Controle de Processos
PUC-RIO Departamento de Química
Capítulo I
Introdução ao Controle de Processos
1. Entendimento do problema
2. Conceitos básicos
3. Abrangência da automação
4. Motivação para controle de processo
5. Leis de Luyben
6. Terminologia
7. Simbologia de Instrumentação
8. Programação do curso
9. Referências
1. Entendimento do problema
1.1 Dinâmica e controle
O principal objetivo deste curso é capacitar o (futuro) Engenheiro Químico em
Controle de Processos. A primeira etapa consiste em entender e saber
responder a perguntas tais como:
o que é controle de processos?
por que controlar um processo?
como controlar um processo?
o que o engenheiro é capaz de fazer para isto?
Um dos conceitos mais queridos dos estudantes de engenharia química é o
estado estacionário. Sempre que ele aparece em uma questão de prova,
rapidamente percebemos que será possível utilizar uma equação simplificada
(obtida igualando a zero todas as derivadas em relação ao tempo).
Esta simplificação é extremamente útil para o dimensionamento de
equipamentos, já que reflete a condição de operação desejável. Mas o estado
estacionário, na maior parte das vezes, é somente um objetivo buscado, mas
nem sempre atingido ou mantido por muito tempo.
Dinâmica: as coisas mudam
Em qualquer processo industrial, as condições de operação estão sujeitas a
mudanças ao longo do tempo. O nível de líquido em um equipamento, a
pressão em um vaso, a vazão de um reagente ou sua composição; todas estas
condições podem (e costumam) variar. Mesmo os dados que consideramos
constantes no projeto (por exemplo, a temperatura ambiente) têm o hábito de
variar apesar de nossas premissas em contrário.
Controle: uma tentativa de influir no processo
Controlar um processo significa atuar sobre ele, ou sobre as condições a que o
processo está sujeito, de modo a atingir algum objetivo - por exemplo,
podemos achar necessário ou desejável manter o processo sempre próximo de
um determinado estado estacionário, mesmo que efeitos externos tentem
desviá-lo desta condição. Este estado estacionário pode ter sido escolhido por
atender melhor aos requisitos de qualidade e segurança do processo.
Objetivo de controle: precisa-se
Conta-se que um sujeito entrou correndo em um elevador, quase sem fôlego. O
ascensorista pergunta: "Que andar?", e ouve em resposta: "Qualquer um, estou
no prédio errado mesmo".
Infame como piada, a anedota serve para ilustrar uma questão fundamental em
controle de processo. Devemos ter uma clara noção de nossos objetivos. É
inútil influir em um processo sem saber o que desejamos obter.
1.2 Exemplos cotidianos
Manter um carro na estrada
monitora-se a trajetória/ velocidade/ tráfego
atua-se sobre volante/ acelerador/ freio
controla-se a trajetória
segurança: guard-rails/ muretas
Tomar uma ducha quente
monitora-se temperatura/ vazão da água
x atua-se sobre as torneiras
Figura imprópria para este horário controla-se a temperatura (e vazão, se der)
segurança: box maior que o jato da ducha
Controle de orçamento
monitora-se o saldo bancário
atua-se sobre desembolsos
controla-se o orçamento
segurança: poupança?
Navegação interplanetária
monitora-se trajetória/ combustível
atua-se por meio de TCMs
controla-se a trajetória
segurança: . . .
Altitude de vôo
monitora-se tudo
atua-se sobre manche, etc.
controla-se a altitude
segurança: . . .
1.3 Uma representação esquemática simplificada
A atuação de um controlador pode ser representada graficamente como um
fluxo de informações entre módulos com funções distintas. Na figura abaixo,
um módulo de monitoração obtém uma informação proveniente do processo e
envia ao controlador (este procedimento pode conter várias etapas, por
exemplo de conversão de sinais). O controlador recebe esta informação, toma
decisões e comunica a um elemento final a ação a ser tomada. O elemento
final, por sua vez, interfere em alguma condição de processo para tentar alterar
o comportamento do processo.
Observe que este esquema não representa um fluxo de informação
fundamental: de onde o controlador obtém os objetivos de controle?
1.4 O papel do Engenheiro Químico
Nos próximos capítulos, veremos como o Engenheiro Químico pode ter
participação ativa nas seguintes atividades:
contribuir na fase de projeto (projeto controlável)
determinar estratégias de controle
selecionar sensores (tipo, localização)
selecionar elementos finais de controle
dimensionar sistemas de controle
contribuir no desenvolvimento da interface com os operadores (displays)
2. Conceitos básicos
Utilizando como exemplo um aquecedor elétrico de líquido, vamos definir
alguns conceitos básicos de controle de processo.
No desenho, T e F representam respectivamente temperatura e vazão. Os
subscritos indicam entrada e saída. O objetivo do processo é aquecer o líquido
(inicialmente na temperatura Te) até um valor desejado, TR.
2.1 O ponto de vista do projeto
Dimensiona-se o equipamento de modo a fornecer a quantidade de calor
adequada aos objetivos do processo.
Balanço material: Fe = Fs = F
Balanço térmico: Q = F.c.(TR - Te) para que Ts = TR
2.2 O ponto de vista da operação
O processo raramente opera de forma estável nas condições de projeto. Para
operar com sucesso, é necessário compensar o efeito de perturbações
externas.
Supondo que Te esteja sujeita a perturbações, qualquer uma das abordagens a
seguir poderia ser utilizada:
variável controlada variável medida variável manipulada
TR Ts Q
TR Te Q
TR Ts F
TR Te F
TR Te e Ts Q
TR Te e Ts F
Observação: em certos casos, o objetivo do processo pode ser garantido sem
controle
=> aumentar capacitância do sistema (volume)
Controle por realimentação (feed-back): o controle é feito com base na
comparação entre o resultado obtido e o desejado.
Controle feed-forward (chamado às vezes de preditivo): o controle é feito com
base nos dados de entrada. Para sua aplicação, o controlador deve entender
as relações de causa e efeito relativos ao comportamento do processo.
2.3 Controle automático simplificado
Q = Qproj + K. (TR - Ts)
Representação esquemática
3. Abrangência da automação
3.1 Controle de processo
Controle de temperatura, vazão, pressão, nível
Controle de pH
Balanceamento de passes, controle de razão, etc.
3.2 Segurança do processo
Válvulas de segurança/ discos de ruptura
Intertravamento
Diagrama de causa e efeito
Diagrama lógico
3.3 Níveis de automação
No início da revolução industrial, o objetivo da automação se restringia a
controlar (no sentido de manter constante) uma variável específica. Not
anymore...
3.4 Controle e supervisão
Tempo de resposta
Algoritmos de controle
Otimização de processo
3.5. Controle tradicional e controle avançado
Modelos empíricos
Controle baseado em modelos
4. Motivação para controle de processo
4.1 Principais objetivos de controle
Segurança operacional e pessoal
Adaptação a perturbações externas
Estabilidade operacional
Especificação do produto
Redução do impacto ambiental
Adaptação às restrições inerentes (equipamento/ materiais/ etc.)
Otimização
Resultado econômico do processo
4.2 Justificativa econômica
Um sistema de controle confiável permite operar próximo aos limites impostos
pela segurança, pelo meio-ambiente e pelo processo (temperatura máxima,
pureza mínima), o que permite alterar as condições de operação normais (linha
tracejada na figura) para uma condição mais favorável (linha contínua).
Os ganhos associados a uma menor variabilidade se tornam ainda maiores em
processos onde existem transições entre produtos com diferentes graus ou
especificações, como ocorre freqüentemente no refino do petróleo e em
unidades de polimerização. Inevitavelmente, durante a transição, haverá um
período em que será gerado um produto fora de especificação, que será
reciclado (maior gasto de energia) ou vendido (a preços mais baixos). A
seleção de uma boa estratégia de controle permite reduzir o tempo de
produção fora da especificação, e conseqüentemente melhora o resultado
econômico do processo.
5. Leis de Luyben
O autor do livro-texto propõe duas leis básicas para quem pretende trabalhar
com controle de processo.
Primeira Lei: O sistema de controle mais simples que atende aos requisitos é o
melhor.
Segunda Lei: Entender o processo é requisito para poder controlá-lo.
6. Terminologia
Dinâmica do Processo
Variáveis de processo
o medida/ monitorada
o controlada
o manipulada
o perturbação externa
Estabilidade do processo
Malha Aberta
Malha Fechada
Setpoint
PV
Erro
Feedback
Feedforward
7. Simbologia de Instrumentação
Instrumentos
Sinais
o Pneumáticos (0,2 a 1,0 kgf/cm2)
o Eletrônicos (4-20 mA; ON-OFF)
o Digitais (software)
Elemento final de controle
o Válvula de controle
o Variador de freqüência
o Cursor (stroke) de bomba alternativa
o Tiristores
Controlador
Nomenclatura dos instrumentos
1ª letra: 2ª letra em diante:
tipo de variável função do instrumento
A composição (analisador) A Alarme
B detetores de chama C Controlador
D densidade E elemento sensor
E tensão, DDP G Visor
F vazão, fluxo I Indicador
H ação manual Q totalizador, acumulador
I corrente elétrica R Registrador
K tempo S Chave
L nível T Transmissor
M umidade V Válvula
P pressão Y outras funções
S velocidade
T temperatura 2ª letra: modificador
W peso, vazão mássica D Diferencial
X outros instrumentos F Razão
Z posição
Modificadores de variável de processo: a letra F na 2ª posição indica "razão":
FFI é um indicador de razão entre vazões; a letra D na 2ª posição indica
"diferencial": PDI é um indicador de pressão diferencial (delta p).
Modificadores de função: colocados no final do "TAG" para chaves e alarmes:
H, HH, L, LL
Normalmente são usadas combinações, como por exemplo:
FRC PDIC FQIT FIT TSH PDALL
8. Programação do curso
Objetivo:
compreender, avaliar e projetar sistemas de controle
Metodologia:
conhecimento de ferramentas de visualização
estudo básico
conhecimento de ferramentas de análise
estudo avançado
Planejamento e metas do curso:
Objetivos
Introdução O QUE ESTUDAR?
Vocabulário básico
Fenômenos transientes
Modelagem Matemática COMO REPRESENTAR?
Equações diferenciais
Métodos numéricos
Simulação de Processos COMO RESOLVER?
Programação
Controle Controle convencional
COMO FUNCIONA?
(domínio: tempo) Controle avançado
Estabilidade
Controle GENERALIZAÇÃO DE
Identificação
(domínio: Laplace/ frequência) CONCEITOS
Propriedades
Sistemas Digitais de Controle Aplicação industrial COMO APLICAR?
9. Referências
Marlin, capítulos 1 e 2
Luyben, capítulo 1
Seborg et al, capítulo 1
Capítulo I
Exercícios
Aplicações Simples de Controle de Processos
Instruções gerais
Em cada um dos exercícios abaixo, identifique as variáveis controlada(s),
manipulada(s), monitorada(s) e as perturbações externas.
Exercício 1
Um tanque é utilizado para receber todo o fluido produzido por uma unidade
industrial, cuja flexibilidade operacional permite o envio de vazões variáveis de
fluido. O fluido é enviado para outras unidades que regulam seu consumo por
intermédio de seus próprios sistemas de controle. Caso a vazão do fluido para
estas unidades caia a zero, o processo produtivo deverá ser interrompido, o
que implica em diversos custos (perda de produção, energia para aquecimento
dos equipamentos, descarte de efluentes, etc.).
Identifique um objetivo de controle
compatível com a descrição do
processo. Desenhe um fluxograma
simplificado indicando uma estratégia
de controle (malha fechada) que
permita controlar o sistema.
Exercício 2
Um decantador recebe uma emulsão de dois fluidos imiscíveis. Para que a
separação possa ser feita com sucesso, o nível da interface deve ser mantido o
mais próximo possível do valor especificado pelo fabricante, para evitar o
arraste de emulsão que pode ainda estar presente na interface.
Identifique um objetivo de controle compatível com a descrição do processo.
Desenhe um fluxograma simplificado indicando uma estratégia de controle
(malha fechada) que permita controlar o sistema.
Exercício 3
O aquecedor da figura ao lado é
utilizado para garantir o fornecimento
de um fluido pré-aquecido até uma
temperatura desejada, quaisquer que
sejam a vazão e a temperatura de
entrada.
Considere que o calor necessário (Q) é fornecido por um fluido quente que
circula na serpentina.
Identifique um objetivo de controle compatível com a descrição do processo.
Desenhe um fluxograma simplificado indicando uma estratégia de controle
(malha fechada) que permita controlar o sistema.
Exercício 4
Um trocador de calor é utilizado para que uma corrente de processo seja
resfriada, aquecendo assim outra corrente de processo. As vazões dos dois
fluidos são determinadas por outras etapas do processo.
A temperatura de saída do fluido frio deve ser mantida o mais próximo possível
de um certo valor. O projeto prevê que todo o fluido quente passe pelo
trocador, e que parte do fluido frio passe por uma linha de desvio (by-pass), o
que permite variar a quantidade de fluido frio que passa pelo trocador.
Identifique um objetivo de controle compatível com a descrição do processo.
Desenhe um fluxograma simplificado indicando uma estratégia de controle
(malha fechada) que permita controlar o sistema.
Capítulo II
Modelagem matemática de processos dinâmicos
1. Entendimento do problema
2. Exemplos
3. Referências
1. Entendimento do problema
1.1 Modelagem dinâmica
No curso de Engenharia Química, muitas disciplinas costumam enfocar a
modelagem matemática do estado estacionário. Este enfoque se justifica
porque freqüentemente o dimensionamento de equipamentos e unidades
industriais é feito para a operação contínua, nas quais o estado estacionário
representa uma situação operacional aceitável. A modelagem dinâmica é
usada para o projeto de processos em batelada, nos quais não se pretende
atingir um estado estacionário.
Para o entendimento de problemas de controle de processo, a modelagem
dinâmica é fundamental.
A teoria básica necessária para a modelagem dinâmica já é conhecida: as
equações são levantadas por meio de balanços (material, energético, de
quantidade de movimento) e de equações constitutivas. O único "complicador"
é que as derivadas em relação ao tempo não se anulam necessariamente, e
devem ser levadas em consideração.
Durante a modelagem, deve-se atentar para a necessidade de identificar
claramente as variáveis de processo para garantir que o modelo tenha graus
de liberdade adequados à situação física.
1.2 Graus de liberdade
O número de graus de liberdade de um modelo matemático pode ser
determinado pela diferença entre o número de variáveis e o número de
equações independentes do modelo.
Um sistema com zero graus de liberdade é um sistema determinado, ou seja,
que só admite uma solução para um conjunto de dados. Um sistema com um
ou mais graus de liberdade, ou seja, com mais variáveis do que equações
independentes, é indeterminado, admitindo infinitas soluções. Um número
negativo de graus de liberdade significa que o modelo não tem solução, uma
situação que deixo por conta de sua imaginação.
Os modelos que se destinam a prever o comportamento de um sistema sob
determinadas condições operacionais são necessariamente sistemas
determinados, com zero graus de liberdade.
Em geral, ao montarmos as equações que descrevem um sistema, obtemos
menos equações do que incógnitas. Isto significa apenas que o sistema pode
apresentar diferentes estados dependendo das condições impostas a ele. Para
reduzir a zero o número de graus de liberdade, devemos recorrer a condições
externas ao sistema.
Uma variável de perturbação, por exemplo, é determinada externamente ao
sistema. Ao considerarmos uma variável -, por exemplo p, como variável de
perturbação, estamos reduzindo um grau de liberdade, já que isto equivale a
dizer que
p = g(t)
A função g pode ser desconhecida a priori; o importante é que sabemos que p
independe das demais variáveis do sistema e pode variar ao longo do tempo.
Um controlador simples, do tipo discutido no capítulo 1, utiliza uma variável
monitorada (m) e um set-point (s) para decidir como atuar sobre uma variável
manipulada (a). Neste caso, também reduzimos em uma unidade o número de
graus de liberdade do sistema:
a = f(m,s)
Para pensar em casa: revertendo o raciocínio feito acima, discuta como o
número de graus de liberdade de um sistema determina o número de
controladores necessários para operar este sistema.
1.3 O processo da modelagem
A modelagem matemática é um processo complexo que não se resume
simplesmente a montar e resolver uma equação. Ao executar a modelagem de
um sistema, não devemos perder de vista a distinção entre modelo e sistema: o
modelo a ser desenvolvido deve ser uma representação adequada (não
necessariamente perfeita, somente adequada) do sistema.
Marlin apresenta um procedimento estruturado que ressalta alguns cuidados
essenciais para a aplicação prática da modelagem. O processo tem seis
etapas, que resumimos a seguir:
Defina os objetivos
Prepare a informação disponível
Formule o modelo
Resolva
Analise a solução
Valide o modelo
Recomendamos a leitura do item 3.2 do livro do Marlin para uma boa discussão
dos aspectos práticos da modelagem. No desenvolvimento dos exemplos a
seguir, discutiremos as etapas acima à medida em que desenvolvermos os
modelos.
2. Exemplos
2.1 Reservatório de líquido
Considere o tanque pulmão apresentado na figura abaixo. O tanque se destina
a manter um inventário de líquido entre um ponto de fornecimento e um de
consumo.
A vazão de entrada é função da produção de uma unidade a montante. A
descarga de líquido é feita somente pela ação da gravidade.
Modele o processo acima, considerando inicialmente que:
1. a vazão Fe é variável ao longo do tempo
2. a temperatura de alimentação é variável, de modo que a massa
específica do líquido pode variar.
2.2 Reator agitado contínuo (CSTR)
Modele um CSTR onde ocorre uma reação de isomerização A = B. A reação é
de ordem n, com velocidade específica k.
2.3 Trocador de calor
Considere o trocador de calor ilustrado a seguir, onde um líquido passa pelo
tubo e é aquecido sem mudança de estado. O calor necessário é fornecido por
vapor d'água, que é fornecido pelo lado do casco e é totalmente condensado
no trocador.
Modele a temperatura do líquido ao longo do trocador de calor, T = f(t, z).
3. Referências
Luyben, capítulos 2 e 3
Marlin, capítulo 3 (parte)
Seborg et al, capítulo 2
Stephanopoulos, capítulo 4
Capítulo III
Simulação dinâmica
1. Entendimento do problema
2. Cuidados
3. Exemplos
4. Referências
1. Entendimento do problema
De posse das equações diferenciais resultantes da modelagem matemática de
um sistema, podem ser feitas simulações para estudar o seu comportamento.
Para isto, deve-se escolher um cenário (valores iniciais, condições de contorno,
variações previstas) e resolver as equações com este modelo.
Importante: a simulação mostra o comportamento do modelo.
A simulação mostra soluções do modelo que refletem apenas o comportamento
do modelo matemático. Cabe ao engenheiro conhecer o sistema a um nível
que permita identificar até que ponto o comportamento do sistema é similar ao
do modelo. Um erro comum é confundir o sistema com o modelo!
Em raros casos, é possível resolver algebricamente as equações; um exemplo
comum são modelos simplificados usados para dimensionamento preliminar.
Na maior parte dos casos, porém, é necessário resolver numericamente o
modelo matemático. O objetivo deste capítulo é mostrar de forma rápida como
executar a simulação dinâmica de sistemas de Engenharia Química relevantes
para a indústria.
2. Cuidados
Ao analisar e utilizar resultados de uma simulação, tenha sempre em mente
que:
o modelo é um modelo, não o sistema.
o método utilizado para a solução não faz milagres; a precisão obtida é
função do método e da escolha de parâmetros.
não simplifique as equações de forma a prejudicar a similaridade entre o
modelo e o sistema. Um erro comum é simplificar a equação diferencial
considerando que um parâmetro é constante, e depois usar a equação
resultante para avaliar o efeito deste parâmetro sobre o comportamento
do sistema.
3. Exemplos de simulação em malha aberta e em
malha fechada
Malha aberta
O sistema opera sem que nenhuma ação de controle automática esteja sendo
executada.
Malha fechada
O sistema opera sob ação de controle automática.
3.1. Tanque pulmão em malha aberta
Considere o sistema constituído por um tanque pulmão como o que vimos no
Capítulo II. Para simplificar, considere que a densidade do fluido não se altera.
A dinâmica do sistema representado acima pode ser representada por um
modelo utilizando duas equações:
Balanço de massa no tanque pulmão, [acúmulo] = [entra] - [sai]. Considerando-
se constante a densidade,
Aplicando a segunda lei de Newton, obtém-se a vazão de saída por
escoamento gravitacional através de um tubo com perda de carga por atrito
(escoamento turbulento):
ou, de forma simplificada:
onde L e Ap representam respectivamente o comprimento reto equivalente e a
área transversal do tubo de descarga, At é a área transversal do tanque, K é o
coeficiente de perda de carga em regime turbulento, a massa específica do
líquido e g a aceleração da gravidade.
Considere que o tanque se encontra incialmente em estado estacionário com
nível de 50% do nível máximo e realize as seguintes simulações:
a. a partir de um determinado instante, a vazão de alimentação aumenta em
25% e se mantém constante.
b. a partir de um determinado instante, a vazão de alimentação começa a
aumentar a uma taxa de 10% por hora até atingir 150% da vazão original.
Dados do problema
g 9,8 m/s2
L 100 m
Ap 0,65669 m2
At 10,50709 m2
hmáx 3 m
K 4,414 N/(m/s)2/m
1000 kg/m3
A simulação do tanque pode ser encontrada em planilhas Excel.
3.2. Tanque pulmão em malha fechada
3.2.1. Controle On-Off
A aplicação de controle automático pode ser representada em um modelo.
Vamos considerar um caso simplificado em que utilizamos um controle de
vazão de saída com as seguintes características:
Objetivo Manter o nível do tanque próximo a 50%
Controla Nível (h)
Atua sobre Vazão de saída (Fs)
Monitora Todas as variáveis (fácil quando se trata de modelo!)
Balanço de massa no tanque pulmão, [acúmulo] = [entra] - [sai]. Considerando-
se constante a densidade,
Ação de controle on-off atuando em função do desvio em relação ao nível
desejado:
DA = desvio aceitável sem ação de controle
se nível > (50% + DA), abrir totalmente a válvula de saída
se nível < (50% - DA), fechar totalmente a válvula de saída
Observe que o sistema de controle nada faz enquanto o nível estiver entre
(50% - DA) e (50% + DA).
Para facilitar a simulação, considere que a vazão de saída com a válvula
completamente aberta é um múltiplo da vazão no estado estacionário. A figura
a seguir mostra como se comporta o nível do tanque ao longo do tempo.
3.2.2. Ação de controle calculada
Considere a mesma situação do item 3.2.1 com a aplicação de um algoritmo
que permita executar ações menos bruscas. Um algoritmo é o chamado
controle proporcional, pelo qual a ação de controle é proporcional ao desvio
entre o valor medido e o valor desejado (o setpoint); este desvio é normalmente
chamado de erro (ver Capítulo IV).
Ação de controle proporcional ao desvio em relação ao nível desejado:
Fs(t) = Fee + Kc [h(t) - hSP]
onde ee se refere às condições do estado estacionário e SP representa o
setpoint.
O erro costuma ser definido como e = [hSP - h(t)]
A figura a seguir mostra como se comporta o nível após uma perturbação.
3.3. Sistema de reação (reatores em série)
Um sistema de reação é constituído de três reatores de mesmo volume, de tipo
tanque agitado (CSTR), associados em série conforme esquema a seguir. São
conhecidos os volumes dos reatores, V e a vazão volumétrica de alimentação,
F. Os reatores são mantidos à mesma temperatura.
Dentro do sistema um reagente (de concentração molar C) é consumido por
meio de uma reação de primeira ordem com velocidade específica k. A
concentração de reagente na saída de cada reator é indicada por Ci, i=1,2,3; a
concentração na entrada do sistema é representada por C0.
3.4. Sistema de reação (reator não isotérmico)
Considere que no sistema de reação mostrado no exemplo anterior cada reator
é mantido a uma temperatura diferente. Indique os termos que sofrem
alteração.
4. Referências
Luyben, capítulos 4 e 5
Marlin, capítulo 3 (parte)
Capítulo III
Lista de Exercícios 2000/ 1
Simulação dinâmica
Notas de aula do Capítulo III
Exercício 1
Utilizando como base a planilha de simulação de um tanque com escoamento
gravitacional, monte uma simulação dinâmica que represente o sistema
formado por um reator contínuo agitado (tipo CSTR), com as seguintes
condições:
nível constante durante a operação;
densidade do fluido praticamente constante;
no reator ocorre uma única reação, irreversível, de ordem n;
Os seguintes parâmetros constantes deverão ser disponibilizados na planilha:
volume do reator;
calor específico e massa específica do meio reacional;
ordem e velocidade específica da reação (A e energia de ativação);
concentração inicial de reagente no reator;
parâmetros de troca térmica (U e área);
calor de reação.
A simulação deverá permitir especificar e alterar as seguintes variáveis:
vazão de alimentação do reator;
temperatura de entrada do fluido de resfriamento;
vazão do fluido de resfriamento;
A simulação deverá apresentar de forma gráfica a variação da concentração de
reagente na saída do reator ao longo do tempo.
A forma de apresentação dos resultados e a forma de atuar sobre a simulação
ficam a critério dos criadores.
DICA: inicie o desenvolvimento considerando o reator isotérmico para verificar
o funcionamento da simulação com uma equação mais simples; depois que
obtiver sucesso, inclua os termos e equações necessários para a operação a
temperatura variável.
Capítulo IV
Teoria de controle - domínio temporal
Primeira parte
1. Entendimento do problema
2. Conceitos básicos
3. Estudo dinâmico de sistemas lineares
4. Equipamentos convencionais de controle
Segunda parte
5. Desempenho de controladores
Terceira parte
6. Controle avançado
7. Referências
1. Entendimento do problema
Este capítulo se destina à apresentação de noções de teoria de controle
utilizando a representação dos fenômenos transientes que ocorrem na
presença e na ausência de controle de processos.
O capítulo se limita às representações que podem ser visualizadas pelo
comportamento de um sistema ao longo do tempo. Alguns aspectos da teoria
de controle serão observados mas não poderão ser generalizados: por
exemplo, a estabilidade de sistemas de controle será aprofundada em outros
capítulos fazendo uso de diferentes modelos e de ferramentas matemáticas
mais avançadas.
2. Conceitos básicos
Linearidade Um sistema é chamado linear quando é representado por
equações diferenciais lineares. Um sistema linear,
matematicamente, é aquele em que se x1 e x2 são
soluções do sistema, c1 e c2 constantes arbitrárias, então
c1.x1 + c2.x2 também é solução do sistema.
Em sistemas lineares, aplica-se o princípio da
superposição. Muitas aplicações práticas de Engenharia
Química não podem ser representadas por sistemas
lineares, como veremos em alguns exemplos.
Ordem A ordem de um sistema é a ordem da equação diferencial
que o representa.
Estabilidade Um sistema estável costuma ser chamado de auto-
regulável. Discutir em sala de aula:
estabilidade
instabilidade
estabilidade em malha aberta
estabilidade em malha fechada
Perturbações Para estudar o comportamento dinâmico dos sistemas,
provocaremos diversos tipos de perturbações, analisando
posteriormente o efeito destas sobre o sistema:
perturbação em pulso
perturbação em degrau
perturbação em rampa
perturbação senoidal
A perturbação pode ser provocada de diversas formas. Em
uma malha de controle, são especialmente importantes as
perturbações de processo (load disturbances) e as
perturbações de setpoint.
3. Estudo dinâmico de sistemas lineares
3.1. Variáveis de perturbação
Considere um sistema dinâmico em que x varia com o tempo; seja xee o valor
de x no estado estacionário. Definimos a variável de perturbação xp pela
equação:
xp(t) = x(t) - xee
Em sistemas lineares, o uso destas variáveis traz vantagens.
Exercício 1
Analisar a aplicação de variáveis de perturbação a um sistema descrito por
duas equações diferenciais do tipo:
dx/dt = ax + by + c
dy/dt = dx + ey + f
onde t = 0 => x = xee e y = yee
3.2. Simplificando o problema
Na modelagem de perturbações em degrau, podemos simplificar a abordagem
matemática considerando que a perturbação ocorre em t = 0, e utilizando
variáveis de perturbação. Com isto, além de evitar o uso da função degrau
(substituída por uma simples constante), simplificam-se as condições de
contorno.
Para t ≤ 0, o sistema é representado por uma equação diferencial homogênea
cuja solução (já conhecida) é o estado estacionário. Para t > 0, o sistema é
representado por uma equação diferencial heterogênea.
A simplificação envolve, portanto, a solução de uma equação diferencial que
inclui o efeito da perturbação, considerando como condição inicial a informação
do estado estacionário na ausência da perturbação externa.
3.3. Sistemas lineares de primeira ordem
Exercício 1
Analise o comportamento dinâmico do seguinte sistema de primeira ordem:
t = 0 => y = 0
D é o valor da perturbação externa em degrau ocorrida em t = 0. Em
outras palavras, alguma variável de perturbação externa x passou de
x = 0 para x = D no instante t = 0.
p é a constante de tempo do processo, relacionada à velocidade de
resposta, e
Kp é o ganho do processo no estado estacionário
Defina matematicamente o conceito de ganho em função da variável y e do
parâmetro D.
Exercício 2
Mostre que qualquer sistema linear de primeira ordem pode ser reduzido à
forma canônica acima.
Exercício 3
Monte a forma canônica para a representação de um CSTR onde se processa
uma reação de primeira ordem.
3.4. Sistemas lineares de segunda ordem
Exercício 1
Analise o comportamento dinâmico do seguinte sistema de segunda ordem:
p é a constante de tempo do processo, relacionada à velocidade de resposta
é o coeficiente de amortecimento (damping coefficient)
Exercício 2
Analise o comportamento dinâmico de um sistema descrito pela equação a
seguir:
3.5. Linearização
Em determinados casos, o comportamento de sistemas não lineares pode ser
estudado por meio de aproximações. Uma forma comum é a linearização em
torno de uma determinada condição de operação.
O assunto não será tratado no curso. O livro-texto comenta, com exemplos, o
procedimento de linearização no item 6.2.1.
3.6. Sistemas em malha fechada
Ao introduzirmos um elemento final de controle em um sistema, sua
complexidade aumenta. Em alguns sistemas lineares é possível manter o
número de equações por meio de manipulação algébrica; com isto, a ordem do
sistema aumentará.
O exercício 6.9 do livro-texto ilustra bem a situação.
4. Equipamentos convencionais de controle
4.1. Sensores e transmissores
Os elementos primários de medição têm por função medir alguma
propriedade do sistema e convertê-la em um sinal que possa ser
utilizado para controle. Em alguns casos, o elemento sensor gera
um tipo de sinal que não é diretamente compatível com o sistema
de controle. Neste caso, utiliza-se um transmissor para gerar um
sinal compatível a partir do sinal recebido do sensor. Em muitos
casos, o próprio transmissor é também o elemento sensor.
Tipicamente, o sensor e o transmissor estão localizados perto do processo, e
por isso são denominados "elementos de campo".
Existem diversas padronizações para o envio de sinais a um sistema de
controle. O padrão pneumático (pressões de ar de 0,2 a 1,0 kgf/cm 2 ou de 3 a
15 psi), usual há alguns anos, está praticamente em desuso. O padrão
eletrônico consiste em sinais de corrente de 4 a 20 mA. Cada vez mais se
impõe a comunicação digital entre os elementos de campo e o sistema de
controle. Recentemente foi padronizado, depois de anos de teste, o protocolo
fieldbus de comunicação digital, em que os elementos de campo trocam
informações entre si.
4.2. Válvulas de controle
O elemento final de controle mais utilizado na indústria química é a
válvula de controle. Basicamente, a válvula de controle é uma válvula
capaz de variar a restrição ao escoamento de um fluido em resposta a
um comando recebido na forma de um sinal padrão.
Em geral, o movimento da haste da válvula é obtido pelo
balanço entre duas forças: a tensão de uma mola ligada à
haste (função da posição da haste), e a força exercida sobre
um diafragma na cabeça da válvula (função da pressão de ar
na cabeça da válvula). O comando da válvula é feito pela
variação da pressão de ar fornecido à válvula.
Atualmente, é comum encontrar válvulas com posicionadores
eletropneumáticos, que permitem que o sistema de controle
envie um sinal de 4 a 20 mA diretamente para a válvula. Em
outros sistemas, o sinal eletrônico deve ser convertido em um
sinal pneumático por meio de um conversor I/P.
Um dos aspectos importantes na especificação de uma válvula
de controle é a sua posição de falha, ou seja, sua posição na
ausência do sinal de controle externo. Esta especificação é
geralmente ditada pela segurança do processo. Em algumas
aplicações, como no suprimento de vapor para um aquecedor,
é desejável que a válvula feche na falta de um sinal de
comando: esta válvula é chamada de falha-fecha, ou ar-para-
abrir. Em outras situações, a segurança do processo exige a
abertura da válvula em caso de falha do sistema: falha-abre,
ou ar-para-fechar.
O tamanho da válvula é normalmente dado por um coeficiente de tamanho,
Cv. Este coeficiente é determinado experimentalmente pela passagem de fluido
pela válvula. Para líquidos sem flasheamento, por exemplo, a vazão através da
válvula é dada por:
onde F é a vazão; x é a posição da haste da válvula expressa em percentagem
da abertura; f(x) representa a fração da vazão máxima (em função da posição
da válvula).
A função f(x) representa uma propriedade importante da válvula, a sua
característica inerente. A característica da válvula é determinada por diversos
fatores, especialmente formato do obturador e do assento. São comuns na
indústria as válvulas de característica linear, onde f(x) = x, e as de
característica de igual percentagem, nas quais f(x) = x-1, onde é um
parâmetro com valor entre 20 e 50 dependendo do projeto da válvula.
O dimensionamento de válvulas de controle deve levar em conta a faixa de
controlabilidade desejada. A queda de pressão na válvula, usada no cálculo do
Cv, depende da abertura da válvula e de outros fatores referentes a condições
de escoamento (outros equipamentos em série, etc.).
4.3. Controladores
4.3.1. Definições
Um controlador deve ter, no mínimo, as seguintes características:
receber um sinal com o valor da variável controlada (PV = process
value)
receber um setpoint (SP)
gerar um sinal de saída para o elemento final de controle (CO =
controller output)
receber um comando de seleção de pelo menos dois modos: MANUAL e
AUTOMÁTICO
Em modo MANUAL, o controlador opera como um mero controle remoto. O
operador informa o sinal de saída desejado, e o controlador simplesmente
repassa este valor para o elemento final de controle.
Em modo AUTO, o controlador usa os valores lidos (PV e SP) e determina, por
meio de um algoritmo, o valor do sinal de saída (CO). O foco deste capítulo,
evidentemente, é o modo AUTO.
Um conceito importante para os algoritmos de controle mais comuns é o de
erro. Aplicado a controladores, o erro representa simplesmente a diferença:
e = SP - PV
4.3.2. Algoritmos de controle tradicionais
O tipo mais simples de controlador é o liga-desliga ou on-off.
Matematicamente, sua ação pode ser descrita como:
e > e1 => CO = 1
e < e2 => CO = 0
onde e1 > e2 são valores predeterminados. Se o erro estiver no intervalo [e2,
e1], a saída não é alterada. Este intervalo costuma ser denominado banda
morta.
Este tipo de controle é comum em equipamentos térmicos (geladeiras,
condicionadores de ar).
Os controladores com ação proporcional determinam a saída por meio da
equação
onde bias representa o sinal de saída na condição "neutra". Kc é chamado de
ganho do controlador.
Alguns livros e catálogos ainda usam o termo banda proporcional ao invés do
ganho. A banda proporcional, expressa em percentagem, é o inverso do ganho:
O ganho do controlador pode ser positivo ou negativo. O sinal do ganho define
a ação do controlador, que pode ser direta ou reversa.
Se tivermos ganho positivo e mantivermos constante o setpoint, qual será a
sua resposta a uma variação da PV? Se a PV aumenta, o erro diminui (e = SP -
PV) e conseqüentemente a saída CO diminui. Este comportamento é chamado
de ação reversa.
Ganhos negativos fazem com que CO aumente quando a PV aumenta: ação
direta.
IMPORTANTE: a ação do controlador (direta/ reversa) deve ser escolhida de
forma compatível com a ação do elemento final de controle (falha abre/ falha
fecha), de modo que a ação conjunta (controlador + elemento final) seja
adequada aos objetivos de controle. Exercícios em aula!
Os controladores de ação integral obedecem à equação:
Os controladores de ação derivativa obedecem à equação:
É possível associar estas ações P (proporcional), I (integral) e D (derivativa)
obtendo algoritmos compostos (PI, PD, PID). A equação de um controlador PID
pode ser dada por:
4.4. Outros componentes
Além dos instrumentos citados, diversos tipos de seletores, conversores e
módulos de cálculo podem ser incluídos em uma malha de controle. Estes
instrumentos serão vistos no estudo de controle avançado.
4.5. Documentação do sistema de controle
Os instrumentos e as estratégias de controle são documentados em diversos
estágios de um projeto de engenharia. Já no projeto básico do sistema, os
instrumentos são representados nos fluxogramas de engenharia, também
conhecidos como P&I D (do inglês piping and instrument diagram).
Os diversos componentes de uma malha costumam ser representados em um
diagrama que indica as ligações físicas entre eles (pneumáticas, elétricas e
digitais). Estes documentos, chamados diagramas de malha, são essenciais
para o entendimento das funções de cada elemento da malha.
As malhas mais complexas podem ser descritas em diagramas de controle
que são diagramas mais abstratos em que os detalhes de interligação são
omitidos. Neste curso, sempre utilizaremos diagramas simplificados, já que o
nosso escopo é o comportamento do sistema de controle.
Diversos outros documentos de engenharia são gerados em um projeto de
instrumentação: as folhas de dados e especificações técnicas, por exemplo,
definem os requisitos e características de cada instrumentos; diagramas de
interligação e plantas de instrumentação, entre outros, fornecem informações
que permitem a montagem eficiente dos sistemas e seus componentes.
5. Desempenho de controladores
5.1. Definição de índices de desempenho
Qualitativamente, o desempenho de um controlador pode ser avaliado pela sua
capacidade de manter a variável controlada próximo ao valor desejado
(setpoint), mesmo em presença de perturbações externas.
Em aplicações práticas, porém, pode ser desejável "medir" o desempenho de
um controlador por meio de um índice que permita buscar melhoras de
desempenho.
Alguns índices sugeridos na literatura e na prática são dados a seguir. Em
geral, eles consideram a resposta do controlador a uma perturbação em
degrau.
coeficiente de amortecimento, obtido ao comparar a resposta do
controlador à de um sistema de segunda ordem; Luyben, por exemplo,
recomenda um valor entre 0,3 e 0,5;
overshoot, ou seja, o máximo desvio do setpoint observado logo após a
perturbação;
velocidade de resposta, definida como o tempo necessário para atingir o
setpoint (não necessariamente se estabilizando no setpoint);
taxa de decaimento, medida como a razão entre as amplitudes de duas
oscilações sucessivas;
tempo de resposta, considerado como o tempo a partir do qual as
oscilações se limitam a uma certa fração (geralmente 5%) da mudança
de setpoint;
diversos índices calculados por integração de uma função do erro ao
longo do tempo: ISE (integral do quadrado do erro), IAE (integral do
valor absoluto do erro) ou ITAE (integral do produto entre tempo e valor
absoluto do erro).
Cada critério tem suas vantagens e desvantagens, e têm fornecido material
para muitas discussões na literatura. Shinskey (Feedback controllers for the
process industries, McGraw-Hill, 1994) discute os méritos relativos de diversos
índices de desempenho e situações em que eles não se aplicam.
5.2. Limitações da análise de desempenho
Todos os critérios acima "premiam" a capacidade de levar a variável controlada
para próximo do setpoint. Em alguns casos, isto não é necessario nem
desejável: por exemplo, uma malha de controle de nível em um tanque pulmão
não precisa ser mantida junto ao setpoint (qual seria a conseqüência?). Antes
de aplicar um critério de desempenho qualquer, verifique antes se ele faz
sentido para a aplicação.
Outro aspecto não considerado nos índices de desempenho é a robustez do
controlador. É possível ajustar um controlador com um excelente desempenho
para perturbações pequenas, mas que seja instável quando ocorrer uma
perturbação maior. Ao considerar a segurança
5.3. Desempenho de controladores tradicionais
5.3.1. Controlador on-off
O controle on-off, evidentemente, não consegue manter a variável em um
setpoint. O comportamento da variável controlada equivale a uma oscilação
próximo aos valores equivalentes aos comandos on e off do controlador. A
figura a seguir ilustra a resposta de um sistema sob controle on-off, mostrando
que a oscilação não é necessariamente senoidal. A linha vermelha indica o
valor desejado da variável controlada; observe que a média não equivale
necessariamente ao valor desejado.
Uma característica interessante do controle on-off é que o valor médio da
variável controlada muda conforme a perturbação externa. Este efeito é
observado em sistemas de condicionamento de ar: mantido o setpoint, a
temperatura média é mais alta em dias quentes.
5.3.2. Controlador proporcional
A figura a seguir ilustra o comportamento de uma variável controlada por um
controlador proporcional após uma perturbação externa em degrau. O setpoint
é indicado pela linha vermelha.
Uma característica do controlador proporcional é que ele não consegue "zerar"
o desvio do setpoint, deixando um erro residual (offset). Explique por que o
controlador não consegue mudar a variável controlada quando ele atinge a
região do offset.
5.3.3. Controlador PI
Ao adicionarmos a integral do erro, o controlador passa a não tolerar que um
desvio do setpoint seja mantido por muito tempo. Desta forma, elimina-se o
problema do offset.
5.3.4. Controlador PID
A ação derivativa tira proveito da informação de processo que permite prever, a
curto prazo, a tendência da variável de processo. Assim, ao observar que a
variável está aumentando, a ação derivativa atuará no sentido de reduzí-la,
mesmo que o erro e a integral do erro apontem em outra direção. Desta forma,
a ação derivativa torna a resposta do controlador mais rápida.
O uso de ação derivativa requer cuidados, e deve ser evitada em variáveis cuja
medição esteja sujeita a ruídos (como vazão em escoamento turbulento). Neste
caso, o comportamento oscilante da vazão faz com que a derivada mude
continuamente de sinal, com efeito negativo sobre o desempenho do
controlador.
A ação derivativa deve ser evitada em situações onde o erro varie
bruscamente, em forma de degrau. Um exemplo é dado por cromatógrafos de
processo, que atualizam suas leituras em intervalos de alguns minutos: nestes
instantes, a derivada é infinita; um controlador PID abre ou fecha
completamente a válvula de controle nesta situação. Outro exemplo ocorre
quando o setpoint é alterado pelo operador, especialmente em sistemas
digitais. Atualmente, uma das formas de evitar este problema consiste em
calcular a derivada da variável de processo (PV) em vez da derivada do erro.
5.4. Sintonia de controladores
Os controladores possuem parâmetros ajustáveis que permitem alterar seu
comportamento de modo a obter o melhor desempenho para uma dada
aplicação. O ganho do controlador, por exemplo, está relacionado à
agressividade do controlador: ganhos altos fazem com que o controlador atue
com mudanças rápidas na saída, enquanto ganhos baixos fazem com que a
saída se altere pouco, caracterizando um comportamento mais passivo do
controlador.
Um campo interessante da teoria de controle, com muita aplicação prática, é a
sintonia de controladores. Hoje, dispomos de um conjunto de regras empíricas
e matemáticas que permitem sistematizar a busca de melhores desempenhos,
sem comprometer a segurança do processo.
As regras empíricas gerais podem ser encontradas na literatura; o livro-texto
discute várias destas regras no capítulo 7.3.
Ziegler e Nichols foram os primeiros a sistematizar, com dois métodos
extremamente simples e facilmente aplicáveis na indústria. Estes métodos
devem ser encarados como uma forma sistemática de obter uma primeira
aproximação (em geral conservadora), a ser melhorada.
O método de sintonia em malha fechada consiste em deixar o sistema em
controle proporcional, aumentando o ganho até obter uma oscilação de
amplitude constante. Este ganho é denominado ganho limite (Ku), já que
ganhos maiores levariam à instabilidade. O período de oscilação nesta situação
é chamado de Pu.
Ziegler e Nichols propuseram que a seguinte tabela fosse utilizada para
determinar os parâmetros de sintonia:
Kc tau (I) tau (D)
controlador P Ku/2
controlador PI Ku/2,2 Pu/1,2
controlador PID Ku/1,7 Pu/2 Pu/8
Hoje em dia existem diversas ferramentas de software que permitem obter os
dados em tempo real (por meio de um sistema de controle) durante transientes.
A análise destes dados permite identificar o comportamento do processo e
propor parâmetros para a sintonia de controladores.
6. Controle avançado
6.1. Conceito
Os controladores estudados anteriormente se caracterizam por uma relação
biunívoca entre uma variável controlada e uma variável manipulada. Em
diversas situações, é interessante utilizar formas distintas de relacionar mais de
uma variável controlada e/ ou mais de uma variável manipulada.
Uma das formas mais simples é a atuação do controlador em duas válvulas
(split-range) distintas, cada válvula correspondendo a uma faixa da saída do
controlador. Neste caso, uma única variável controlada permite a manipulação
de duas outras variáveis. Observe que, neste exemplo, dependendo das faixas
de atuação, somente uma variável é manipulada de cada vez.
Neste capítulo, estudaremos algumas estratégias de controle que fazem uso de
mais de duas variáveis em uma malha de controle fechada.
6.2. Controle de razão
Uma situação muito comum em unidades de processo é a necessidade de
manter uma relação entre quantidades. Em unidades com escoamento
contínuo, isto se traduz na necessidade de manter uma razão entre vazões de
correntes distintas. O controle da razão é fundamental em processos com
reação química, onde se deseja manter uma relação estequiométrica entre
reagentes (relação ar/ combustível em uma fornalha, por exemplo), em
processos de separação (refluxo em colunas de destilação) e de mistura
(blending).
Geralmente, uma das vazões é determinada por outros sistemas da unidade ou
fora dela. O objetivo do sistema de controle, então, é manipular a outra vazão
para que, mesmo que a primeira vazão varie, a razão permaneça o mais
constante possível.
Uma forma de implementar o controle de razão consiste em medir as duas
vazões e calcular a razão entre elas. Este valor calculado passa a ser a PV
para um controlador de razão (FFC), que recebe um setpoint e manipula uma
das vazões para que ela fique proporcional à outra.
Esta implementação apresenta uma desvantagem: em determinadas situações
(partida, emergências), pode ser necessário controlar a vazão e não a razão.
Um outro esquema, freqüentemente utilizado na prática, é o de utilizar um
controlador de vazão para a segunda corrente de processo que opere em três
modos: manual, automático e razão. Os modos manual e automático são os
tradicionais; o modo automático permite que o operador forneça um setpoint de
vazão. O modo razão utiliza um elemento (FY) que multiplica a vazão da
primeira corrente por um setpoint de razão, determinando assim o setpoint do
controlador de vazão.
6.3. Controle em cascata
Provavelmente, a estratégia de controle avançado mais aplicada na prática é o
controle em cascata. O controle em cascata utiliza pelo menos duas variáveis
controladas para atuar sobre uma única variável manipulada.
O controle em cascata consiste de duas ou mais malhas de controle
integradas. A malha interna contém a válvula e o controlador chamado escravo.
A malha externa abrange o outro controlador, denominado controlador mestre,
cuja saída fornece o setpoint para o controlador escravo.
O controle em cascata é eficaz em situações onde existem perturbações a
serem eliminadas. É o caso do controle de temperatura pela injeção de vapor:
caso fosse utilizado apenas um controlador de temperatura atuando
diretamente sobre a válvula de vapor, não haveria como compensar eventuais
variações de pressão na linha de vapor. O uso de um controlador de vazão
escravo permite atuar de forma diferenciada durante as variações de pressão.
Em alguns casos, o controle em cascata tem um desempenho melhor do que o
controle simples por uma única variável. Exemplos em sala de aula.
Um exemplo comparativo de estratégias de controle tradicional e avançado
pode ser encontrado na homepage de Paul Henry. Selecione o item "Process
control" e compare os esquemas de controle de nível de água em caldeiras
com um, dois ou três elementos.
Para pensar: qual malha de controle deve ter resposta mais rápida, a externa
ou a interna? Por quê?
6.4. Controle seletivo
Existem processos em que uma variável manipulada, que interfere sobre mais
de uma variável de processo, exige estratégias diferentes dependendo do
estado do processo. A vazão de vapor para o fundo de uma coluna de
destilação, por exemplo, afeta a temperatura do fundo e, pela vaporização do
líquido, o nível do fundo da coluna. Em uma situação normal de operação,
provavelmente se deseja que a vazão de vapor seja utilizada para controlar a
temperatura do fundo, mas se o nível estiver muito baixo, pode passar a ser
prioritário o controle do nível de fundo, para evitar a perda de sucção das
bombas de descarga e talvez o entupimento do refervedor.
O controle seletivo opera por meio de elementos comparadores, que
selecionam o maior ou o menor entre dois ou mais sinais, enviando somente
um deles à válvula de controle (ou ao controlador escravo).
6.5. Controle inferencial
Em alguns casos, a variável a ser controlada não pode ser medida de forma
econômica. Uma abordagem é o controle inferencial, em que a variável
controlada não é medida diretamente e sim calculada a partir de outras
variáveis de processo que podem ser medidas mais facilmente.
Um exemplo típico é o controle de composição. Em misturas binárias em fase
vapor, a composição pode ser determinada a partir da pressão e da
temperatura por meio de uma equação de estado.
Outro exemplo extremamente comum é o controle de vazão mássica, que pode
ser feito a partir de medições da vazão volumétrica, da temperatura e (no caso
de gases) da pressão. Exemplos mais sofisticados incluem o cálculo do
excesso de ar ou da carga térmica de uma fornalha e a modelagem de
propriedades físicas de produtos (índice de octanagem de gasolinas, ponto de
fluidez de plásticos, etc.).
6.6. Controle feedforward
A implementação de estratégias de controle feedforward normalmente envolve
o conhecimento de modelos do processo que permitam determinar o melhor
valor da variável manipulada a partir do valor atual da(s) variável(is)
monitorada(s).
A imprecisão do modelo é um aspecto de segurança importante que
dificilmente permite a implementação de estratégia feedforward "puras". Em
geral, o valor calculado pelo controlador feedforward é enviado a um
controlador feedback, aumentando a robustez do sistema.
6.7. Controle multivariável
O uso de modelos que representam o comportamento dinâmico do processo
permite a implementação de controladores que, por meio de simulação, podem
calcular mais de um valor de saída, a partir de mais de uma variável de
processo. Controladores que apresentam diversas PVs e diversas saídas são
denominados controladores multivariáveis.
Um dos controladores multivariáveis mais utilizados é o DMC (dynamic matrix
control), ou suas variações. Este tipo de controlador é descrito no item 8.9 do
livro texto, e não será incluído nesta homepage devido à grande quantidade de
equações.
6.8. Outras estratégias de controle avançado
Com a facilidade de implementação de algoritmos complexos em máquinas
capazes de efetuar os cálculos necessários em tempo hábil, diversas
estratégias diferentes de controle avançado estão sendo utilizadas.
Um dos campos recentes que recebe muita atenção (especialmente de
marketing) é a aplicação de redes neurais e outras ferramentas derivadas do
estudo de inteligência artificial (fuzzy logic, sistemas especialistas baseados em
regras).
7. Referências
Controle convencional
Luyben, capítulos 6 e 7
Seborg et al., capítulo 9, inclui discussão sobre precisão e repetibilidade, dois
conceitos importantes para especificação e compra de instrumentos.
Controle avançado
Luyben, capítulo 8
Marlin, capítulo 14 (controle em cascata), 15 (feedforward), 17 (controle
inferencial) e 23 (controle multivariável).
Capítulo V
Teoria de controle - domínio de Laplace
Primeira parte
1. Entendimento do problema
2. Transformadas de Laplace
3. Funções de Transferência
4. Aplicação a sistemas de controle
Segunda parte
5. Estabilidade de sistemas de controle
1. Entendimento do problema
No Capítulo anterior, utilizamos a variável independente tempo no domínio dos
números reais para estudar diversas propriedades dos sistemas de controle.
O uso de transformadas de Laplace nos permitirá agora aprofundar a análise
das propriedades dos sistemas de controle. Encare a abordagem deste
Capítulo como uma nova perspectiva, e não perca de vista um aspecto
fundamental: muda a abordagem, mas o objeto de estudo se mantém!
2. Transformadas de Laplace
2.1. Objetivo
Este não é um curso de Cálculo. Este Capítulo não tem a intenção de ensinar
transformadas de Laplace. Nos limitaremos a reunir aqui algumas definições e
propriedades já conhecidas (e esquecidas?).
2.2. Definição
A transformada de Laplace de uma função é definida pelo operador £:
F(s) = £[f(t)] =
Para o estudo de sistemas de controle, a variável t é o tempo, e o domínio
correspondente à variável s é o plano complexo.
2.3. Propriedades básicas
Duas propriedades principais da transformada de Laplace nos interessam:
a. Linearidade
£[a.f(t) + b.g(t)] = a.£[f(t)] + b. £[g(t)]
b. Teorema do valor final
2.4. Transformadas de Laplace de funções comuns em controle de
processos
a. Função degrau
onde u(t) = 0 para t ≤ 0 e u(t) = 1 para t > 0
b. Função rampa
c. Exponenciais
d. Função seno
3. Função de transferência
A função de transferência G(s) é uma função (no domínio s) que, multiplicada
por uma função dada, resulta em uma função que representa a aplicação de
um processo sobre a primeira função.
Nas equações abaixo:
m(t) é a variável de entrada; em um sistema de controle, tipicamente
corresponde à posição ou abertura de uma válvula (variável manipulada)
x(t) é uma variável que é afetada por m(t); em um sistema de controle, costuma
ser a variável medida ou controlada.
a. multiplicação por constante
x(t) = K. m(t)
X(s) = K. M(s)
A função de transferência é portanto G(s) = K
Observe que G(s) = X(s) / M(s), por definição.
b. diferenciação em relação ao tempo
Observe que se definirmos m de forma tal que m(0) = 0, a diferenciação em
relação ao tempo torna-se uma mera multiplicação por s.
c. integração
d. tempo morto
e. processos lineares
Os processos lineares são aqueles que podem ser representados por
equações diferenciais lineares no domínio do tempo. Um exemplo é a equação
abaixo:
que pode ser reescrita como
desde que x(0) = 0 e m(0) = 0.
A equação acima pode ser facilmente rearranjada:
Resumindo:
Um fenômeno que é representado por uma equação diferencial linear no
domínio t pode ser representado no domínio s como uma simples multiplicação
por uma função de transferência.
Nossos modelos matemáticos do Capítulo II levam normalmente a
equações diferenciais...
Uma representação gráfica possível é a seguinte:
4. Aplicação a sistemas de controle
4.1. Polos da função de transferência
O exemplo anterior mostrou que a função de transferência
corresponde ao fenômeno modelado por
Observe que as raízes da equação característica da equação diferencial são
exatamente os valores para os quais o denominador de G(s) se anula. É trivial
provar que este resultado é genérico. Estes valores, que fazem G(s) tender
para o infinito, são chamados de polos da função.
As raízes da equação característica (domínio t) são iguais aos polos da função
de transferência (domínio s).
A função de transferência correspondente a um sistema de primeira ordem é
Outras funções de transferência típicas são apresentadas por Luyben (Tabela
9.1).
4.2. Propriedades das funções de transferência
a. associação em série
A associação de funções de transferência em série pode ser representada por
uma única função de transferência: o produto das funções de transferência
individuais. No caso acima, G(s) = G1(s). G2(s).
b. sistemas reais
Para sistemas reais, o denominador da função de transferência deve ter ordem
maior ou igual à do numerador.
c. polos e estabilidade
Para que um sistema seja estável, todos os polos devem ter a parte real
negativa. Geometricamente, na representação gráfica de números complexos,
todas as raízes devem ficar à esquerda do eixo vertical.
d. teorema do valor final
Por meio do teorema do valor final demonstra-se que
Se um sistema for submetido a uma perturbação em degrau (ou seja,
M(s) = 1/s), a saída será
X(s) = G(s)/s
Substituindo esta relação na equação acima, temos
Observe que o termo ao lado esquerdo da equação representa o valor de f(t)
no estado estacionário; como a perturbação em degrau foi unitária, este valor
representa o ganho do processo no estado estacionário, Kp.
Logo,
4.3. Funções de transferência de controladores convencionais
Proporcional:
Gc(s) = Kc
P+I:
PID (uma das formas possíveis, 0,05 ≤ ≤ 0,1):
5. Estabilidade de sistemas de controle
5.1. Função de transferência em malha aberta
Considere um sistema formado por dois tanques agitados em série, em que
uma taxa de aquecimento Q é fornecida no primeiro tanque (Luyben, exemplo
9.7). Um líquido entra no sistema a uma temperatura T0, saindo dos tanques
com temperaturas T1 e T2 respectivamente. O comportamento térmico do
sistema é dados pelo sistema de equações lineares:
que pode ser rearranjado:
A transformação de Laplace leva a:
Podemos eliminar a temperatura intermediária, obtendo a temperatura de saída
em função de T0 e Q (na equação abaixo, ai = Vi/F):
Uma forma possível de controlar a temperatura de saída seria pela
manipulação da quantidade de calor cedida no primeiro tanque. Neste caso, Q
seria a variável manipulada e T0 a variável de perturbação. Observe que a
equação acima pode ser representada utilizando funções de transferência:
Esta relação costuma ser apresentada na forma de um diagrama de blocos,
que permite visualizar os efeitos em jogo sem o formalismo matemático.
5.2. Função de transferência em malha fechada
Quando um controlador feedback é introduzido para controlar a temperatura de
saída do sistema acima, o valor de Q deixa de ser uma variável independente e
passa a ser calculado em função de T2.
O diagrama abaixo representa os diversos elementos da malha de controle
necessários para transmitir o valor de T2, determinar o erro e calcular a saída
(sinal para a válvula).
O erro (E) é calculado pela diferença entre o valor recebido do transmissor e o
setpoint.
Em muitos sistemas, os ganhos do transmissor e da válvula de controle podem
ser considerados constantes.
Observe que neste sistema Q pode ser calculado diretamente a partir de T2 e
dos parâmetros do sistema de controle.
Q = GV(s).CO
Q = GV(s).B(s).E
Q = GV(s).B(s).[SP(s)-PV]
Q = GV(s).B(s).[SP(s)-GT.T2(s)]
Esta relação entre Q e T2 pode ser substituída na equação da malha aberta:
Isolando-se T2, obtemos:
Ficou complicado demais? É
possível simplificar englobando
todos os parâmetros ligados ao
controle (transmissor, controlador
e válvula) em uma única função
de transferência, conforme
indicado no diagrama ao lado.
Observe que o ganho do
transmissor pode ser eliminado
se o SP e a PV tiverem as
mesmas unidades.
Com estas simplificações, temos:
5.3. Equação característica e estabilidade
Pela equação acima, vemos que a equação característica de um sistema com
malha fechada é
1+GM(s).B(s) = 0
Um sistema em malha fechada será estável se todas as raízes da equação
característica estiverem no lado esquerdo do plano complexo, ou seja, devem
ter parte real negativa.
5.4. Lugar geométrico das raízes
Uma das ferramentas de análise dinâmica de malhas de controle é o gráfico de
lugar geométrico das raízes no plano complexo. Utilizando como parâmetro da
curva um dos parâmetros de sintonia do controlador (por exemplo, o ganho), é
possível identificar características dinâmicas importantes da malha de controle.
Vamos traçar alguns gráficos:
a) controlador proporcional b) controlador PI
Capítulo VI
Teoria de controle - domínio de freqüência
Primeira parte
1. Entendimento do problema
2. Análise de freqüência
3. Análise de estabilidade
1. Entendimento do problema
1.1. Definições básicas
Um aspecto importante da resposta dinâmica de um sistema consiste na
resposta a uma perturbação periódica. Em muitos sistemas, o comportamento
pode variar significativamente em função da freqüência desta perturbação; um
exemplo clássico é a ruptura de pontes quando uma perturbação periódica
(vento, soldados em marcha ritmada) entra em ressonância com a estrutura da
ponte.
Em nosso caso, veremos como um sistema reage a uma perturbação senoidal
com velocidade angular e amplitude Am:
M(t) = Am. sen(t)
A saída do sistema, após uma fase inicial, passa a ser também senoidal com a
mesma freqüência, descrita pela seguinte expressão:
X(t) = Ax. sen(t + )
Esta resposta pode portanto ser descrita por dois parâmetros: a razão entre
amplitudes (AR = Ax/Am) e o ângulo de fase entre as duas curvas ().
1.2. Teorema
Prova-se (Luyben, 12.2) que estes parâmetros podem ser obtidos diretamente
a partir da função de transferência do processo utilizando-se as equações a
seguir:
Assim, a resposta a uma perturbação periódica pode ser obtida diretamente em
função da freqüência (ou da velocidade angular ).
1.3. Representação gráfica
A literatura apresenta três representações comuns para a análise de
freqüência:
os diagramas de Nyquist são representações do lugar geométrico de
G(i) no plano complexo para um conjunto de valores de .
os diagramas de Bode são dois diagramas em que se representam a
razão entre amplitudes (em escala logarítmica) e o ângulo de fase contra
a velocidade angular (também em escala logarítmica).
os diagramas de Nichols são gráficos em que se representa a razão
entre amplitudes (em escala logarítmica) contra o ângulo de fase.
Em muitos livros, utiliza-se uma definição tomada de empréstimo à eletrônica, o
módulo medido em decibéis (dB), para traçar os diagramas de Bode e Nichols.
Observe que se trata somente de uma mudança de coordenadas que não
altera o formato das curvas. O módulo (L) é definido pela relação:
L=[Link] AR
10
2. Análise de freqüência
2.1. Sistema de primeira ordem
A função de transferência de um sistema de primeira ordem é:
logo,
Exercício: determine analiticamente AR() e () a partir da equação de G(i).
(Dica para quem esqueceu totalmente como dividir: multiplique pelo conjugado
para racionalizar a fração).
Com o uso de planilhas eletrônicas ou de programas de cálculo matemático
podemos calcular diretamente os valores de G(i) e traçar os gráficos. O
diagrama de Nyquist é mostrado abaixo para 0 << 2:
Exercício: com base nas equações obtidas no exercício anterior, descreva
qualitativamente como os dois parâmetros do sistema (Kp e p) alteram o
formato dos diagramas de Bode e de Nyquist.
2.2. Outros sistemas
Utilizando as ferramentas discutidas no exemplo anterior, vamos analisar a
resposta de freqüência de diversos sistemas:. Em outras palavras, vamos
traçar os diagramas de Nyqist, Bode e Nichols para cada um dos sistemas
descritos.
Algumas planilhas podem ajudar na simulação.
a. sistema de segunda ordem
Neste sistema, dedicar especial atenção aos casos de sub-amortecimento.
b. sistema com tempo morto
G(s) = e-Ds
c. sistema de primeira ordem com tempo morto
2.3. Processos em série
Um processo em etapas pode ser representado por uma função de
transferência G(s), que como já vimos anteriormente pode ser diretamente
calculada a partir das funções de transferência de cada etapa, Gi(s):
G(i) = G1(i). G2(i). ...
lembrando que z=|z|.[Link] (z)
|G(i)|.[Link](G(iw)) = |G1(i)|.[Link](G1(iw)). |G2(i)|.[Link](G2(i)). ...
Agrupando estes termos, e tirando o logaritmo, chegamos a
ln(G) + i. arg(G) = ln(G1) + ln(G2) + ... + i. (arg(G1) + arg(G2) + ...)
ou seja:
ln(G) = ln(G1) + ln(G2) + ...
arg(G) = arg(G1) + arg(G2) + ...
Olhe com um olho as equações acima e com outro a definição dos diagramas
de Bode. A conclusão que salta à vista é:
As ordenadas dos diagramas de Bode para processos em série podem ser
obtidas pela soma das coordenadas dos diagramas de Bode de cada uma das
etapas.
Esta propriedade explica a popularidade dos diagramas de Bode nos
primórdios da teoria de controle, em que os gráficos eram calculados e
traçados à mão.
Luyben (12.4) ilustra situações em que o domínio de freqüência permite a
solução de sistemas que exigiriam soluções altamente complexas nos
domínios temporal e de Laplace.
3. Análise de estabilidade
3.1. Análise de estabilidade no domínio de freqüência
O domínio de freqüência permite investigar quantitativamente a estabilidade de
sistemas em malha fechada. A rigor, utiliza-se o mesmo critério de estabilidade
definido no capítulo anterior: o sistema é instável se algum pólo da função de
transferência (ou seja, alguma raiz da equação característica) tiver parte real
positiva.
A análise é feita a partir dos gráficos para a função G(i).B(i), onde G é a
função de transferência do processo em relação à variável manipulada e B é a
função de transferência do conjunto controlador/ válvula de controle (ver
estabilidade de sistemas de controle no Capítulo V).
3.2. Critério de estabilidade de Nyquist
Discussão com base nas figuras do livro texto (Luyben 13.1). Stephanopoulos
(cap. 18.4) apresenta bons exemplos.
3.3. Critério de estabilidade nos diagramas de Bode
Para sistemas em que as curvas dos diagramas de Bode são monotônicas,
pode ser aplicado o seguinte critério de estabilidade:
Um sistema em malha fechada é instável quando a resposta de freqüência da
função G.B apresentar razão de amplitude maior do que a unidade na
freqüência crítica.
A freqüência crítica é aquela em que o ângulo de fase vale -180o (freqüência de
cross-over).
O diagrama acima representa um sistema de segunda ordem (constante de
tempo unitária e =0,4) com um controlador P+I (ganho = 5 e i = 1). Observe
que a freqüência crítica equivale aproximadamente a =2,2, e que a razão
entre amplitudes é AR~6 > 1. Portanto, com este ganho, o sistema é instável.
Uma sintonia diferente do controlador (ganho = 0,6) torna o sistema estável. O
valor da razão entre amplitudes na freqüência crítica passa a ser AR = 0,8 < 1.
3.4. Especificação de estabilidade
Os diagramas de Bode permitem quantificar a estabilidade.
A margem de ganho é definida como MG=1/ARc, onde ARc é a razão entre
amplitudes na freqüência crítica. Pelo critério visto acima, MG>1 para sistemas
estáveis; quanto mais próxima da unidade, mais próximo o sistema se encontra
da instabilidade.
A margem de fase é uma boa medida da estabilidade de um sistema. Ela é
negativa para sistemas instáveis e zero para sistemas no limite da estabilidade
(oscilantes). Para sistemas estáveis, a estabilidade cresce com a margem de
fase. Ela pode ser obtida a partir da freqüência que corresponde a uma razão
entre amplitudes unitárias. Ou seja:
No exemplo acima, u = 1,355 e (u) = -0,91 . A margem de fase é portanto de
0,09 , ou seja, cerca de 16o.
Exercício: identifique graficamente a margem de ganho e a margem de fase na
figura acima.