UMA ANLISE SOBRE AS CONCEPES DE JUSTIA NA OBRA
KING LEAR
ngela Barbosa Franco
Luciano Augusto de Freitas Nunes
RESUMO
King Lear, de William Shakespeare, ilustra a perspiccia do dramaturgo em fazer com
que a histria seja resolvida dentro dos padres ticos da poca e, conseqentemente,
daqueles considerados justos. A busca de algumas personagens por justia traz
equilbrio no universo dicotmico do bem e do mal, criando uma atmosfera harmnica
para questes relativas existncia humana. Nesse contexto, objetiva-se utilizar como
paradigma a obra shakespeareana a fim de se desenvolver uma reflexo sobre algumas
concepes fundamentais de justia apresentadas por diversos autores, explorando
tambm as crticas literrias da pea teatral que desvelam a importncia da Literatura
para elucidar o comportamento humano, a sociedade e o papel da J ustia na eterna luta
entre o caos e a ordem.
PALAVRAS CHAVES
J USTIA; KING LEAR; LITERATURA; DIREITO.
ABSTRACT
William Shakespeares magnificent work, King Lear, illustrates the authors
perspicacity to conduct the play according to the ethical and moral standards of that
time. Some characters search for justice brings equilibrium to the dichotomous
universe of good and evil, creating, thus, a harmonious atmosphere for subjects related
to mankind. Therefore, it is our objective to highlight the forms of justice presented by
different writers in association to some literary criticism of Shakespeares works under
Mestranda em Direito Empresarial na Faculdade Milton Campos, Especialista em Direito pela Fundao
Escola Superior do Ministrio Pblico, ex-Professora Substituta do Departamento de Direito da
Universidade Federal de Viosa/MG, Professora de Direito do Trabalho da ESUV.
Mestrando em Direito Empresarial na Faculdade Milton Campos, Advogado, Especialista em Direito,
Professor de Direito Processual Penal da PUCMINAS e da Faculdade de Direito da UNA.
4873
the perspective of the universal Law, in order to better understand human behavior,
society, and the role of justice in the eternal struggle between chaos and order.
KEYWORDS
J USTICE; KING LEAR; LITERATURE; LAW.
I INTRODUO
A riqueza de idias na obra de William Shakespeare, em King Lear, ilustra a
preocupao e a percepo do autor no que cerne s questes de justia. possvel notar
no decorrer do desfecho da histria, o implcito anseio do dramaturgo ingls em resgatar
um equilbrio da ordem moral, mesmo dentro de um cenrio de substanciosa tragdia.
King Lear foi inspirado em lendas da antiga histria da Gr-Bretanha, consideradas, na
poca, como verdicas. Quando William Shakespeare divulgou sua pea, a essncia do
drama j era conhecida pelo pblico. Todavia, o ilustre autor, por meio de sua
imaginao potica, traz ao palco uma criao inovadora com situaes inusitadas,
inesperadas e trgicas, no desenvolvimento temtico do texto.
A obra retrata sentimentos comezinhos do ser humano caracterizados pela
ganncia do poder, pela hipocrisia, pelo cime, pela inveja, pela crueldade, pela mgoa,
pela ingratido, pela vingana, assim como os sentimentos do bem, da verdade, da
honestidade, da humildade e da lealdade. Nesse mesclar de sentimentos e valores,
fazem-se relevantes conflitos e situaes de injustia decorrentes do desrespeito dos
filhos para com seus genitores; da desarmonia e do dio em famlia; do favoritismo por
um dos descendentes; do tratamento desigual do pai para com o filho bastardo; da
infidelidade da esposa; de assassinatos e das distores da verdade.
Nesse contexto, as personagens enquadram-se em categorias dicotmicas
relacionadas ao bem e ao mal. Shakespeare no prioriza uma forma de justia em que os
bons so recompensados e os maus punidos com a morte. A morte, como a maior
expresso da tragdia humana, alcana a quase todos em King Lear, independentemente
das condies humanas inerentes aos perfis do bem ou do mal incorporados por cada
personagem, analogamente ao que ocorre com o ser universal. Morrer , ironicamente, a
maior certeza na vida de cada um. Em Shakespeare, a morte permite ampla reflexo por
4874
seu vasto simbolismo e capacidade em estabelecer o equilbrio da ordem moral no
desfecho da pea. O mundo catico e destrutivo construdo pelo autor se regenera ao
final da trama com o extermnio do mal, com a criao de mrtires e com a retomada do
poder por aqueles que representam o bem, prevalecendo, assim, um discurso revelador
de justia.
II - DESENVOLVIMENTO
A histria inicia-se quando o velho Rei Lear decide entregar o comando de seu
reinado s trs filhas. O Rei pretendia gozar da velhice sem o fardo do governo e suas
responsabilidades, mas fazendo jus sua autoridade. Muito pretensioso, ordena s
filhas, no ato da partilha, que declarem seu amor e gratido por ele, para que possa
determinar a poro do reino que a cada caberia. Assim, as ambiciosas Goneril e Regan,
filhas mais velhas de Lear, atravs de palavras sutis e precisas, que carregam a
intencionalidade retrica do calculista, levam o pai a acreditar num amor grandioso, mas
inexistente. Em contrapartida, Cordelia, a filha mais nova e publicamente apontada por
Lear como sua favorita, no faz elogios ao Rei. Para Cordelia, seu afeto est acima de
qualquer forma de expresso verbal.
1
Declara ao pai que seu amor est no corao e no
nas palavras, que ama como o dever a impe, nem mais nem menos.
2
A irm caula
prefere se abster de sofismos, sacrificando seu dote e afirmando nada pretender do
reino, como uma forma de expressar seu repdio falsidade das palavras proferidas
pelas irms. O Rei, ressentido e enfurecido com as atitudes de Cordelia, renega-a como
filha e transfere a parte do seu dote a Goneril e a Regan. O conde Kent, amigo e
conselheiro de Lear, alerta-lhe sobre o engano cometido e defende Cordelia, mas Lear,
tomado por sentimento de vaidade e raiva, ordena que Kent deixe o reino, caso contrrio
teria a morte. Contudo, a devoo e a lealdade de Kent pelo Rei o fazem permanecer.
Utilizando-se de disfarces, Kent fica ao lado do Rei como um servo fiel. Cordelia,
1
Cordelia [ Aside] Then poor Cordelia!/ And yet not so, since I am sure my loves/ More
ponderous than my tongue (Act I, Scene I, 77-78).
2
Cordelia Unhappy that I am, I cannot heave/ My heart into my mouth. I love your Majesty/
According to my bond, no more nor less (Act I, Scene I, 91-93).
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desprezada e deserdada pelo pai, deixa o reino em companhia do rei da Frana, com
quem se casa.
Nos dois primeiros atos, todos os conflitos de Lear com suas filhas mais velhas
vo lhe extinguindo os poderes de Rei. Goneril e Regan conspiram para se prevenir e
impedir que o Rei possa fazer com elas o que fizera com Cordelia. Temerosas, impedem
que o pai mantenha seus cavaleiros, foras de luta que poderiam facilmente iniciar uma
revoluo palaciana, avocando o poder. Menosprezado e repelido pelas filhas, o Rei
Lear passa a viver como um mendigo na companhia do disfarado Kent. As tempestades
na charneca, simblicas do tormento fsico e psquico que se processam em Lear,
associam-se aos momentos em que o Rei, no limite entre a conscincia e a
inconscincia, reflete sobre a ingratido das filhas, que o leva insanidade mental. Nos
meandros da loucura, Lear tem a percepo do engano e da verdade. A partir de ento,
passa a entender que o amor e a lealdade no podem ser quantificados como ele queria.
Em contraposio aos valores negativos associados Regan e Goneril,
Cordelia e Kent representam um dos mais significativos elementos na concretizao do
ideal de justia: a verdade. Assim, a partir do pressuposto da coexistncia indissolvel
entre a justia e a verdade, visto ser inadmissvel que um fato mentiroso possa amparar
o ideal de justia, as personagens de Cordelia e Kent ganham relevante dimenso por
simbolizarem a prpria figura da justia que, obviamente, no pode ser resumida
somente na verdade. Partindo do axioma no fazer aos outros o que no quereis que
vos faam, tem-se outro princpio que representaria um guia de conscincia seguro
para aqueles que seguem o caminho da justia. O ser humano deseja ver respeitados os
seus direitos. Se h a incerteza do que fazer em relao ao seu semelhante, deve-se
questionar como desejaria que se fizesse consigo mesmo em semelhante circunstncia.
Frye (1999), quanto falta de gratido das irms, esclarece que outro sentimento
no se poderia esperar da criao de Shakespeare e seus conhecimentos sobre a natureza
humana. Apesar da hipocrisia nas declaraes de amor ao Rei, as duas filhas mais
velhas encontram-se em situao constrangedora frente exigncia, um tanto quanto
infantil e inadequada do Rei Lear, que expressassem sua admirao pelo pai como
condio para terem direito herana. Passam por situao vexatria e humilhante em
prestar elogios publicamente ao pai, principalmente quando este em nenhum momento
demonstra afeio e amor por elas. O Rei sempre nutrira devoo filha caula,
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causando cimes e indignao nas filhas mais velhas. Goneril e Regan sentem-se
rejeitadas e tratadas por Lear de forma desigual em relao Cordelia.
Antes de considerar as irms mais velhas vils e injustas, como fazem muitos
crticos, faz-se necessrio aduzir que a elas foi suprimido o elemento igualdade. Regan e
Goneril so tambm vtimas da ignorncia de Lear em concomitncia Cordelia e a
Kent. Conforme j ressaltado, para se pautar na justia, no se deve buscar o amparo
somente da verdade, mas tambm em outros postulados como a igualdade. No
desenvolver desse pensamento, averigua-se que as atitudes de Regan e Goneril, em
relao ao Rei, so inicialmente defensivas. A estranheza do comportamento do pai,
acrescida dos sentimentos discriminatrios existentes no relacionamento pai e filhas, faz
com que Regan e Goneril ajam de maneira a assegurarem o poder a elas delegado, os
bens herdados e uma possvel rejeio. A desconfiana que se instaura baseada na
falta de amor entre eles e na reao inesperada do pai para com a filha mais nova.
A relao justia e igualdade violentada no privilgio injustificado,
caracterizando-se uma desigualdade. Questionamentos sobre a preferncia de Lear por
Cordelia so levantados. Schnaid (2004), ao prelecionar sobre a noo de justia, utiliza
como exemplo a metfora da ma que, em termos quantitativos, ilustra a desigualdade
e a preferncia infundada. Para o autor, o pai que d as trs mas que possui, para um
dentre os seus filhos, injusto ao privilegiar um s. Sobre isso Aristteles (apud
KAUFMAN, 2004) ressalta que a justia distributiva
3
no se apresenta como uma
igualdade numrica, mas sim uma igualdade proporcional. O igual um meio termo
entre tudo e nada. Assim, se o igual algo intermdio, o direito tambm algo
intermdio e portanto algo proporcional. Analogamente, Lear se dispe de forma
desproporcional a diviso de suas terras, no somente como resultado da impreviso
momentnea da situao criada por ele prprio, mas como conseqncia de intenes de
favoritismo a uma das filhas em detrimento das outras. A incapacidade de Lear em
perceber a inadequao de suas atitudes, nas trs funes sociais que lhe cabem, de Rei,
pai e homem, leva-o a desencadear uma srie de injustias impossveis de serem
3
A justia distributiva aquela que se exterioriza na distribuio de honras, de bens materiais
ou de qualquer outra coisa divisvel entre os que participam do sistema poltico (OPPENHEIM, 1994, p.
662).
4877
minimizadas e resgatadas. Ferido na sua vaidade de Rei, o homem se torna cego para
discernir a verdade e agir sob a luz da justia e do amor, deixando de cumprir o seu
papel de pai. Discriminadamente, divide as terras em duas partes, deserdando Cordelia.
Uma simples partilha que primeiramente parecia inofensiva nos propsitos do Rei, uma
vez que ele utiliza argumento quase pueril para introduzir a questo, adquire por
inobservncia e indevida colocao da importncia e seriedade do assunto, uma
dimenso desproporcional. O desafeto aliado s atitudes equivocadas desencadeia a
desarmonia familiar, instalando-se um processo desenfreado de injustia.
A idia de igualdade encontra-se sempre atrelada s teorias dos estudiosos sobre
justia. Na concepo de Kaufman (2004, p. 225), a igualdade representa um dos
elementos caracterizadores da justia formal, segundo a qual o igual deve ser tratado de
forma igual e o diferente de forma proporcional s suas diferenas. Mas, para se poder
determinar o que igual ou o que diferente, faz-se necessrio estabelecer um
paradigma ou um fator comparativo. Desta forma, pode-se afirmar que a igualdade ato
de abstrao da diferena e esta abstrao, diante de um critrio subjetivo de
comparao, no se baseia apenas em preceitos racionais, mas principalmente em uma
deciso de poder, ou melhor, de juzos normativos. Segundo Oppenheim (1994, p.
661), a compreenso de igualitarismo deve ser interpretada no como uma definio do
conceito de J ustia, mas como expresso do princpio normativo de que as normas
igualitrias de distribuio so justas e a no igualitrias so injustas e, portanto,
apenas os preceitos justos poderiam ser aceitos pela sociedade
4
. Complementa suas
idias ressaltando que no apenas as normas emanadas pelo poder estatal, mas tambm
os costumes e os princpios ticos podem ser considerados justos e injustos.
No decorrer da pea, existe a incorporao do subtrama que envolve o conde
Gloucester e seus filhos Edgar e Edmund, filhos biolgico e adotivo, respectivamente.
Edmund, temendo que sua ilegitimidade o pudesse privar da herana do pai, arquiteta
diablico plano. Forja declaraes em uma carta com a letra do irmo, propondo-lhe a
morte do pai e o compartilhamento da metade dos bens da famlia. Gloucester, ao ler a
4
As aes legtimas so justas no sentido restrito de que elas se adequam a um certo sistema
preexistente de lei positiva (OPPENHEIM, 1994, p. 662). Assim, uma ao justa quando exigida ou
permitida pelas normas e injusta, se proibida pelas mesmas. Esse o princpio da legalidade ou da J ustia
formal e abstrata.
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carta, no percebe a leviandade do ato de Edmund e passa a odiar o filho Edgar.
Edmund tambm trama para que o irmo seja induzido a erro e caia como vtima em sua
rede de intrigas. Como parte de sua arquitetura manipuladora, o filho bastardo, diante do
argumento que o genitor encontrava-se demasiadamente ressentido com Edgar,
convence o irmo a se afastar do pai at que passasse sua clera.
O sentimento de cimes e rejeio das irms Regan e Goneril anlogo ao de
Edmund, sendo possvel reiterar a noo de igualdade/desigualdade entrelaada
concepo de justia. Essa interpretao atenta-se para o incio da pea, quando
Gloucester se vangloria, em dilogo com Kent, da forma como Edmund fora concebido
e demonstra certo constrangimento em relao ao filho fruto da folia e no de uma
unio conjugal.
5
No contexto do sculo XVI, um filho bastardo tinha explicitamente um
tratamento diferenciado, portanto desigual, de um filho legtimo, ou seja, daquele
proveniente do casamento e de suas formalidades, reconhecidas pela sociedade.
6
Contudo, apesar do tratamento legal de um filho bastardo no ser o mesmo proferido a
um filho gerado no casamento, na poca elizabethana, no possvel empregar o epteto
de vtima a Edmund como se utilizou para Cordelia, Kent e at certo ponto, para
Goneril e Regan. Em Edmund tem-se a caracterizao de todos os sentimentos
negativos encontrados no enredo que se sobressaem s questes legais da filiao. O
drama enfatiza Gloucester na posio de genitor para ambos os filhos, sem expressar
predileo ao filho Edgar. Considerando que a lei dos homens no o amparava com
5
Kent Is not this your son, my lord?
Gloucester His breeding, sir, hath been at my charge./ I have so often blushd to acknowledge
him, that now/ I am brazd tot.
Kent I cannot conceive you.
Gloucester Sir, this young fellows mother could;/ whereupon she grew round-wombd, and
had indeed,/ sir, a son for her cradle ere she had a husband for her/ bed. Do you smell a fault?
Kent I cannot wish the fault undone, the issue of it/ being so proper.
Gloucester But I have a son, sir, by order of law, some/ year elder than this, who yet is no
dearer in my/ account. Though this knave came something saucily/ to the world before he was sent for,
yet was his/ mother fair, there was good sport at his making, and/ the whoreson must be acknowledgd
(Act I, Scene I, 8-25).
6
Atualmente, no s no Brasil, mas tambm em terras shakespereanas, no existe distino entre
os filhos provenientes do casamento e aqueles concebidos fora do casamento. Ambos possuem os
mesmos direitos e so legtimos.
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direitos, mesmo assim Edmund privilegiado, por gozar do mesmo conforto do irmo.
O bastardo simplesmente pratica o mal de forma aguada, desmedida e imotivada, sem
justificativas para respaldar seu comportamento. Todavia, o simples fato de ser
reconhecido e amado pelo pai no minimiza seu complexo de inferioridade advindo da
filiao natural.
Note-se que a idia de justia impulsionada nas leis desenvolvidas pelo ser
humano, em consonncia aos costumes morais, ao estabelecer direitos que variam
atravs do progresso da sociedade. Situaes que atualmente so consideradas
discriminatrias eram justas e naturais na poca de Shakespeare, como o tratamento
diferenciado legalmente admitido a Edmund. Segundo Oppenheim (1994), nem todas as
aes moralmente boas so justas e nem todas as aes moralmente ms so injustas.
Gloucester poderia outorgar todos os bens exclusivamente ao filho natural no
atribuindo qualquer parte de seu patrimnio a Edmund, sem romper os preceitos de
justia vigentes no sculo XVI, apesar de poderem ser considerados como moralmente
errados. Nesse sentido, compreende-se que o conceito de justia est no apenas
atrelado ao conceito de bem ou mal, mas sim ao de direito, no sentido de direito legal.
Utilizando-se das idias de Schnaid (2004), fcil definir direitos e o que
justo, mas difcil e raro perceber as obrigaes pessoais para com outrem. Lear tem
que passar por um processo de catarse para atingir uma compreenso de suas
responsabilidades em relao aos seus semelhantes. notria a existncia de um
sentimento profundo do ser, de satisfao ou de indignao, em face do que o senso
comum considera uma justia ou injustia. Mas o julgamento do que seja ou no justo,
em reflexo pessoal do prprio comportamento individual, torna-se rduo e complexo,
devido natureza do ser humano de maquiar suas prprias fraquezas. A auto-reflexo
de suas atitudes feita pelo Rei, aps ser expulso do Reino pelas filhas mais velhas. Ao
vagar em terreno rido e inculto, em total pobreza, ao lado de Kent, o processo catrtico
de Lear o conduz retrospeco de sua vida, fazendo-o capaz de visualizar a atitude das
filhas e compreender tambm a dimenso de seus erros, ou seja, de suas injustias.
O encontro de Lear e Kent com Edgar simboliza a aproximao dos injustiados,
que se unem na tormenta de seus infortnios, ao procurarem abrigo para se protegerem
da tempestade interior e exterior que os assola. Tanto Kent quanto Edgar encontram-se
disfarados em seres miserveis. Edgar serve-se da representao de um dbil mendigo,
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com nome de Tom, desprovido de roupas e revestido de barro no rosto. Ironicamente,
a bondade e a verdade tm que ser camufladas para que no sejam extirpadas e para que
possam levar a luz aos coraes ainda envolvidos por sentimentos vis.
Paralelamente ao desenrolar desses acontecimentos, Gloucester procura Lear
para informar-lhe da carta que recebera sobre a aproximao da armada francesa,
mobilizada por Cordelia e seu marido, a fim de vingar o cruel tratamento de Regan e
Goneril para com o Rei. Diante disso, Gloucester punido pela atitude de benevolncia
ao Rei. Cornwall, marido de Regan, arranca-lhe os olhos, perante o consentimento das
filhas de Lear e Edmund. Um dos criados de Gloucester, que presencia impressionado a
atrocidade do ato, ataca Cornwall. Regan mata o criado, mas Cornwall fica tambm
mortalmente ferido com a luta.
A reao do servo na defesa de Gloucester, em repdio ao cruel de
Cornwall, pode ser caracterizada como um julgamento de justia do homem diante da
violncia presenciada. No se faz necessrio conceituar a justia, para que o ser humano
a compreenda e exercite. O sentimento de justia natural e est no corao dos seres
mais simples e primitivos, como um servo, at dos mais cultos e desenvolvidos. A
justia consiste no respeito dos direitos de cada um, sendo que estes direitos podem ser
determinados pelas leis natural e humana. Partindo do pressuposto primrio que a
justia vincula-se ao respeito dos direitos de cada um, especula-se aqui uma possvel
preocupao do autor em trazer um equilbrio mrbida cena, com a defesa de
Gloucester pelo servo e a morte de Cornwall. O servo no suporta ver a dor do decrpito
Gloucester e movido pelos preceitos da justia, inspira-se no princpio de talio, olho
por olho, dente por dente, para revidar a agresso sofrida pelo homem.
Interessante ressaltar que Cornwall, antes da ao criminosa, demonstra cincia
sobre a ilegalidade da leso infringida. Shakespeare revela nas palavras da personagem
a percepo de que tais atitudes vo contra as noes mais rudimentares de justia.
7
Cornwall compreende que tal ato de insensatez vai contra a lei dos homens, mas
acredita que sua posio de duque o torna superior e inatingvel, por isso no se exime
em retirar um dos mais preciosos sentidos de um homem. Para o filsofo Plato, a
7
Cornwall: Though well we may not pass upon his life/ Without the form of justice, yet our
power/ Shall do a court sy to our wrath, which men/ May blame, but not control (Act III, Scene VII, 24-
27).
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J ustia uma afirmao de um valor moral, uma profisso de f no bem (apud
KELSEN, 2000:273). A justia seria um sentimento do bem, apontado na moral. Plato
tambm traa as diretrizes de um princpio denominado por ele como supremo que se
resume seguinte frase: "aquele que comete uma injustia, deve pagar por ela" (apud
KELSEN, 2000:276). E assim o faz Shakespeare, consciente ou inconscientemente,
fazendo prevalecer a justia com a morte de Cornwall.
Ironicamente, a tragdia inicia-se e consuma-se no seio da clula mater da
sociedade. Quando Gloucester se desespera com a pena da escurido que o condena
para toda vida, diz a Regan que o filho Edmund iria revidar seu sofrimento. Entretanto,
Regan lhe revela que Edmund no s o odeia, mas o prprio delator da carta enviada
por Cordelia.
Trado e abandonado, Glousceter conduzido por um velho criado e encontra
com Edgar, que ainda utiliza-se da figura do louco Tom. O filho reconhece o pai e passa
a ampar-lo na adversidade, sem revelar sua verdadeira identidade. Torna-se guia do pai
e ambos seguem caminho em direo cidade de Dover. Vale mencionar a habilidade
de Shakespeare em apresentar as semelhanas entre a trama e a subtrama,
simultaneamente apresentao das diferenas que delimitam as personalidades de cada
personagem, relativas ao grau de moralidade que permeia a identidade social do
indivduo. A dignidade e integridade do carter de Edgar so inabalveis, mesmo face
cegueira moral do pai, tornando-se, no anonimato, luz a compensar a cegueira tambm
fsica do genitor.
A situao de infidelidade torna-se evidente aps a morte de Cornwal. Regan
passa a ter o caminho livre para se casar com Edmund, a quem dedica explcita paixo,
assim como sua irm Goneril. As duas irms, supostamente aliadas, encontram-se em
disputa pelo amor de Edmund. Diante de um amor doentio, Goneril no se contm de
cimes e declara preferir perder a guerra contra a Frana a perder Edmund para Regan.
O duque de Albany, marido de Goneril que no incio da trama parece no apresentar
muita relevncia, enobrece-se ao final da tragdia, por se pautar de atitudes ticas e
morais. Odiado pela esposa Goneril, Albany intenta corrigir as crueldades feitas por sua
mulher, por Regan e por Edmund.
Prosseguindo para o desenlace da histria, Edgar luta e mata Oswald, intendente
de Goneril, que traz consigo carta da duquesa para Edmund, declarando-lhe amor e
4882
pedindo-lhe para matar seu marido, o duque de Albany. Edgar envia a carta para Albany
para as devidas providncias. Na seqncia dos acontecimentos, Gloucester morre de
fraqueza pelo ferimento dos olhos e de desgosto, aps a revelao do filho sobre sua
verdadeira identidade. Dentro de um mesmo interstcio temporal, Kent leva Lear ao
encontro de Cordelia, que o aguarda com cuidados mdicos para curar-lhe os maus
tratos da penria. Posteriormente, so presos por Edmund que passa a comandar a
armada britnica.
Assim, caracterizadas por acontecimentos paralelos e sucessivos, as cenas de
maior tenso se desencadeiam. Cada vez mais, as mortes ganham fortes dimenses pela
riqueza de seus significados e pelo anseio do dramaturgo em restabelecer a ordem.
Albany, ciente dos planos da esposa, ordena a priso de Edmund mediante acusao de
traio. Goneril se desespera ao descobrir que o marido tem conhecimento da carta que
enviara para Edmund. Descontrolada, envenena a irm e depois apunhala seu corao
com uma faca. Regan e Goneril so sacrificadas pela prpria maldade que as
consomem.
Importante aduzir que o excesso explcito do incio ao fim da tragdia. Ao
mesmo tempo, as personagens amam ou odeiam demais (BLOON, 1998, p. 595).
Lear, Edgar, Cordelia, Gloucester e Kent sofrem por excesso de amor, enquanto Goneril
e Regan por excesso de inveja. J Edmund personagem to demonaco que se investe
de total niilismo, no sendo possvel compreender os motivos de exacerbada crueldade e
busca incessante pelo poder. Nesse cenrio, os sentimentos do leitor tambm oscilam
aos extremos, a um s tempo capaz de se indignar e se sentir vontade, fazendo seu
prprio juzo de valorao moral.
A agitao permanece iminente para os apreciadores de King Lear, quando
Edgar e Edmund se encontram em combate mortal, precedido de chocante revelao nos
ltimos suspiros de Edmund. Ele, juntamente com Goneril, havia planejado o
enforcamento de Cordelia, que seria anunciado a todos como suicdio, para fragilizar
ainda mais o Rei Lear. Mesmo diante da morte, Edmund diabolicamente se vangloria,
expressando seu contentamento ao ver o fim de duas mulheres que nutriam cime
doentio por ele. Interessante se faz notar que Shakespeare no permite que suas
personagens oscilem entre o bem e o mal. H no microcosmo do dramaturgo dois plos
distintos que delimitam os padres morais de uma sociedade. Verifica-se um crescendo
4883
nas atitudes das personagens, seja em direo ao bem ou em direo ao mal. Entretanto,
Lear e Gloucester refletem em suas atitudes, movimentos ainda vulnerveis aos sentidos
opostos de moralidade, motivo pelo qual devem passar por purgaes para que suas
cegueiras interiores possam ser iluminadas por sentimentos nobres.
Todos os movimentos da trama se direcionam reconquista da ordem e da
moral. A tentativa de Albany em salvar Cordelia do enforcamento chega tarde demais.
Cordelia aparece morta nos braos inconsolveis do Rei, tomado pela angstia e
lamento da perda da nica filha que o amara. Finalmente, Lear pede perdo a Kent por
sua intransigncia e ingratido. A morte de Cordelia surge como o mais significante
elemento de preservao da ordem natural. O Rei Lear, penalizado pela desgraa de
Cordelia e atormentado por sua incapacidade em reconhecer a verdade, num gesto de
dor extrema, morre, pois nada mais haveria a reparar.
O excessivo derramamento de sangue, resultado da trama, era para a poca, e
ainda o , bastante impressionante e assustador. O final de King Lear jamais havia sido
encenado em sua forma original at o sculo XIX. Frye (1999) destaca que os diretores
das verses flmicas criavam uma nova verso em que Cordelia se casava com Edgar.
Essa mudana ocorre porque a expectativa do leitor que as personagens simblicas do
bem sejam vitoriosas, visto que a traduo de recompensa se faz no pensamento
humano com a preservao da vida. Assim, quando o leitor se encaminha para um
desfecho aparentemente sereno, com a punio de Edmund e o restabelecimento do
afeto entre pais e filhos, h uma ruptura na linha de pensamento crtico do leitor, ao ser
surpreendido com a viso pattica de Lear com Cordelia nos braos, alusiva ao Cristo
morto nos braos da me. Toda essa rede de acontecimentos fatdicos, intrinsecamente
interligados na construo arabesca da escritura, dolorosa para o leitor e para a platia.
Porm, faz-se necessria uma anlise criteriosa dos motivos que levaram Shakespeare,
profundo conhecedor do ser humano, a apresentar a mortandade do cenrio final. Para
Bloom (1994), Shakespeare sabe mais sobre a natureza humana do que o leitor
consegue captar em suas peas. Em vista disso, as verses cinematogrficas e teatrais da
contemporaneidade representam a cena final como no texto original.
A morte de Cordelia uma situao problemtica, delicada e de forte
simbolismo. A personagem , para Rosenblum (1998), uma vtima absolutamente
inocente do mal que a rodeia. Ela morre gratuitamente, no por exigncia do enredo,
4884
mas para deixar a mensagem de que ela esperou demais por justia. Quando a verdade
finalmente sobrepuja a mentira, o reconhecimento chega tarde demais.
No final da tragdia, os nicos sobreviventes so Kent, o Conde de Albany e
Edgar, que fica responsvel por reconstruir um pas devastado pela inveja, traio,
cimes e guerra.
Assim, como no mundo da fico, a histria da humanidade traada de guerras
sanguinrias. Sofrimento e destruio, implantados sob a bandeira de ideais nobres,
continuam a ser elementos na escritura da histria, construda, destruda e reconstruda
ciclicamente sob a invocao de contendores que clamam por aquilo que supostamente
consideram justo.
Plato admite a existncia do direito natural, como aquele advindo de um ente
superior (Deus), que no estaria positivado em cdigos ou leis. Ao mesmo tempo, prega
a existncia do direito positivo, criado pelos homens, representantes dos demais, para
guiar a atuao dos entes sociais. Ento, seja contrariando o direito natural, seja
contrariando o direito positivo, verifica-se a produo de um estado de injustia.
Note-se que a justia permeada nos valores morais pensada pelo filsofo e
buscada at os dias atuais est cada vez mais escassa. Pelo menos esse o sentimento
que paira sobre a maioria das pessoas. Tal problema no pode ser associado ao
pessimismo de cada indivduo social, mas sim, ao sentimento de impunidade que marca
as instituies sociais.
Uma das idias guia de justia na conscincia do ser social pode ser traduzida na
mxima no fazer aos outros o que no quereis que vos faam. Este o norte
determinante para ir ao encontro da justia. Segundo Kant, o princpio da justia dispe
que um comportamento justo se a liberdade para realiz-lo compatvel com a
liberdade de todos, sob uma regra geral. Nesse mesmo sentido, Leonard Nelson cita a
seguinte regra: Nunca atues de tal modo que no aprovarias a ao se os interesses
afetados fossem os teus (apud SCHNAID, 2004, p. 158).
Shakespeare, em King Lear, fornece ao leitor a oportunidade de comparar suas
idias de justia com aquelas apresentadas na obra. Para Bloom (1998), de todas as
peas esta contm uma magnitude que transcende os limites da Literatura. King Lear
capaz de atingir o leitor, pois os tormentos do conflito entre geraes e familiares so
universais. Obviamente, existe uma oscilao das concepes sobre justia entre os
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estudiosos do tema. Kelsen (2003), por exemplo, noticia que Plato no chegou a
afirmar qual seria o conceito de justia. J Kaufman (2004) apresenta duas formas
diversas de justia preconizadas por Aristteles. Uma a justia distributiva que se
exterioriza na distribuio proporcional de direitos e de deveres, apresentando-se como
forma primordial de justia e prpria do direito pblico. A outra a justia comutativa,
prpria do direito privado, implicando em absoluta igualdade entre aquilo que a lei
considera equivalente. Toms de Aquino, citado por Kaufman (2004, p. 232),
completou o sistema aristotlico com uma terceira forma de justia: a justia legal
(iustitia legalis), que pe em relevo o dever do indivduo em face do todo: por exemplo
o dever de votar, deveres judiciais, dever de uso social da propriedade. Contudo, no
necessria a exata conceituao do Instituto para o entendimento e desenvolvimento de
seus preceitos. Alguns so to bvios e eternos que dispensam conceitos delineados.
Respeitar o direito dos semelhantes um deles. Aquele que respeita esses direitos ser
sempre justo. E o limite desse direito ser sempre o de dar ao seu semelhante o mesmo
que se quer para si, em circunstncias iguais e recprocas.
III CONCLUSO
A sociedade moderna vivencia situaes similares s descritas por Shakespeare
h cinco sculos atrs em King Lear. O egosmo, a ganncia pelo poder dentre outros
fatores como a desigualdade social constroem um universo individualista que se no
existisse, as concepes de justia perderiam a utilidade.
Ante ao exposto, o que se pode concluir, utilizando a literatura como fonte
material de apoio compreenso da justia, que algumas noes de tica, retido e
bondade, projetadas ao lado de suas inverses, atravs dos tempos, no so capazes de
delinear em um nico conceito o que representa a justia. Apesar de no ser possvel
conceitua-la em termos descritivos, pode-se equipara-la, por exemplo, legalidade,
imparcialidade, bondade, verdade, igualdade, ao respeito mtuo, no como uma
definio, mas como princpios imperativos dos seres humanos vinculados ao ideal de
justia.
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REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS
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