CRASE
Definição: quando dois “as” se encontram, a preposição “a” e o artigo feminino “a”, em vez de ficarem lado a lado,
um sobrepõe-se ao outro, e seus corpos se esparramam, um sobre o outro, coincidindo tão plenamente, que quem olha
de longe pode até pensar que é um único “a”. Por isso a gramática recomenda que se coloque um sinalzinho (acento
grave “ ` ” em cima dessa sobreposição, para que todo mundo saiba que são dois “as”, embora só se enxergue um.
Exemplo:
a) Dei um livro aa menina. Dei um livro à menina.
OS SETE PECADOS MORTAIS DA CRASE:
Observação: parta sempre do princípio de que só pode haver crase se pudermos provar que a preposição “a” e o artigo
“a” se encontraram e se sobrepuseram.
I PECADO: ANTES DE PALAVRA MASCULINA
Ele está no Rio a serviço. Esse “a” é apenas uma preposição. Não existe o artigo “a” sobreposto a ela, porque é
um absurdo admitirmos um artigo feminino a frente de uma palavra masculina.
II PECADO: ANTES DE ARTIGO INDEFINIDO
Chegamos a uma boa conclusão. Esse “a”, novamente, é apenas uma preposição. Não existe o artigo “a”
sobreposto a ela, porque é absurdo admitirmos que se use um artigo definido e um indefinido ao mesmo tempo para
uma mesma palavra.
III PECADO: ANTES DE VERBO
Fomos obrigados a trabalhar. Esse “a” é preposição, porque não existe artigo feminino antes de verbo.
IV PECADO: ANTES DE EXPRESSÃO DE TRATAMENTO
Trouxe uma mensagem a Vossa Majestade. Esse “a” é apenas uma preposição. Não existe artigo sobreposto a ela,
porque, em português, não se emprega artigo antes de expressão de tratamento.
Nota: quando falamos em expressão de tratamento, referimo-nos, exclusivamente, as formas diante das quais se
costuma usar o possessivo “SUA” ou o possessivo “VOSSA”.
V PECADO: ANTES DE PRONOMES PESSOAIS, INDEFINIDOS E DEMONSTRATIVOS
Nota:
Pronomes pessoais: Eu, Tu, Ele, Nós, Vós, Eles.
Pronomes Pessoais Oblíquos: Me, Te, Lhe, Nos, Vos, Se, Mim, Ti, Si.
Pronomes Indefinidos: Alguém, Algum, Qualquer. veja bem: aquela, aquilo, aquele, não são indefinidos pois
fazem referencia a alguém ou alguma coisa.
Pronomes Demonstrativos: Esta, Essa, Qualquer
Exemplos:
a) Nada revelarei a ela.
b) Direi isso a qualquer pessoa.
c) Não me refiro a esta carta.
Os três “as” propostos são apenas preposições, pois não existe artigo antes de pronomes pessoais, demonstrativos ou
indefinidos.
VI PECADO: QUANDO O “A” ESTÁ NO SINGULAR E A PALAVRA SEGUINTE ESTÁ NO PLURAL.
Referimo-nos a moças bonitas.
Esse “a” é apenas preposição. Não existe artigo sobreposto a ela, se existisse, estaria no plural, para concordar com o
substantivo moças, e o “s” estaria aparecendo.
Contudo, estaria correto se dissesse: Referimo-nos às moças bonitas.
VII PECADO: QUANDO ANTES DO A EXISTIR PREPOSIÇÃO.
Compareçam perante a justiça.
Esse “a” é apenas artigo. Não existe preposição “a” sobreposto a ele, visto que a presença da preposição “perante”
repele a presença da preposição “a”: seria absurdo empregarmos duas preposições ao mesmo tempo e diante da
mesma palavra!
Nota: a preposição “até” admite, facultativamente, a presença da preposição “a”: Fomos até a margem ou Fomos até
à margem.
Lista das Preposições:
a, ante, após, até, com, contra, de, desde, durante, em, entre, per, por, perante, para, sob, sobre e sem.
MUITO BEM:
Perdoado dos pecados, não os cometendo mais, é bom ter ciência de que pode haver crase ou não. Para verificarmos
basta substituir a palavra feminina que vem depois do “a” por outro termo, porém masculino. Feita esta substituição,
duas coisas devem ser levadas em conta:
1) O a transforma-se em o:
Leu atentamente a revista. Leu atentamente o livro.
Nesse caso, trata-se de um simples artigo e, portanto, não haverá crase.
2) O a transforma-se em ao:
Refiro-me a menina Refiro-me ao menino.
Nesse caso, trata-se de preposição + artigo e, portanto, haverá crase. Ficando assim:
Refiro-me à menina.
OBSERVAÇÕES:
1. Basta ler o binômio formado pelas palavras X e Y.
Ex.: Chegamos à conclusão de que estávamos errados.
2. Feito isso, troca-se a palavra feminina pela masculina, mesmo que sem sentido na oração.
Chegamos à
conclusão
ao circo ao fundo do mar ao Sargento Garcia
3. Pode, perfeitamente, haver troca de sentido, mas não de FUNÇÃO (sujeito, objeto, adjunto adverbial...).
Assim, numa frase como, por ememplo, “Sentou-se à sombra”, não se pode alegar inexistência de crase
mediante a troca por “Sentou-se o menino”, visto que, na frase original, se supõe que o sujeito seja “ele”, ou
“alguém”, e que “à sombra” seja adjunto adverbial. Já na substituição, tais funções mudam, pois o termo que
vem a ocupar o lugar de “sombra”, que era adjunto adverbial, passa a ser sujeito.
4. Crase antes de localidade feminina, só se a localidade aceitar artigo. Descobre-se isto através da frase-mágica:
a) Cuba é bonita.
b) A Jamaica é bonita.
Obs.: Não esquecer de verificar se a palavra “x” aceita preposição. Ex.: Vou(x) à Bolívia. Quem vai, vai a
algum lugar.
5. A LEDA ou À LEDA?
Antes de nomes femininos de pessoas, comprovada a existência do artigo, torna-se facultativa a crase, visto que,
antes de tais nomes é opcional o uso do artigo.
Contudo, NUNCA haverá artigo a frente de nomes respeitosos como Maria (mãe de Jesus), por exemplo.
6. Crase antes de pronomes possessivos femininos: (minha, tua, sua, nossa, vossa)
Refiro-me
x a sua irmã OPCIONAL Refiro-me a suas irmãs. PROIBIDO
Sing. Sing. x Sing. Plural
Refiro-mePlural
às suas irmãs.
Plural OBRIGATÓRIO
x
Observação Importante: não esqueça de verificar se o termo “x” pede a
preposição “a”. quem se refere, refere-se a alguma coisa.
7. SAIU EXATAMENTE A UMA HORA ou SAIU EXATAMENTE À UMA HORA?
Antes de “uma”, somente haverá crase quando se tratar de numeral. Isso acontece na expressão à uma hora, pode-
se trocar por “ao meio-dia”.
8. O ASSUNTO VAI DA PÁGINA CINCO À OITO.
Palavras como página, hora, moda, empresa, firma, loja, ou palavra usada anteriormente podem funcionar,
ocultamente, para efeito de crase. Comeu um arroz à (moda) Edison, regado a chope.
9. IREI A CAXIAS. / IREI À CAXIAS DA FESTA DA UVA.
Uma localidade feminina que não admite artigo passa a admiti-lo se
estiver especificada.
Exemplos:
- Caxias é bonita.
- A Caxias da Festa da Uva é bonita.
10. CRASE DA PREPOSIÇÃO “A” COM O “A” INICIAL DAS PALAVRAS “AQUELE”, “AQUILO”, “AQUELA”
Elas chegaram àquela conclusão.
O “a” inicial da palavra “aquela” (aquilo, aquele) leva crase quando se tem a necessidade da preposição “a”. Assim, ao invés
de colocarmos a aquela, coloca-se àquela.
Dica: na prática, basta trocar as palavras aquela, aquele, aquilo por esta, este, isto. Se na troca surgir a esta (ou a este, a isto),
existirá acento de crase.
Exemplo: Refiro-me àquele exercício. (Refiro-me a este exercício).
Se surgir apenas este (ou esta, isto), não existirá acento.
Exemplo: Fiz aquele exercício. (Fiz este exercício).
Novamente percebemos a necessidade de verificar se o termo “x”, o verbo, pede a preposição “a”. O verbo fazer, por
exemplo, não precisa desta preposição, pois quem FAZ, faz alguma coisa e não a alguma coisa.
11. REGRA DA RÉ: CRASE NAS EXPRESSÕES “A QUE”, “A DE”, “A QUAL”.
Para verificar a ocorrência deste tipo de crase, devemos “dar a ré”, ou
seja, passar para o masculino a parte que vem antes do “a”. Efetuada a
transformação, observemos o seguinte:
Se surgir apenas “O” ou apenas “A”, não haverá crase:
Exemplos:
- Essa história é triste; a que li ontem era mais alegre.
- Esse conto é triste; o que li ontem era mais alegre.
- Tua casa é grande; a de tua irmã é bem menor.
- Teu apartamento é grande; o de tua irmã é bem menor.
- A menina a qual chegou atrasada é minha irmã.
- O menino o qual chegou atrasado é meu irmão.
Se surgir “AO”, existirá crase:
Exemplos:
- Quero uma casa igual a que vi ontem.
- Quero um apartamento igual ao que vi ontem.
- Obtive uma nota inferior a de tua irmã.
- Obtive um conceito inferior ao de tua irmã.
- A moça a qual deste o livro é professora.
- O moço ao qual deste o livro é professor.
NOTA: A crase nas expressões “a que” e “a de” só merece ser
analisada, se a palavra anterior a tais expressões for feminina. Se tal
palavra for masculina NÃO existe crase.
12. CASOS DE CRASE NA PREPOSIÇÃO “A” SEM INTERPOSIÇÃO DO ARTIGO “A”.
Antigamente, mas cuidado pois, alguns livros e até provas aparecem com esta característica do passado, alegava-
se que, em locuções adverbiais femininas, a exemplo de “vender a vista”, a crase era proibitiva, por se tratar
apenas da preposição “a”. O que seria comparável com “vender a prazo”.
Pois bem, atualmente, numa expressão como “vender à vista”, graças à valorização do estudo da ambiguidade,
que é o mesmo que duplo sentido, o redator moderno prefere indicar o acento grave, mesmo admitindo que exista
apenas a preposição “a”, ao menos quando sua intenção não é vender a própria vista, ou seja, o próprio olho.
Outros exemplos:
- Pintar a mão: pintar a própria mão.
- Pintar à mão: pintar com a mão, usando a mão.
- Receber a bala: receber uma bala de alguém.
- Receber à bala: receber alguém com bala.
- Desenhar a caneta: desenhar uma caneta.
- Desenhar à caneta: desenhar com uma caneta.
- Possuir a força: ter a força.
- Possuir à força: tomar alguma coisa por meio da força.
- Cheirar a gasolina: aspirar o cheiro da gasolina.
- Cheirar à gasolina: estar com cheiro de gasolina.
Matar a fome: comer.
Matar à fome: matar alguém pela fome.
13. EXPRESSÕES FEMININAS SEM INDICAÇÃO DE CRASE:
Modernamente, as locuções adverbiais femininas garantidamente sem crase são apenas as locuções duplas, a
exemplo de “cara a cara”, “face a face”, “frente a frente”, etc. Nessas expressões o “a” será sempre uma mera
preposição, pois são termos que não avocam qualquer situação de ambigüidade.
14. EXPRESSÕES FEMININAS COM INDICAÇÃO FACULTAVIVA DE CRASE:
Há casos, raros, em que tanto se poderá defender a existência do artigo e da preposição, como apenas a existência
da preposição, sendo que o caráter indefinido ou genérico do contexto nos inclina mais para usar apenas a
preposição.
Exemplos:
Não estou falando da rainha da Inglaterra. Refiro-me a (à) rainha de carnaval, dessas com coroa
de lata e mandato de um ano.
=
Não estou falando da rainha da Inglaterra. Refiro-me a rei de carnaval, desses com coroa de lata
e mandato de um ano.
Ou
Não estou falando da rainha da Inglaterra. Refiro-me ao rei de carnaval, desses com coroa de lata
e mandato de um ano.
15. CASOS ESTRATIFICADOS DE INDICAÇÃO DE CRASE: (CASA, TERRA, DISTÂNCIA)
Há três antigas construções em que a tradição consagrou o uso da crase sem maior atualização ou argumentação
sintática. São eles:
CASA:
Ele voltou a casa ou Ele voltou à casa?
Admitida a existência de preposição, usar-se-á crase antes da palavra “casa”, se esta palavra estiver
determinada, isto é, acompanhada de um termo ou expressão que a especifique: casa de Paulo, casa
de Maria, casa Primavera, casa de campo...
Exemplos:
- O filho voltou à casa paterna.
- Dirigiu-se à casa Primavera.
- Ele foi à casa de praia.
Contudo, se o termo “casa” não estiver determinado, não haverá crase. Ele voltou a casa.
TERRA
Chegaremos a terra ou Chegaremos à terra?
Mesma regra para a expressão “a terra”, quando se opõe a expressão “a bordo”, só aceita indicação
de crase se estiver determinada. Assim, indicaremos crase em frases como:
- Chegaremos à terra prometida.
- Desceremos à terra dos anõezinhos.
Mas não indicaremos crase em frases como “Desceremos a terra”, pois a expressão não está
determinada.
NOTA: Atente-se para o fato de que, neste tipo de frase, se supõe que o falante está a bordo de um
veículo (navio, carro, avião...). Não fosse assim, não se estaria empregando terra em oposição a
bordo e, por isso mesmo, o termo “terra” não faria jus a uma regra especial. Aí teria tal termo que
submeter-se a regra comum de crase. Exemplo:
- Ele caminhava dentro da mata e, para defender-se das bombas, atirou-se à terra.
DISTÂNCIA
Eu vejo a distância ou Eu vejo à distância?
CUIDADO: Há autores que preconizam o uso da crase na expressão “a distância” somente que o
termo está especificado. Sendo assim, somente haverá crase em:
- Eu vejo à distância de dois metros.
Mas não haveria em:
- Eu vejo a distância.
O CUIDADO a que me refiro é a respeito das provas e concursos. Tomando-se em conta que
distância, por si só, é algo abstrato, suponho que ninguém vê a própria distância, senão algo em
uma determinada distância. É o que prega a redação moderna.