0% acharam este documento útil (0 voto)
10 visualizações23 páginas

Inf 0876

O Informativo de Jurisprudência n. 876 aborda decisões recentes da Corte Especial e da Primeira Turma do STJ, destacando a inviabilidade da homologação de atos notariais estrangeiros relacionados a bens no Brasil e a necessidade de previsão legal para a aplicação de continuidade delitiva em infrações administrativas. Também discute a impossibilidade de qualificar tortura como ato de improbidade administrativa após as alterações na Lei n. 8.429/1992. Por fim, menciona a responsabilidade civil do Estado por omissão em atendimento médico, limitando o pensionamento a 2/3 dos rendimentos da vítima ou a um salário mínimo na ausência de comprovação.

Enviado por

Kauam S.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
10 visualizações23 páginas

Inf 0876

O Informativo de Jurisprudência n. 876 aborda decisões recentes da Corte Especial e da Primeira Turma do STJ, destacando a inviabilidade da homologação de atos notariais estrangeiros relacionados a bens no Brasil e a necessidade de previsão legal para a aplicação de continuidade delitiva em infrações administrativas. Também discute a impossibilidade de qualificar tortura como ato de improbidade administrativa após as alterações na Lei n. 8.429/1992. Por fim, menciona a responsabilidade civil do Estado por omissão em atendimento médico, limitando o pensionamento a 2/3 dos rendimentos da vítima ou a um salário mínimo na ausência de comprovação.

Enviado por

Kauam S.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Informativo

de Jurisprudência

Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

Este periódico destaca teses jurisprudenciais e não consiste em repositório oficial de jurisprudência.

CORTE ESPECIAL

PROCESSO Processo em segredo de justiça, Rel. Ministro Og Fernandes, Corte


Especial, por unanimidade, julgado em 11/11/2025, DJEN 18/11/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO INTERNACIONAL, DIREITO PROCESSUAL


CIVIL

TEMA Homologação de decisão estrangeira. Ato notarial estrangeiro.


Testamento particular e partilha de bens situados no Brasil. Matéria
reservada à jurisdição brasileira. Pedido de homologação.
Inviabilidade.

DESTAQUE

A homologação de ato notarial estrangeiro que versa sobre bens situados no Brasil
contraria o art. 964 do CPC, que veda a homologação de decisões estrangeiras em hipóteses de
competência exclusiva da jurisdição nacional.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


O caso concreto trata de recurso contra decisão que indeferiu o pedido de homologação de
ato extrajudicial praticado por tabelião francês consistente no registro da declaração de espólio e na
lavratura de ata de execução de testamento, compreendendo a partilha de bens situados no Brasil.

A homologação de sentenças estrangeiras no Brasil, prevista nos arts. 105, I, i, da Constituição


Federal, 15 e 17 da LINDB, 960 a 965 do Código de Processo Civil (CPC) e 216-A a 216-N do Regimento
Interno do Superior Tribunal de Justiça, exige, além do atendimento de requisitos formais
(documentação, tradução juramentada, chancela consular, competência da autoridade prolatora, citação
ou revelia, trânsito em julgado), que não haja ofensa à soberania nacional, à dignidade da pessoa humana
ou à ordem pública.

Na hipótese, todavia, o pedido envolve a homologação de atos notariais estrangeiros que


importam diretamente a confirmação de testamento hológrafo e a partilha de bens situados no Brasil. A
matéria encontra-se sob reserva de jurisdição, sendo de competência exclusiva da jurisdição brasileira,
nos termos do art. 23, II, do CPC, o que, por si só, inviabiliza o pleito homologatório, nos termos do art.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 1/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

964 do CPC.

Com efeito, consoante disposto na legislação de regência, compete exclusivamente à


autoridade judiciária nacional proceder à confirmação de testamento particular, ao inventário e à partilha
de bens situados no Brasil, ainda que o autor da herança seja estrangeiro ou resida no exterior.

Portanto, a eficácia de disposições testamentárias que recaiam sobre patrimônio situado no


Brasil depende de controle jurisdicional interno, em respeito à ordem pública e à soberania nacional.

De igual modo, a alegação de consenso entre as herdeiras não tem o condão de afastar o
controle jurisdicional incidente sobre o testamento hológrafo. Eventual acordo poderá ser validamente
submetido ao juízo nacional competente, que avaliará a regularidade formal do testamento e, a partir daí,
a possibilidade de inventário e partilha, seja judicial ou extrajudicial.

Ademais, o próprio Código Civil estabelece regramento específico quanto à abertura e ao


registro judicial do testamento particular (arts. 1.876 e seguintes), prevendo expressamente, no art. 1.877,
que "morto o testador, publicar-se-á em juízo o testamento, com citação dos herdeiros legítimos".

Dessa forma, a homologação de ato notarial estrangeiro não pode substituir o devido processo
perante a jurisdição brasileira.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Constituição Federal (CF), art. 105, I, i;


Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), art. 15 e art. 17;
Código de Processo Civil (CPC), art. 23, II; arts. 960 a 965;
Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, arts. 216-A a 216-N;
Código Civil (CC), arts. 1.876 e seguintes.

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 343

Informativo de Jurisprudência n. 29 - Edição Especial

ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 2/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

PRIMEIRA TURMA

PROCESSO AREsp 2.642.744-RJ, Rel. Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma,


por maioria, julgado em 3/2/2026.

RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO

TEMA Processo administrativo sancionador. Aplicabilidade da continuidade


delitiva às infrações administrativas. Necessidade de previsão legal
expressa. Interpretação do Tema n. 1199/STF.

DESTAQUE

A aplicação da continuidade delitiva ou de outros institutos do Direito Penal às


infrações administrativas somente é admitida quando houver previsão expressa em lei.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A questão central a ser dirimida consiste na possibilidade de aplicação do instituto da
continuidade delitiva, previsto no art. 71 do Código Penal, às infrações administrativas.

Inicialmente, impõe-se destacar que a legislação administrativa aplicável ao caso concreto, a


Lei n. 9.933/1999, que dispõe sobre as competências do Conmetro e do Inmetro, dentre outras
providências, não disciplina expressamente a continuidade infracional.

Nesse contexto, surge a necessidade de avaliar se, apesar da ausência de previsão expressa na
legislação administrativa, seria legítima a aplicação de um instituto do Direito Penal, como a continuidade
delitiva, às infrações administrativas.

É certo que o Superior Tribunal de Justiça vinha compreendendo pela possibilidade, em tese,
de aplicação da regra da continuidade delitiva no âmbito das infrações administrativas, notadamente
quando as diversas irregularidades de igual natureza eram apuradas na mesma ação fiscalizatória (AgInt
no AREsp n. 1.356.452/RJ, Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, julgado em 9/2/2021, DJe de
17/2/2021; e AgInt no REsp n. 1.666.784/RJ, Rel. Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, julgado em
15/3/2018, DJe de 21/3/2018).

Nesse sentido, o Tribunal de origem assentou que o instituto da continuidade delitiva, previsto
no art. 71 do Código Penal, deve ser aplicado analogicamente às infrações administrativas quando houver
unidade de desígnios entre as condutas, bem como identidade de natureza e circunstâncias fáticas.

Todavia, o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do Tema 1.199/STF, estabeleceu, em


matéria sancionadora, a compreensão de que a aplicação de institutos do Direito Penal é admitida apenas
quando houver previsão expressa em lei. Entendeu-se que, ausente previsão específica na legislação
pertinente, não se pode presumir a existência de mecanismos atenuadores da responsabilidade
administrativa.

Isto é, se não houver previsão legal, não há como aplicar ao Direito Administrativo o instituto
radicado no Direito Penal.

Nesse contexto, não se mostra lógico que a compreensão do STF, mais restritiva, firmada em

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 3/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

precedente obrigatório, seja aplicada em demandas relativas à improbidade administrativa - cuja sanção é
muito mais grave e com consequências mais próximas às do Direito Penal -, e deixe de ser aplicada em
demandas relacionadas a infrações puramente administrativas, como fiscalização metrológica, como no
caso em exame.

Saliente-se que, recentemente, a Primeira Turma do STJ analisou a aplicação da continuidade


delitiva em processo administrativo sancionador, ao julgar o REsp n. 2.087.667/RJ, relatado pelo Ministro
Sérgio Kukina, concluindo, na ocasião, pela sua possibilidade. Entretanto, aquele caso difere do presente,
pois ali existia legislação administrativa específica que autorizava expressamente a aplicação do instituto,
circunstância que não se verifica na situação atual sob análise.

Assim, considerando a necessidade de manutenção de coerência com a razão trazida no


precedente obrigatório do STF (Tema 1199/STF) e a inexistência de disposição normativa expressa que, no
caso, autorize a aplicação do instituto da continuidade delitiva às infrações administrativas em análise, a
adoção deste instituto configuraria indevida ampliação dos limites normativos impostos pelo legislador,
em afronta ao princípio da legalidade estrita, que rege o Direito Administrativo Sancionador.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código Penal, art. 71;


Lei n. 9.933/1999

PRECEDENTES QUALIFICADOS

Tema n. 1199/STF

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 366

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

PROCESSO REsp 2.232.623-AL, Rel. Ministra Regina Helena Costa, Primeira


Turma, por unanimidade, julgado em 3/2/2026.

RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO

TEMA Improbidade administrativa. Acusação de sequestro, tortura e


ocultação de cadáver por agentes estatais. Rol taxativo do atual art.
11 da Lei n. 8.429/1992, na redação conferida pela Lei n.
14.230/2021. Não enquadramento. Aplicação imediata do novel
regramento.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 4/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

DESTAQUE

A despeito de a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, firmada sob a ótica da


redação original do art. 11 da Lei n. 8.429/1992, qualificar a tortura como ato atentatório aos
princípios da Administração Pública, as modificações implementadas pela Lei n. 14.230/2021 não
permitem qualificar como ímproba tal prática.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


O cerne da presente controvérsia reside em aferir, para efeito de recebimento da petição inicial
de ação de improbidade administrativa na qual se imputa a policiais militares a prática de sequestro,
tortura e ocultação de cadáver, se houve adequada individualização das condutas como ato de
improbidade.

De acordo com o texto original do art. 11 da Lei n. 8.429/1992, os atos ímprobos atentatórios
aos princípios da Administração Pública constavam de rol exemplificativo, viabilizando, dessarte, que,
malgrado não expressamente contempladas, outras condutas ilícitas contrárias a preceitos basilares do
Estado - especialmente àqueles constantes do art. 37 da Constituição da República - igualmente
viabilizassem a responsabilização do agente público por meio de ação de improbidade administrativa.

Nesse contexto, o Supremo Tribunal Federal, ao apreciar o Tema n. 1.199/STF de repercussão


geral, não obstante tenha reconhecido a impossibilidade de aplicação retrospectiva da Lei n. 14.230/2021
aos casos transitados em julgado, pontuou a ausência de ultratividade da legislação revogada, sendo
viável, por conseguinte, a incidência do novel regramento quanto aos processos em curso.

Essa orientação ressoou na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, a qual, conquanto


encampe a aplicação das alterações trazidas pela Lei n. 14.230/2021 aos casos em trâmite, viabiliza a
incidência do princípio da continuidade típico-normativa para reenquadrar as condutas imputadas em
outros tipos descritos nos arts. 9º, 10 e 11 da Lei n. 8.429/1992, inclusive em hipóteses nas quais a
legislação extravagante expressamente capitule como ímprobas as ações ou omissões não
categoricamente plasmadas na Lei de Improbidade Administrativa.

Com efeito, sob o ângulo anterior às alterações promovidas na Lei de Improbidade


Administrativa pela Lei n. 14.230/2021, a Primeira Seção do STJ, apreciando leading case envolvendo a
acusação de supostos atos de tortura praticados por agentes policiais contra presos mantidos em
custódia em Delegacia de Polícia, REsp n. 1.177.910/SE, julgado em 26/8/2015, exarou compreensão no
sentido de que ações dessa natureza, se comprovadas, afrontam preceitos basilares da ordem
constitucional e implicam ofensa manifesta aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil,
configurando, por conseguinte, ato de improbidade que vulnera princípios da Administração Pública, com
amparo no art. 11, caput, inciso I, da Lei n. 8.429/1992.

Entretanto, não obstante a relevância de tal orientação para a tutela de direitos fundamentais e
a observância de tratados internacionais consagradores de direitos humanos, após as modificações
implementadas pela atual redação do art. 11, da Lei n. 8.429/1992 - aplicável aos processos em curso, à
luz da sobredita orientação do Supremo Tribunal Federal - não mais permite enquadrar a tortura, a
violência policial, a ocultação de cadáver, enfim, o justiçamento ilícito praticado por agentes do Estado
como ato de improbidade, pois ausente correlação entre tais condutas e os demais tipos legais.

Assim, é forçoso reconhecer a inadequação da via eleita para a responsabilização dos


acusados, a qual deve ser perseguida nas esferas próprias.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 5/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Lei de Improbidade Administrativa (LIA), art. 11;


Constituição Federal (CF), art. 37.

PRECEDENTES QUALIFICADOS

Tema n. 1.199/STF.

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 22 - Edição Especial

Informativo de Jurisprudência n. 577

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 6/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

SEGUNDA TURMA

PROCESSO REsp 2.204.627-DF, Rel. Ministro Afrânio Vilela, Segunda Turma, por
unanimidade, julgado em 3/2/2026.

RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO

TEMA Responsabilidade civil do Estado. Morte decorrente de omissão no


atendimento médico. Falha na prestação do serviço público. Ação
indenizatória. Dano moral e material. Pensionamento mensal.
Ausência de comprovação de rendimentos da vítima. Salário mínimo.
Possibilidade.

DESTAQUE

O pensionamento mensal decorrente de ato ilícito deve limitar-se a 2/3 (dois terços)
dos rendimentos auferidos pela vítima falecida ou ser equivalente a um salário mínimo se não
houver comprovação dos seus rendimentos.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


No caso, houve responsabilização do ente estatal pela morte decorrente de omissão na
prestação do serviço público de saúde. O Distrito Federal sustentou que o pensionamento deve ser
limitado a 2/3 do salário mínimo para todos os dependentes, partindo-se da premissa de que o terço
restante seria destinado ao sustento da própria vítima.

De fato, o pensionamento por ato ilícito deve limitar-se a 2/3 (dois terços) dos rendimentos
auferidos pela falecida vítima, presumindo-se que 1/3 (um terço) desses rendimentos era destinado ao seu
próprio sustento.

Contudo, quando não houver comprovação dos rendimentos, como no caso dos autos, o
pensionamento pode ser fixado no valor equivalente a um salário mínimo, conforme a jurisprudência do
Superior Tribunal de Justiça.

Portanto, conclui-se que na ausência de comprovação dos rendimentos da vítima, é admissível


a fixação da pensão mensal em valor equivalente a um salário mínimo. Essa orientação visa assegurar a
reparação integral dos danos materiais sofridos pelos dependentes da vítima, mesmo quando não há
provas documentais dos ganhos auferidos em vida.

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 389

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 7/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

PROCESSO REsp 1.409.762-SP, Rel. Ministro Afrânio Vilela, Rel. para acórdão
Ministra Maria Thereza de Assis Moura, Segunda Turma, por maioria,
julgado em 3/2/2026.

RAMO DO DIREITO DIREITO DO TRABALHO, DIREITO TRIBUTÁRIO, DIREITO


EMPRESARIAL

TEMA Imposto sobre a Renda de Pessoa Física (IRPF). Contrato de


prestação de serviços. Rescisão unilateral e imotivada. Verbas pagas
a título de participação nos lucros e resultados, bônus de
performance individual, outplacement e compensação por stock
options. Incidência.

DESTAQUE

O Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (IRPF) incide sobre as verbas recebidas a
título de participação nos lucros e resultados, bônus de performance individual, outplacement e a
compensação por stock options, pagas a executivo por ocasião da rescisão unilateral e imotivada
de seu contrato de prestação de serviços.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


Cinge-se a controvérsia a definir a natureza jurídica, para fins de incidência do Imposto de
Renda Pessoa Física (IRPF), sobre um conjunto de verbas pagas a um executivo por ocasião da rescisão
unilateral e imotivada de seu contrato de prestação de serviços, o qual, cumpre destacar, possui natureza
eminentemente cível, apartado de um concomitante vínculo de trabalho regido pela Consolidação das
Leis do Trabalho.

No caso, a parte mantinha com a empresa um contrato de prestação de serviços de natureza


cível, paralelamente a um contrato de trabalho formal. As verbas ora em disputa, estipuladas justamente
no bojo do contrato cível, são: participação nos lucros e resultados, bônus de performance individual,
outplacement e a compensação por stock options.

Tais obrigações não derivam diretamente da legislação trabalhista, de dissídios ou de


convenções coletivas, mas de um acordo de vontades de índole privada. As partes, ao celebrarem o
contrato, previram uma retribuição financeira para a hipótese de rescisão unilateral e imotivada por parte
da contratante. Cumpre asseverar que tal estipulação se amolda perfeitamente ao instituto da cláusula
penal compensatória, prevista nos artigos 408 e seguintes do Código Civil. Trata-se, em verdade, de uma
prefixação de perdas e danos, uma penalidade contratual que, embora possa ter um viés indenizatório,
não se confunde necessariamente com a reparação de um dano emergente no sentido tributário. Pelo
contrário, a sua natureza é, primariamente, contratual e sancionatória, representando para o credor o
ingresso de um valor em seu patrimônio.

Prosseguindo nessa senda, é cediço que a denominação jurídica atribuída pelas partes a uma
verba ("indenização", "gratificação", "bônus") não vincula a autoridade fiscal, que deve perquirir a real
natureza econômica do fato para determinar a ocorrência do fato gerador, em observância ao princípio

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 8/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

da primazia da realidade sobre a forma, consagrado, no âmbito tributário, no §1º do art. 43 do CTN.

Dito isso, o Programa de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) e o Bônus de desempenho
individual são verbas inequivocamente atreladas ao desempenho do executivo e aos resultados
financeiros da companhia. Representam uma forma de remuneração variável, um prêmio pelo sucesso
alcançado. O seu pagamento no momento da rescisão contratual não lhes retira essa característica. Sem
dúvida alguma, esses valores servem para remunerar a perda da expectativa de auferir esses ganhos no
futuro próximo, caso o contrato tivesse prosseguido. Assim, a compensação por uma expectativa de
ganho frustrada qualifica-se como lucro cessante, configurando acréscimo patrimonial tributável.
Portanto, correta a incidência do imposto de renda sobre tais valores.

Além disso, o serviço de outplacement representa um programa de apoio estruturado que as


empresas oferecem a funcionários desligados para facilitar sua transição na carreira. Trata-se de um
benefício, uma vantagem que, embora não monetária em sua forma direta, possui valor econômico e se
traduz em um incremento ao patrimônio de possibilidades e oportunidades do executivo. Não se trata de
reparar uma perda, mas de fornecer uma nova ferramenta para o futuro profissional. A legislação
tributária não se limita a tributar valores em pecúnia, apenas, mas inclui vantagens e benefícios que
configurem acréscimo patrimonial. No caso, a tributabilidade se torna ainda mais evidente e inconteste,
porquanto o empregado foi indenizado em valor correspondente ao que seria gasto com o serviço de
recolocação profissional, auferindo nítido acréscimo patrimonial ao seu patrimônio. Logo, o proveito
econômico recebido sujeita-se à tributação.

Por último, talvez o ponto mais sofisticado da controvérsia diga respeito à Compensação pela
Perda do Direito à Participação Acionária (Stock Option).

Em linhas gerais, o denominado Stock Option Plan (SOP) consiste na oferta, pela Sociedade
Anônima, de opção de compra de ações em favor de seus executivos, empregados ou prestadores de
serviços, sob determinadas condições e com preço preestabelecido (art. 168, § 3º, da Lei n. 6.404/1976).
O interessado, então, poderá aderir à opção e, a tempo e modo, efetivar a compra das respectivas ações,
por elas pagando o preço outrora definido pela companhia.

A equalização da controvérsia deita raízes no recente posicionamento do STJ, firmado no


julgamento do Tema 1226/STJ, o qual possui a seguinte ratio decidendi: o fato gerador do Imposto de
Renda não ocorre no momento em que o beneficiário exerce a opção e adquire as ações (muitas vezes
por um preço simbólico ou inferior ao de mercado), pois ali há apenas uma transação mercantil sem
ganho líquido imediato. O acréscimo patrimonial tributável se materializa apenas no momento da
alienação dessas ações, quando o ganho de capital (diferença entre o valor de venda e o custo de
aquisição) é efetivamente realizado.

No caso, a parte não chegou a exercer a opção de compra nem a vender as ações. Ele recebeu
um valor em dinheiro como compensação pela perda da oportunidade de realizar todo esse ciclo. Ora,
este pagamento pecuniário nada mais é do que a substituição, pelo seu equivalente monetário, do ganho
de capital que ele potencialmente auferiria ao final do processo. Se o ganho na venda das ações é
tributável, a compensação que o substitui, por identidade de substância econômica, também o é.
Portanto, o valor recebido a título de compensação pelo não exercício do direito de stock options
representa um evidente acréscimo patrimonial, sendo plenamente tributável pelo Imposto de Renda, em
perfeita harmonia com o espírito do Tema 1226/STJ.

Dessa forma, tendo-se em vista que se trata de valores relativos à aplicação de cláusula penal
cível, consistentes em prefixação de perdas e danos, alinhados, sobretudo, ao conceito de lucros
cessantes, tais valores são, portanto, representativos de acréscimos patrimoniais tributáveis (renda), na
forma do art. 70, caput, da Lei n. 9.430/1996.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 9/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Constituição Federal (CF), art. 153, III;


Código Tributário Nacional (CTN), art. 43, §1º;
Código Civil (CC), arts. 408 e seguintes;
Lei n. 6.404/1976, art. 168, § 3º;
Lei n. 9.430/1996, art. 70, caput.

PRECEDENTES QUALIFICADOS

Tema 1226/STJ

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 825

Informativo de Jurisprudência n. 798

Recursos Repetitivos / DIREITO TRIBUTÁRIO - IR

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 10/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

QUARTA TURMA

PROCESSO REsp 2.130.908-SP, Rel. Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta


Turma, por unanimidade, julgado em 16/12/2025, DJEN 14/1/2026.

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL

TEMA Seguro de vida. Morte do segurado. Agravamento intencional do


risco. Suicídio. Inocorrência. Exclusão de cobertura. Impossibilidade.

DESTAQUE

No seguro de vida, apenas o suicídio ocorrido nos dois primeiros anos de vigência do
contrato é considerado agravamento intencional do risco passível de excluir a cobertura
securitária.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A controvérsia consiste em definir se a conduta do segurado, usuário de drogas, ao se dirigir a
um ponto de venda de entorpecentes e ser morto por traficantes, caracteriza agravamento intencional do
risco capaz de excluir a cobertura do seguro de vida.

No seguro de vida, diferentemente do seguro de danos (ou seguro de coisas), não se busca
recomposição patrimonial, mas garantia social e protetiva aos beneficiários do segurado.

A jurisprudência do STJ orienta no sentido de que condutas imprudentes, como embriaguez


do segurado (Súmula n. 620/STJ) e até mesmo excessiva velocidade do veículo sob sua condução, não
ensejam a perda do direito à indenização securitária quando se tratar de seguro de vida, modalidade em
relação à qual se revela inerente à possibilidade de o segurado agravar o risco durante sua vigência, sendo
devido o pagamento de indenização mesmo nos casos de agravamento extremo, como na hipótese de
suicídio quando ultrapassado o prazo bienal de carência (art. 798 do Código Civil).

Mais recentemente, a Segunda Seção do STJ, no julgamento do REsp n. 1.999.624/PR,


reafirmou e ampliou esse entendimento ao estabelecer que, no seguro de vida, é vedada a exclusão de
cobertura em caso de sinistros ou acidentes decorrentes de atos praticados pelo segurado em estado de
insanidade mental, de alcoolismo ou sob efeito de substâncias tóxicas, ressalvado o suicídio ocorrido
dentro dos dois primeiros anos do contrato (Rel. Ministro Raul Araújo, Segunda Seção, julgado em
28/9/2022, DJe 2/12/2022).

O art. 768 do Código Civil dispõe que "o segurado perderá o direito à garantia se agravar
intencionalmente o risco objeto do contrato". Ocorre que a aplicação desse dispositivo ao seguro de vida
deve ser extremamente cautelosa e excepcional, sob pena de esvaziar por completo a função social e a
própria essência dessa modalidade securitária.

A expressão "agravar intencionalmente" exige dois elementos cumulativos: (a) elemento


volitivo: a intenção deliberada de aumentar o risco coberto pelo seguro; e (b) elemento objetivo: efetivo
nexo causal direto entre a conduta intencional e a materialização do risco segurado. A interpretação do
art. 768 do Código Civil, em conjunto com o art. 798 e com a regulamentação setorial, leva à conclusão

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 11/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

de que, no seguro de vida, o agravamento intencional do risco só pode justificar a exclusão de cobertura
quando equivaler ao próprio suicídio. Fora dessa hipótese extrema, a cobertura deve ser mantida.

Dessa forma, ocorrendo a morte do segurado e ausente sua má-fé - tal como a ocultação de
informações relevantes sobre precário estado de saúde ou doenças preexistentes - e inexistindo suicídio
durante o período de carência, a indenização securitária deve ser paga ao beneficiário.

No caso, ainda que o segurado tenha se dirigido a local perigoso, não há nenhuma evidência
de que sua intenção era morrer. A morte decorreu de ação de terceiros (traficantes), e não de ato volitivo
do segurado direcionado a acabar com a própria vida. Mesmo admitindo-se a hipótese de que o segurado
buscava adquirir substância entorpecente, essa conduta - por mais reprovável que seja do ponto de vista
moral ou legal - não se confunde com o agravamento intencional previsto no art. 768 do Código Civil.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código Civil, art. 768 e art. 798.

SÚMULAS

Súmula n. 620/STJ

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 870

Jurisprudência em Teses / DIREITO CIVIL - EDIÇÃO N. 95: CONTRATOS DE SEGURO II

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

PROCESSO AREsp 2.422.049-SP, Rel. Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 3/2/2026.

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL

TEMA Mútuo feneratício. BNDES. Recursos captados no exterior. Indexação


da correção à média ponderada dos índices de variação do câmbio.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 12/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

DESTAQUE

É válida a inclusão de cláusula de paridade cambial nos contratos de repasse de


recursos externos celebrados com fundamento na Resolução do Conselho Monetário Nacional
63/1967, bem como em todas as posteriores que passaram a reger a matéria.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A controvérsia restringe-se à validade da cláusula contratual que prevê a atualização do débito
pela "média ponderada das correções cambiais", questionada pela autora sob o argumento de que
implicaria vinculação à variação de moeda estrangeira, vedada pelo art. 6º da Lei n. 8.880/1994.

A Lei n. 8.880/1994 assim dispõe: "Art. 6º - É nula de pleno direito a contratação de reajuste
vinculado à variação cambial, exceto quando expressamente autorizado por lei federal e nos contratos de
arrendamento mercantil celebrados entre pessoas residentes e domiciliadas no País, com base em
captação de recursos provenientes do exterior.".

O Superior Tribunal de Justiça possui entendimento firmado na vertente de que, após a edição
da Lei n. 8.880/1994, não é mais permitida a utilização da variação da cotação de moeda estrangeira
(como o dólar) a título de correção monetária de contrato, com exceção: (i) às hipóteses previstas no art.
2º do Decreto-Lei n. 857/1969; (ii) à hipótese de arrendamento mercantil (leasing); ou (iii) na hipótese de
haver expressa autorização legal.

Assim, não se enquadrando em quaisquer das exceções, revelar-se-ia nula de pleno direito a
cláusula contratual de reajuste atrelada à variação cambial (art. 6º da Lei n. 8.880/1994).

Ocorre que, no caso, os recursos foram liberados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) e captados no exterior. Nesse contexto, impõe-se a inclusão de cláusula de
paridade cambial nos contratos de repasse de recursos externos celebrados com fundamento na
Resolução do Conselho Monetário Nacional n. 63/1967, bem como em todas as posteriores que passaram
a reger a matéria.

Com efeito, a atividade normativa do Banco Central do Brasil, antecedida de deliberação do


Conselho Monetário Nacional, decorre de delegação prevista em lei recepcionada pela Constituição
Federal como lei complementar, inserindo-se, portanto, nas exceções do art. 6º da Lei n. 8.880/1994
("expressa autorização por lei federal").

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Lei n. 8.880/1994, art. 6º


Resolução do Conselho Monetário Nacional n. 63/1967

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 13/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

PROCESSO REsp 2.240.025-DF, Rel. Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma,
por unanimidade, julgado em 16/12/2025, DJEN 19/12/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO PROCESSUAL CIVIL

TEMA Prazo de proteção de patente. Mora do INPI na análise do pedido.


Decisão do STF na ADI 5529/DF, que proíbe a prorrogação do prazo
de patente, em caso de atraso na análise pelo INPI. Impossibilidade
de análise casuística do pedido de prorrogação de prazo na ausência
de lei definidora de critérios objetivos previstos em lei para essa
finalidade.

DESTAQUE

Nos termos do entendimento do Supremo Tribunal Federal, na ausência de lei


estabelecendo critérios objetivos para eventual prorrogação do prazo da patente, não cabe a
análise casuística do pedido de extensão em caso de demora excessiva na análise do processo
administrativo pelo INPI.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


Na origem, trata-se de ação ajuizada por detentoras de patentes de determinados
medicamentos contra o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), requerendo que fosse
declarada a mora desproporcional e injustificada da autarquia na tramitação dos processos
administrativos que culminaram na concessão das referidas patentes.

Quanto à alegação, ressalta-se que, no julgamento da ADI 5529/DF, o Supremo Tribunal


Federal (STF) declarou a inconstitucionalidade do parágrafo único do art. 40 da Lei n. 9.279/1996, que
previa o direito de prorrogação automática do prazo de vigência das patentes, permitindo que superasse
os vinte ou quinze anos contados do depósito previstos no caput do mesmo dispositivo, em caso de
demora excessiva na análise do processo administrativo pelo INPI.

No presente caso, as recorrentes pretendem que seja feita distinção com relação ao que foi
decidido na ADI 5529/DF. O seu interesse é que, afastado o direito à prorrogação automática, o Judiciário
possa, em cada caso, fazer ajuste casuístico do prazo de validade das patentes, para compensar o atraso
do INPI na análise de seus processos administrativos.

Nesse sentido, depreende-se da decisão proferida pelo Ministro Dias Toffoli na Rcl 53181/DF,
em que também se discutia o suposto desrespeito à eficácia do julgado na ADI 5529/DF, que o
entendimento do Supremo é no sentido da impossibilidade de extensão do prazo de duração das
patentes sob o fundamento de demora na análise do pedido administrativo pelo INPI. Ademais, não há
dúvidas quanto ao entendimento do STF no sentido da necessidade de critérios objetivos previstos em lei
para que seja autorizada uma análise casuística.

Assim, na ausência de lei estabelecendo critérios objetivos para eventual prorrogação do prazo
da patente, não cabe a pretendida análise casuística do pedido de extensão, com base na mera alegação
de mora administrativa.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 14/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Lei n. 9.279/1996, art. 40, parágrafo único

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

PROCESSO Processo em segredo de justiça, Rel. Ministro Raul Araújo, Quarta


Turma, por unanimidade, julgado em 3/2/2026.

RAMO DO DIREITO DIREITO DA SAÚDE

TEMA Plano de Saúde. Medicamento à base de canabidiol. Importação


autorizada pela Anvisa. Autoadministração domiciliar. Exclusão de
cobertura. Licitude.

DESTAQUE

O plano de saúde não é obrigado ao custeio de medicamento de uso domiciliar à base


de canabidiol e não registrado pela Anvisa.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


Cinge-se a controvérsia a definir se o plano de saúde deve custear medicamento à base de
canabidiol, não registrado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa e de uso domiciliar,
destinado ao tratamento de beneficiária que enfrenta problemas de saúde agravados por acidente
vascular cerebral.

Na hipótese em análise, reconhece-se a orientação firmada no REsp 1.726.563/SP - Tema


990/STJ -, julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos, segundo a qual é lícita a recusa de custeio
de medicamento não registrado pela Anvisa.

O Superior Tribunal de Justiça tem realizado o distinguishing nas hipóteses de medicamento


desprovido de registro cuja importação tenha sido autorizada pela Anvisa, a exemplo de fármaco à base
de canabidiol.

Consignou-se que a autorização concedida pela Anvisa para importação do medicamento


destinado a uso próprio do paciente, mediante prescrição médica, constitui medida que, conquanto não
substitua o devido registro, evidencia a segurança sanitária do fármaco, porquanto pressupõe a análise da
Agência Reguladora quanto à sua segurança e eficácia, além de afastar a tipicidade das condutas previstas
no art. 10, IV, da Lei n. 6.437/1977, bem como no art. 12 c/c o art. 66 da Lei n. 6.360/1976.

Contudo, no caso em análise, o fármaco postulado destina-se à utilização domiciliar. Nesse


contexto, conforme o atual entendimento do STJ, é lícita a exclusão, na Saúde Suplementar, do

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 15/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

fornecimento de medicamentos para tratamento domiciliar, isto é, aqueles prescritos pelo médico
assistente para administração em ambiente externo ao de unidade de saúde, salvo os antineoplásicos
orais (e correlacionados), a medicação assistida (home care) e os incluídos no rol da Agência Nacional de
Saúde Suplementar - (ANS) para esse fim.

No caso, reitera-se que o Tribunal de origem esclareceu que a paciente é portadora de


demência vascular, com alteração comportamental grave e agitação psicomotora, tendo iniciado
tratamento com canabidiol.

O referido medicamento não se classifica como antineoplásico e é autoadministrado pela


beneficiária em sua residência, não demandando, portanto, a intervenção de profissional de saúde
habilitado.

Ressalta-se, ademais, que o medicamento não consta do rol estabelecido pela Resolução
Normativa ANS n. 465/2021 como de cobertura obrigatória para o tratamento da condição clínica em
questão, razão pela qual não se configura abusiva a recusa da operadora em custear sua cobertura.

Portanto, sendo o medicamento de uso domiciliar e não sendo uma das hipóteses de exceção,
não há que se falar em obrigatoriedade de custeio por parte do plano de saúde.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Lei n. 6.437/1977, art. 10, IV;


Lei n. 6.360/1976, artigos 12 e 66;
Resolução Normativa ANS n. 465/2021.

PRECEDENTES QUALIFICADOS

Tema 990/STJ.

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 20 - Edição Especial

Informativo de Jurisprudência n. 717

Informativo de Jurisprudência n. 855

ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 16/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

PROCESSO REsp 1.876.423-SP, Rel. Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 3/2/2026.

RAMO DO DIREITO DIREITO DO CONSUMIDOR

TEMA Venda de produtos a prazo e à vista pelo mesmo valor, sem encargos
financeiros adicionais. Dever de informação observado. Liberdade de
iniciativa. Autonomia privada. Ausência de prática abusiva.

DESTAQUE

A liberdade de precificação, como expressão legítima da autonomia privada e da livre


iniciativa, permite ao fornecedor manter o mesmo preço para vendas à vista e a prazo, desde que
respeitados os deveres de informação e transparência previstos no Código de Defesa do
Consumidor.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A controvérsia consiste em saber se a prática comercial de vender produtos a prazo "sem
juros", com preço idêntico ao da venda à vista, configura publicidade enganosa e violação ao dever de
informar, nos termos do Código de Defesa do Consumidor - CDC (art. 6º, III; art. 31; art. 37, § 1º; e art. 52),
de modo a configurar abusividade na conduta.

No ponto, a liberdade econômica, consagrada constitucionalmente nos arts. 1º, IV, e 170 da
Constituição Federal, assegura, ao fornecedor, a autonomia para definir sua política de preços, desde que
respeitados os limites legais e contratuais.

Por sua vez, a Lei n. 13.455/2017 autoriza a diferenciação de preços conforme o prazo ou o
instrumento de pagamento utilizado, mas não impõe a obrigatoriedade de repasse de encargos
financeiros ao consumidor final.

Assim, a fixação de preço único, ainda que aplicável indistintamente a vendas à vista ou
parceladas, insere-se no âmbito da autonomia privada do fornecedor e na livre iniciativa de organização
da política comercial, não configurando, por si só, violação ao dever de informação ou prática abusiva à
luz do CDC, devendo ser preservada, portanto, a liberdade de precificação.

A ausência de diferenciação de preços entre as modalidades à vista e a prazo não configura


publicidade enganosa ou prática abusiva, desde que não haja cobrança oculta de encargos financeiros e
que a oferta seja clara e transparente. Tal prática, inclusive, mostra-se benéfica ao consumidor, pois
facilita o acesso ao produto/serviço, ao lhe permitir a aquisição do bem sem qualquer acréscimo no custo
final da operação.

Portanto, a definição da política de precificação de bens e serviços permite ao vendedor


estabelecer o preço a ser cobrado pelo produto/serviço oferecido ao consumidor, conforme critérios
próprios do fornecedor.

Nesse sentido, o reconhecimento da liberdade de precificação como expressão legítima da


autonomia privada, sobretudo a possibilidade de escolher o valor atribuído aos bens e serviços ofertados,
representa manifestação concreta da liberdade econômica e da livre iniciativa, devendo ser preservada
quando não se evidenciar lesão à boa-fé ou omissão quanto ao dever de informação.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 17/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código de Defesa do Consumidor (CDC), art. 6º, III; art. 31; art. 37, § 1º; e art. 52.
Constituição Federal (CF), art. 1º, IV; e art. 170.
Lei n. 13.455/2017.

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 18/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

QUINTA TURMA

PROCESSO AREsp 3.032.889-SP, Rel. Ministra Maria Marluce Caldas, Quinta


Turma, por unanimidade, julgado em 3/2/2026.

RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL

TEMA Crimes contra a dignidade sexual de criança e adolescente. Art. 240,


§ 2º, II, e art. 241-A do ECA. Dosimetria. Culpabilidade. Valoração
negativa. Conteúdo específico do material pornográfico. Crianças de
tenra idade. Filmagens clandestinas no ambiente doméstico.
Circunstâncias concretas que extrapolam a tipicidade ordinária.
Ausência de bis in idem. Fundamentação idônea.

DESTAQUE

1 - No crime do art. 240 do ECA, a produção clandestina de pornografia infantil no


ambiente doméstico, com violação da intimidade da vítima por pessoa que se aproveitou da
relação de confiança e coabitação, justifica a culpabilidade acentuada, independentemente da
análise isolada da idade ou da quantidade de registros.
2 - No crime do art. 241-A do ECA, a amplitude do tipo penal não impede que o
julgador, ao analisar a culpabilidade, considere a gravidade concreta revelada pelo conteúdo
específico do material compartilhado, notadamente quando a perícia identifica o envolvimento de
crianças de idade bastante reduzida.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A controvérsia consiste em definir se a valoração negativa da culpabilidade nos tipos penais
dos artigos 240 e 241-A do Estatuto da Criança e do Adolescente violou o princípio do non bis in idem.

A culpabilidade, na acepção do art. 59 do Código Penal, não se confunde com os elementos


constitutivos do tipo. Refere-se ao grau de reprovabilidade da conduta à luz das circunstâncias concretas.
Embora qualquer pornografia infantil mereça reprovação, a intensidade dessa reprovação varia conforme
a idade das vítimas, a natureza dos atos retratados e as circunstâncias de produção ou difusão do
material.

Quanto ao crime do art. 241-A do ECA, o tipo penal efetivamente descreve conduta genérica
de oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir ou publicar pornografia envolvendo "criança ou
adolescente". A amplitude dessa formulação, contudo, não impede que o julgador, ao analisar a
culpabilidade, considere a gravidade concreta revelada pelo conteúdo específico do material
compartilhado.

No caso, a perícia identificou material envolvendo sexo explícito com crianças de idade
bastante reduzida. Esse elemento não constitui simples reiteração da elementar "criança", mas
circunstância concreta que revela maior desvalor da conduta dentro do amplo espectro de condutas
abrangidas pelo tipo. Reconhecer essa gradação não implica punir duas vezes pelo mesmo fato, mas
adequar a resposta penal à gravidade específica revelada pela prova.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 19/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

Relativamente ao crime do art. 240 do ECA, a fundamentação da sentença não valorou


isoladamente a idade de 11 anos ou o número de vídeos produzidos. Considerou o contexto global da
conduta: filmagens clandestinas realizadas no ambiente doméstico, com violação da intimidade da vítima
durante ato fisiológico, por pessoa que se aproveitou da relação de confiança e coabitação. Esse conjunto
de circunstâncias revela culpabilidade acentuada, que transcende a simples adequação típica.

De fato, a produção doméstica e furtiva de pornografia infantil, envolvendo criança pré-


adolescente filmada em momento de vulnerabilidade por pessoa que deveria zelar por sua proteção,
justifica a conclusão de que a culpabilidade superou o padrão ordinário do tipo penal.

Portanto, não se verifica utilização de elementos inerentes ao tipo para fundamentar a


exasperação, pois o julgador considerou circunstâncias específicas que, dentro da moldura típica,
revelaram maior gravidade concreta da conduta.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Lei n. 8.069/1990 (ECA), art. 240, § 2º, II, e art. 241-A


Código Penal (CP), art. 59

ÁUDIO DO TEXTO

PROCESSO Processo em segredo de justiça, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik,


Quinta Turma, por unanimidade, julgado em 3/2/2026.

RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL

TEMA Correição parcial. Interposição em substituição ao recurso de


apelação. Medidas cautelares de busca e apreensão e quebra de
sigilo indeferidas pelo juízo de primeiro grau. Contraditório diferido.
Situação excepcional. Fungibilidade recursal. Erro grosseiro. Não
ocorrência.

DESTAQUE

A correição parcial é admissível em situações extremamente excepcionais, quando há


evidente inversão tumultuária do processo originário e risco de prejuízo às investigações, não
sendo censurável o seu cabimento, em substituição ao recurso de apelação, à luz da fungibilidade
recursal.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A controvérsia consiste em saber se o manejo da correição parcial pelo Ministério Público, em

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 20/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

substituição ao recurso de apelação, previsto no art. 593, II, do Código de Processo Penal, configura erro
grosseiro capaz de afastar o princípio da fungibilidade recursal.

No caso, o Tribunal de origem entendeu ser cabível a interposição de correição parcial contra
decisão do juízo de primeiro grau que havia indeferido pedido de liminar de busca e apreensão,
considerando: (i) a urgência da medida, cuja demora natural do trâmite processual poderia acarretar
prejuízo irreparável às investigações; e (ii) a fase incipiente do feito originário, antes mesmo do
estabelecimento de relação processual com os suspeitos, com o objetivo de colher elementos iniciais de
convicção relacionados aos crimes sob apuração.

Verifica-se que o caso em análise tratava de situação urgente e excepcional, a justificar não
apenas o cabimento da correição parcial, mas também o deferimento da medida cautelar de forma
inaudita altera pars.

O contexto de urgência autorizou a dispensa de intimação prévia da parte atingida pelas


medidas assecuratórias, pois se estava diante de hipótese que admite o contraditório diferido,
indispensável à eficácia das providências investigativas em momento anterior à formação da relação
processual entre as partes.

Além disso, o Superior Tribunal de Justiça já se manifestou no sentido de que "A correição
parcial é espécie de impugnação de atos judiciais de natureza híbrida (administrativa/jurisdicional). Daí
não ser censurável o seu conhecimento em hipóteses que tais - à luz, ainda, da fungibilidade recursal -
não se afigurando teratologia" (HC 662.690/RJ, Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe
19/5/2022).

Dessa forma, tratando-se de situação excepcional e embrionária, conforme reconhecido pelo


Tribunal de origem, não se verifica erro grosseiro nem ilegalidade no manejo da correição parcial pelo
Ministério Público, sobretudo diante do risco de prejuízo às investigações decorrente do indeferimento
inicial das medidas assecuratórias, circunstância que configurou inversão tumultuária do processo
originário.

Por fim, não se verifica qualquer prejuízo concreto à defesa, o que inviabiliza a declaração de
qualquer nulidade processual, conforme o princípio pas de nullité sans grief, inscrito no art. 563 do CPP,
já que, dentro da situação excepcional de urgência e imposição de contraditório diferido, ainda
permaneceu assegurado o direito da defesa de impugnar, a qualquer tempo, a legalidade das medidas
cautelares, inclusive via habeas corpus.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código de Processo Penal (CPP), art. 563 e art. 593, II

ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 21/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

SEXTA TURMA

PROCESSO Processo em segredo de Justiça, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior,


Sexta Turma, por maioria, julgado em 3/2/2026.

RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL

TEMA Estupro de vulnerável. Distinguishing. Atipicidade material da


conduta. Excepcionalidade do caso concreto. Ausência de efetiva
vulneração ao bem jurídico tutelado. Teoria da derrotabilidade do
enunciado normativo.

DESTAQUE

Considerando as peculiaridades do contexto fático, especialmente o nascimento de


filho do casal e a constituição de núcleo familiar, bem como a ausência de efetiva vulneração ao
bem jurídico tutelado, não há afetação relevante da dignidade sexual a justificar a atuação punitiva
estatal.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


As instâncias ordinárias condenaram o paciente, maior de idade, pela prática de estupro de
vulnerável contra a vítima, com quem mantinha relacionamento amoroso, em razão de conjunção carnal
com jovem que, nos termos da prova pericial, teria 13 anos, 10 meses e 21 dias na data dos fatos.

Em contraste, registre-se que os depoimentos prestados em juízo pela vítima e pela sua mãe
assentaram que a adolescente já tinha 14 anos quando aconteceram as relações sexuais.

O contexto fático em análise se assemelha ao distinguishing reconhecido no REsp


2.015.310/MG, desta Corte, segundo o qual, considerando as particularidades do caso concreto, não
houve afetação relevante do bem jurídico a resultar em atuação punitiva estatal.

Com efeito, "para que o fato seja considerado criminalmente relevante, não basta a mera
subsunção formal a um tipo penal. Deve ser avaliado o desvalor representado pela conduta humana, bem
como a extensão da lesão causada ao bem jurídico tutelado, com o intuito de aferir se há necessidade e
merecimento da sanção, à luz dos princípios da fragmentariedade e da subsidiariedade" (RHC
126.272/MG, Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe de 15/6/2021).

O reconhecimento da atipicidade material da conduta encontra amparo na teoria da


derrotabilidade do enunciado normativo, segundo a qual é possível afastar excepcionalmente a aplicação
de uma norma quando as circunstâncias concretas revelam incompatibilidade com os fundamentos que a
justificam (ADPF 54/STF).

Considerando as particularidades do caso, especialmente o nascimento de filho do casal e a


constituição de núcleo familiar, bem como a ausência de efetiva vulneração ao bem jurídico tutelado,
verifica-se que não houve afetação relevante da dignidade sexual a justificar a atuação punitiva estatal.

Em casos análogos, este Superior Tribunal tem-se orientado no sentido de que a manutenção
da pena privativa de liberdade acabaria por deixar a jovem e o filho de ambos desamparados não apenas

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 22/23
Informativo de Jurisprudência n. 876 10 de fevereiro de 2026.

materialmente, mas também emocionalmente, desestruturando entidade familiar constitucionalmente


protegida. Nesse sentido, REsp 1.524.494/RN e AREsp 1.555.030/GO, Ministro Ribeiro Dantas, Quinta
Turma, DJe 21/5/2021.

A aplicação mecânica da norma penal, desconsiderando o contexto sociocultural e as


peculiaridades do caso concreto, violaria os princípios da proporcionalidade e razoabilidade, resultando
em maior lesão aos direitos fundamentais do que a própria conduta originariamente censurada.

SAIBA MAIS
Informativo de Jurisprudência n. 820

Informativo de Jurisprudência n. 807

Informativo de Jurisprudência n. 787

ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 23/23

Você também pode gostar