batalha está em aprender a ser dono
de si mesmo.

Katsuma deu um passo hesitante, mas, ao ver a seriedade e a confiança nos olhos de
Tiresias, ele se sentiu compelido a seguir. Ele ainda não compreendia completamente o que
o esperava, mas o simples fato de ter alguém ao seu lado, guiando-o, lhe dava um leve
impulso de esperança.

Tiresias, com seu olhar tranquilo, indicou o começo do treinamento.

— Vamos começar com a observação do ambiente ao seu redor, Katsuma. Preste atenção
a cada detalhe, ao som, à luz, ao movimento. A percepção é o primeiro passo para a
autocompreensão. Não se concentre no que você acha que já sabe, mas no que você pode
aprender a partir do que vê e sente agora.

Katsuma respirou fundo, sentindo um calor crescente dentro de si. Ele ainda estava longe
de entender como tudo isso iria ajudá-lo a controlar seu poder ou encontrar respostas para
suas dúvidas. Mas, por um momento, a pressão pareceu diminuir. Talvez ele estivesse
dando os primeiros passos na direção certa.

— Eu farei o meu melhor, Tiresias. — ele respondeu com determinação, ainda inseguro,
mas agora mais disposto a seguir adiante.

Katsuma fechou os olhos, tentando se concentrar nas palavras de Tiresias. Ele se forçou a
escutar o som da brisa que passava entre as árvores, a luz que dançava nas folhas, o
movimento do vento tocando suavemente sua pele. Mas, por mais que tentasse, a dor de
sua culpa e a pressão de suas dúvidas o envolviam como uma tempestade.

O que ele via, o que sentia, parecia distante, como se estivesse vendo tudo através de uma
névoa espessa. Não conseguia se concentrar, não conseguia afastar a mente do peso que
carregava, da culpa que ainda o consumia. Cada som parecia um eco distante, cada
sensação uma distração inútil.

Ele tentou novamente, fechando os olhos com mais força, tentando se livrar da confusão,
mas tudo ao seu redor parecia se tornar mais intenso, mais irritante. Cada leve movimento,
cada som sutil, se transformava em uma sensação insuportável. Ele sentiu o calor
crescente em seu corpo, mas não de uma forma tranquila. A frustração tomava conta de
seus pensamentos.

— Isso é impossível! — Katsuma gritou, abrindo os olhos e encarando Tiresias, o rosto


vermelho de raiva. — Eu não consigo! Isso não está funcionando! Por que você está me
forçando a fazer isso? Você acha que isso vai me ajudar a controlar meu poder? A salvar o
mundo? Eu mal consigo me concentrar!
Tiresias observou Katsuma com uma calma imperturbável, seus olhos cegos focados no
jovem diante dele. O silêncio entre eles parecia denso, como se a própria atmosfera
estivesse esperando pelas palavras que viriam a seguir.

— A raiva... — começou Tiresias, sua voz tranquila mas firme. — Ela é uma aliada
poderosa, Katsuma. Não a rejeite, não a ignore. Ela tem a capacidade de te impulsionar, de
te dar força quando você mais precisa. Mas como toda força, ela deve ser dominada,
controlada. Ela precisa ser usada no momento certo, com sabedoria, caso contrário, ela
será sua destruição.

Katsuma ouviu as palavras de Tiresias, mas a frustração começou a crescer dentro dele,
queimando como fogo. Ele não queria mais ouvir sobre como dominar sua raiva. Ele queria
entender, queria uma resposta clara, algo que pudesse tomar e usar para finalmente
controlar seu destino. A raiva estava dentro dele, e ela o dominava a cada segundo.

— Eu não entendo! — gritou Katsuma, sua voz carregada de raiva e confusão. — Não sei
como controlar isso! Não sei o que fazer!

Sua respiração ficou mais pesada, o ar ao seu redor parecia aquecer. Ele sentiu sua
energia aumentar, o calor de suas chamas internas tomando conta de seu corpo. Seus
olhos começaram a brilhar com uma intensidade vermelha, e de repente, uma onda de calor
tomou seus membros. Seus chifres começaram a nascer lentamente, rompendo a pele de
sua testa, e cresceram com uma rapidez assustadora.

A fúria tomou conta de sua mente, as chamas negras dançando ao redor de seus braços,
iluminando a escuridão do ambiente. Ele se sentia como se fosse explodir a qualquer
momento, mas não sabia como direcionar essa força. Ele olhou para Tiresias, seu rosto
contorcido em raiva, os olhos vermelhos fixos no guia.

— Como você espera que eu controle isso, se tudo o que sinto é uma necessidade de
destruir tudo ao meu redor?! — ele bradou, seus chifres agora visíveis, sua pele marcada
pelas chamas que cobriam seu corpo. — Não há controle! Não há resposta! Eu só... eu só
quero entender, mas tudo o que eu vejo são os fantasmas do que fiz e as chamas que me
consomem!

O calor estava tão intenso que as pedras ao redor começaram a esquentar, e a fumaça das
chamas negras começou a se espalhar. Katsuma sentia a luta dentro de si, a raiva
queimando mais forte do que tudo o que ele já havia sentido. Seus dentes estavam à vista,
como se seu corpo quisesse se transformar em algo que ele não reconhecia, algo mais
primal, mais selvagem.

Tiresias não se moveu, não demonstrou medo ou pressa. Ele ficou parado, observando
Katsuma com a calma que só os mais sábios possuem. Ele sabia que esse era um
momento crucial, e que Katsuma precisaria entender isso por si mesmo.

— Isso é a sua raiva tomando forma, Katsuma — disse Tiresias, sua voz mais profunda
agora, quase como se estivesse falando de algo muito além do corpo de Katsuma. — Você
está vendo o poder que ela tem, mas você ainda não entende que ela não pode ser usada
sem sabedoria. Ela é sua, mas também não é. Ela é uma parte de quem você é, mas não é
tudo o que você é.

Katsuma estava ofegante, a dor da transformação e da raiva queimando intensamente


dentro dele. Ele queria gritar, queria destruir, mas, ao mesmo tempo, havia algo dentro dele
que tentava segurar essa fúria.

— Não! Eu não consigo mais... Eu não sei mais quem sou! — disse Katsuma, os olhos
agora quase completamente vermelhos, sua forma tomada pelas chamas.

Tiresias deu um passo à frente, suas palavras suaves, mas carregadas de um poder calmo
e absoluto.

— A raiva é uma ferramenta, Katsuma, não a sua identidade. Se você não entender isso,
ela será sua condenação. Não é sobre suprimir quem você é, mas sobre aprender a
controlar o que você carrega. Você pode sentir isso, mas não precisa deixá-la guiar seus
atos. Você tem o poder de decidir como usá-la.

Katsuma respirou profundamente, seus chifres agora totalmente formados, suas chamas
começando a se acalmar lentamente. A raiva ainda borbulhava dentro dele, mas ele estava
começando a perceber a verdade nas palavras de Tiresias. Ele não precisava ser
controlado pela sua raiva, não mais.

Ele ainda estava em pé, mas sua postura estava mais tensa do que nunca, como se
estivesse tentando segurar uma tempestade dentro de si. Seus olhos vermelhos lentamente
começaram a voltar ao normal, e o fogo ao seu redor foi se apagando, embora os ecos da
fúria ainda permanecessem.

Ele se concentrou nas palavras de Tiresias, tentando entender o que significava ser uma
ferramenta ao invés de ser dominado por sua fúria. Sua respiração foi ficando mais lenta,
mais profunda, e ele começou a ouvir o som do vento passando pelas árvores ao redor. Um
som suave, tranquilo, como se a natureza estivesse sussurrando para ele.

Ele tentou se conectar com esse som, a princípio, foi difícil. Sua mente estava tumultuada,
cheia de pensamentos caóticos, mas, aos poucos, os sons da floresta começaram a se
tornar mais nítidos. O farfalhar das folhas, o canto distante de um pássaro, o estalo dos
galhos sob o peso do vento. Ele se permitiu ouvir, se concentrar apenas no que estava ao
seu redor.

Quando ele finalmente abriu os olhos novamente, o calor de seu corpo diminuiu
consideravelmente, e o fogo interno que antes o consumia agora parecia mais controlado,
mais contido. Ele sentia um equilíbrio que não havia conhecido antes, uma paz que vinha
do simples ato de se conectar com o ambiente.

— Eu... eu consegui — disse Katsuma, com uma leve surpresa na voz. — Eu ouvi. Eu
consegui focar nos sons...
Tiresias olhou para ele com aprovação, seu olhar tranquilo e sereno, como sempre.

— Você deu o primeiro passo, Katsuma. A percepção do ambiente ao seu redor, o foco no
presente, isso é o começo da verdadeira compreensão. Você está aprendendo a controlar o
que sente, a ouvir o que está ao seu redor sem ser consumido por suas próprias emoções.
Isso é autodomínio.

Katsuma se sentiu exausto, mas ao mesmo tempo, mais leve. Ele não havia dado uma
resposta final a tudo o que estava sentindo, mas algo dentro dele tinha mudado. Ele sentia
que estava começando a entender, que poderia realmente encontrar o equilíbrio entre a
raiva que o consumia e a paz que ele ansiava.

— O que vem agora? — perguntou Katsuma, ainda com dúvidas, mas com uma nova
determinação em seu tom.

Tiresias fez um gesto amplo, como se indicasse o horizonte à frente.

— Agora, vamos descansar um pouco. Vamos nos alimentar e, depois, continuaremos o


treinamento. Você precisará de forças para o que vem a seguir.

Eles caminharam até um pequeno acampamento improvisado, onde havia um fogo aceso e
algumas provisões. Tiresias preparou uma refeição simples, mas nutritiva, enquanto
Katsuma se sentava em silêncio, ainda processando as palavras do guia. A comida foi
recebida em silêncio, Katsuma comia lentamente, mas com um foco renovado. Havia algo
no ar, uma sensação de mudança que o deixava mais alerta, mais ciente de seu corpo e da
sua mente.

Após a refeição, Tiresias se levantou e foi até Katsuma, segurando uma venda de tecido
simples.

— Agora, vamos aprimorar seus outros sentidos. Feche os olhos e confie em seus outros
sentidos, como você confiou na audição antes. Quando você fechar os olhos, será mais
difícil confiar na visão, então você terá que se concentrar ainda mais no que pode ouvir, no
que pode sentir ao seu redor.

Katsuma não hesitou. Ele estava determinado a continuar, então fechou os olhos com
firmeza enquanto Tiresias o vendava. Ele sentiu o tecido frio contra a pele e o som do vento
se intensificou, assim como o perfume da terra úmida. A sensação de estar mais vulnerável,
com os olhos privados de sua visão, fez seu coração acelerar um pouco.

O jovem estava se esforçando para ouvir e perceber o ambiente, mas sua mente estava
carregada de dúvidas, tornando cada tentativa mais difícil.

Com um gesto rápido e preciso, Tiresias se aproximou de Katsuma e, antes que ele
pudesse reagir, deu um golpe leve em seu ombro. Katsuma se afastou involuntariamente, o
golpe o pegando de surpresa. Ele sentiu a dor, mas também algo mais: uma sensação de
alerta, de que ele deveria estar mais atento a tudo ao seu redor.
— O que você está tentando fazer agora, Katsuma? — perguntou Tiresias com a voz calma,
mas firme. — Está tentando controlar tudo, mas a verdadeira habilidade está em não ser
pego de surpresa.

Katsuma levantou a cabeça, tentando processar a situação, mas sua frustração só


aumentou.

— Eu... não entendo! — disse Katsuma, sua voz mais baixa, cheia de confusão e raiva. —
Como posso fazer isso se não posso ver nada?!

Tiresias não respondeu com palavras, mas, de repente, ele deu outro golpe, agora
direcionado para o peito de Katsuma. Desta vez, Katsuma conseguiu dar um passo para
trás, esquivando-se parcialmente, mas não o suficiente para evitar o impacto, que o fez
perder o equilíbrio.

— Você não vai aprender a esquivar se continuar tentando controlar tudo. A esquiva não
vem da força, vem da percepção, da sensibilidade. Quando você aprende a ouvir, a sentir,
você pode se antecipar aos movimentos do seu inimigo, ao que está ao seu redor. Não é
sobre ser rápido demais, mas sobre ser sutil o suficiente para saber quando se mover.

Katsuma, com os olhos ainda vendados, sentiu o corpo tenso, a raiva quase o consumindo
novamente. Mas ele sabia que algo tinha mudado. A cada golpe que recebia, ele se via
forçado a reagir, a aprimorar sua capacidade de perceber, de se adaptar. Não era apenas
sobre desviar fisicamente, mas sobre entender o momento certo de agir.

— Levante-se. Não pare. Continue tentando — disse Tiresias, a voz inabalável. Ele não
ofereceu nenhuma ajuda direta, apenas a constante pressão de suas palavras e ações.

Katsuma, agora com a respiração mais pesada, mas sentindo a adrenalina correr em suas
veias, tentou mais uma vez. Ele escutou o movimento de Tiresias, mais uma vez prestando
atenção em cada som ao seu redor, se preparando para o próximo ataque. Quando o golpe
veio, Katsuma se inclinou para o lado, conseguindo se desviar, embora não de forma
perfeita. Mas, dessa vez, ele conseguiu sentir a direção do ataque antes de ser atingido.

Tiresias sorriu levemente, notando a melhora, e deu um passo atrás.

— Bom. Você não está controlando a raiva, Katsuma, mas você está começando a usá-la.
Está começando a reagir de acordo com o momento certo.

Sem mais aviso, Tiresias atacou. Seus movimentos foram rápidos, quase imperceptíveis, os
golpes certeiros e sem aviso. Katsuma não teve tempo de se preparar adequadamente,
mas, por instinto, ele se inclinou para o lado, sentindo o sopro do ataque passar. No
entanto, não foi o suficiente para evitar completamente o impacto do golpe que atingiu seu
ombro. O poder de Tiresias fez o corpo de Katsuma tremer, e a dor se espalhou por seu
corpo.

Katsuma, ofegante, tentou se recompor, mas seu corpo ainda estava fora de sintonia. Ele
sentia o calor de sua raiva queimando, a frustração aumentando. Ele sabia que precisava
reagir mais rápido, mas a pressão de tudo o que estava acontecendo estava pesando sobre
ele.

Tiresias, sem dar espaço para Katsuma se recuperar, atacou novamente, dessa vez mais
rápido, mais preciso. O primeiro golpe foi uma abertura, um movimento fluido que Katsuma
não conseguiu acompanhar. O segundo veio em um ângulo diferente, mais baixo,
pegando-o desprevenido e fazendo-o cair para trás.

Tiresias olhou para Katsuma com um semblante severo, mas não desprovido de
compreensão. "O julgamento da alma não é apenas sobre arrependimento, Katsuma. Você
precisa fortalecer sua mente e corpo. Somente quando sua estratégia for tão afiada quanto
sua lâmina e seu espírito for inabalável, seu verdadeiro poder poderá emergir."

Katsuma ergueu os olhos para o guia, absorvendo suas palavras. Ele sabia que não podia
depender apenas de sua força bruta ou de sua culpa. Precisava entender suas fraquezas e
transformá-las em força.

"Então devo primeiro aprimorar minhas habilidades físicas e mentais... antes de focar no
meu poder?" Katsuma perguntou, sentindo que começava a compreender o caminho que
precisava seguir.

Tiresias assentiu. "Exato. A imprudência já te levou ao erro antes. Agora, deve aprender a
pensar antes de agir, a prever os movimentos de seus inimigos, a dominar sua própria
mente antes de tentar controlar qualquer força além de si mesmo."

Katsuma sentiu um peso diferente em seu peito, não o da culpa esmagadora, mas o da
responsabilidade. Ele precisava se reconstruir para poder enfrentar os desafios que o
aguardavam no julgamento e além.

Com essa nova compreensão, ele começou sua jornada, treinando sua resistência,
aprendendo a controlar suas emoções e aperfeiçoando suas estratégias de combate. Cada
passo era uma reconstrução, cada aprendizado um tijolo em sua nova fundação. Ele sabia
que a estrada era longa, mas pela primeira vez, sentia que estava no caminho certo.

Os dias passaram e o treinamento revelou-se árduo. Katsuma era forçado a encarar seus
próprios limites – físicos e mentais. Tiresias o testava constantemente, colocando-o em
situações onde sua primeira reação era sempre a impulsividade, forçando-o a refrear seus
instintos e buscar clareza antes da ação.

"De novo." A voz firme de Tiresias ecoava pelo espaço árido onde treinavam. Katsuma,
ofegante, levantou-se do chão, sentindo cada músculo protestar. Sua mente gritava para ele
reagir com força, para golpear com tudo que tinha, mas ele sabia que não era isso que
Tiresias queria.

Fechou os olhos por um instante, respirou fundo e, desta vez, estudou a postura de seu
oponente ilusório. Cada detalhe importava. A forma como ele se movia, o peso nos pés, a
tensão nos ombros. Em um instante, compreendeu o padrão de ataque e desviou antes
mesmo que o golpe viesse.
Tiresias esboçou um pequeno sorriso. "Agora está começando a entender."

O treinamento continuou, expandindo-se para estratégias de batalha e controle emocional.


Katsuma aprendeu a não se deixar levar pelo medo ou pela raiva. A cada fracasso, ele
analisava e corrigia, sem deixar que a frustração o dominasse. Seus movimentos
tornaram-se mais calculados, sua mente mais afiada.

O peso da culpa ainda estava lá, mas agora era um lembrete, um lembrete de que precisa
melhora a cada dia. Katsuma estava começando a moldar-se em algo novo – alguém que
poderia, um dia, enfrentar seu julgamento.

# Capítulo 4: O Caminho da Incerteza

Após o intenso treinamento, Katsuma saiu pelas portas de ferro, sentindo o ar quente da
tarde greco-romana bater contra seu rosto. A cidade de Atenas parecia viva, mas ao mesmo
tempo mergulhada em uma calma desconcertante, como se estivesse à beira de um
colapso. A visão da cidade, com seus templos e colunas antigas, agora pareciam cacos de
um passado glorioso que a guerra não conseguiu destruir, mas alterou profundamente. As
ruas estavam cobertas por poeira, com os ecos das antigas batalhas ainda pairando no ar.

Katsuma caminhava com passos decididos, mas sua mente estava longe, em um lugar que
ele ainda não entendia completamente. Ele carregava a responsabilidade de ser o herói de
uma guerra que não escolheu travar, e a carga dessa expectativa era como um peso
esmagador em seu peito. Ele não sabia o que o futuro lhe reservava, mas sabia que não
tinha escolha: precisava seguir em frente.

À medida que caminhava pelas ruas, o cenário mudava à medida que se afastava dos
grandes templos e avenidas principais. Logo, ele se viu em uma área mais sombria de
Atenas, onde as casas eram modestas, e os edifícios estavam mais deteriorados. O cheiro
de fumaça, misturado ao odor de comida podre, era inconfundível. O caos da guerra havia
arruinado tudo o que restava de uma Atenas próspera, e as pessoas, com os rostos cheios
de marcas de sofrimento, andavam sem pressa, como se tivessem perdido qualquer noção
de tempo.

Katsuma olhou em volta, sentindo o desconforto crescer dentro de si. As ruas estavam
tomadas por crianças sujas, suas roupas rasgadas, e as mães sentadas nas portas de
casas que pareciam prestes a desmoronar. O que mais o incomodava era o olhar delas.
Todos os olhos pareciam voltar-se para ele, como se soubessem quem ele era — o herói. O
salvador. Mas ele não se sentia como tal. Não era digno disso. Ele havia cometido erros
terríveis e, agora, olhava para aquelas pessoas como um ser inatingível. Não sabia como
ajudá-las.

Em um canto da rua, uma mulher se aproximou dele com o rosto marcado pela dor. Ela não
estava sozinha; seus filhos pequenos estavam com ela, olhando para Katsuma com um
misto de medo e esperança. "Por favor", ela implorou, os olhos cheios de lágrimas.
"Ajude-nos. Tudo o que pedimos é um pouco de comida, algum abrigo. Não temos mais
para onde ir."
Katsuma engoliu em seco, sentindo seu peito apertar. As palavras da mulher não eram
apenas uma questão de adoração, mas um grito de desespero, de alguém que via nele,
talvez sem razão, a única chance de mudar a situação. Mas o que ele tinha a oferecer? Ele
não tinha poder para curar uma cidade inteira, para devolver a vida ou a esperança que já
havia sido roubada.

“Por favor, ajude-nos!”, a mulher exclamou, sua voz quebrando no final da frase. Com mãos
trêmulas, ela agarrou a perna de Katsuma, puxando-o com desespero. “Não temos mais
ninguém. Nossos filhos estão morrendo, nossas casas foram destruídas, e a guerra nos
levou tudo. Por favor, você é o herói, o escolhido... Salve-nos!”

Katsuma ficou paralisado. O que ele deveria fazer? O que poderia dizer para aquela mulher
que o olhava com tanta esperança, sabendo que ele não tinha respostas, nem poder
suficiente para mudar sua situação? Ele sentiu o peso da responsabilidade apertar seu
peito, mais forte do que qualquer espada que já tivesse segurado. Ele não sabia como agir,
como falar, como salvar essas pessoas. A verdade era que ele se sentia mais perdido do
que nunca.

As palavras se afogaram em sua garganta. Ele queria dizer algo reconfortante, queria
prometer que tudo ficaria bem, mas como poderia fazer isso quando ele mesmo não sabia o
que seria de sua vida? Ele olhou para a mulher, e o desespero em seus olhos o fez sentir
uma dor profunda. Ela não era apenas mais uma pessoa pedindo ajuda. Ela era uma mãe,
uma mulher que havia perdido tudo, e que agora via nele, uma última esperança.

“Eu... eu não sei o que fazer”, Katsuma murmurou, a voz falha. “Eu não tenho nada para te
oferecer. Não posso... não posso resolver isso.”

Foi então que ele ouviu uma voz calma ao seu lado. “Então você é Katsuma?”

O jovem se virou rapidamente e viu um rapaz de cabelos escuros e um olhar astuto. Ele
usava roupas leves e tinha um sorriso de quem sempre encontrava uma saída para
qualquer problema.

“Sou Damon, filho de Hermes.”

Katsuma hesitou. “Filho de Hermes?”

Damon acenou com a cabeça, mas logo sua expressão se tornou séria. “Acho que devemos
sair daqui antes que você desmorone sob toda essa pressão.”

Antes que Katsuma pudesse reagir, sentiu-se sendo puxado. O mundo ao seu redor virou
um borrão, e em um instante, ele estava em uma colina, acima da cidade destruída. O vento
soprava forte ali, trazendo um ar mais fresco e distante do cheiro de destruição de Atenas.

Katsuma piscou, tentando entender o que havia acontecido. “Como...?”


Damon riu. “Velocidade divina. Um presente da minha linhagem. Mas agora... quero saber
mais sobre você.”

O jovem filho de Hermes cruzou os braços. “Eu ouvi algumas histórias, mas quero saber
direto de você: que tipo de poderes você tem?”

Katsuma olhou para as próprias mãos, sentindo a lembrança dos momentos em que sua
força se manifestava de forma destrutiva. “Eu não sei ao certo... É como se algo dentro de
mim despertasse nos momentos errados. Como se meu poder fosse mais uma maldição do
que um dom.”

Damon ergueu uma sobrancelha, intrigado. “Interessante... Nunca ouvi falar de alguém com
habilidades como as suas.”

Katsuma franziu o cenho. “E você? O que mais pode fazer além de correr rápido?”

Damon sorriu, confiante. “Tenho meus truques. A velocidade não é só para fugir, sabia?
Combinada com precisão, eu posso atacar antes que alguém perceba. Além disso, sou bom
em entrar e sair de lugares sem ser visto.”

Katsuma esboçou um pequeno sorriso. “Então é um ladrão?”

Damon deu de ombros. “Prefiro o termo 'estrategista'.”

Katsuma desviou o olhar. “E você? Como é ser filho de Hermes?”

Damon sorriu. “Ah, é divertido, na maior parte do tempo. Somos rápidos, astutos e...
digamos que temos um talento para sairmos de situações complicadas.” Ele piscou. “Mas
também há o fardo. Meu pai sempre espera que eu esteja um passo à frente. Sempre
calculando, sempre improvisando. Às vezes, não quero ter que fugir ou enganar. Só quero
enfrentar as coisas de frente.”

Katsuma assentiu lentamente. “Então você entende... essa sensação de carregar algo que
não pediu.”

Damon o observou por um instante antes de responder. “Sim, Katsuma. Eu entendo.”

Katsuma suspirou profundamente, olhando para o horizonte distante. "Eu nunca soube
quem são meus pais. Sempre fui apenas... eu. Não sei o que esperar de mim, não sei o que
eu realmente sou. E isso me faz sentir... vazio, às vezes. Como se houvesse uma parte de
mim que estivesse perdida, e não posso encontrá-la, não importa o quanto eu procure."

Damon ficou em silêncio por um momento, absorvendo as palavras de Katsuma. Ele sabia o
que era viver com a falta de respostas, com a sensação de estar desconectado das suas
origens. Mas havia algo mais que ele queria saber.

"E a sua mãe?" Katsuma perguntou, a curiosidade surgindo de uma parte de si que
raramente se manifestava. "Você sabe quem ela é?"
Damon olhou para ele com um olhar de surpresa, como se a pergunta fosse algo
inesperado. Ele hesitou por um instante antes de responder, com um tom de melancolia.
"Não. Eu não conheço minha mãe. Nunca conheci."

Katsuma sentiu uma estranha conexão com ele naquele momento. Ambos estavam presos
a um vazio, a uma lacuna em suas histórias que nunca poderiam ser preenchidas. "Eu...
não sei o que dizer, Damon. Eu também não sei quem são os meus pais. Nunca soube."

Damon olhou para Katsuma, seu rosto suavizando ao perceber a dor não dita. "Eu entendo,
Katsuma. Às vezes, é como se estivéssemos vagando por um caminho sem fim, sem saber
de onde viemos e para onde vamos."

Antes que a conversa pudesse continuar, o vento que soprava na colina se intensificou.
Katsuma sentiu uma presença sombria se aproximando, uma sensação de ameaça no ar.
Antes que pudesse reagir, uma sombra se formou diante deles, uma figura indistinta que
parecia se materializar a partir da escuridão. Seus olhos eram dois buracos vazios,
penetrantes, como se absorvessem toda a luz ao redor.

Damon sacou uma adaga com rapidez, sua postura tensa. "Katsuma, fique alerta. Isso não
é algo normal."

A sombra deu um passo à frente, sua voz baixa e distorcida. "Vocês não deveriam estar
aqui."

Katsuma não sabia o que estava diante deles, mas sentiu uma pressão crescente no ar.
Seus instintos começaram a despertar, e algo dentro dele se agitou, como se seu poder
estivesse tentando emergir novamente, mais selvagem e descontrolado do que nunca.

Katsuma sentiu a raiva queimando dentro de si, lembrou-se das palavras de Damon,
palavras que ressoaram em sua mente como um eco distante. _“Eu entendo, Katsuma. Às
vezes, é como se estivéssemos vagando por um caminho sem fim, sem saber de onde
viemos e para onde vamos.”

Aquelas palavras ecoavam em sua mente, junto com sentimento de não saber oque deve
fazer e o peso de salvar o universo fez com que algo dentro dele se rompesse. Sua raiva,
que há tanto tempo se acumulava sem ser liberada, começou a borbulhar com uma força
imensa. Ele não queria mais sentir o vazio, a dúvida, a dor de ser alguém sem um passado.
E naquele momento, ele não queria mais ser Katsuma, o herói perdido. Ele queria ser algo
diferente, algo mais forte.

Com um rugido primal, a fúria de Katsuma explodiu. As chamas negras começaram a surgir
de dentro de seu corpo, envolvendo-o em um manto de fogo infernal. Seus olhos se
tornaram vermelhos, brilhando com uma intensidade selvagem. O calor da transformação
queimava sua pele enquanto seus chifres começavam a se alongar, e seu cabelo, antes
curto, agora crescia descontroladamente, se espalhando ao redor de sua cabeça como uma
cortina de sombras.
A dor se transformou em poder. Sua forma se distorceu, como se ele estivesse se tornando
algo mais do que humano. Ele avançou contra a sombra com uma ferocidade incontrolável,
rugindo como um animal, sem parar, sem pensar. Cada golpe era dado com a força de um
monstro, suas mãos envoltas em chamas negras que deixavam rastros de destruição. Ele
socou e chutou, sem considerar o que acontecia ao seu redor, apenas focado na
necessidade de descarregar sua fúria.

Damon observava, maravilhado e, ao mesmo tempo, assustado. Ele nunca havia visto
alguém perder o controle dessa maneira. A força de Katsuma era aterradora, suas
habilidades ultrapassando tudo o que Damon já presenciara. O filho de Hermes ficou
parado, quase hipnotizado, observando o caos que Katsuma estava criando ao seu redor.
"Isso... é incrível, mas também assustador."

A sombra que se materializara à frente deles não era a única ameaça. Outras figuras
sombrias surgiram, aparecendo de cada canto da colina, como se a escuridão estivesse
viva, tentando engolir tudo. Damon rapidamente se posicionou, atacando com precisão e
agilidade, suas lâminas cortando o ar e atingindo os inimigos. Ele era rápido, mas não
conseguia lidar com tantos ao mesmo tempo.

Katsuma não dava sinais de desacelerar. Sua fúria parecia imensurável, sua força
impossível de conter. Ele avançava, esmagando seus inimigos com uma violência inusitada,
enquanto suas chamas negras os incineravam, deixando rastros de cinzas por onde
passava. Cada golpe seu ressoava como um trovão, e a terra tremia com sua fúria
incontrolável.

Damon, apesar de impressionado com a força de Katsuma, sabia que não poderiam
continuar assim por muito tempo. A quantidade de inimigos estava crescendo, e logo eles
seriam sobrecarregados. "Katsuma!" Damon gritou, desviando de um golpe de uma sombra
que quase o atingiu. "Se não controlarmos isso, vamos ser engolidos por esse exército!"

Mas Katsuma não parecia ouvir. Ele estava perdido em sua própria ira, seu corpo se
movendo automaticamente enquanto destruía qualquer coisa que ousasse se aproximar
dele. Seus golpes estavam ficando mais brutais e rápidos, e os inimigos ao seu redor
estavam sendo despedaçados.

Damon, com seu sangue frio, começou a atacar com mais precisão, procurando brechas
nas linhas inimigas. Ele sabia que precisavam coordenar seus ataques, mas o caos da
batalha dificultava qualquer tipo de estratégia. Os inimigos não paravam de surgir, e a
sombra que os comandava continuava a se aproximar.

"Eu não sei quanto tempo mais podemos aguentar!" Damon gritou enquanto saltava para
longe de um ataque.

Katsuma, com a cabeça tomada pela fúria, não respondia. Sua forma monstruosa se
tornava mais imponente a cada momento. O céu escureceu ainda mais, e a tensão no ar
parecia quase palpável. O que antes era uma batalha contra um inimigo, agora se
transformava em um combate desesperado pela sobrevivência.
"Se eu não controlar isso agora..." Katsuma murmurou entre os dentes, a voz distorcida
pela dor e raiva. "Eu posso perder tudo."

Enquanto Katsuma continuava a avançar, destruindo tudo em seu caminho, Damon,


sentindo que não havia mais tempo para perder, se lançou para a frente e, com toda a sua
força, agarrou o braço de Katsuma. A força do jovem herói era imensa, mas Damon, com a
destreza de sua linhagem, foi capaz de puxá-lo para longe dos inimigos e sair correndo a
uma velocidade impressionante. O som dos passos de ambos ecoava pelas ruas desertas
de Atenas, enquanto Damon levava Katsuma para longe da batalha.

Katsuma lutava contra a fúria que queimava dentro dele. Sua respiração estava pesada, e
as chamas negras ainda consumiam seu corpo, mas, a cada passo, ele ia desacelerando,
sentindo-se mais preso ao próprio corpo. Ele rugia de frustração, sua forma monstruosa
ainda se alterando, mas Damon não o soltava. Ele sabia que Katsuma não queria causar
mais destruição, mas também sabia que o jovem estava perdido na tempestade de
emoções que tomava conta de sua mente.

"Calma, Katsuma! Respire, você pode controlar isso!", Damon gritou, tentando fazer com
que seu amigo voltasse ao normal. "Nós vamos sair dessa, mas precisa se acalmar! Precisa
me ouvir!"

Katsuma, com muita dificuldade, parou. O peso da raiva ainda estava presente em seu
peito, e suas chamas negras ameaçavam consumi-lo novamente, mas as palavras de
Damon começaram a ter efeito. Ele fechou os olhos por um momento, lutando contra o furor
que tomava conta de sua alma.

Com uma força de vontade tremenda, Katsuma respirou fundo, tentando dominar a
tempestade dentro de si. Sua forma começou a se estabilizar, os chifres se retraindo e os
olhos perdendo parte do brilho vermelho, embora ainda houvesse sinais de sua
transformação. Ele estava tentando, mas as lembranças do que acabara de fazer ainda o
afligiam.

"Dam... Damon", ele falou, a voz rouca e cheia de incerteza. "O que aconteceu? O que eu...
O que foi isso?"

Damon olhou para seu amigo, preocupado, mas também surpreso com a capacidade de
Katsuma de se controlar, mesmo que fosse apenas temporariamente. "Foi a fúria que você
não conseguiu controlar", respondeu Damon, tentando manter a calma. "Aquela raiva... a
energia de dentro de você... está se tornando mais difícil de conter."

Katsuma olhou para suas mãos, ainda sentindo os resquícios de poder e destruição em
seus dedos. "Eu... não quero mais fazer isso. Não sei o que sou. Não sei o que está
acontecendo comigo."

Damon suspirou. "Eu sei como é, Katsuma. Isso... é algo que está crescendo dentro de
você, algo que você não pediu. Mas precisamos encontrar respostas".
"Nós vamos até a casa de Tiresias". disse katsuma com a respiração ainda pesada e
cansado,"

Damon hesitou por um momento. "Tiresias?"

Katsuma confuso com a pergunta." Sim, porque? ,conhece o velho?"

Damon fez uma careta. "Sim, Tiresias. Ele... tentou me treinar no passado. Mas eu não sou
do tipo que aguenta ficar sentado escutando lições sobre o 'destino' e 'sabedoria'. Minha...
personalidade imprudente, digamos, não ajudou a manter o treinamento. Ele desistiu de
mim."

Katsuma franziu a testa. "Mas você ainda confia nele?"

Damon hesitou, olhando para o horizonte, antes de finalmente responder. "Eu não sei se
confio em tudo o que ele diz, mas ele sabe mais sobre esse tipo de poder... esse poder que
você tem. E precisamos de respostas."

Damon balançou a cabeça, como se ainda estivesse tentando entender o que Katsuma
estava sugerindo. "E você acha que ele pode nos ajudar?"

Katsuma olhou para Damon , seu olhar se tornando mais sério. "Não tenho certeza. Mas é a
única chance que temos. Eu também preciso entender por que ele parou de treinar comigo,
e talvez, se conseguirmos resolver isso, possamos descobrir algo que ajude a controlar o
que está acontecendo com você."

Katsuma olhou para Damon, que já começava a se mover em direção a uma trilha que
levaria à casa de Tiresias. Apesar das incertezas, Katsuma sabia que não tinha escolha. Se
havia alguma chance de encontrar respostas para os pesadelos que o assombravam, ele
teria que seguir esse caminho.

"Vamos então", Katsuma disse, sua voz mais calma, mas ainda cheia de dúvidas. "Para a
casa de Tiresias."

Damon olhou para seu amigo e deu um sorriso torto, um pouco mais esperançoso. "Apenas
não espere muita sabedoria vinda dele. Tiresias tem o jeito dele de ensinar, e você vai
precisar de muita paciência."

Os dois começaram a caminhar em direção à casa do sábio, cientes de que o que os


aguardava ali poderia ser a chave para resolver os mistérios que cercavam suas vidas, ou,
talvez, apenas mais uma dificuldade a ser enfrentada.

A casa de Tiresias, escondida em uma das áreas mais isoladas e silenciosas de Atenas,
parecia um refúgio da realidade. Seus muros envelhecidos e o cheiro de ervas secas
permeavam o ambiente, criando uma sensação de mistério e antiguidade. O sábio, sempre
envolto em seu manto, estava ali esperando por eles, como se soubesse que aquele
momento chegaria. Assim que Katsuma, Damon e Tiresias entraram na sala escura,
Katsuma sentiu o peso de tudo o que estava acontecendo pesar ainda mais sobre seus
ombros.

Katsuma, com os olhos pesados e a mente turvada, não conseguiu se segurar mais. Ele
soltou tudo o que havia acontecido — a batalha, a fúria que ele não conseguia controlar, as
sombras que o perseguiam, e o temor de arrastar Damon para esse abismo sem fim.

Tiresias o ouviu em silêncio, seus olhos sempre atentos e penetrantes. Quando Katsuma
terminou de falar, o sábio respirou fundo e começou a explicar, sua voz grave e cheia de
sabedoria.

"O que está acontecendo em Atenas é muito mais sombrio do que você imagina, Katsuma",
disse Tiresias. "Essas sombras não são apenas criaturas do além; elas são emissárias de
um mal antigo, algo que ameaça a própria humanidade. Elas vieram atrás de sua chama. A
chama que arde dentro de você é a chave para a destruição, a chave para levar a
humanidade à loucura e à insanidade. Elas querem usá-la para destruir tudo o que
conhecemos."

Katsuma ficou em silêncio, sentindo a pressão das palavras de Tiresias apertar ainda mais
seu peito. A ideia de que sua própria existência fosse a fonte de tal maldade o devastava.
Mas o pior ainda estava por vir.

"Tiresias..." Katsuma começou, sua voz trêmula. "E Damon? Ele... também está marcado?"

Tiresias assentiu lentamente. "Sim, Damon agora está marcado também. Essas sombras
não são tolas. Elas reconhecem o poder, e, ao estar tão perto de você, Damon tornou-se
alvo delas. Mas há algo mais que você deve entender: eles não estão apenas atrás de você
por sua chama. Eles querem sua alma, sua destruição, e farão de tudo para conseguir isso."

O silêncio que se seguiu foi pesado, e Katsuma, completamente em choque, sentiu a dor de
arrastar Damon para algo que ele ainda não entendia completamente. A responsabilidade
de saber que seu amigo também estava envolvido nesse jogo macabro fez seu corpo
tremer.

Ele se aproximou de Damon e, com as mãos trêmulas, pegou seus ombros. Olhou nos
olhos dele, os olhos que haviam sido cheios de confiança e agora estavam marcados pela
incerteza. "Damon", disse Katsuma, sua voz baixa e cheia de uma tristeza amarga. "Você
não precisa vir comigo. Eu... não quero que você seja arrastado para isso. Eu... Eu não
tenho essa escolha, mas você... você tem o direito de escolher seu próprio caminho. Não
precisa continuar essa jornada, se não quiser."

Damon, ao ouvir as palavras de Katsuma, sentiu uma onda de emoções misturadas tomar
conta de si. Ele podia ver a dor nos olhos do amigo, mas sabia que não poderia se afastar.
Ele se afastou de Katsuma por um momento e olhou para ele, determinado.

"Eu vou com você, Katsuma", disse Damon, com firmeza. "Eu não vou te abandonar agora.
Eu sinto que preciso estar com você, ajudar você, seja qual for o caminho. Talvez eu
também encontre respostas. Eu preciso descobrir mais, quem sabe até encontrar minha
mãe."

Katsuma, embora tocado pela lealdade de Damon, sentiu o peso da responsabilidade


crescer ainda mais. Mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Tiresias falou com voz
grave e séria:

"É melhor que todos nós partamos daqui. Atenas não é mais segura para vocês. O exército
que você enfrentou, Katsuma, não é nada comparado ao que ainda está por vir. Devemos ir
para um lugar mais seguro."

Tiresias pegou mantos invisíveis e os envolveu em torno de si e de seus dois companheiros.


Eles caminharam pelas ruas escuras de Atenas, os passos abafados pela magia do manto,
tentando evitar a detecção. No entanto, o que viram ao longo do caminho os deixou ainda
mais abalados.

O exército que havia escravizado e destruído tantas vidas em Atenas estava ainda mais
presente nas ruas. As pessoas estavam sendo humilhadas e abusadas, forçadas a se
ajoelhar, gritar por piedade, mas nada era dado a elas. O cheiro de sangue e desespero
pairava no ar, enquanto a cidade parecia desmoronar sob o peso de sua própria corrupção.

Damon, ao ver a dor das pessoas, ficou em estado de choque. Ele sempre acreditou que os
deuses do Olimpo estavam ao lado da humanidade, ajudando-a a resistir ao mal. Mas a
visão diante dele desmentia tudo o que ele havia acreditado. O que ele via ali não era ajuda
divina, mas uma cidade entregue ao caos, sem uma única divindade para interceder.

Katsuma, percebendo o impacto que aquilo teve sobre Damon, se aproximou dele,
murmurando com uma voz baixa e cheia de amargor: "Bem-vindo ao clube."

Damon olhou para Katsuma, os olhos ainda cheios de incredulidade. Ele nunca imaginou
que a humanidade estivesse tão perdida. E, enquanto o sofrimento das pessoas ecoava
pelas ruas, um grito se destacou entre os outros.

"Por favor, Katsuma! Ajude-nos! Somos seus súditos! Você é a nossa última esperança!"

O clamor das vozes desesperadas fez Katsuma parar por um momento, sua raiva e tristeza
se misturando. Ele olhou para aquelas pessoas, mas algo dentro dele o impediu de avançar.
Ele sabia que, se tentasse lutar contra os inimigos, seria fatal. Não apenas pelos inimigos
em si, mas também pela força destrutiva que estava prestes a consumir tudo o que ele era.

"Eu... não sei o que fazer", Katsuma murmurou, sua voz trêmula. "Eu não posso salvar
ninguém assim. Se eu tentar lutar, eu... eu vou morrer, ou pior... todos nós."

Damon olhou para seu amigo, percebendo a dor e a impotência nos olhos de Katsuma. Ele
sabia que, para Katsuma, cada grito era uma agonia pessoal. Mas também sabia que eles
não poderiam ficar parados.
"Não estamos sozinhos, Katsuma", disse Damon, sua voz firme. "Nós temos um ao outro. E
não importa o que aconteça, vamos continuar. Você não vai enfrentar isso sozinho."

Mas Katsuma, mesmo tocado pelas palavras de Damon, sabia que a batalha estava longe
de acabar. E que o caminho que ele tinha pela frente seria mais difícil e solitário do que
qualquer um poderia imaginar.

O trio seguiu pelas ruas escuras de Atenas, os mantos invisíveis ocultando suas presenças
enquanto a cidade ao redor parecia respirar um ar pesado de desespero. As sombras,
sempre à espreita, continuavam sua marcha impiedosa, e, à medida que avançavam, o que
viam no caminho apenas aumentava o peso em seus corações.

A cidade, que antes havia sido um símbolo de liberdade e cultura, agora se via tomada por
um mal crescente, uma força invisível que destruía tudo o que tocava. As sombras não
eram mais apenas inimigos a serem derrotados; eram parte de algo maior, mais profundo.
Elas se alimentavam da dor e do sofrimento, escravizando os inocentes e deixando um
rastro de violência e humilhação por onde passavam.

Em cada esquina, em cada praça, havia cenas aterradoras. Mulheres e crianças sendo
forçadas a se ajoelhar, seus rostos cobertos de terror enquanto eram ameaçadas. Os
homens, fracos e desolados, eram arrastados pelas ruas, sendo brutalizados diante dos
olhares impotentes dos que passavam. Gritos ecoavam, pedindo por piedade, mas não
havia resposta.

Katsuma e Damon, agora sendo forçados a testemunhar a cena diante deles, sentiram o
peso da realidade esmagar seus corações.

O caos nas ruas não parecia ter fim. Eles viram um homem ser arrastado para o centro de
uma praça, onde as sombras o forçaram a se ajoelhar diante de uma multidão que se via
impotente. Ele gritou por sua vida, mas a única resposta foi o silêncio gélido da cidade, uma
cidade que já não reconhecia mais a compaixão ou a misericórdia. As sombras riam, suas
figuras distorcidas se movendo com uma velocidade sobrenatural enquanto os pobres
humanos caíam aos pés delas, submissos.

Katsuma sentiu sua raiva crescer, mas sabia que não podia agir. Ele sabia que, se tentasse
interferir, sua fúria tomaria conta e acabaria destruindo tudo, incluindo aqueles que tentava
proteger. A chama que ardia dentro dele, a que as sombras tanto desejavam, estava agora
mais viva do que nunca, e ele sentia que ela o estava consumindo a cada momento.

Damon, com o coração apertado pela visão de tanta dor, tentou se concentrar, procurando
alguma razão para seguir em frente. Ele olhou para Katsuma e percebeu o tormento que
seu amigo estava enfrentando. "Katsuma... eu..." começou Damon, mas não soubera o que
dizer. As palavras falhavam diante da tragédia que se desenrolava.

"Tudo isso é culpa minha..." Katsuma murmurou, a voz cheia de desespero. "Eu arrastei
você para isso, Damon... agora você está marcado também. E o que estamos vendo aqui...
tudo isso... é porque eu não sou capaz de controlar a fúria dentro de mim."
Damon, no entanto, não desviou o olhar. Ele sabia que a culpa de Katsuma não era sua.
"Não é sua culpa, Katsuma", disse ele, com uma força que parecia desafiar a própria cidade
em ruínas. "Eu escolhi estar aqui. E vou continuar com você, não importa o que aconteça."

Mas enquanto caminhavam pelas ruas devastadas, a realidade de sua jornada começava a
se consolidar. A cidade estava perdida, e eles precisavam sair antes que as sombras os
encontrassem também. As pessoas gritando por ajuda, implorando por salvação, faziam o
peso do momento ficar ainda mais insuportável. Katsuma queria gritar, queria lutar, mas ele
sabia que estava preso em um ciclo de fúria e impotência, e não sabia como escapar.

A visão das sombras escravizando a população de Atenas ficou gravada em suas mentes
enquanto continuavam sua jornada, agora para longe de uma cidade que já não era mais
um lar, mas um campo de guerra entre as forças do mal e os últimos vestígios da
humanidade.

No final, o trio chegou aos limites da cidade, e o silêncio que os envolveu ao sair das ruas
sujas de sangue e sofrimento parecia um alívio momentâneo. Mas mesmo ali, longe do
caos, as palavras de Tiresias ainda ressoavam nas mentes de todos: as sombras estavam
atrás deles, e o peso da chama de Katsuma ainda era um fardo a ser carregado. A
verdadeira batalha estava apenas começando.

A noite caiu rapidamente sobre a montanha onde os três haviam acampado. O céu estava
limpo, e as estrelas brilhavam com uma intensidade quase dolorosa, como se refletissem a
dor que cada um deles sentia. A fogueira crepitava ao centro do acampamento, projetando
sombras dançantes nas pedras ao redor, enquanto Tiresias estava sentado em um tronco
de madeira, os olhos fechados, cantando uma melodia suave, mas carregada de
significado.

A música de Tiresias parecia vir de um lugar profundo, quase ancestral. Suas palavras
flutuavam no ar com um tom melancólico e esperançoso ao mesmo tempo:

_"Nas sombras da guerra, o medo se esconde,


O eco das lágrimas, uma chama que responde.
A noite se estende, mas a luz não se apaga,
Entre os ruídos, nossa alma se afasta."_

_"Errantes no escuro, buscamos um caminho,


A dor nos ensina, mas nunca nos é destino.
Em cada passo, o fardo cresce,
Mas a esperança não se esquece."_

Damon, sentado ao lado da fogueira, observou atentamente, uma expressão nostálgica em


seu rosto. Quando a música terminou, ele se virou para Katsuma, que estava distante,
olhando para Atenas lá embaixo, com um semblante sombrio.

"Essa é uma das minhas músicas favoritas," Damon comentou com um sorriso leve,
tentando quebrar o silêncio. "Tiresias sempre canta essas coisas... Me faz lembrar de casa,
de tempos mais simples, quando tudo não parecia tão..."
Ele parou de falar ao ver Katsuma em silêncio, com os olhos perdidos na cidade distante.
Katsuma não respondeu, não movia um músculo, apenas permanecia ali, em estado de
contemplação, como se cada visão de Atenas fosse uma lâmina afiada em seu peito.

Damon observou por um momento, sentindo o peso de tudo o que acontecia, antes de se
levantar e caminhar até Katsuma. "Ei..." ele disse suavemente, parando ao seu lado, "Você
não está sozinho nisso. Lembre-se disso."

Katsuma não respondeu. Seu olhar estava fixo na cidade, nos restos de um lugar que um
dia representou a grandiosidade e o orgulho. Ele não sentia mais que restava algo ali para
ele. Sentia-se esmagado, pela fúria que ardia dentro de si e pelo peso do que havia
presenciado. Ele se lembrava das faces dos que ele não pôde salvar, das crianças e mães
que pediram por sua ajuda, e da desesperança que tomou conta de seu coração.

Damon percebeu a dureza do momento e, com um suspiro, deu um passo atrás, voltando
lentamente para a fogueira, deixando Katsuma sozinho na colina.

Katsuma permaneceu em silêncio, sua mente afundando em pensamentos dolorosos. Ele


pensava sobre tudo o que havia acontecido até agora: a guerra, as sombras, o fardo de sua
fúria demoníaca, a responsabilidade que sentia por arrastar Damon para esse caminho. A
cada passo que dava, o peso parecia aumentar. Ele não conseguia deixar de pensar no que
estava acontecendo nos outros mundos, no que as sombras queriam de sua chama, e
como ele estava cada vez mais distante de tudo o que conhecia, de tudo o que achava que
era.

E, então, em meio à tempestade de pensamentos, algo estranho aconteceu.

Sussurros suaves, quase imperceptíveis, começaram a preencher o ar ao seu redor.


Katsuma fechou os olhos, sentindo uma presença em sua mente. As palavras não eram
claras, mas ele as ouviu como se estivessem em seu coração. _“Nós te vemos, filho... Não
temas.”_

A sensação era reconfortante, mas também dolorosa. Ele se sentiu envolto por uma energia
desconhecida, como se estivesse sendo abraçado, mas ao mesmo tempo sentia a angústia
de nunca ter conhecido essas vozes. Ele não sabia quem eram, mas havia algo nelas que o
acalmava, mesmo que temporariamente. Seus pais, talvez? Mas como poderiam ser eles se
ele nunca os conheceu? Ou talvez fosse apenas sua mente tentando encontrar consolo
onde não havia respostas.

Katsuma respirou fundo, a tempestade de sua alma finalmente começando a se acalmar, se


não por completo, ao menos por um momento. Ele sentiu a pressão em seu peito diminuir, a
dor em seu coração, suavizar.

Ele então se levantou lentamente da colina e caminhou de volta para o acampamento. A


fogueira ainda estava acesa, e os dois outros olhavam para ele com uma expressão de
preocupação. Damon parecia aliviado por vê-lo de volta, mas ainda tinha o olhar
preocupado.
"Tá melhor?" Damon perguntou, sem pressa, tentando ser cauteloso.

Katsuma assentiu lentamente, mas não disse nada. Ele se sentou ao lado da fogueira,
sentindo o calor da chama. Um silêncio pesado pairava entre os três, mas, ao menos por
aquele momento, Katsuma estava mais calmo. Ele sabia que a jornada que os aguardava
era longa e cheia de perigos, mas algo dentro dele, ainda que pequeno, dizia que talvez
houvesse uma chance de encontrar algum tipo de paz, algum tipo de redenção.

"Vamos continuar", Katsuma finalmente disse, sua voz firme, mas ainda com um tom de
pesar. "Nós não podemos parar agora. O que quer que esteja acontecendo, não vamos
deixar que isso acabe assim."

Damon olhou para ele e sorriu, sabendo que, independentemente do que viesse a
acontecer, eles estavam juntos nessa luta.

"E vamos até o fim", ele afirmou, sem hesitar.

Tiresias, que estava observando o cenário, pareceu relaxar um pouco, satisfeitos com a
decisão de Katsuma. "A jornada é longa, e a noite é escura. Mas, se forem sábios, podem
encontrar a luz."

O som da música de Tiresias, agora mais suave, parecia envolver o trio, um lembrete de
que, por mais sombria que fosse a noite, sempre havia uma possibilidade de encontrar um
novo caminho.

Katsuma pergunta para Tiresias " Para onde vamos agora"

Tiresias falou com uma voz grave "Vamos ate Proteu"

# #**Capítulo 5: A Jornada ao Proteu Parte 1**

O silêncio da montanha envolvia os três, e a fogueira crepitava baixinho, quebrando a


quietude com seu som suave. Katsuma, Damon e Tiresias estavam ali, sobre o terreno árido
e frio, tentando encontrar algum tipo de consolo, mas sabiam que o caminho à frente não
seria fácil. A cidade de Atenas, distante e envolta por sombras, parecia observar cada
movimento deles como se fosse uma lembrança constante do que haviam perdido e do que
ainda estava por vir.

Katsuma não conseguia tirar os olhos das chamas, seus pensamentos girando sem parar.
Cada lembrança do que ele havia visto na cidade, dos gritos de desespero que ecoavam
pelas ruas, martelava sua mente. O peso da culpa o esmagava, mas não era só isso. Ele se
sentia arrastado por uma fúria que nem compreendia totalmente, algo que ardia dentro dele
e que o fazia questionar a quem realmente estava servindo. Ele queria ajudar, queria salvar,
mas as sombras e a destruição pareciam estar sempre um passo à frente.
Damon, por outro lado, estava lutando com suas próprias verdades. Aquele que sempre
acreditou que os deuses do Olimpo eram os protetores da humanidade, agora via a cruel
realidade que se desenrolava diante dele. Os deuses não estavam ali para salvar as
pessoas. Eles estavam distantes, talvez indiferentes. O que ele acreditava ser um destino
glorioso, um caminho onde os deuses guiariam os justos, estava desmoronando diante de
seus olhos.

"Eu nunca imaginei que as coisas pudessem ser assim", Damon murmurou enquanto mexia
nas brasas da fogueira. "Eu pensava que o Olimpo... que os deuses realmente estivessem
lá para nos proteger. Mas... o que estamos vendo é um pesadelo."

Tiresias, que até então permanecera em silêncio, olhou para Damon com uma expressão
grave. "Os deuses já não se importam com os mortais, Damon. Eles jogaram seus
seguidores na escuridão e, agora, restam apenas os corajosos o suficiente para lutar contra
isso. Vocês dois, por exemplo, são os escolhidos para carregar esse fardo."

As palavras de Tiresias caíram como uma pedra no coração de Damon. Ele estava prestes
a falar, mas Katsuma se levantou abruptamente, interrompendo-o. "Não podemos continuar
pensando que a resposta virá dos deuses. Não podemos esperar mais por uma salvação
que não virá. Temos que fazer isso sozinhos."

Sua voz era firme, mas havia uma tristeza inegável nela. Ele sentia que, ao arrastar Damon
para essa luta, havia selado o destino de seu amigo. Mas, ao mesmo tempo, ele sabia que
Damon não o deixaria. Ele estava tão preso a essa jornada quanto Katsuma, e a culpa de
ter o levado até ali ainda o assombrava.

"Temos que continuar,iremos ate um antigo amigo meu..Proteu. "

Tiresias disse com a voz grave, como o som das ondas que quebravam contra as rochas.
"Ele é o único que pode nos ajudar agora. Um deus profético, filho de Netuno. Ele sabe o
que está acontecendo e, mais importante, sabe onde encontrar Katsuma."

Damon, ainda abalado, olhou para Tiresias com uma mistura de surpresa e medo. "Proteu?"
Ele hesitou. "Mas meu... Pai tem uma rivalidade antiga com ele. E eu... eu nunca imaginei
que iríamos confiar em alguém assim."

Tiresias deu de ombros, o vento frio soprando seu manto. "É um risco, mas a única
alternativa é esperar que as sombras o encontrem primeiro. Não sabemos onde Katsuma
está agora, e o tempo está se esgotando. A ilha de Proteu, em alto-mar, é nossa única
esperança."

Katsuma, que até então estava em silêncio, ergueu os olhos para os dois. Ele parecia mais
decidido do que nunca. "Não temos tempo para hesitar. Se ele pode nos ajudar, então
devemos ir. Agora."

E assim, os três partiram, seguindo a direção que Tiresias indicara. A viagem até a ilha de
Proteu não foi nada fácil. O mar estava agitado, e as ondas enormes ameaçavam engolir a
pequena embarcação que eles usavam para atravessar as águas traiçoeiras. O vento
cortava o rosto com força, e a escuridão do mar profundo parecia engolir tudo à sua volta.
Durante a jornada, eles enfrentaram tempestades repentinas, correntes traiçoeiras e até
criaturas marinhas que surgiram das profundezas para testar sua coragem.

Em um ponto, uma tempestade feroz se formou, as nuvens negras cobrindo o céu como um
manto pesado. A embarcação os foi lançando de um lado para o outro, ameaçando virar a
qualquer momento. Damon estava enjoado e apavorado, suas mãos agarrando a borda da
embarcação enquanto tentava manter o equilíbrio. "Eu não consigo mais, não aguento!" ele
gritou, mas Tiresias estava calmo, controlando a situação com facilidade.

"Seja forte, Damon. O mar não tem misericórdia, mas nós também não podemos ter."
Tiresias gritou por cima do barulho da tempestade.

Katsuma, por outro lado, parecia mais focado, sua expressão impassível. Mas seu coração
estava pesado com a responsabilidade que carregava. Ele sabia que a cada momento que
passava, a fúria dentro de si crescia. Cada grito, cada onda quebrando sobre eles, parecia
alimentá-la. Ele não sabia quanto tempo mais conseguiria controlar isso, mas não tinha
escolha.

"Proteu..." Katsuma murmurou para si mesmo, se agarrando ao leme da embarcação


enquanto ela balançava. "Eu preciso dessa resposta."

Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, as nuvens começaram a se dispersar,


e a tempestade foi se acalmando. O mar voltou a ficar mais tranquilo, e a ilha de Cárpatos
surgiu à distância, com suas montanhas áridas e rochosas. O ar estava tenso, mas havia
uma sensação de alívio, como se o pior tivesse ficado para trás.

Quando eles finalmente chegaram à praia da ilha, Tiresias liderou o caminho, e Katsuma e
Damon o seguiram, com os corações pesados pelo que poderia vir. Eles atravessaram a
areia quente e seca até chegarem à entrada de uma caverna escondida na base de uma
grande falésia, onde Proteu supostamente residia.

A entrada da caverna era sombria, como se algo da própria terra estivesse tentando
impedi-los de avançar. Eles trocaram olhares silenciosos antes de entrar, sabendo que o
que quer que estivesse à frente poderia ser mais perigoso do que qualquer tempestade.

Dentro da caverna, a atmosfera era densa e úmida. O eco das suas respirações parecia se
amplificar na escuridão. E, à medida que avançavam, as rochas ao redor se tornavam cada
vez mais distorcidas, quase como se o próprio espaço estivesse se dobrando.

E então, em meio à escuridão, uma voz ressoou, profunda e imponente, vinda das sombras.

"Eu sabia que vocês viriam," disse a voz, carregada com a autoridade de um deus.

Uma figura emergiu da escuridão, sua forma fluida como as próprias marés, os olhos
brilhando como estrelas afogadas. Proteu estava diante deles.
Tiresias deu um passo à frente, inclinando ligeiramente a cabeça em respeito. "Ó, Proteu,
Oráculo do Mar, viemos buscar tua sabedoria. O destino deste jovem pesa como uma
âncora nas profundezas. Precisamos de tua visão."

Proteu os observou por um momento, sua forma ondulando como se sua existência
estivesse sempre à beira da mutação. Seu olhar se fixou em Katsuma, que sustentou o
olhar sem desviar. Havia algo naquele deus que o fazia sentir-se pequeno, como se todo o
oceano estivesse comprimido em um único ser diante dele.

"Katsuma..." Proteu murmurou, sua voz reverberando como uma onda quebrando contra as
rochas. "Tua alma carrega o peso de cicatrizes profundas. A morte e o desespero te
seguem como sombras na maré. Buscas respostas, mas temo que não gostará do que
encontrarás."

Katsuma cerrou os punhos. "Não me importo. Só quero saber a verdade. O que está
acontecendo comigo? Por que sinto essa fúria dentro de mim?"

Proteu se moveu ao redor deles, como se estivesse nadando no próprio ar. "A verdade é tão
fluida quanto o mar. O que sabes sobre tua própria essência, Katsuma? O que acreditas
ser?"

O jovem hesitou. "Eu... sou apenas um homem. Alguém que cometeu erros. Que busca
redenção."

Proteu riu suavemente, um som semelhante ao das ondas lambendo a costa. "Apenas um
homem? Não, filho das correntes, tu és mais do que imaginas. O sangue em tuas veias não
é meramente mortal. Há algo em ti que pertence ao próprio oceano primitivo, às
profundezas que antecedem os deuses do Olimpo. Tu és uma peça de um destino muito
maior do que sonhaste."

Damon olhou para Katsuma com espanto. "O que isso significa? Katsuma, você... não é
apenas humano?"

Katsuma não soube responder. Algo dentro dele queria rejeitar aquilo, mas, no fundo, uma
parte de si sempre sentiu que havia algo errado. Algo que ele nunca pôde explicar.

Proteu se aproximou, estendendo uma mão que parecia tanto sólida quanto líquida. "Se
desejares compreender tua verdadeira natureza, deverás enfrentar as profundezas de tua
própria alma. Há segredos enterrados no oceano de tua mente. Mas cuidado, jovem
guerreiro... Pois há verdades que podem te afogar."

O ar dentro da caverna ficou ainda mais pesado. Katsuma sentiu um frio tomar seu peito,
como se estivesse prestes a mergulhar em águas desconhecidas e perigosas. Mas ele não
recuaria. Ele precisava saber.

"Então me mostre, Proteu," ele disse, sua voz firme. "Estou pronto."

Proteu sorriu enigmaticamente. "Veremos."


A escuridão ao redor se dissolveu como névoa sob um vento invisível. Katsuma sentiu o
chão desaparecer sob seus pés, como se estivesse sendo tragado pelo próprio oceano.
Suas mãos tentaram agarrar algo, mas tudo que encontrou foi vazio.

De repente, ele se viu imerso em águas desconhecidas. Mas ele não estava se afogando.
Pelo contrário, sua respiração era livre, e sua pele sentia a presença da corrente ao redor
como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.

Ao seu redor, sombras se moviam no vasto azul. Criaturas colossais, com olhos como luas
submersas, observavam-no do abismo. Algumas tinham formas disformes, parecendo se
fundir à própria escuridão, enquanto outras, espectrais e translúcidas, pareciam presenças
antigas demais para serem nomeadas. E então, a voz de Proteu ressoou mais uma vez,
agora vinda de todos os lados.

"Aqui, onde o tempo se curva e a verdade se esconde, verás aquilo que foi esquecido. Olhe
para dentro de si, Katsuma. O que enxerga?"

Katsuma fechou os olhos e deixou-se levar pela corrente. Memórias afloraram como bolhas
subindo à superfície. Ele se viu quando criança, observando o mar sem compreender a
estranha conexão que sentia com ele. Lembrou-se das noites em que o som das ondas o
chamava, sussurrando segredos que ele não conseguia decifrar. E, por fim, viu-se naquele
fatídico dia, quando perdeu o controle e as chamas consumiram os aldeões.

A dor voltou como um choque gélido. Mas dessa vez, ele não fugiu. Permaneceu ali,
encarando sua própria culpa e vergonha.

"Eu não sou apenas um homem", murmurou para si mesmo.

Quando abriu os olhos, o oceano ao redor havia mudado. Ele estava diante de um trono de
coral negro, onde uma figura esperava por ele. A pele do ser era azul como o crepúsculo
sobre o mar, e seus olhos brilhavam como fendas no véu do cosmos. Pequenos filamentos
de luz serpenteavam ao redor de sua forma, como estrelas presas em correntes invisíveis.

"O esquecido ressurge", disse a figura, sua voz se misturando ao sussurro das correntes.
"O que dormia agora desperta. Teu sangue carrega o eco dos Primordiais. És um Filho do
Abismo."

Katsuma sentiu o peso daquelas palavras pressionando seu peito. Ele queria perguntar
mais, entender o que aquilo significava, mas antes que pudesse falar, o próprio oceano
pareceu se contrair. As criaturas ao redor começaram a se afastar, como se temessem algo
maior prestes a despertar.

Uma corrente furiosa o envolveu. O mar se retorceu, e ele foi arremessado de volta para a
caverna.

Ofegante, caiu de joelhos no chão rochoso. Damon o segurou pelos ombros. "Katsuma! O
que aconteceu?"
O jovem ergueu o olhar para Proteu, cujos olhos refletiam mistérios insondáveis.

"Agora sabes quem és", murmurou o deus, sua voz carregando o peso de eras esquecidas.
"Mas a pergunta verdadeira é: conseguirás suportar o peso do que viste? Há verdades que,
uma vez reveladas, jamais poderão ser esquecidas. E há fardos que nem mesmo os deuses
ousam carregar."

Proteu observou Katsuma em silêncio, seus olhos faiscando como estrelas moribundas. A
caverna parecia pulsar ao ritmo da respiração do jovem, como se a própria rocha reagisse à
revelação que acabara de receber.

Katsuma levou a mão ao peito, sentindo seu coração disparado. O peso do oceano ainda
estava em seus ossos, como se ele tivesse trazido consigo uma parte daquele abismo
insondável.

"Filho do Abismo..." murmurou para si mesmo, tentando compreender o significado por trás
dessas palavras.

"Sim." Proteu se moveu ao redor dele, como uma sombra líquida deslizando pelas paredes.
"Mas ainda não compreendes o que isso significa. Não és apenas herdeiro de um poder
ancestral... És também uma ameaça ao equilíbrio das marés. E ao mundo."

Damon franziu o cenho, segurando Katsuma com mais firmeza. "Isso é uma maldição?"
perguntou, desafiador. "Ou um destino?"

Proteu riu, um som que ecoou na caverna como o lamento distante de uma baleia. "Destino
e maldição são duas faces da mesma moeda. O mar não faz julgamentos. Ele apenas toma
o que lhe pertence."

Então, pela primeira vez, Proteu dirigiu seu olhar diretamente a Damon. Seu semblante se
transfigurou, a serenidade oceânica dando lugar a um desprezo profundo.

"Mas é claro..." sua voz gotejou veneno. "Eu deveria imaginar que estarias aqui, bastardo
do mensageiro."

Damon apertou os punhos, seu corpo enrijecendo. "E eu deveria saber que o velho cão do
oceano não resistiria a enfiar o focinho onde não foi chamado."

Os olhos de Proteu brilharam, e a caverna estremeceu. A água que escorria pelas paredes
congelou no ar, pairando como se temesse a fúria do deus.

"Teu pai sempre foi um intruso, um ladrão de segredos que não lhe pertencem. Hermes
ousou desafiar as leis imutáveis do mar, trapaceando para furtar conhecimento que não
poderia compreender. E agora vejo que sua prole segue o mesmo caminho miserável."
Damon abriu a boca para responder, mas num gesto imperceptível de Proteu, o ar ao redor
dele se tornou pesado. Uma força invisível o pressionou contra o chão, forçando seus
joelhos a cederem. Ele arfou, os músculos tremendo sob um peso impossível de resistir.

"Olha para ti," sussurrou Proteu, aproximando-se com desdém. "És apenas um verme
rastejando na terra seca, acreditando que pode se equiparar às marés."

Damon lutou para se levantar, mas era inútil. O peso do oceano estava sobre ele,
esmagando sua arrogância.

"Engraçado..." Proteu continuou, inclinando-se. "Hermes ao menos tinha astúcia. Tu, no


entanto, não és nada além de uma pálida imitação. Não passas de uma sombra do teu pai,
condenado a vagar atrás dele como um cão inútil, latindo, mas sem dentes para morder."

Damon rosnou, os olhos queimando de ódio. "Eu não sou Hermes."

"Não, não és." Proteu sorriu. "Se fosses, talvez tivesses ao menos uma chance."

A força que o mantinha preso desapareceu repentinamente, e Damon caiu para frente,
apoiando-se nos braços. Ofegante, ele não ousou levantar o olhar imediatamente.

Katsuma observava tudo em silêncio, seu coração pesado. Ele nunca vira Damon ser
reduzido àquele estado.

Proteu ignorou o rapaz caído e voltou-se para Katsuma. Sua voz se tornou um sussurro que
deslizou pelos ouvidos do jovem como uma corrente fria.

"As profundezas não concedem dádivas sem um preço. Cada segredo revelado traz
consigo um sacrifício."

Katsuma se ergueu, os olhos queimando com uma determinação recém-descoberta. "Então


me diga, Proteu... Qual é o preço?"

O deus do mar sorriu, enigmático. "Isso, jovem guerreiro... só o tempo revelará."

E, num instante, sua forma se dissolveu como espuma nas ondas, e a caverna mergulhou
em um silêncio sepulcral.

Damon cuspiu no chão, irritado, mas a humilhação ainda pesava sobre ele. "Maldito peixe
velho."

Katsuma olhou para ele, intrigado. "Qual é a história entre Proteu e Hermes?"

Damon suspirou, cruzando os braços, tentando recuperar um pouco de sua dignidade.


"Uma rixa antiga. Meu pai enganou Proteu uma vez, forçando-o a revelar algo que não
queria. Desde então, ele nos odeia. E eu, bom... apenas facilito o trabalho dele ao não
gostar dele também."
Katsuma encarou a escuridão onde Proteu desaparecera. Algo dentro dele dizia que esse
conflito estava longe de terminar.

A tensão na caverna permaneceu por um longo momento, como se o ar ainda carregasse


os ecos das palavras de Proteu. Katsuma sentia o peso da revelação pressionando sua
mente. Seu corpo tremia levemente, o cansaço o atingindo de uma forma que ele não sabia
explicar. Seu coração batia forte, mas não era apenas pelo choque da verdade que
ouvira—era como se algo dentro dele estivesse se fragmentando.

Ele levou a mão à cabeça, tentando estabilizar sua respiração. Sua visão oscilou por um
momento, como se a realidade ao seu redor estivesse instável.

"Katsuma?" Damon chamou, aproximando-se, mas sua voz soava distante.

"Eu..." Katsuma tentou falar, mas sua garganta estava seca. O gosto salgado da água ainda
estava em sua boca, e sua pele formigava como se estivesse coberta por algo invisível.

Damon franziu o cenho. "Você não parece bem."

"Eu não estou." Katsuma passou a mão pelo rosto, sentindo um suor frio escorrer por sua
têmpora. "Tem algo errado comigo."

"Óbvio que tem." A voz de Proteu cortou o momento como uma lâmina. O deus ainda
estava ali, sua presença uma sombra imensa e inescapável. Ele olhava para Katsuma com
um desdém velado, mas quando seus olhos pousaram em Damon, o desprezo se tornou
evidente.

"Mas não é surpreendente que estejas à beira do colapso, Filho do Abismo. Humanos são
fracos, frágeis. E mesmo aqueles tocados pelo oceano não passam de areia sendo levada
pelo vento."

Damon se virou para Proteu, cerrando os punhos. "Você fala como se fosse um sábio, mas
só vejo um velho amargo que se esconde atrás de enigmas e jogos mentais."

Proteu ergueu uma sobrancelha, seus olhos brilhando com algo perigoso. "E vejo que a
tolice de Hermes corre forte no sangue de seu filho."

Damon travou o maxilar. "O que você disse?"

"Ouviste bem." A voz de Proteu reverberou pela caverna, como se o próprio oceano
sussurrasse junto dele. "Hermes sempre foi um intrometido, um ladrão que pensa estar
acima de sua própria insignificância. E tu, garoto, és apenas um reflexo fraco desse
fracasso divino."

A mandíbula de Damon enrijeceu, mas antes que pudesse responder, Katsuma soltou um
suspiro trêmulo e caiu de joelhos. Um gosto metálico subiu à sua garganta, e ele sentiu sua
visão escurecer por um instante.
"Katsuma!" Damon ajoelhou-se ao lado dele, mas Proteu apenas observava, impassível.

"Olhem para ele," disse o deus, seu tom carregado de indiferença. "Vês? Ele já sente o
peso de sua verdade. Um ser que mal consegue sustentar seu próprio destino jamais
poderá suportar o fardo do Abismo."

Damon apertou os dentes, puxando Katsuma para apoiá-lo em seu ombro. "Cale essa boca,
velho."

Proteu apenas sorriu. "Muito bem. Luta contra a verdade o quanto quiser. Mas lembre-se: o
oceano nunca esquece aqueles que pertencem a ele. E o que foi chamado... será
reclamado."

Então, como se sua presença nunca tivesse estado ali, Proteu desapareceu.

Mas a pressão que ele deixou para trás ainda pesava sobre Katsuma.

Damon, o olhar carregado de frustração e raiva, se levantou abruptamente, seus punhos


cerrados com tanta força que seus dedos brancos como a cal se destacavam na escuridão
da caverna. Ele se virou para Tiresias, sua voz cortante e cheia de indignação.

"Você fica aí, observando, como se soubesse tudo, mas nunca levanta um dedo! Não fez
nada enquanto Proteu fazia com Katsuma o que bem quis. E agora fica aí, falando em
destino e fardos! Por que você não fez nada? Você sabia o que estava acontecendo! Por
que não interferiu?!"

Sua voz soou com o eco de um desespero reprimido, misturado com raiva acumulada,
como se o peso da situação estivesse quebrando as últimas defesas de Damon. Ele
avançou um passo, a tensão em seu corpo visível, mas a figura de Tiresias, serena e
calada, parecia não ser afetada pela explosão do jovem.

Tiresias, com a expressão triste e imperturbável, virou-se lentamente, sua presença


inabalável diante do furor de Damon. Sua voz, quando finalmente saiu, foi como um
sussurro distante, mas profundo, carregada de uma sabedoria que nenhum grito poderia
abalar.

"Porque às vezes, Damon, a sabedoria está em não intervir. Às vezes, o peso de um


destino só pode ser carregado pela alma que o sustenta. Proteu já fez sua parte. O que
aconteceu aqui foi necessário. Não apenas para Katsuma, mas para todos que cruzam este
caminho. Você, como todos nós, não compreende completamente o alcance das ações
divinas."

Damon estava em ponto de ebulição. Seu corpo tremia com a raiva contida, e o ar ao seu
redor parecia pesado, como se o próprio ambiente estivesse refletindo o turbilhão interno.
Ele se virou abruptamente, seus olhos lançando um olhar mortal para Tiresias.
"Você acha que pode ficar aqui, de braços cruzados, enquanto vemos Katsuma se
despedaçar, e ainda me vem com essas palavras vazias de sabedoria?!" A voz de Damon
rugiu como um trovão, seu peito subindo e descendo com a respiração descontrolada.

Ele avançou um passo, os olhos fixos em Tiresias com um ódio fervente. "Você está falando
sobre destino, sobre marés e escolhas. Mas e o que está na nossa frente agora? Katsuma
está se afundando, e você... você não faz nada!" Cada palavra que Damon soltava parecia
queima-lo por dentro, como se sua raiva o estivesse consumindo.

Tiresias, no entanto, não parecia ser afetado pela explosão de Damon. Sua postura era
inquebrantável, como a rocha que resistia às tempestades mais violentas. Ele olhou para
Damon com uma calma que só parecia intensificar a fúria do jovem.

"Raiva não vai mudar nada, Damon." A voz de Tiresias, apesar de calma, era profunda,
carregada com o peso de uma vida inteira de observações e silêncios. "Proteger Katsuma
agora não ajudaria a ele. Não posso interferir no que ele deve aprender por si mesmo."

Damon rosnou, os dentes apertados, mas a frustração só aumentava. Ele deu um passo
ainda mais próximo, seu rosto agora a centímetros de Tiresias.

"Você se acha melhor que nós, não é? Sabe tudo, vê tudo, mas no fim, tudo o que você faz
é ficar em silêncio e esperar que nos afundemos, que nos destruamos! Você... você
realmente acha que nada pode ser feito?!"

Ele estava tão perto que as palavras saíam em um sussurro furioso, quase como uma
ameaça velada. "Você vai deixar ele morrer, Tiresias? Vai assistir enquanto ele quebra
diante de seus olhos, e vai continuar com esse olhar de piedade, como se isso fosse o
suficiente?!"

A raiva de Damon estava tomando conta de cada pedaço de sua mente. Ele estava cego
pela dor de ver Katsuma ali, desmoronando, e sem poder fazer nada. E o velho, o sábio
Tiresias, só parecia olhar com aquela expressão enigmática, como se tivesse aceitado que
nada podia ser feito.

Tiresias não se mexeu. Ele apenas olhou nos olhos de Damon, sem mostrar medo, mas
também sem retribuir a raiva. "Nada do que você fizer agora vai mudar o que Katsuma
precisa enfrentar. O sofrimento dele, e o seu, são inevitáveis. Não porque eu decidi isso,
mas porque é o curso que ele deve seguir."

"Você está errado!" Damon gritou, sua raiva atingindo o pico. "Você acha que não podemos
lutar contra isso? Que não podemos ajudar quem amamos?!" Ele bateu o punho contra a
rocha mais próxima, fazendo a caverna estremecer, o som ecoando pela escuridão.

"Eu não sou Hermes!" gritou ele, as palavras saindo como um grito desesperado, uma
confissão crua de sua dor e raiva. "Eu não sou meu pai, e não vou me deixar ser tratado
assim! Não vou ficar assistindo ele se afundar nesse abismo!"
A fúria de Damon era palpável, mas Tiresias apenas permaneceu imóvel, como uma rocha
que se nega a ser movida.

O silêncio que seguiu foi pesado, sufocante. A raiva de Damon vibrava no ar, mas Tiresias
não parecia sequer se mover diante dela. Ele apenas olhou para o jovem, seus olhos cegos
ainda refletindo uma sabedoria distante, como se estivesse vendo além do furor de Damon,
além de sua dor e frustração.

"Você não entende, Damon." A voz de Tiresias foi suave, mas carregada com uma tristeza
profunda. "A raiva é uma chama que consome, mas o que ela queima não pode ser
reparado. O que você deseja fazer... talvez não seja o que Katsuma precisa agora. Às
vezes, é na queda mais profunda que encontramos as forças que nem sabíamos que
possuíamos."

Damon ofegava, seus olhos ainda ardendo de fúria, mas suas palavras se tornaram mais
pesadas, como se estivesse começando a perceber a verdade nas palavras do velho. A
raiva ainda o dominava, mas havia algo de mais sombrio se formando no fundo de seu
peito.

"Você... está dizendo que devemos deixá-lo sofrer? Deixar Katsuma desmoronar por conta
própria?"

Tiresias continuou com sua voz calada, mas cheia de um poder estranho. "O caminho de
cada um é solitário, Damon. Katsuma precisa encontrar o seu próprio caminho, enfrentar o
que tem dentro de si. E você, meu jovem, precisa compreender que a salvação nem sempre
vem das mãos de outros."

Damon fechou os punhos com força, os nós dos dedos brancos, mas não havia mais a
explosão de fúria que antes o dominava. Era como se, de alguma forma, a dureza de
Tiresias tivesse plantado uma semente de compreensão em seu coração. Não que ele
gostasse da ideia. Não que fosse fácil aceitar.

"Eu não sei se posso fazer isso", disse Damon, a voz tensa e cheia de um desespero
disfarçado. "Eu não sei se consigo assistir a isso, ver Katsuma se afundar na escuridão..."

Tiresias apenas o observou em silêncio por um longo momento, o peso das palavras
pairando no ar. Finalmente, ele falou, com a suavidade de alguém que conhece as sombras
do mundo: "A verdadeira força não está em forçar o outro a seguir um caminho. Ela está em
dar a mão, sem interferir, enquanto ele caminha pela sua própria jornada."

Damon sentiu um calafrio passar por sua espinha. Ele olhou para a direção onde Katsuma
estava, ainda caído, o corpo tremendo, e sentiu a pressão de tudo o que estava em jogo. A
visão do amigo quebrado o fez querer agir, mas ao mesmo tempo, as palavras de Tiresias
ressoavam em sua mente.

"Eu... vou tentar entender", disse Damon, mais para si mesmo do que para Tiresias. "Mas
não prometo que será fácil."
"Não será", respondeu Tiresias, sua voz quase um suspiro. "Mas nada que valha a pena é
fácil. Agora, mais do que nunca, é hora de você aprender a força do silêncio e da
paciência."

E assim, com a tensão ainda no ar, Tiresias se afastou, sua presença se desvanecendo
como se fosse parte da própria caverna. Damon, ainda lutando contra suas emoções, se
sentou ao lado de Katsuma, o olhar perdido, mas com algo mais sutil agora — uma
aceitação relutante do que deveria ser feito.

Dentro de sua mente, Katsuma começou a compreender a magnitude do que Proteu havia
dito. A "chama negras" era algo que ele nunca havia entendido completamente, mas agora,
algo em sua essência parecia se acender. Era um poder profundo, visceral, que possuía um
potencial imenso para o bem ou para o mal. Ele não sabia se deveria temer ou se abraçar
aquilo, mas o fardo de sua descendência divina e demoníaca parecia entrelaçar-se com
esse poder de forma que ele não podia mais ignorar.

O que Proteu mencionara sobre o equilíbrio das marés e a ameaça que ele representava
fazia sentido agora. A chama dentro dele não era uma bênção nem uma maldição; ela
simplesmente _era_, e dependeria de como ele a usaria para determinar seu impacto no
mundo.

Katsuma sentiu uma onda de confusão e medo, mas, ao mesmo tempo, uma sensação de
clareza começava a emergir. Ele sabia que teria que decidir qual caminho seguir, e o peso
de sua herança — tanto divina quanto demoníaca — não seria algo simples de ignorar.

_"Salvação ou destruição..."_ Ele sussurrou para si mesmo. Se fosse possível controlar a


chama, talvez ele fosse capaz de moldar seu destino, mas se fosse consumido por ela... a
destruição seria inevitável.

A luta interna de Katsuma estava apenas começando. Ele precisava entender mais sobre
esse poder, sobre suas origens, e sobre como poderia ser capaz de decidir seu próprio
destino sem ser consumido pelas forças que o cercavam.

Agora, ele sabia que a escolha seria dele, mas como saberia qual caminho tomar?

## #**Capítulo 6: A Jornada ao Proteu Parte 2**

Enquanto Katsuma lutava contra a sensação avassaladora de ser arrastado pelas correntes
internas de seu ser, Proteu observava, agora com uma expressão fria e impassível. O deus
do mar sentiu a mudança crescente nos olhos de Katsuma, o poder latente prestes a se
manifestar de forma irreversível.

"Você não é digno de controlar esse poder", Proteu murmurou com um tom de desdém.
"Este poder... é o caos. E quando você o liberar, não haverá mais salvação. Seu destino foi
selado pelo seu erro, e a destruição do Olimpo não ficará impune."

Com um movimento ágil e fluído, Proteu estendeu um de seus tentáculos, que se enrolou
com uma força esmagadora em torno do corpo de Katsuma. O tentáculo era como uma
extensão de sua própria vontade, um laço de mar e caos que se apertava em torno de
Katsuma, impedindo-o de escapar ou de usar a chama negras de forma alguma.

Antes que Katsuma pudesse protestar ou lutar, ele sentiu uma pressão crescente, como se
o peso do oceano estivesse sobre ele, esmagando sua alma e suas esperanças. O poder
que ele tentava controlar, a chama negras, parecia se apagar diante do caos que Proteu
estava desferindo. Ele estava sendo puxado, arrastado em direção ao abismo do destino
que Proteu havia preparado.

"Você irá agora para o caos, onde seu arrependimento e sua destruição se encontrarão",
disse Proteu com um sorriso amargo. "Não há retorno para você, Katsuma. O Olimpo caiu,
e com ele, sua alma também."

Mas nesse momento, quando tudo parecia perdido, uma voz familiar ecoou através da
tempestade interna de Katsuma. Era Tiresias, o guia que sempre o acompanhara, e agora,
mais uma vez, ele estava ali para ajudar a enfrentar o caos.

"Não o deixe, Katsuma", disse Tiresias, sua voz serena e firme. "O caos é apenas uma
parte de você, mas não define quem você é. Não permita que o erro do passado seja sua
prisão."

Damon, que estava ao lado de Tiresias, avançou também, sua presença imponente e cheia
de determinação. "Não podemos permitir que Proteu destrua tudo o que você ainda pode
salvar, Katsuma. A luta não acabou. Seu destino está nas suas mãos."

O tentáculo de Proteu, que antes estava firmemente apertado, começou a vacilar diante das
palavras de Tiresias e Damon. A luz peculiar nos olhos de Katsuma, agora iluminada pela
chama negras, parecia começar a brilhar com mais intensidade. As marés internas que
antes o consumiam agora pareciam reverberar com a possibilidade de uma nova escolha,
uma escolha de luta, de enfrentamento, em vez de aceitação passiva.

Katsuma sentia o peso da responsabilidade e do arrependimento, mas também sentia a


força que emanava de dentro de si, a chama negras não como destruição, mas como uma
força de transformação. Ele não era apenas vítima do caos; ele também era o portador do
poder para reverter seu próprio destino.

"Não me entregue ao caos", disse Katsuma, sua voz agora firme, com uma confiança
recém-descoberta. "Ainda tenho uma escolha. Não sou definido pelos meus erros."
Proteu, vendo a resistência crescente em Katsuma, franziu a testa, mas seu tentáculo já
estava começando a se retrair, derrotado pela força da determinação de Katsuma e a
intervenção de Tiresias e Damon. A batalha pelo destino de Katsuma estava longe de ser
vencida, mas ele finalmente encontrou sua voz e sua força para desafiar o que parecia ser
inevitável.

Damon, com seu poder e determinação, deu um passo à frente, seus músculos tensos e
seus olhos flamejantes com a vontade de proteger Katsuma. Ele sabia que a luta não era
apenas contra Proteu, mas também contra o caos interior que tentava engolir o jovem. O
tentáculo que ainda envolvia Katsuma começou a se contrair com mais força, como se
quisesse esmagá-lo até a última centelha de vida, mas Damon não hesitou.

Com um grito feroz, ele ergueu seu punho e disparou contra o tentáculo, liberando uma
onda de energia pura que se chocou contra o monstruoso membro de Proteu. A força do
impacto fez o tentáculo estremecer e se encolher momentaneamente, mas Proteu,
observando de longe, apenas sorriu, como se nada pudesse realmente danificá-lo.

"Você realmente acha que pode lutar contra o mar? Contra o caos?" Proteu zombou, sua
voz ecoando como o som de ondas quebrando nas rochas.

Mas Damon não se intimidou. "Você subestima a força que nasce da alma humana, do
desejo de não se render."

Com outra explosão de energia, Damon canalizou sua própria essência de luta, uma força
que parecia invocar os ventos e as marés contra o tentáculo. Os músculos de Damon se
flexionaram ainda mais, e uma aura intensa de poder começou a envolvê-lo, como se ele
fosse um próprio deus da tempestade, um farol de resistência contra a maré do caos.

O tentáculo de Proteu balançou, agora mais agitado, como se estivesse sendo desafiado
por uma força inesperada. A pressão sobre Katsuma começou a diminuir, e ele sentiu uma
leveza, uma brecha na opressão que Proteu havia colocado sobre ele. A luta de Damon
estava funcionando, mas ainda não era suficiente para derrotar completamente o deus do
mar.

"Você é forte, Damon", disse Tiresias, seu olhar atento à batalha, "mas não podemos
subestimar o poder de Proteu. Ele controla o mar, o caos. Isso não será fácil."

Damon, sem hesitar, respondeu com determinação. "Não é fácil que nos define, Tiresias.
São nossas escolhas. E eu escolho lutar por Katsuma."

Com um movimento ágil, Damon se posicionou ao lado de Katsuma, usando sua força para
criar uma barreira protetora entre o tentáculo de Proteu e o jovem. Ele sabia que a
verdadeira batalha estava apenas começando, mas a confiança de Katsuma estava
crescendo. A chama negras, dentro de Katsuma, já não estava tão apagada. A luta estava
se intensificando, mas também se tornando um símbolo de superação, de um poder interior
que ainda poderia ser direcionado para a salvação, não para a destruição.
Agora, com Damon no campo de batalha, o destino de Katsuma começava a se reescrever,
e Proteu, embora imenso e poderoso, começava a perceber que talvez houvesse algo mais
forte que o caos que ele controlava: a vontade de não sucumbir ao próprio destino.

Tiresias, observando a intensidade da batalha, sabia que o momento havia chegado para
ele também. Ele não poderia ficar à margem enquanto Damon lutava para proteger
Katsuma. O destino de ambos estava entrelaçado, e se fosse necessário, ele também
entraria na luta, não com força bruta, mas com a sabedoria de quem já havia visto muitas
coisas, de quem compreendia o peso de cada escolha e de cada ação.

Com um movimento lento e sereno, Tiresias ergueu a mão, como se invocasse os próprios
ventos e as águas para sua causa. Sua aura se expandiu, não de força física, mas de um
poder etéreo que parecia transcender o espaço ao redor dele. Ele não era um guerreiro no
sentido convencional, mas suas palavras e sua presença tinham o poder de afetar até
mesmo os deuses.

"Proteu!" Ele gritou com voz firme, reverberando por todo o campo de batalha. "Você não
pode submeter Katsuma ao seu caos! Ele é mais do que a destruição que você tenta forjar
nele!"

Proteu, em seu poder e arrogância, se virou para encarar Tiresias. "Você, um cego, ousa
desafiar-me? Seu poder é efêmero, Tiresias. Nada pode parar o mar, a tempestade que
sou."

Mas Tiresias sorriu com um leve brilho de compreensão nos olhos. "Não é o mar que você
controla, Proteu, mas a ilusão dele. O verdadeiro poder está além do que você imagina. O
verdadeiro poder é o controle sobre o próprio destino. O caos pode ser desfeito com a
verdade."

Tiresias não estava apenas enfrentando Proteu fisicamente, mas mentalmente. Ele estava
usando sua habilidade única de ver os fios do destino, alterando a percepção que o deus do
mar tinha sobre a situação. Ele não estava tentando derrotar Proteu com força, mas com a
força de sua sabedoria, criando uma fissura no controle de Proteu sobre as marés que ele
manipulava.

As águas em torno deles começaram a ondular de maneira estranha, como se o próprio


tempo estivesse sendo distorcido. A pressão sobre Katsuma e Damon diminuiu, e o
tentáculo de Proteu se agitava, como se estivesse sendo puxado para fora do controle do
deus. O caos que Proteu tentava incutir parecia começar a se dispersar, mas Proteu não
cedeu facilmente.

"Você acha que pode mudar o destino do caos, Tiresias?" Proteu rosnou, seu tom repleto de
desprezo.

"Não mudo o destino", respondeu Tiresias com calma. "Mas posso guiá-lo. E é através da
verdade que Katsuma encontrará sua redenção."
As palavras de Tiresias, embora tranquilas, pareciam causar ondas profundas nas marés
que Proteu controlava. O tentáculo que havia se enrolado em torno de Katsuma começou a
perder sua força, e com um grito furioso, Proteu tentou intensificar suas marés de caos, mas
a presença de Tiresias e Damon, juntos, começava a reverter seu controle.

Katsuma, ainda imerso em suas próprias marés internas, sentiu algo mudar. A pressão ao
seu redor estava diminuindo. Ele sentiu uma leveza em seu coração e, pela primeira vez
desde a tragédia de sua vila, uma centelha de esperança. A chama negras, ainda viva
dentro dele, começou a brilhar mais forte, respondendo ao poder que Tiresias e Damon
estavam liberando. Ele sentia que estava à beira de uma escolha crucial.

"Proteu", disse Katsuma, sua voz agora firme, "você não vai mais controlar meu destino. A
tempestade dentro de mim vai cessar."

Com isso, as marés que antes o afundavam começaram a recuar. A presença de Tiresias,
Damon e Katsuma juntos era como um farol de resistência contra a tempestade que Proteu
tentava invocar.

Proteu, enfurecido, recuou um passo, mas seus olhos brilhavam com uma fúria ainda maior.
A batalha estava longe de acabar, mas agora o mar não era mais seu único aliado. E o
destino de
Katsuma estava, finalmente, em suas próprias mãos.

Katsuma estava preso em uma prisão profunda, onde as marés não eram apenas água,
mas uma metáfora de sua mente, suas emoções e suas escolhas. Cada onda que passava
por ele era como um pensamento fragmentado, um grito de arrependimento, uma
lembrança de sua vila em chamas, os gritos de dor daqueles que ele havia causado a morte
sem querer. O oceano, com sua vastidão infinita, parecia ser uma representação de seu
próprio vazio interno. Cada movimento das águas era como um reflexo do caos que ele
carregava, um caos que se tornou tão profundo e sombrio quanto o abismo do oceano.

Ele sentia o peso das marés em seu corpo, como se cada onda fosse uma cadeia que o
mantinha preso, afundando-o mais e mais fundo na escuridão de seu próprio coração. Cada
respiração que ele tomava parecia mais difícil do que a anterior, como se o ar ao seu redor
fosse denso, saturado pela culpa e pelo arrependimento. A água ao seu redor estava
gelada, fria, cortante. Ele não sabia onde terminava o mar e onde começava sua dor.

Dentro de seu ser, a chama negras ainda queimava, mas agora parecia mais uma chama
solitária, lutando para se manter acesa em meio ao mar gelado que o rodeava. O poder
estava lá, mas sem direção, sem controle. Ele sentia como se estivesse se afogando nessa
chama, não conseguindo distinguir o calor que ela emanava de sua própria destruição. Ele
queria gritar, queria se libertar, mas sua voz era silenciada pelas águas turvas que o
consumiam.

Proteu, observando o jovem sendo engolido pelas marés de sua própria culpa e
arrependimento, sorria triunfante. Para ele, essa era a prisão perfeita, uma que não poderia
ser quebrada pela força bruta, pois era uma prisão construída nas profundezas da alma de
Katsuma. O deus do mar sabia que era mais fácil prender alguém assim, com suas próprias
emoções, do que com correntes ou tentáculos. Ele era o senhor das marés, mas Katsuma,
agora, estava preso nas marés do seu próprio ser.

Mas enquanto Katsuma estava perdido na escuridão, uma voz suave começou a surgir de
algum lugar distante, uma voz familiar que parecia cortar a neblina ao seu redor. Tiresias,
com sua sabedoria inata, sabia que a chave para libertar Katsuma não era atacá-lo ou
forçar uma mudança externa, mas guiá-lo através do próprio oceano de sua alma.

Tiresias, com sua visão do destino, percebeu que a luta não estava contra Proteu ou contra
as marés externas. A verdadeira batalha de Katsuma era interna, uma luta para não se
perder nas profundezas do próprio sofrimento. E com isso, ele iniciou sua intervenção,
ainda longe, mas sempre presente, guiando as palavras para dentro da mente de Katsuma.

"Katsuma," começou Tiresias, sua voz ressoando suavemente dentro da mente do jovem.
"O mar não é seu inimigo. O caos não é seu inimigo. O verdadeiro inimigo é o medo que
você tem de confrontar seu próprio coração. Você carrega dentro de si a força de um
oceano, mas também a paz de um mar calmo. Não deixe que a tempestade te consuma."

As palavras de Tiresias, ao invés de lutar contra o poder das marés, começaram a


moldá-las. Katsuma, embora ainda imerso no caos, sentiu algo estranho, algo que ele não
conseguia explicar. As marés que o envolviam pareciam começar a suavizar, como se
respondessem a uma voz familiar e reconfortante. Era como se a tempestade estivesse se
dissipando, um pouco de luz surgindo através das águas turbulentas.

Katsuma sentiu uma onda suave em seu peito, uma sensação de calor e força que se
espalhava pelo seu corpo. Não era destruição, mas algo mais... algo que ele não sabia que
poderia existir dentro dele. Ele sentiu a chama negras, agora mais calma, queimando de
forma controlada, aquecendo sua alma, não consumindo-a.

Ele não estava mais totalmente perdido no transe. Havia algo de concreto ali, algo que ele
começava a perceber como uma verdade maior do que a tempestade. Ele olhou para dentro
de si, sentindo a vastidão do oceano, mas também percebendo uma rocha sólida no fundo
do mar, algo que ele poderia apoiar-se. E foi aí que ele compreendeu: o oceano não era só
caos. Ele também era calma. E ele, Katsuma, não era escravo das marés, mas o senhor de
sua própria alma.

A tempestade interna que o atormentava não era algo que ele precisava temer. Ele tinha a
capacidade de acalmá-la. Ele era tanto o caos quanto a calma. Era a escolha de como lidar
com essa dualidade que definia seu destino. Ele sentiu o poder das marés diminuírem em
torno de si, as ondas, antes agressivas, agora suaves e serenas. O controle de Proteu
estava diminuindo, e as correntes que o prendiam começaram a se desfazer.

Proteu, sentindo sua força falhar, rosnou, mas agora o mar não estava mais sob seu
domínio. Ele tentou intensificar a tempestade, mas a presença de Katsuma, agora mais
centrada e forte, estava desafiando seu controle.
Katsuma, com uma nova clareza, falou, sua voz firme, mas cheia de um novo poder que
vinha de dentro de si: "Eu não sou a tempestade que você deseja que eu seja, Proteu. Eu
sou mais do que isso."

A água ao redor dele começou a se acalmar ainda mais, respondendo a sua decisão, à sua
aceitação de seu poder. O mar não era mais seu cárcere, mas sua força. Katsuma não
estava mais perdido. Ele estava começando a tomar o controle de seu destino, um passo de
cada vez.

Katsuma sentiu a transformação interna, uma sensação de empoderamento que jamais


imaginara possível. A tempestade em seu coração finalmente começava a ceder. As águas
turbulentas que antes o consumiam, agora eram apenas lembranças distantes de sua dor,
dissolvendo-se na calma crescente de sua alma. Ele estava no controle, e com esse
controle, a chama negras dentro dele se tornou mais clara, não mais uma ameaça, mas
uma força que poderia ser canalizada.

Proteu, agora enfurecido ao ver sua tentativa de submeter Katsuma falhar, começou a
invocar novamente as forças caóticas do mar. As ondas se elevaram, o vento uivava e os
tentáculos do deus começaram a se agitar com mais violência. Ele não conseguia entender
o que estava acontecendo. Ele, que sempre governara o caos, estava sendo desafiado por
um mortal, que agora parecia mais forte do que jamais poderia ter imaginado.

"Você acha que pode dominar o mar, Katsuma? O caos é meu domínio!" Proteu rugiu, suas
palavras ecoando com o poder das tempestades.

Mas Katsuma não estava mais atemorizado. Ele sentia o mar dentro de si, mas agora sabia
que ele não era uma vítima do mar. Ele era parte dele. O caos que Proteu queria controlar
já não era mais um peso sobre ele, mas algo que ele poderia entender e até mesmo
direcionar.

"Não sou você, Proteu. O caos não é algo que se deve dominar, é algo que se deve
entender. Eu não sou mais escravo dele!" Katsuma respondeu com uma voz que reverberou
com uma força silenciosa, mas poderosa.

A água ao redor dele parecia reagir às suas palavras, se afastando como se o próprio mar
estivesse reconhecendo a mudança. O tentáculo que Proteu havia lançado contra Katsuma
agora recuava, como se fosse repelido pela força interior do jovem. A chama negras dentro
dele brilhou com um poder inusitado, não mais uma ameaça de destruição, mas um símbolo
de equilíbrio e controle.

Tiresias, observando a transformação de Katsuma, sorriu com uma sabedoria silenciosa.


Ele sabia que o verdadeiro desafio de Katsuma era encontrar a paz dentro de si mesmo, e
agora ele estava conseguindo. A sabedoria do velho vidente ecoava novamente na mente
do jovem, guiando-o, mesmo sem palavras claras.

"Você é mais do que a dor que carrega, Katsuma. Não permita que sua culpa defina quem
você é. A verdadeira força vem da aceitação, da compreensão. O caos não precisa ser
derrotado, ele só precisa ser compreendido."
O mar, agora mais calmo, parecia refletir essa mudança. As águas começaram a brilhar
suavemente, como se Katsuma tivesse encontrado uma nova harmonia com elas. Proteu,
vendo sua tempestade desmoronar, sentiu uma fúria que ameaçava transbordar.

"Não! Você não pode me derrotar!" Proteu gritou, lançando-se com mais força, mas seus
ataques agora pareciam vazios, impotentes, como se o próprio mar não o seguisse mais.

Katsuma deu um passo à frente, agora com um semblante decidido, mas tranquilo. Ele
olhou diretamente para Proteu, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu uma verdadeira
conexão com o poder que estava dentro dele, uma conexão que não era de destruição, mas
de redenção.

"Eu não vou lutar contra você, Proteu", disse Katsuma, com firmeza. "Eu vou lutar por mim.
Pelo meu destino."

Ao dizer isso, Katsuma estendeu as mãos, e as águas ao seu redor se moveram como se
seguissem sua vontade. O controle que Proteu acreditava ter sobre o mar estava se
dissipando, enquanto o jovem começava a dominar as marés internas e externas. Ele não
estava mais sendo levado pela correnteza do destino, mas agora, ele estava guiando o
curso do mar.

Proteu, vendo seu domínio se desvanecer diante dos olhos dele, rugiu em desespero,
tentando novamente invocar a força do caos. Mas o mar não o obedeceu. Ele começou a
afundar nas próprias marés que havia invocado, sua força enfraquecendo com cada onda
que não respondia mais à sua vontade.

Katsuma, agora completamente imerso na energia da chama negras, olhou para Tiresias,
que observava com um sorriso sereno. A transformação estava completa, mas o jovem
sabia que ainda havia uma escolha a ser feita, uma decisão que definiria seu destino.

Com um suspiro profundo, Katsuma levantou sua mão, e a chama negras brilhou mais forte
do que nunca. Mas agora, ela não queimava para destruir. Ela iluminava o caminho para
sua própria redenção, dissipando as sombras da culpa que haviam o consumido por tanto
tempo.

"Eu escolho ser quem sou", Katsuma falou, sua voz ecoando, não só no campo de batalha,
mas dentro de seu próprio coração. "Eu escolho a verdade."

E com essas palavras, as águas que haviam sido tumultuadas se acalmaram


completamente, refletindo o céu limpo acima. O poder de Proteu, que antes era uma
tempestade indomável, agora era apenas uma lembrança distante. O mar não era mais um
inimigo, nem mesmo o caos era algo a temer. O que Katsuma precisava, ele já havia
encontrado dentro de si: equilíbrio, aceitação, e a capacidade de escolher seu próprio
destino.
Proteu, derrotado não pela força, mas pela verdade que Katsuma havia abraçado, se desfez
nas águas, sua presença dissolvendo-se como um sonho quebrado. E com isso, Katsuma,
finalmente, estava livre.

Enquanto Katsuma era consumido pela fúria, a batalha não estava mais sendo travada
apenas entre ele e Proteu. Damon e Tiresias, cientes do que estava em jogo, avançaram ao
lado de Katsuma, decididos a ajudá-lo a não se perder no abismo de sua própria raiva.
Embora não fossem tão imersos na intensidade do momento quanto Katsuma, os dois
sentiam a pressão da batalha e a necessidade de intervir.

Damon, com sua força física imensa, se lançou contra as marés que ainda tentavam conter
Katsuma. Ele golpeava as águas revoltas com sua espada, cortando a tempestade que
Proteu tentava conjurar, enquanto suas palavras de encorajamento ressoavam no ar.
"Katsuma! Lembre-se de quem você é! Você não está sozinho nesta luta!"

Tiresias, com seu olhar profundo e cheio de sabedoria, observava atentamente. Ele sabia
que a verdadeira batalha de Katsuma não estava sendo travada contra Proteu, mas contra
as marés internas que o haviam consumido. Tireseas, com sua habilidade de manipulação
do destino, invocou sua visão de futuro, tentando equilibrar a batalha e assegurar que o
destino de Katsuma não fosse selado pela fúria.

"Proteu pode ter o controle das águas, mas você, Katsuma, é o mestre de sua própria
alma", disse Tiresias, suas palavras um eco suave, mas forte o suficiente para penetrar na
mente de Katsuma, onde ele ainda lutava para se manter consciente. "Você é mais do que
suas chamas. Mais do que sua dor. Não permita que ele defina seu destino."

Com esses lembretes de seus amigos, Katsuma sentiu algo mudar. As chamas negras que
queimavam dentro dele não eram apenas um reflexo de sua dor, mas também do poder que
ele possuía. Ao mesmo tempo, Proteu, enfraquecido pelas explosões de fogo de Katsuma e
pelas intervenções de Damon e Tiresias, começava a vacilar.

Proteu tentava se defender, convocando seus tentáculos, mas Damon estava ali, desferindo
golpes pesados que cortavam as águas, impedindo o deus de reagir com a velocidade que
ele precisava. As marés, agora controladas pela fúria de Katsuma, se tornaram uma
ferramenta em suas mãos, um reflexo de sua luta interna e sua crescente conexão com seu
verdadeiro poder.

Katsuma, agora consciente do apoio de seus amigos, canalizou toda sua energia nas
chamas negras. Ele não estava mais apenas fugindo de sua dor; ele estava se tornando
mais forte por causa dela. A fúria ainda queimava em seu coração, mas agora ele entendia
que precisava encontrar o equilíbrio. As chamas ao seu redor dançavam, menos
descontroladas, mais focadas, como um fogo que purifica, não destrói.

Com um último grito de guerra, Katsuma dirigiu sua força contra Proteu, lançando uma
última explosão de chamas negras que engoliu o deus das águas. As marés se acalmaram,
e o poder de Proteu começou a dissipar-se, seus tentáculos se desfazendo nas águas
calmas que agora refletiam a luz da tempestade interna que Katsuma havia superado.
A batalha estava longe de ser simples, mas a fúria de Katsuma havia sido moldada pela
determinação de seus amigos, e, com isso, a tempestade dentro dele finalmente começou a
se dissipar. Proteu, enfraquecido e derrotado, observou enquanto as marés que antes lhe
obedeciam agora se curvavam diante do jovem que havia se reerguido, mais forte e mais
consciente de seu próprio poder.

Damon e Tiresias estavam ao lado de Katsuma, suas presenças um apoio inquebrantável


enquanto o jovem começava a lidar com o que havia feito. Eles não haviam apenas
derrotado um deus, mas ajudado Katsuma a vencer a maior batalha de todas: a batalha
contra si mesmo.

De repente, a luz brilhou intensamente, e tudo ao redor de Katsuma, Damon e Tiresias se


dissolveu em uma névoa branca. O ambiente ao redor deles mudou de forma quase
instantânea. A tempestade e o caos haviam desaparecido, dando lugar a uma calma
impressionante. Eles estavam agora em um lugar desconhecido, mas de uma beleza
hipnotizante. O mar, de um verde-marinho profundo, refletia uma serenidade impossível de
imaginar. As águas estavam suaves, quase tranquilas, como se o tempo não existisse mais.
A brisa suave acariciava seus rostos, e o som das ondas quebrando na costa parecia mais
distante e suave do que nunca.

Por um momento, parecia que a luta havia acabado, como se eles estivessem sendo
transportados para um novo plano, longe da violência e do conflito. Mas uma sensação
estranha e desconfortável começou a crescer no ar, como se algo estivesse prestes a
acontecer.

Então, uma voz suave e calma os envolveu, trazendo uma sensação de acolhimento e
serenidade. Era a voz de Proteu, mas não a versão distorcida e ameaçadora que eles
haviam enfrentado antes. Era o verdadeiro Proteu, gentil e atencioso, e sua presença agora
trazia uma sensação de paz e compreensão.

"Vocês estão seguros agora", disse Proteu, a voz profunda, mas cheia de uma gentileza
incomum. "O que viram antes era apenas uma defesa, uma linha de resistência que eu
precisava usar para proteger a minha essência. Não é quem eu sou. Agora, aqui, neste
lugar, posso finalmente ser eu mesmo."

Katsuma, Damon e Tiresias olharam ao redor, surpresos. O ambiente que os cercava era
tão pacífico, tão perfeito, que parecia impossível que fosse o mesmo lugar onde
enfrentaram um caos devastador. O mar calmo e suave agora parecia acolhedor, como se
estivesse em sintonia com os próprios corações dos três.

Proteu apareceu diante deles, não mais uma força monstruosa, mas uma figura imponente
de sabedoria e serenidade. Seus olhos eram profundos, mas transmitiam compaixão e
compreensão. Ele não estava aqui para lutar, mas para guiar.

"Eu entendo o que vocês passaram", disse ele, com uma voz cheia de sinceridade. "O que
fiz era necessário para proteger a minha essência e o que restava do meu poder. Mas não
há mais necessidade de luta. Estamos além disso agora."
Katsuma sentiu uma onda de emoções conflitantes. A raiva e a dor de antes começaram a
se dissipar, substituídas por uma sensação de arrependimento e confusão. Como poderia
alguém tão poderoso, como Proteu, ser tão diferente do que ele imaginara? O caos e o
sofrimento que ele havia causado pareciam insignificantes diante da presença tranquila do
deus do mar.

"Eu..." Katsuma começou a falar, mas as palavras não saíam com facilidade. Ele estava
perdido, tentando entender o que estava acontecendo. "Eu pensei que você fosse... algo
completamente diferente."

Proteu sorriu suavemente. "É isso que acontece quando o medo e o sofrimento guiam
nossas percepções. Eu sou mais do que o que você viu. Agora, posso lhe mostrar o
caminho da compreensão e da paz. O que você fez, Katsuma, não define quem você é.
Todos nós estamos em um processo de transformação."

Damon, ainda desconfiado, olhou para Proteu com cautela, mas também sentiu a
sinceridade em suas palavras. Tiresias, com sua sabedoria habitual, parecia entender o que
estava acontecendo.

"Você tentou nos enganar com sua defesa, Proteu", disse Tiresias calmamente. "Mas agora
vemos a verdade. O que precisamos entender é que a luta não está contra você, mas
dentro de nós mesmos."

Proteu assentiu, os olhos cheios de entendimento. "Exatamente. Eu não sou seu inimigo,
nem agora nem nunca fui. Eu sou a maré, eu sou a mudança, e como as águas, todos nós
passamos por momentos de turbulência. Mas, no fundo, estamos todos conectados. A
verdadeira batalha está em encontrar a paz dentro de si."

Katsuma, agora em um estado de maior clareza, sentiu as chamas negras dentro de si se


acalmarem. Ele ainda carregava a dor e o arrependimento, mas a presença de Proteu
trouxe algo que ele não esperava: uma sensação de alívio. Talvez a redenção não fosse tão
impossível quanto ele imaginava. Talvez ele não estivesse perdido após tudo o que fizera.

Com a presença serena de Proteu, as águas do mar verde-marinho continuaram a


suavemente ondular, como se estivessem acompanhando o ritmo da transformação que
agora estava se desenrolando dentro de Katsuma. Ele sabia que, embora o caminho ainda
fosse longo, ele não estava mais sozinho. Ele não precisava se esconder da tempestade
dentro de si.

O verdadeiro desafio agora era encontrar a paz — e talvez, finalmente, compreender o


verdadeiro significado de sua jornada.

O ambiente ao redor continuava sereno, mas dentro de Katsuma, um turbilhão de


pensamentos e sentimentos começava a se acalmar. Ele sentia uma leve brisa acariciando
sua pele, um sussurro suave da natureza que parecia convidá-lo a respirar profundamente e
deixar para trás o peso que carregava. Proteu, com sua presença imponente, mas gentil,
olhava para ele com uma paciência infinita.
Katsuma olhou para o deus do mar, ainda processando tudo o que acontecera. A luta, a
raiva, a dor. Tudo parecia tão distante agora, como se ele tivesse sido transportado para um
outro estado de consciência. Ele não sabia como, mas sentia que estava sendo guiado por
algo maior, algo além do que poderia compreender naquele momento.

"Proteu..." Katsuma começou, a voz tremendo um pouco. "Eu... eu causei tanto sofrimento.
Eu pensei que estava fazendo o certo, mas agora... parece que eu só estava criando mais
dor. Como posso encontrar a paz depois de tudo o que fiz?"

Proteu sorriu suavemente, seus olhos refletindo uma sabedoria profunda. "A paz não vem
de escapar do que fizemos, Katsuma. Ela vem de aceitar a verdade e entender que, apesar
de nossos erros, somos capazes de mudar. O primeiro passo é reconhecer o impacto de
nossas ações, e você já deu esse passo."

Katsuma sentiu o peso daquelas palavras. Ele sabia que a dor que ele causou não poderia
ser apagada, mas talvez houvesse uma maneira de aprender com ela. Talvez houvesse
uma maneira de seguir em frente sem carregar esse fardo para sempre.

"Eu tentei fugir de tudo o que aconteceu", ele disse, mais para si mesmo do que para
Proteu. "Mas eu não posso fugir para sempre, não é?"

"Não", respondeu Proteu com um tom tranquilo. "Você não pode fugir, mas pode escolher
como vai viver com isso. A mudança não acontece da noite para o dia, Katsuma. O caminho
da redenção é longo e exige coragem. Mas você já começou a jornada."

Damon, que havia permanecido em silêncio até aquele momento, se aproximou de Katsuma
e colocou a mão em seu ombro. "Não se torture mais, amigo. O que aconteceu, aconteceu.
O importante agora é como você vai seguir em frente. Estamos aqui com você, e não
importa o quanto demore, você vai encontrar seu caminho."

Tiresias, sempre o observador sábio, acrescentou: "O tempo e o espaço aqui são
diferentes, Katsuma. Você está em um ponto de virada, onde pode redefinir seu destino.
Mas lembre-se: o que você faz com essa chance é o que realmente importa."

Katsuma olhou para os amigos, a gratidão e o alívio começando a tomar conta dele. Ele não
estava mais sozinho em sua jornada. Apesar de todos os erros, ele ainda tinha a chance de
se reerguer. Ele sabia que não seria fácil, mas também sabia que o verdadeiro poder não
vinha da destruição, mas da capacidade de transformar a dor em aprendizado.

Ele olhou mais uma vez para Proteu, que observava com uma expressão de empatia. "Eu
não sei se sou capaz de mudar, mas quero tentar. Quero encontrar uma maneira de honrar
o que fiz, de alguma forma."

Proteu assentiu lentamente. "Essa é a escolha certa, Katsuma. Você não precisa ser
perfeito, apenas verdadeiro consigo mesmo. E, a partir desse momento, sua jornada será
uma de autodescoberta."
O som suave das ondas, o farfalhar das folhas ao vento, tudo parecia se unir em uma
melodia tranquila. Katsuma sentiu que, embora o caminho à frente fosse incerto e repleto de
desafios, ele não estava mais perdido. Ele tinha uma direção, um propósito. A luta interna
que havia enfrentado estava se transformando em algo maior: uma busca por redenção,
não só para os outros, mas para si mesmo.

O mar diante dele continuava a ondular suavemente, como se estivesse esperando por sua
decisão. Proteu deu um passo em direção a Katsuma, colocando uma mão sobre seu peito
de maneira simbólica. "Você está pronto para seguir em frente. Agora, você precisa
entender que a tempestade que vivemos dentro de nós não define quem somos, mas sim a
nossa resposta a ela."

Katsuma respirou fundo, sentindo as palavras de Proteu penetrarem em seu coração. Ele
sabia que o verdadeiro desafio estava apenas começando, mas também sabia que, desta
vez, ele não enfrentaria o caminho sozinho. Ele tinha apoio, compreensão e, mais
importante, a chance de começar de novo.

"Eu vou tentar", ele disse, com uma determinação renovada.

E assim, naquele lugar tranquilo, Katsuma deu o primeiro passo em uma nova jornada —
não apenas para a redenção, mas para descobrir quem ele realmente era, longe da dor e
da culpa que o haviam aprisionado por tanto tempo.

# **Capítulo 7: Em Busca de Redenção**

O mar se estendia como um abismo de espelhos quebrados diante de Katsuma. As ondas


vinham e iam, brandas e implacáveis, lambendo as rochas como se quisessem apagar os
pecados gravados nelas. O céu, tingido em tons ardentes de vermelho e laranja, parecia
sangrar sobre o mundo, como se compartilhasse da dor que ele carregava no peito.

Katsuma estava imóvel. O vento bagunçava seus cabelos, mas ele não sentia. O som das
gaivotas, o sal no ar, o murmúrio do oceano... tudo parecia distante, abafado. Como se
estivesse preso dentro de si mesmo — e, de certo modo, estava.

> “Você queimou pessoas vivas.”

A voz na sua mente sussurrava como fogo crepitando.

> “Você matou inocentes.”

Gritos. Tantos gritos. O cheiro da carne. Os olhos de uma criança que o olhava pedindo
ajuda — antes de virar pó.

Um calafrio percorreu sua espinha. Seu corpo tremia. Não de frio. De lembrança. De culpa.
> “Tudo mudou no dia em que fez dezoito anos. Parabéns.”

A cicatriz que carregava não era visível. Era um buraco. Um vácuo dentro do peito, sugando
tudo que ainda restava de luz. Era ali que morava o verdadeiro inferno.

Então, uma voz o alcançou, quebrando o abismo:

— **Você não pode fugir disso.**


A voz de Proteu era calma, mas cortava como lâmina. Katsuma virou o rosto. O velho
caminhava devagar, os olhos profundos refletindo o mar — não em superfície, mas em
profundidade.
— **Mas pode escolher como viver com isso.**
Ele parou diante de Katsuma.
— **A redenção não é um milagre, Katsuma. É uma escolha. Uma jornada. E você... você
apenas começou.**

Katsuma cerrou os punhos.


— _E se eu não quiser continuar? E se eu não merecer?_
As palavras não saíram, mas estavam ali. Ardendo em sua garganta.

E então, ele sentiu. Um toque. Firme, quente, humano.


Damon estava ao seu lado, a mão sobre seu ombro. Não era só apoio. Era uma âncora.

— **Chega, amigo. Já se puniu demais.**


A voz de Damon era baixa, mas havia nela a força de quem segurou alguém caindo e se
recusou a soltar.
— **Olha pra mim.**
Katsuma levantou os olhos.
— **O que importa agora é o que você vai fazer com o que restou. Você ainda está aqui. E
eu também. E nós não vamos a lugar nenhum.**

Katsuma quis chorar. Mas não conseguia. A culpa ainda era um peso esmagador... mas
naquele momento, ela se tornava mais leve. Dividida.

— _Por quê?_ — sua voz finalmente saiu, trêmula. — _Por que ainda acreditam em
mim...?_

Damon sorriu de lado, com os olhos marejados.


— Porque mesmo na escuridão, você ainda tenta encontrar uma saída. Isso é mais do que
muita gente faz.

Tiresias se aproximou em silêncio. Seus passos não quebravam galhos, não levantavam
areia. Era como se o tempo andasse com ele.
— **O tempo aqui é maleável, Katsuma.**
Sua voz soava como uma profecia — e talvez fosse.
— **Você está diante de uma bifurcação. Não importa quem você foi. Importa o que vai
fazer a partir de agora. Esta chance... é rara. E preciosa.**
Katsuma olhou em volta. Três rostos. Três almas que o viam por inteiro — inclusive as
partes que ele mais odiava. E ainda assim... estavam ali.

A dor não sumiu. Mas se transformou.

Ele respirou fundo. E foi como se inalasse o mundo pela primeira vez em meses. O sal. O
vento. A vida.

> “Você ainda é alguém. Ainda tem escolha.”

— _Eu vou tentar..._ — disse ele, com a voz embargada, mas firme. — _Não prometo
conseguir. Mas não vou desistir._

Proteu se aproximou e pousou a mão sobre seu peito.

— **A tempestade aqui dentro não é o fim.**


Seus olhos perfuravam a alma de Katsuma.
— **É apenas o começo.**

E naquele instante... a faísca reacendeu.

Não era luz pura. Era uma chama escura. Instável. Mas viva. Sua chama negra. Seu fardo.
Seu poder. Sua verdade.

Ele deu um passo. O primeiro de muitos. O primeiro em direção à redenção — ou ao que


quer que ela significasse.

---

A noite caiu, e a brisa esfriou. Katsuma voltou ao acampamento entre as árvores. As


chamas da fogueira dançavam, lançando sombras longas como braços de espectros.

Ele se sentou, calado, sentindo o calor do fogo. Mas o frio da memória ainda estava ali.

O Submundo... ele ainda o sentia. O cheiro de enxofre. O peso das almas. O julgamento. As
acusações. A condenação que quase o quebrou.

Damon sentou-se ao lado. Ficou em silêncio por alguns segundos. Depois, disse com a voz
rouca:

— **Você está diferente.**

Katsuma virou o rosto.


— _Diferente como...?_

— **Mais calado. Mais raivoso... talvez mais forte.**


Damon deu um sorriso torto, como se não soubesse se aquilo era elogio ou alerta.
Katsuma observou o fogo.
— _Não sei se consigo esquecer. Nem se consigo perdoar a mim mesmo._
Pausou.
— _Mas... estou tentando._

Damon olhou para ele por um tempo, depois voltou os olhos às chamas.

— **Às vezes, é só isso que podemos fazer.**


Sua voz estava baixa.
— **Tentar.**

E então o silêncio se fez. Não um silêncio vazio, mas um silêncio cheio de tudo: dor,
esperança, lembrança, medo e fé.

Eles ficaram ali. Dois amigos. Duas almas marcadas.

Enquanto o mar continuava a sussurrar histórias antigas.

Enquanto o fogo queimava.

Enquanto o destino esperava, paciente, pelo próximo passo.


# Capitulo 8: Ecos do Abismo

A madrugada caiu como um véu sufocante sobre a costa. A névoa era espessa, prateada, e
parecia arrastar o mundo para um silêncio que doía. O fogo do acampamento ardia em
brasa lenta, lançando pequenas faíscas no vento frio da noite. Todos dormiam — menos
Katsuma.

Seus olhos, escuros e fundos, fixavam o ponto onde o mar se dissolvia no céu. Ali, entre o
horizonte e o abismo, ele ouvia algo. Um chamado. Não era medo. Era algo mais antigo.
Algo que vinha das entranhas da alma.

Movido por um impulso que não compreendia, ele se levantou. Caminhou como sombra, os
pés tocando pedras úmidas cobertas de musgo gelado, até chegar a uma enseada isolada.
A água ali era estranhamente calma, refletindo o céu — e também seu rosto.

Mas não apenas o seu.

Ali, no reflexo, algo se movia.

Do fundo do espelho líquido, emergiu uma figura. Não um monstro. Não um fantasma. Mas
ele mesmo.

Ou o que ele poderia se tornar.

A sombra tinha seus traços, mas os olhos eram vazios, mortos. A pele marcada pelas
chamas negras que o perseguiam desde o Submundo. A boca se curvou num sorriso cruel.
— Pode mentir para eles... — a voz era sua, mas deformada, cheia de desprezo — mas
não pode mentir para mim. Eu sou tudo o que você teme ser. Eu sou o que você causou.

Katsuma não recuou. Não dessa vez.

— Eu te enfrentei antes... no Inferno. Mas fugi. Me escondi atrás da dor.

A sombra gargalhou, mas não era som — era lâmina.

— Você não quer redenção. Quer apagar tudo. Esquecer. Fingir que não aconteceu.

Essas palavras cortaram mais fundo que qualquer espada. Ele sentiu o estômago revirar, os
olhos arderem. Mas lembrou-se de Damon. De Proteu. Dos olhos de Tiresias. Dos gritos
das vítimas.

Não... esquecer era trair tudo isso.

— Não. — a voz dele falhou, mas encontrou firmeza. — Eu não quero apagar. Quero
lembrar. Quero que esses gritos sejam cicatriz — não condenação, mas propósito.

A sombra hesitou.

— Ainda não está pronto... — sussurrou ela, como fumaça no vento — Mas está perto. E
quando chegar a hora, estarei esperando.

Foi então que uma voz ecoou pela névoa:

— Katsuma.

Ele se virou. Proteu saía das sombras, olhos brilhando em azul intenso.

— Você não deveria estar aqui sozinho — disse o ancião, preocupado.

Antes que Katsuma pudesse responder, um grito rasgou o ar.

Agudo. Humano. De dentro da floresta.

— O que foi isso?

— Damon. — Proteu já se movia.

Sem pensar, correram. A floresta os engoliu em galhos retorcidos e sombras úmidas.

Então, ele viu.

Damon e Tiresias.
Presos. Arrastados por correntes invisíveis, envoltas em um brilho espectral. As mãos que
os prendiam não tinham forma — eram sombras vivas, famintas.

— Damon!

Katsuma correu, as chamas negras explodindo de suas mãos. Mas ao tocar as correntes...
nada. As chamas eram absorvidas. Como se o fogo não existisse.

— Não... — a voz dele quebrou — Isso não pode estar acontecendo...

A força o abandonou. O mundo girou. Tudo escureceu.

— N-não... — foi tudo o que conseguiu dizer antes de cair.

---

### **Ecos do Inferno**

Acordou no chão frio. Sozinho. A cabeça latejava. A escuridão parecia falar com ele.

— Onde estão eles...? — murmurou, se levantando com esforço.

Mas o silêncio não respondeu.

Ele se ergueu. Usou o que sabia. Seguiu rastros. Pegadas arrastadas. Sangue seco. Grama
amassada.

— Não vou perder vocês... — murmurou, acendendo as chamas negras entre os dedos —
Nem que eu queime o mundo inteiro pra encontrá-los.

Caminhou por vales afogados em névoa, colinas escuras, florestas onde os sussurros
tinham nome. As visões voltavam: vultos, risos, a sombra dele mesmo em lagos escuros,
sussurrando verdades que ele odiava ouvir.

“Você sabe o que farão com Damon...”

Não podia ceder.

Não agora.

Até que os viu.

Um desfiladeiro. Uma cripta esquecida. Guardas monstruosos, deformados por corrupção.

Um grito ecoou das profundezas.

A voz de Damon.
E então... ele parou de pensar.

---

### **O Despertar da Fera**

A visão de Damon pendurado, gritando. Tiresias ensanguentado. As criaturas... rindo.

E ali, jogado como um cão, Katsuma ergueu os olhos.

As correntes em seus braços estremeceram.

Um estalo.

Um segundo.

E tudo desabou.

Seus ossos estalaram como galhos secos. Veias saltaram em brasas negras. A pele se
abriu em fissuras, de onde brotavam línguas flamejantes.

Espinhos negros emergiram das costas, rasgando sua carne com estalos grotescos.

Seus olhos — agora orbes vazios — ardiam como sóis corrompidos.

De sua testa, dois chifres curvos se ergueram como uma coroa maldita.

Sua boca se alargou demais. Larga demais. Lá dentro, dentes em múltiplas fileiras, como
navalhas demoníacas.

Katsuma deixou de ser humano.

Ele se ergueu como uma entidade ancestral, feita de dor, fúria e agonia viva.

As criaturas pararam de rir.

E ele sorriu.

Um deles avançou.

Katsuma o agarrou pela garganta, e com um movimento seco, enfiou a mão em seu peito,
rasgando carne, osso e tudo o que existia dentro. O coração explodiu em sua palma,
devorado pelas chamas negras.

Outro tentou fugir.

Em vão.
Katsuma saltou — uma flecha viva de destruição — atravessando o crânio da criatura com
uma lâmina que cresceu do seu próprio braço. O corpo caiu dividido ao meio.

Outros gritaram.

Outros suplicaram.

Não houve piedade.

Ele arrancava cabeças com as próprias mãos, atravessava abdômens com espinhos vivos
que brotavam das costas, pisoteava corpos até virar polpa escarlate.

Ele não lutava.

**Ele caçava.**

**Ele devorava.**

E quando tudo terminou, Damon ainda respirava — por pouco.

Katsuma caiu de joelhos, as chamas ainda dançando ao seu redor, sem se apagar.

Tiresias se arrastou até ele, olhos abertos de horror.

— Você atravessou... e voltou.

Katsuma o olhou com olhos vazios de luz.

— Não sei se voltei inteiro.

Tiresias pousou uma mão no ombro dele.

— Então aprenda a ser inteiro... com o que sobrou.

---

### **O Preço**

Katsuma desapareceu.

Fugiu como fumaça, como sombra quebrada.

Restaram Damon e Tiresias — vivos, mas destroçados.

E o que os olhos de Damon viram naquele dia jamais seriam esquecidos. Ele não havia sido
salvo por Katsuma. Fora salvo por algo além dele. Algo que jamais deveria existir.

Ele chorou. Não pela dor. Mas por ter perdido o único amigo verdadeiro que já teve.
— Ele se perdeu… — sussurrou.

Tiresias assentiu, em silêncio.

— Agora… é você quem precisa encontrá-lo.

— E se ele não quiser voltar?

— Ele ainda está lá dentro. Enterrado. E você é o último fio que o liga a esse mundo.

Damon se levantou, com os olhos ardendo. Ferido, sangrando, mas determinado.

A missão havia mudado.

**Agora, a jornada era outra.**

**Agora, o resgate era da alma de Katsuma.**


# Capitulo 9: Rastro de Cinzas

O dia ainda hesitava em nascer quando Damon sentiu um calafrio sutil, quase
imperceptível, percorrer sua espinha. Algo estava errado — não um perigo visível, mas uma
presença antiga, sombria, que se infiltrava nas sombras da floresta e nos cantos da alma.

Ele olhou para o acampamento — silencioso, vazio. O lugar onde Katsuma deveria estar
repousando estava deserto.

— Ele não voltou — murmurou Damon, a voz carregada de uma angústia contida.

Tiresias, com olhos semicerrados e semblante cansado, ajoelhou-se e tocou o solo úmido e
gelado. Seus dedos pressionaram a terra como se ela mesma pudesse lhe contar segredos.

— Sinto uma perturbação — falou lentamente — uma energia instável, bruta, uma
reverberação que ainda ecoa nesse solo.

— Ele foi atraído por alguma coisa? — perguntou Damon, temeroso.

O velho hesitou, levantando-se devagar. Suas mãos tremiam, não de idade, mas de algo
mais profundo.

— Não posso dizer se ele está ferido... — falou com um peso na voz — Mas posso sentir
que ele está mudando. Não é a fúria que o transforma, mas o peso daquilo que carrega por
dentro. Uma metamorfose silenciosa, dolorosa.

Damon engoliu em seco. As palavras de Tiresias pareciam confirmar seus piores medos.

---
Eles seguiram a trilha marcada pelo silêncio da floresta. Penhascos cobertos de névoa
espessa, árvores antigas com galhos que pareciam murmurar nomes esquecidos, um vento
cortante que trazia consigo o odor de cinzas e desolação.

Cada passo parecia mais pesado, como se a própria natureza se revoltasse contra a
presença deles ali.

— Por aqui — Tiresias indicou, apontando para um desfiladeiro entre rochas negras como
carvão.

O ar ao redor mudou — ficou quente, sufocante. O chão sob seus pés exalava um odor acre
de queimado.

Damon parou, arregalando os olhos diante da cena que se descortinava.

Um campo de destruição: árvores carbonizadas, pedras derretidas, corpos retorcidos e


sombras que ainda pareciam se contorcer em agonia.

No centro, uma cratera fumegante. E no meio dela, imóvel, ajoelhado, um corpo marcado
por fissuras incandescentes que pareciam pulsar com a própria vida.

Katsuma.

Suas chamas negras dançavam ao seu redor, sussurrando em línguas antigas, esquecidas
pelo tempo.

— Por todos os deuses... — Damon murmurou, aterrorizado — O que ele fez para chegar a
esse estado?

Tiresias se aproximou devagar, olhos arregalados, mas não de medo — de reconhecimento.


Ele havia visto aquilo antes, em sonhos e presságios sombrios.

— Ele não lutou contra a escuridão — disse com voz grave — Ele a abraçou, tornando-se
parte dela.

Katsuma levantou lentamente o rosto, e seus olhos refletiram o abismo. Não havia ali
apenas dor ou fúria, mas um fogo ancestral que queimava em silêncio.

— Vocês vieram me buscar — sua voz era um sussurro rouco, quase desfalecendo.

Damon avançou, tentando encontrar algum traço do amigo que conhecia.

— Procuramos por você. Você desapareceu... E encontramos isso.

Katsuma olhou em volta, a devastação que causara finalmente parecendo tocar sua
consciência.
— Tentaram me parar... ferir vocês... Vi tudo em sonhos — as correntes, os rituais, o
sofrimento.

Damon franziu o cenho, desconcertado.

— Mas isso não aconteceu.

Katsuma fechou os olhos. As chamas negras ao redor de seu corpo diminuíram,


tornando-se quase dóceis. Ele parecia exausto.

— Ou talvez tudo isso tenha sido um reflexo... uma sombra do que está por vir.

Tiresias pousou sua mão firme sobre o ombro do jovem.

— Talvez seja um teste, um aviso de tudo que ainda vive dentro de você, esperando para
emergir.

Katsuma fechou os punhos, tremendo.

— Eu perdi o controle. Não fui eu mesmo. Fui algo... diferente.

— Mas, mesmo assim — respondeu Tiresias com serenidade — você ainda nos buscava,
mesmo no meio dessa escuridão. Ainda protegia aqueles que ama.

Damon ajoelhou diante dele, ignorando o calor que emanava do solo chamuscado.

— Katsuma, você não está sozinho. Nunca estará.

Katsuma fechou os olhos novamente, e as chamas negras recuaram para dentro dele,
serpentes obedientes que se aquietavam.

A dor em seu corpo ainda era real, mas o peso sobre sua alma começou a se transformar.

— Eu os vi morrer — disse, voz quebrada — e tudo dentro de mim gritou que era tarde
demais para salvar qualquer coisa.

Tiresias assentiu, com a voz carregada de compreensão.

— Você cruzou a fronteira entre o que foi e o que pode ser. Agora, a escolha é sua. O que
fará com o que encontrou do outro lado?

O silêncio se instalou, profundo, enquanto o vento sussurrava entre os galhos queimados.

— Vamos — disse Damon, estendendo a mão.

Katsuma a segurou, firme, mas seus olhos permaneciam sombrios.

— Não ainda. Preciso entender quem realmente sou. Preciso ser digno de voltar.
Damon hesitou, mas Tiresias sorriu com leveza.

— Então começaremos essa jornada. Juntos.

---

Enquanto caminhavam entre os escombros fumegantes, a floresta parecia prender a


respiração. O céu, pesado de nuvens cinzentas, deixava escapar um fio tênue de luz, como
se o mundo temesse iluminar demais a devastação.

Mas nem todos os olhos estavam no chão.

Entre os galhos retorcidos de uma árvore morta, uma figura encapuzada os observava,
fundindo-se à sombra.

Seus olhos pálidos e leitosos seguiam cada movimento de Katsuma com precisão
predatória.

— Ele despertou — murmurou a voz rouca, como o vento quebrando folhas secas — O
sangue dele cantou. A chama respondeu.

Uma segunda silhueta emergiu do nevoeiro, voz feminina, cortante e gélida.

— É verdade. O herdeiro da Queda caminha novamente. E seu coração está se


despedaçando por dentro.

O primeiro virou-se.

— Ele não está pronto. Mas logo a escolha será inevitável. Luz... ou ruína.

— E se ele escolher os dois?

O silêncio foi a única resposta.

Num sopro de vento e sombra, desapareceram — como se jamais tivessem estado ali.

---

No chão, Katsuma parou por um instante, olhando para os galhos queimados.

Era como se algo o chamasse — ou avisasse.

— O que foi? — perguntou Damon, percebendo a tensão no amigo.

Katsuma balançou a cabeça lentamente.

— Não sei... mas senti algo. Algo esperando por mim.


Tiresias apertou o bastão com força.

— Então que venha. Estamos prontos para encarar o que se esconde nas sombras.

Katsuma permaneceu em silêncio, olhos fixos no céu encoberto.

Porque, no fundo, sabia que aquela não havia sido a última chama.

Era apenas a primeira.

# Capitulo 10: Vozes na Névoa

O grupo avançava com passos cautelosos pela floresta que mais parecia um túmulo em
chamas. O chão, coberto de cinzas ainda mornas e carvão quebradiço, estalava sob os pés,
liberando um calor sufocante que se infiltrava na pele como uma lembrança viva da
destruição.

As árvores carbonizadas se erguiam como esqueletos retorcidos, galhos quebrados


rangendo ao vento frio que carregava o cheiro acre da morte. Havia algo no ar — uma
expectativa pesada, como se o mundo observasse em silêncio.

À frente, Katsuma caminhava envolto pelas chamas negras agora mais contidas, pulsando
suavemente ao ritmo de seu coração. A dor havia cessado, mas a paz jamais chegara.

Dentro dele, a voz retornou.

**— Você os salvou… ou apenas adiou o inevitável?**

Katsuma fechou os olhos por um instante.

**— Sentiu o poder? Aquilo não foi perda de controle. Foi libertação.**

As chamas ao redor de seu corpo tremularam.

— Está tudo bem? — Damon perguntou.

— Sim — respondeu frio demais.

Mas por dentro, a tempestade rugia.

**— Eles têm medo de você. Tiresias sente. Damon percebe. Você é ruína viva.**

Imagens de aldeões queimando invadiram sua mente. O cheiro, os gritos, o vazio que se
seguiu.

Katsuma parou diante de uma árvore caída, o olhar perdido.


Tiresias aproximou-se.

— Você está ouvindo…

— Apenas lembranças — mentiu.

A voz riu dentro dele.

---

Mais adiante, encontraram uma nascente intacta. Água cristalina em meio à ruína.

Katsuma ajoelhou-se e encarou o reflexo.

Mas não estava sozinho.

Outra versão sua o encarava — olhos negros, sorriso torto, chamas serpenteando.

**— Aceite o destino. A profecia não fala de escolha.**

**— De que adianta salvar o mundo se você se perde?**

O fogo ao seu redor explodiu brevemente.

— Katsuma! — gritou Damon.

— Estou bem! — respondeu ríspido.

Tiresias observava em silêncio.

---

À noite, acamparam sob as ruínas de um antigo templo.

Damon dormia armado.

Tiresias meditava.

Katsuma não conseguia fechar os olhos.

**— Você gosta do abismo. Deixe-me guiar você.**

As chamas dançavam em torno de seu corpo.

Por fora, o protetor.

Por dentro, um campo de batalha.


---

Sob uma chuva distante de brasas, Katsuma subiu sozinho a uma colina.

— Fale — murmurou.

**— Finalmente aceita?**

— Não. Mas não vou te ignorar.

**— Todos se tornam o que precisam ser.**

O calor cresceu.

— Eu sou o fogo — sussurrou. — Mas decido o que vai queimar.

A voz silenciou.

Não por derrota.

Por espera.

---

De volta ao acampamento:

— Ele está lutando — disse Tiresias.

— E se perder?

— Ainda não chegou a hora.

Nas sombras da floresta, figuras encapuzadas observavam.

— Ele resistiu.

— Por enquanto.

— Ele terá que escolher.

— E quando escolher… o mundo arderá.


# Capitulo 11: A Noite em Que Eu Queimei Deuses

As noites deixaram de ser descanso para Katsuma. Tornaram-se prisões.


Sempre que o sol se punha, uma sombra fria envolvia sua mente, anunciando o início da
verdadeira batalha — uma guerra invisível, travada dentro de si.

A floresta ao redor do acampamento ainda fumegava. Cinzas cobriam o chão como um véu
de morte. Árvores carbonizadas se curvavam, rangendo ao vento, como se murmurassem
lamentos antigos.

Katsuma seguia à frente. As chamas negras ondulavam ao redor de seu corpo, vivas,
pulsando no ritmo do coração inquieto. A dor física havia passado. A tormenta interior, não.

---

### A Voz Queima

— Você os salvou? — sussurrou a voz dentro dele. — Ou apenas adiou o inevitável?

Katsuma cerrou os olhos.

— Isso não foi perda de controle — continuou a presença sombria. — Foi liberdade.

Ele apertou os punhos. As chamas oscilaram.

— Está tudo bem? — perguntou Damon.

— Estou — mentiu.

Mas a guerra dentro dele só crescia.

---

### O Sussurro das Trevas

— Eles têm medo de você — a voz insistia. — Tiresias sente. Damon duvida. Todos sabem
que esse fogo não é normal.

Imagens explodiram em sua mente: corpos queimados, gritos, o cheiro de carne em


chamas.

Katsuma parou diante de uma árvore caída, os olhos refletindo o fogo negro.

---

### O Toque da Compaixão


Tiresias pousou a mão em seu ombro.

— Você está ouvindo algo… não está?

— Só lembranças.

— Mente bem — zombou a voz interior.

---

### A Claridade na Escuridão

Mais adiante, uma nascente resistia à destruição. Katsuma encarou o próprio reflexo.

Mas não estava sozinho.

Na água surgiu outra face sua — olhos negros, sorriso cruel, chamas serpenteando pelo
rosto.

— Aceite — murmurou a voz. — A profecia não fala de escolha. Fala de destino.

As chamas explodiram ao redor.

— Katsuma! — gritou Damon.

— Estou bem!

Tiresias apenas observava, sabendo que aquela luta era solitária.

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### A Vigília das Sombras

À noite, sob ruínas de um templo antigo, todos descansavam.

Menos Katsuma.

O fogo comum da fogueira dançava tranquilo. Dentro dele, as chamas negras rugiam.

— Somos um só — ecoou a voz. — Divididos por ilusões.

— Eu não sou você — respondeu Katsuma.

Mas o brilho sombrio em seus olhos não mentia.

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### O Peso da Escolha


Katsuma subiu uma colina distante.

— Fala — disse ao vento.

— Finalmente aceita?

— Não. Mas não vou mais negar.

— No fim, todos se tornam o que precisam ser.

O calor aumentou.

— Eu sou o fogo. Mas escolho o que queimar.

A voz silenciou. Não por derrota. Por respeito.

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### As Sombras Observam

Entre galhos retorcidos, duas figuras encapuzadas observavam.

— Ele resistiu.

— Por enquanto.

— Terá que escolher.

— E o mundo vai arder.

Sumiram na escuridão.

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### O Medo do Grupo

Ao amanhecer, na vila próxima, o grupo o encarava com misto de admiração e temor.

— Suas chamas parecem vivas — disse Kaliope.

— É impressionante… mas assustador — completou Nikki.

— Tenho medo de você perder o controle — confessou Rafi.

— Precisa dominar isso — falou Ikki.

Katsuma apenas assentiu.


Por fora, firme.

Por dentro, em chamas.

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### A Máscara

Durante o treino, o fogo negro cresceu rápido demais. Katsuma lutou para contê-lo, suando,
tremendo.

— Você carrega peso demais sozinho — disse Tiresias.

Mais tarde, sozinho à fogueira, a voz riu:

— Que teatro patético.

Katsuma fechou os olhos.

Ele era o guerreiro forte para eles.

Mas sabia a verdade.

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### O Amanhecer

A luz do sol tingiu o céu de dourado.

Katsuma respirou fundo.

Não sabia se conseguiria controlar o fogo.

Não sabia se a máscara resistiria.

Mas continuaria.

Para proteger.
Para não se perder.
Para ser mais que destruição.

Para ser a chama que guia.

# Capítulo 12: O Peso da Máscara


O céu ainda permanecia tingido de cinza frio quando Katsuma emergiu da cabana onde
passara a noite. A névoa da madrugada pendia entre as árvores, abraçando cada galho,
cada folha, como uma teia silenciosa que prendia o mundo em um sono quase eterno. O ar
era denso, carregado com o cheiro úmido da terra molhada, da madeira queimada e do
silêncio pesado que só o medo não declarado pode criar.

A vila ao seu redor parecia sufocar sob esse véu de incertezas, cada sombra projetada
pelas casas desgastadas parecendo esconder algo, algo antigo, algo inquieto. O mundo lá
fora dormia, mas dentro de Katsuma, a vigília era constante — uma batalha interminável
contra a tempestade que ardia em seu peito.

Ele caminhava como se carregasse uma armadura invisível feita de segredos e dores não
ditas. Por fora, seu rosto era uma máscara — uma expressão calma, controlada, quase
impenetrável. Aquela era a face que mostrava aos outros: a face do guerreiro que domina
as chamas negras, o homem que não se deixa consumir.

Mas por dentro, a verdade era outra. O fogo em seu peito crepitava e estalava, uma chama
viva e faminta que ameaçava consumir não apenas o mundo, mas a própria alma de
Katsuma.

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### **O Encontro com o Grupo**

No coração da vila, seu grupo o aguardava — um círculo de figuras com olhares variados,
cada um carregando seu próprio medo e esperança.

Kaliope, com seus cabelos flamejantes que pareciam captar a luz fraca da manhã, foi a
primeira a romper o silêncio, sua voz reverberando entre as árvores:

— Katsuma... suas chamas negras parecem vivas, como se tivessem vontade própria. Você
realmente as domina? Ou é o fogo que te controla?

Nikki, com sua postura firme e olhos brilhando como um escudo de luz, acrescentou:

— Você parece ser o próprio fogo, o centro da tempestade. É impressionante, mas...


assustador.

Rafi desviava o olhar, mordendo o lábio inferior, revelando um medo velado:

— Não vou mentir. Tenho medo do que pode acontecer se você perder o controle.

Ikki, calado como sempre, franziu o cenho, sua expressão sombria denunciando uma
preocupação que não podia ser ignorada.

Luiz, o estrategista introspectivo, baixou a voz para quase um sussurro, carregado de


dúvida:
— Mas será que ele realmente controla essas chamas? Ou está só fingindo para esconder
o caos que sente?

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### **A Verdade que Katsuma Esconde**

Por trás daqueles olhos que aparentavam calma e controle, Katsuma sentia o coração
apertar com uma angústia imensa. Ele sabia, no fundo, que não tinha total domínio sobre
aquele fogo que queimava em seu interior.

Às vezes, as chamas negras escapavam, crescendo em intensidade, consumindo com fúria


e selvageria, ameaçando engolir tudo — seus amigos, a vila, e a si mesmo.

Mas ele nunca deixava transparecer.

Ele sorria, falava com firmeza, usava palavras seguras para esconder o caos que ameaçava
explodir a qualquer momento.

— Eles não podem saber — repetia em sua mente — se perceberem que não controlo,
terão medo. Me rejeitarão. Me destruirão com o olhar.

E naquela escuridão mental, uma voz sombria e cruel ria com zombaria:

— Fingir é patético, Katsuma. Você é um brinquedo nas minhas mãos. Fraco, vulnerável,
dominado.

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### **O Treinamento Forçado**

Na clareira da vila, sob os olhares atentos do grupo e de Tiresias, Katsuma buscava provar
a si mesmo que podia controlar as chamas que o consumiam.

Ergueu as mãos devagar, as chamas negras surgindo como serpentes sinuosas, dançando
entre seus dedos com um brilho sinistro que parecia puxar a luz ao redor.

Mas logo o fogo cresceu demais, rápido demais, como se tivesse vontade própria —
ameaçando se soltar e destruir tudo.

O suor escorria pela testa de Katsuma, os músculos tensos lutando para manter o controle
daquele furacão interno.

Ele sentiu a respiração acelerar, a garganta fechar, o mundo estreitar-se em um ponto —


tudo para conter o incêndio que ameaçava consumir o que restava de sua sanidade.

Tiresias, com olhos que enxergavam além do físico, observava em silêncio, a expressão
carregada de preocupação e compreensão.
— Você está lutando — disse finalmente, a voz baixa, cheia de pesar. — Mas essa luta está
ficando pesada demais para um homem só.

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### **O Medo Cresce Entre o Grupo**

Após o treino, o grupo se reuniu, os olhares misturando admiração e apreensão em um


mesmo fôlego.

Kaliope falou com a voz trêmula, a insegurança escapando entre as palavras:

— Eu não sei como você consegue manter algo tão volátil sob controle... parece uma força
selvagem e imprevisível.

Nikki segurava o escudo com força, a voz revelando sua ansiedade:

— Às vezes, parece que essa chama pode se voltar contra você. Contra nós.

Rafi tentou esconder seu nervosismo atrás de um sorriso forçado:

— Seu poder é assustador. Muito mais do que eu imaginava.

Luiz, franzindo a testa, perguntou quase para si mesmo:

— E se um dia você perder o controle? O que vai acontecer com todos nós?

Ikki, até então silencioso, falou com voz firme, o peso de sua preocupação evidente:

— Você precisa aprender a dominar seu poder... antes que ele te domine.

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### **O Lado Demoníaco se Diverte**

Sozinho, sentado à beira da fogueira que tremeluziu sob o sopro suave do vento, Katsuma
encarava as chamas dançantes.

Mas dentro dele, o fogo negro não descansava. Rugia, impaciente, desafiador.

A voz sombria ecoava em sua mente, fria e zombeteira:

— Olhe para você... tão fraco, tentando parecer forte. Que espetáculo ridículo.

Ele fechou os olhos, apertando os dentes, tentando calar aquela voz cruel, mas o demônio
interior só ria mais alto, como um trovão que reverbera no silêncio da noite.
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### **A Solidão e a Máscara**

Aquela noite foi longa e silenciosa. Katsuma permaneceu acordado, sentindo o peso quase
insuportável da máscara que usava diante dos seus companheiros.

Eles o viam como o dominador das chamas negras, o líder forte, o guerreiro inabalável.

Mas ele conhecia a verdade sombria.

Sabia que, a qualquer momento, o fogo poderia fugir do seu controle, que o caos poderia
explodir a qualquer instante.

E o lado demoníaco, seu perverso companheiro, estava sempre lá, nas sombras da mente,
pronto para rir de sua fraqueza, para corroer sua esperança.

Ele estava sozinho.

E a máscara que vestia começava a pesar mais do que jamais imaginara.

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### **Os Sussurros do Amanhecer**

Enquanto a madrugada cedida ao dia, o silêncio ainda pairava, pesado e carregado.

No horizonte, a primeira luz tingia as nuvens com tons de rosa e dourado — promessas de
um novo começo, ou talvez, um aviso sombrio.

Katsuma ergueu o rosto para o céu e, por um breve instante, permitiu-se sentir o ar frio
invadir seus pulmões.

Mas, naquele suspiro de esperança, uma dúvida persistia — seria forte o bastante para
manter a máscara? Para continuar lutando contra a escuridão que queimava dentro de si?

Ele não tinha resposta.

Mas sabia que, pelo menos por enquanto, precisava continuar.

Para proteger aqueles que não podiam lutar. Para não se perder de vez.

Para se tornar mais do que fogo... para se tornar a chama que guia.
# Capitulo 13: O Grito que Fez os Deuses Tremerem

Katsuma despertou com o som da destruição.


O céu se contorcia sob nuvens negras em fúria. Relâmpagos rasgavam os céus sem
cessar. A floresta ardia em chamas púrpuras — um fogo antinatural que consumia tudo em
segundos. Árvores milenares viravam cinzas. Criaturas gritavam. Pessoas desapareciam ao
simples toque da presença maligna que avançava.

— Eles chegaram antes da hora... — sussurrou Nikki, o rosto tomado pelo horror.

Katsuma se levantou com o coração disparado.

— Precisamos ajudar! — gritou Kaliope, correndo para o caos.

Eles lutaram. Socorreram quem podiam. Mas as criaturas deformadas pelo mal ancestral
eram muitas. Imparáveis.

O desespero crescia.

Então Nirion, o jovem mago de olhos prateados, virou-se para Katsuma:

— Por que você não usa seus poderes?! Você é o mais forte aqui!

— Nós confiamos em você! — gritou Thaya, a arqueira filha de Apolo.

Katsuma congelou.

O corpo tremia.

— Eu não consigo controlar! — respondeu, a voz quebrada. — Eu tento... mas não funciona
como vocês pensam! Não sou esse monstro poderoso!

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Os olhares se desviaram. A decepção era visível.

Algo dentro dele rachou.

O ódio subiu como lava.

— EU NÃO PEDI PRA NASCER ASSIM! — rugiu. — EU NÃO SOU O QUE VOCÊS
ACHAM! MAS EU ESTOU TENTANDO!

As chamas negras explodiram ao seu redor.

Seus olhos tornaram-se abismos, negros com núcleos vermelhos cortando a realidade.

O riso de Grotak ecoou triunfante.

Katsuma cedeu.
Seu corpo se transformou.

Chifres de ébano surgiram. Asas de sombra se abriram. Uma aura profana apodrecia o
chão sob seus pés.

Então ele rugiu.

Um rugido que atravessou mundos.

Os deuses ouviram.

E tremeram.

---

No Olimpo, Ares se ergueu num salto. A presença de Katsuma atravessou seu peito como
uma lança.

Sem hesitar, lançou sua arma flamejante dos céus.

Katsuma a agarrou no ar.

E a absorveu.

— Ele… absorveu uma arma divina — murmurou Poseidon.

Os deuses da noite observavam. Alguns recuaram, temerosos. Outros sorriam, vendo nele
um novo rei.

Mas Katsuma não era servo.

Ele era o caos.

---

As criaturas atacaram.

Ele as despedaçou.

Queimou.

Reduziu tudo a pó.

Sua fúria era uma tempestade ancestral.

Então ergueu o olhar.

Ares descia dos céus, envolto em fogo sagrado.


O deus da guerra.

O portador do inferno.

Naquele instante, ninguém sabia qual deles era mais perigoso.

# Capitulo 14: Quando o Inferno Olha de Volta

Katsuma despertou.

Mas não para o mundo que conhecia.

Não havia céu em chamas, nem gritos, nem cheiro de morte. Apenas um vazio infinito —
um oceano de trevas densas onde o tempo parecia congelado e o espaço se dissolvia em
sombras sem forma.

Ele estava preso.

Preso dentro de si.

— Não... — sussurrou. — Não outra vez...

A risada de Grotak ecoou como trovão distante.

— Eu avisei, neto. Quanto mais você nega quem é, mais afunda no abismo. Aceite: você é
a chama negra. O caos feito carne.

Katsuma tentou lutar, socou o chão de névoa, mas seus punhos atravessaram o nada.

Então o espelho cruel surgiu.

Lá fora, sua forma demoníaca dominava o campo de batalha.

Ares jazia derrotado, o corpo derramando fogo dourado. Não fora vencido por armas
divinas, mas pelos punhos de Katsuma, envolvidos em chamas negras que rasgavam a
própria realidade.

Montanhas haviam sido destruídas.

O tempo parecia partido.

As criaturas da noite estavam reduzidas a cinzas.

Mas o que mais doía eram seus amigos.

Nikki tentava conter o caos com o escudo erguido.


Kaliope quase sem forças, cercada por relâmpagos fracos.
Luiz sangrava no chão.
Rafi jazia contra as pedras, gemendo.
Ikki tremia, espada em mãos, encarando o monstro que temia.

Tiresias havia caído, a luz se apagando em seus olhos.

Apenas Damon permanecia de pé, ferido, envolto em chamas suaves, olhando para
Katsuma com horror — e esperança.

— Você falhou — sussurrou Grotak. — Se escondeu atrás de máscaras. Agora o medo é


sua prisão. O inferno, seu lar.

A culpa esmagou seu peito.

O vazio começou a se fechar, como uma boca faminta.

— Você é fraco — a voz continuou. — Uma chama prestes a se apagar.

— NÃO! — Katsuma gritou, lágrimas ardentes escorrendo. — Eu não sou só destruição!

As sombras tremeram.

Memórias surgiram.

Risos. Vozes. Confiança.

Seus amigos.

— Eu tento... todos os dias — murmurou, a fagulha da determinação acendendo.

O vazio explodiu.

Um rugido de dor, fúria e esperança rasgou aquele mundo interno.

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No campo de batalha, a forma demoníaca vacilou.

Os punhos erguidos para matar Damon pararam no ar.

As chamas negras começaram a recuar, como uma maré se afastando.

Nos olhos abissais, uma luz fraca retornou.

Uma lágrima vermelha escorreu.

O mundo rachou como vidro.


A floresta devastada reapareceu.

Damon caiu de joelhos, segurando Katsuma, que tremia — exausto, mas vivo.

Naquele instante, ele entendeu:

Mesmo quando o inferno olha para você,

você ainda pode escolher para onde olhar.

Queimar.

Ou renascer.
# Capítulo 15: A Ascensão da Chama Eterna

O silêncio após a tempestade era mais pesado que o caos que a precedera.
A clareira devastada fumegava — árvores quebradas como ossos antigos, o solo negro
pulsando como se estivesse vivo.

No centro, Katsuma ajoelhava.

As feridas ardiam, mas algo muito mais profundo despertava dentro dele.

A chama negra.

Não era mais destruição cega.


Agora ela pulsava com propósito — viva, ancestral, carregando memórias de eras
esquecidas.

Sombras líquidas escorriam por entre seus dedos, não como fogo comum, mas como uma
essência primordial.

Quando sua mão tocou o chão, uma vibração atravessou a terra.

A energia subiu por seu corpo como um trovão silencioso, incendiando seu sangue.

E então, do vazio entre sua mente e o cosmos, uma voz ecoou:

— Katsuma… você não carrega a chama.


Você é a chama.
A Fornalha que queima para renascer.

Não havia ameaça naquela voz.


Era eterna. Serena. Absoluta.

Seu peito se encheu de ar.

O fogo negro dentro dele acendeu diferente — quente, poderoso, mas estável.
Uma chama que não destruía apenas.
Transformava.

Entre suas mãos surgiu uma esfera flamejante — uma galáxia sombria girando lentamente,
viva, pulsante.

A realidade ao redor se distorceu.

Das chamas emergiram formas:

Guardiões de sombra e fogo.


Espectros ancestrais chamados por um pacto antigo.

— São fragmentos da sua alma — sussurrou a voz.


— Protetores. Armas. Ecos do seu verdadeiro poder.

Katsuma sentiu o vínculo se formar.

Eles eram ele.

O céu se rasgava em cinzas e estrelas cadentes.


Cores irreais dançavam no ar como uma sinfonia cósmica.

Cada respiração misturava medo, poder e esperança.

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## A Forja das Sombras

Katsuma compreendeu.

O fogo negro não servia apenas para destruir.

Ele moldava.

Com gestos lentos, desenhou símbolos antigos no ar — selos de chama viva.

O espaço se dobrou.

Uma fenda se abriu na realidade.

Dela surgiu uma espada feita inteiramente de fogo negro.

A lâmina pulsava, absorvendo a luz ao redor, viva como um coração.

Quando ele a segurou, sentiu:


Não era uma arma.

Era uma extensão da sua alma.

— A Forja das Sombras — murmurou a voz.


— Cada criação carrega parte de você.
E todo poder cobra seu preço.

Ele testou.

Escudos surgiram como muralhas invisíveis.


Lanças flamejantes cortaram o ar.
Criaturas de energia giravam ao seu redor, obedientes.

O impossível agora era natural.

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## A Clareira Renascida

O mundo reagia.

As árvores racharam, liberando uma resina negra luminosa.


O chão morto pulsava — uma vida sombria renascendo entre cinzas.

Seus companheiros se aproximaram.

Damon observava com esperança nos olhos.


Kaliope com respeito absoluto.
Nikki segurava o escudo com nova confiança.

Tiresias, porém, parecia inquieto.

Aquele poder era grandioso.

E perigoso.

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## A Guerra Interior

Mas a maior batalha não era externa.

Dentro de Katsuma, Grotak rugia:

— Esse poder é meu! Você nunca o controlará!

A voz eterna respondeu:


— Força verdadeira não é destruição cega.
É transformação.

Katsuma entendeu.

A chama negra era dualidade:

Morte e renascimento.
Sombra e luz.
Fim e começo.

Não era maldição.

Era oportunidade.

Ele ergueu a espada ao céu.

— Eu não sou um monstro.


Sou a forja da minha própria alma.

Com um único golpe, liberou uma onda de energia que rasgou o ar como um trovão
silencioso.

As chamas negras não eram mais prisão.

Eram redenção.

O inferno o observava.

E Katsuma encarava de volta.

Não como escravo.

Mas como senhor da Chama Eterna.


# Capítulo 16 : O Eco das Chamas Renascidas

O mundo não voltou ao normal.

Mesmo após o fogo se dissipar, o ar permanecia pesado, carregado de energia, como se a


própria realidade ainda estivesse se curando daquilo que nascera naquela clareira.

Cinzas flutuavam lentamente, brilhando como pequenos fragmentos de estrelas mortas.

A terra ainda pulsava.

Não com destruição — mas com algo novo.


Katsuma permanecia de pé, a espada de chamas negras fincada no solo, respirando com
dificuldade.

Seu corpo tremia.

O poder recém-desperto ainda corria por suas veias como um rio indomável.

Cada batida do coração fazia as sombras ao redor se moverem.

— Katsuma… — murmurou Damon, dando um passo à frente.

A voz saiu baixa, quase reverente.

Ele não via mais apenas seu amigo.

Via algo maior.

Algo que mudara o curso daquela realidade.

Kaliope aproximou-se devagar.

— Você sente isso? — perguntou. — O mundo… está diferente.

Antes que Katsuma respondesse, um trovão ecoou ao longe.

Mas o céu estava limpo.

O som vinha da terra.

Como se algo, muito além da clareira, tivesse despertado em resposta à chama eterna.

Tiresias fechou os olhos.

Seu rosto empalideceu.

— Não fomos os únicos a sentir esse despertar — disse, em tom grave.


— Quando uma chama primordial renasce… coisas antigas também se movem.

O vento soprou forte.

As cinzas no ar giraram formando símbolos distorcidos.

Sombras longas se projetaram entre as árvores.

E então, ao longe, um rugido profundo ecoou pelas montanhas.

Não era de fera comum.


Era algo ancestral.

Algo que respondia ao eco do poder de Katsuma.

O mundo havia ouvido o chamado.

E agora… estava reagindo.

# Capítulo 17: O Fim de um Ciclo

O ar ainda carregava o calor das chamas negras.

A clareira estava silenciosa demais.

Katsuma sentia o poder diferente dentro de si — não mais uma força descontrolada, mas
algo vivo, atento, esperando suas decisões.

Tiresias aproximou-se devagar.

— A chama despertou por completo — disse. — Mas o mal deste reino ainda respira.

Antes que Katsuma respondesse, o chão tremeu.

Ao longe, uma energia sombria subiu aos céus como uma coluna de fumaça.

— Hades… — murmurou Tiresias. — Ele se deixou consumir pela corrupção.

Katsuma fechou os punhos.

— Então eu termino isso.

O antigo templo estava em ruínas.

No centro, Hades erguia-se deformado, envolto por sombras vivas.

— Você não entende o poder que carrega, garoto — rosnou o deus. — Ele pertence às
trevas.

As chamas negras surgiram nos braços de Katsuma.

— Não mais.

Hades atacou.
A terra rachou.

Mas Katsuma moveu-se com precisão.

Cada golpe seu era rápido.

Cada chama moldada com controle.

A batalha foi breve e brutal.

Com um último movimento, Katsuma concentrou o fogo negro em sua lâmina e atravessou
o peito do deus.

Hades gritou.

E se desfez em cinzas.

O céu clareou.

O mal da Grécia havia acabado.

O silêncio durou poucos segundos.

O ar se partiu.

Um portal azul, coberto por símbolos estranhos, abriu-se à frente deles.

Um frio cortante saiu de dentro.

Do outro lado, montanhas de neve e relâmpagos.

Tiresias arregalou os olhos.

— Os Nove Reinos…

Uma voz profunda ecoou do portal:

— O fogo que encerrou os deuses da Grécia agora será testado no norte.

Katsuma respirou fundo.

— Então é lá que está o próximo mal.

Ele deu um passo à frente.

As chamas negras iluminaram o portal.


E sem hesitar, atravessou.

O vento gelado o envolveu.

E uma palavra sussurrou no ar:

Ragnarök.

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