Jos de Alencar, Til, romance 1871-1872 Roteiro de Leitura 1.
Os personagens a) Berta (tambm chamada de Inh e Til) Associando-se a lembrana original do idiota, disse-lhe a menina, ajudando a palavra com mmica expressiva e apontando para a carta. - Eu sou til! Esteve Brs um instante pasmo e boquiaberto, sem compreender, apesar da nsia com que afinal bateu palmas de contente e deitou a pular, regougando a sua parva risada. - Eh!... eh!... eh!... Berta, umh!... Berta, umh!... Da em diante aquele sinal, que para o idiota era smbolo de graa, da gentileza e do prazer, tornou-se a imagem de Berta, e no se cansava Brs de o repetir, no por palavras, mas por acenos com os meneios mais extravagantes. Dias depois, chamando-a ele pelo nome, a menina respondeu-lhe: - No me chamo mais Berta; meu nome agora Til. (...) Assim em torno dela, que era o til, Berta foi engenhosamente agrupando todas as letras do alfabeto, com os nomes das pessoas e objetos que a cercavam. Pondo em jogo as broncas paixes do idiota, e colhendo os rudes germes de idia que se formavam em seu bestunto, obteve ela afinal transformar a carta do abec em uma famlia, em um mundo, para a existncia enfezada dessa msera criatura. Ao cabo de um ms, conhecia Brs todo o abecedrio. Que inauditos esforos de pacincia, que sublimes intuies no foram necessrias para vencer esse impossvel! S Berta o poderia conseguir. A fascinao que exercia sobre o idiota era uma sorte de encanto e magia. Sua vontade movia aquele corpo, como se fosse o esprito que o animava. Brs sentia e pensava unicamente pela alma dela, que lhe transmitia as impresses no olhar carinhoso, na voz suave, no sorriso fagueiro. (Captulo - O A-B-C)
O trecho acima, que justifica o nome do livro, mostra como Berta soube alfabetizar Brs usando comos recursos didticos a pacincia e a compreenso daquilo que era importante no mundo dele. Esta capacidade de entender-se com os infelizes a caracterstica mais marcante de Berta.
- No! No! ... exclamou ela. Meu pai s tu, que me recebeste dos braos de minha pobre me, com seu ltimo suspiro. s tu, que a adoravas, como a uma santa; e quando ela deixou este mundo, no tiveste no corao outro sentimento mais, seno dio a todos, menos a mim, que te lembrava ela. Oh! eu compreendo agora, Jo, o que te fez mau!... Mas fiquei eu neste mundo, em lugar dela, para fazer-te bom!... (Captulo - A Enjeitada)
Berta declara a Jo Fera que ela o considerava seu verdadeiro pai. Ela compreende que foi a violncia cometida contra Besita que o fez um homem mau, mas Berta acreditava que sua misso era ajudar a reabilitar Jo Fera. No final do livro, isso acontece quando Jo abandona a vida de matador de aluguel e passa a trabalhar como humilde lavrador, superando a averso que ele tinha contra o trabalho braal.
- No, Miguel. L todos so felizes! Meu lugar aqui, onde todos sofrem. (...) Quando o sol escondeu-se alm, na cpula da floresta, Berta ergueu-se ao doce lume do crepsculo, e com os olhos engolfados na primeira estrela, rezou a ave-maria, que repetiam, ajoelhados a seus ps, o idiota, a louca e o facnora remido. Como as flores que nascem nos despenhadeiros e algares, onde no penetram os esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar os abismos da misria, que se cavam nas almas, subvertidas pela desgraa. Era a flor da caridade, alma soror. (Captulo - Alma soror)
O trecho acima o final do livro. Berta se recusa a partir para So Paulo com a famlia de Luis Galvo e prefere ficar com aqueles que sofrem. A expresso alma soror (alma irm, em latim) indica resume a bondade e o altrusmo de Berta. b) Lus Galvo Lus Galvo era magano e fragueiro; gostava de bulir com as raparigas e pregar peas aos caipiras. Da resultavam constantes desavenas, em que Jo, para defender o moo, tinha necessidade de desancar os assaltantes pagando em muitas ocasies com a pele as aventuras galantes do jovem patro Uma vez travou-se to renhida a luta, que o Bugre prostrou morto a seus ps um arrieiro com quem Lus Galvo puxara briga (...) Com algum dinheiro tapou-se a boca dos parentes do morto e acomodou-se tudo: de modo que o Bugre continuou a acompanhar ao patro em suas correrias. (Captulo O bugrezinho) A conduta despreocupada e atrevida do jovem Lus Galvo, protegida pela fora fsica de Jo Bugre e pelo poder do pai fazendeiro, era tpica da elite. Mas Lus Galvo era desses homens que vivem muito superfcie dalma, onde o contentamento do mundo, os prazeres efmeros e as impresses do momento formavam uma camada que sopita alguma reminiscncia mais profunda. (Captulo - A Enjeitada)
A superficialidade de sentimentos do personagem e sua capacidade de deixar-se levar pelos prazeres efmeros e impresses do momento so caractersticas que Lus Galvo tem em comum com Brs Cubas e com Leonardinho ( Memrias de um Sargento de Milcias). Nos trs personagens, essa superficialidade resultado da proteo recebida na infncia: Luis Galvo, protegido por Jo e pelo pai fazendeiro; Brs Cubas, protegido pelo pai; Leonardinho, protegido pelo padrinho barbeiro. Em todos esses personagens, a proteo resultou numa liberdade desinibida e no atrevimento. No caso de Lus Galvo e de Brs Cubas, que pertenciam elite, isso se transformou tambm numa certa desfaatez, uma despreocupao com o sentimento e a dignidade das pessoas de condio social inferior. Da a maneira como Luis Galvo se aproveita de Besita e o comportamento mal-intencionado de Brs Cubas em relao a Eugnia.
c) Jo Fera Foi nestas condies que um ricao, informado da valentia de Jo, o tomou para capanga; e bem precisava ele, que no lhe faltavam inimigos. O preceito do Evangelho no fazer aos outros o que no queremos nos faam. Da tinha o mando extrado uma regra para seu uso, a qual em sua opinio, era apenas o complemento da mxima crist. Faamos aos outros o que eles nos pretendem fazer, dizia ele; e sem o menor escrpulo, com perfeita serenidade de conscincia, ia aviando os seus inimigos, para no lhes morrer s mos. Eis o homem a cujo servio esteve Jo durante algum tempo, no s pela necessidade de ganhar a subsistncia, como pela nsia de saciar a sanha terrvel que o devorava. Fez-se instrumento da perversidade do mando; mas essas vinganas no eram seno brigas e combates, em que ele barateava sua vida, ansiando pela morte, que se obstinava em poupa-lo. Sujeito que fugisse e se amedrontasse, no lhe tocava Jo, qualquer que fosse a recompensa ou ameaa do amo. Mas tambm quando se enfurecia, nada aplacava essa alma calcinada pelo fogo surdo que lavrava desde a morte de Besita. Referiam-se desse homem as maiores atrocidades; e a alcunha de Jo Fera que lhe tinham dado por esse tempo, bem revelava a profunda impresso produzida na gente do lugar pelos fatos que ele praticara. Alguns no se explicavam, a no ser pelo delrio sanguinrio que se apodera de certos homens, e no talvez seno a exaltao do hbito levado at a mania. Chamado, pago e protegido por homens poderosos para escolta-los em aventuras e servir s suas paixes, o Bugre recebeu a iniciativa e a animao que iam acostumando seu brao a ferir e a repousar depois do crime, como se tivesse praticado uma honrosa faanha, uma valentia digna de louvor.
Esta com pouca diferena a histria de todos os assassinos incorrigveis, que infestam o interior do pas. Eles foram educados pelos poderosos como os dogues que se adestravam antigamente para a caa humana, dando-lhes a comer, desde pequenos, carne de ndio. (Captulo Fera) Trata-se de um trecho importante, que revela como o Bugre se tornou Jo Fera, matador de aluguel a servio dos fazendeiros da regio. Jo Fera um bandido romantizado. O que o leva violncia no a ganncia, mas o sentimento de amor ofendido e ferido pela morte de Besita, enganada e engravidada por Lus Galvo e assassinada por Ribeiro. Jo Fera bandido porque no consegue realizar sua sede de justia. Por isso, coloca o seu dio a servio dos fazendeiros locais, sempre dispostos a fazer acertos de contas sangrentos. Jo se torna um instrumento a servio da violncia dos latifundirios, violncia que ressaltada na comparao final: Jo Fera era como os ces de caa que, no passado, eram treinados para caar gente (por exemplo, escravos fugidos) e, para isso, eram alimentados com carne de ndio. Como Jo Fera se tornou bandido por razes que ligados a seus sentimentos feridos (o amor que no se realizou, a solido, o dio pela morte de Besita), somente atravs do carinho e da compreenso de Berta, ele poderia se reabilitar e superar sua condio de instrumento de violncia. A trajetria de Jo Fera pode ser comparada de outro bandido romantizado, o jovem Pedro Bala (Capites da Areia). Ele tambm perdeu a famlia muito cedo, caiu no crime por causa da violncia do meio social e da sua condio de pobreza (o pai foi morto durante uma greve), mas decide de sair de sua condio de criminoso. Para isso, encontra foras no seu amor por Dora.
2. A estrutura social O livro Til mostra uma sociedade claramente dividida: - No topo da sociedade, esto os fazendeiros de caf e de cana de acar que dominam a regio de Campinas. Esses fazendeiros controlam a vida poltica local e exercem seu poder pela sua riqueza e atravs da violncia (capangas e matadores de aluguel). Seus filhos recebem educao refinada e so enviados para o curso de Direito em So Paulo. Os homens cuidam da administrao dos bens, mantendo suas esposas e filhos afastados de sua vida profissional e das suas aventuras. As esposas administram as escravas domsticas e cuidavam da educao dos filhos. Os filhos, at a adolescncia, eram mantidos longe de todas as responsabilidades, vivendo uma doce ociosidade que dava ocasio para encontros romnticos, como os encontros de Afonso e Linda, como Berta e Miguel. - Abaixo dos senhores, esto as pessoas pobre e livres, que dependiam dos favores dos ricos e, s vezes, da sua proteo. Essa era a situao dos agregados (como o Bugre, quando jovem) e dos vizinhos pobre como D.
Tudinha. Diante dessa situao de dependncia, era possvel agir com rebeldia e orgulho, como era o caso de Jo Fera, ou com conformismo e submisso, como faziam Miguel e D. Tudinha. - Logo abaixo vinham os escravos (obedientes ou rebeldes), que faziam funcionar o sistema econmico da regio. - Por fim, havia aqueles que eram considerados inteis para o sistema produtivo e no tinham parte na sociedade: os Infelizes, os excludos, que so objeto da preocupao e do carinho de Berta: o escravo velho Pai Quic, a escrava louca Zana, o deficiente mental Brs. Os trechos abaixo exemplificam o grupo dos senhores, dos dependentes e dos escravos. a) O mundo dos senhores Eis como ignorava D. Ermelinda os idlios, que estavam compondo seus filhos, naquele stio pitoresco, onde bebia-se o amor como um doce eflvio da natureza. Tudo ali penetrava o corao de emoes deliciosas. Pelo aveludado daquela relva cintilante espreguiava-se a imaginao, a sonhar o dossel de um div. Os sussurros da brisa nos palmares segredavam os ruge-ruges das sedas; e o borborinho do arroio imitava o trilo de um riso fresco e argentino. (Captulo - Idlios) Na fazenda de Lus Galvo, havia um lugar conhecido como Tanquinho, onde Afonso e Linda (os adolescentes filhos de Lus Galvo) se encontravam com Miguel e Berta. Tratava-se de um cenrio buclico, propcio para os encontros dos quatro jovens. Afonso e Miguel amam Berta; Linda ama Miguel. Esses encontros, cheios de brincadeiras ingnuas e de troca de confisses, se davam sem que Lus Galvo e D. Ermelinda soubessem. Esses idlios (amores tranquilos e inocentes num ambiente buclico) mostram que esses jovens ainda no se deram conta da situao social em que se encontram: - Afonso e Linda so ricos; Berta e Miguel so pobres. Assim que percebe a afeio de Linda por Miguel, D. Ermelinda desaprova totalmente esse amor e chega a sugerir uma mudana da famlia para tentar separ-los. - Esses idlios s so possveis por causa da ociosidade desses jovens. Linda e Afonso seguem as trilhas entre as plantaes, sendo saudados por dezenas de escravos que pleno trabalho na lavoura. - Esses momentos amenos esto em contraste com a violncia da regio, em que fazendeiros se cercam de capangas e se servem de matadores de aluguel como Jo Fera. Por isso, os momentos de idlio no Tanquinho constituem o aspecto evasionista, em que os quatro jovens vivem momentos parte da realidade que os cerca.
b) O mundo dos dependentes (pessoas livres pobres que dependiam dos favores dos ricos) No era ele desses que lanavam conta dos ricos e fartos a culpa de sua pobreza, e se despeitam contra o mundo da ingratido da fortuna. Aceitava sua condio como um fato natural e com certa filosofia prtica, rara em mancebos. (Captulo Sustos) Miguel um exemplo claro da situao dos dependentes. Ele livre, mas fica subordinado aos ricos, contra os quais no pode se rebelar. No final do livro, Berta pede a Lus Galvo que pagasse os estudos de Miguel na faculdade de Direito em So Paulo e permitisse que ele casasse com Linda. Tudo isso um favor que concedido a Miguel, a pedido de Berta. Em vrias obras do Romantismo, do Realismo e do Naturalismo, a situao dos dependentes a de resignao e de pacincia, espera da boa vontade dos ricos. Alencar elogia o comportamento resignado e conformista de Miguel. Nisso o autor refora uma viso conservadora, em que importante no se rebelar e no colocar nos ricos a culpa pelas desigualdades sociais. Miguel aceitava a desigualdade como um fato natural e no uma situao criada pelos homens. Nesse aspecto, Miguel est no extremo oposto de Drummond, nos poemas de Sentimento do Mundo, em que ele critica a desigualdade social. O trabalho, ele o tinha como vergonha, pois o poria ao nvel de escravo. Prejuzo este, que desde tempos remotos dominava a caipiragem de So Paulo, e se apurava nesse homem, cujo esprito de sobranceira independncia havia robustecido a luta que travara contra a sociedade. Era a enxada para ele um instrumento vil; o machado e a foice ainda concebia que os pudesse empunhar a mo do homem livre; mas em seu prprio servio, para abater o esteio da choa ou abrir caminho atravs da floresta. (Captulo Desencargo) Uma das condies em que mais se evidencia a dependncia das pessoas livres em relao aos ricos a situao de agregado. Jo Fera tinha sido agregado na fazenda do pai de Lus Galvo, mas ficado indignado com o comportamento de Lus em relao a Besita. Jo queria ser independente, mas se recusava a ganhar a vida exercendo algum trabalho braal por sentir que isso seria rebaixlo ao nvel dos escravos. Ento passou a trabalhar como capanga e matador de aluguel, o que constitua um outro tipo de dependncia, pois ainda se estava a servio de fazendeiros ricos. Segundo Jos de Alencar, o preconceito contra o trabalho caracteriza a caipiragem de So Paulo, mas seria mais correto dizer que isso era uma caracterstica da sociedade escravista e pode ser encontrado em outras obras
como Memrias de um Sargento de Milcias, Memrias Pstumas de Brs Cubas e O Cortio. c) O mundo dos escravos Nisto apontou a mucama janela. - Falta muito ainda, Rosa? perguntou o mulato. - J est acabando. No tem tempo de ir mais roa, ver Florncia, no, rapaz. - Ai, que dor de canela! - Ixe! Quem conta com pajem! - Assim, menina! exclamou o camarada. Tem aqui uma barra para seu pimpo. - Sai da! chasqueou o mulato. Jabuticabinha de sinh l para o beio de caipira? V comer sua broa de milho, homem, e deixe de partes. A mucama soltou uma risada, e desapareceu de repente a um puxo que de dentro lhe deu o pajem Faustino. - Assim que serve a mesa? - Salta, moleque! Menos confiana comigo. - H xente! Moleque como ns. Tenho muita xibana nisso. No como esse mestio do inferno, cor de burro, mas voc no tem vergonha mesmo de vir engraar com ele na janela. - Sinh est ouvindo! Eu c me no me embarao. ( Captulo O Marmanjo) Neste dilogo fica evidente a preocupao de Alencar de reproduzir a linguagem coloquial dos escravos (enquanto o narrador em 3 pessoa mantm a linguagem culta). Interjeies como Ixe! e H xente! ainda fazem parte da linguagem coloquial de certas regies do Brasil. Em torno da fogueira, j esbarrondada pelo cho, que ela cobriu de brasido e cinzas, danas os pretos o samba com um frenesi que toca o delrio. No se descreve, nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar-se. Tudo salta, at os crioulinhos que esperneiam no cangote das mes, ou se enrolam nas saias das raparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e pincham guisa de sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca no espinhao do pai, negro fornido, que no sabendo mais como desconjuntarse, atirou consigo ao cho e comeou de rabanar como um peixe em seco. No furor pelo remexido infernal, alguns negros arremetiam contra a fogueira esapateiam em cima do borralho ardente, a escorrer do braseiro. ( ...) Entretanto o negrinho, a requebrar-se, abria o queixo e atroava os ares com esta cantiga: Candonga, deixa de partes melhor desenganar,
Que este negro da carepa No h fogo pra queimar Salvo os rr finais que ele engulia e os ll afogados em um hiato fanhoso, tudo o mais era produo do estro africano e da sua veia de improviso. (Captulo O Samba) Alm da linguagem falada pelos escravos, Alencar apresenta tambm certos costumes, como o samba danado na senzala, ao som de um canto improvisado. evidente que Alencar (como homem branco da elite urbana) destaca o aspecto extico do samba, ressaltando os aspectos grotescos e frenticos (os corpos se sacudindo e retorcendo) e destacando os erros de pronncia de quem improvisava o canto.
3. A realidade regional O enredo do livro Til cheio de situaes inverossmeis e mirabolantes (as proezas fsicas de Jo Fera, os seus deslocamentos rpidos, a maneira como salva Berta e pai Quic de uma ataque de queixadas, a maneira como foge da cadeia etc). No entanto, Jos de Alencar procurou apresentar com bastante fidelidade os costumes e tradies caipiras e o modo de vida na fazenda. Esse compromisso com a realidade das prticas populares e dos modos de falar coloquiais um aspecto que permite uma comparao de Til com Memrias de um Sargento de Milcias: a) atividade agrcola Texto 1 - O solo a, como em toda a cercania, cobre-se de uma crosta da argila roxa, afamada na provncia por sua espantosa fertilidade. (Captulo Monjolo) Texto 2 - Assim atravessaram os canaviais, divididos em alqueires por largas alamedas e carreadores mais estreitos. (...) Entraram em seguida na roa, onde o feijo estava em flor e o milho espigava, agitando os seus louros pendes. Logo adiante ficavam os vastos cafezais, recentemente carpados e j frondosos para mais tarde se cobrirem de bagas escarlates, como fios de corais, entrelaados pela folhagem de brilhante esmeralda.(...) Pela encosta da colina estendia-se o pasto; e na base estava uma capuava onde j se comeara o trabalho da derrubada, e se afolhavam as terras destinadas lavoura de mantimentos, dividindo-a em quartis, como os partidos de canas. Fronteiro ao Palmar, ficava um grande feital que prolongava-se at a orla da mata. Essa terra descansada desde muitos anos j estava convertida em capoeira, que invadindo os carreadores deixava a descoberto apenas o trilho batido pela constante passagem. (Captulo No Tanquinho)
O texto 1 faz referncia terra roxa, propcia ao plantio de caf no Oeste de So Paulo. O texto 2 descreve a distribuio dos cultivos na fazenda (caf, cana, pastos, cultura de subsistncia de feijo e milho para alimentao dos escravos, reas de derrubada de mata para novos plantios e rea em que o solo era deixado em repouso por alguns anos). Trechos como esse permitem questes interdisciplinares entre a literatura, a geografia e a histria.
b) costumes e expresses caipiras Texto 1- Diferentes vezes j, a rapariga lanara um olhar de enfado para a loua ainda suja do servio da vspera, e alongava depois a vista pela porta afora at l embaixo no brejal, onde passava o rego da gua, e media a distncia a percorrer. Abria ento a boca em um interminvel bocejo, espreguiava o lombo estirando os braos; e, quando parecia levantar-se para cuidar na lavagem dos pratos, achatava-se ainda mais no cho, murmurando: Tem tempo! (Captulo A Pousada) O texto acima um bom exemplo da preguia atribuda ao caipira que, mais tarde, se tornou alvo das crticas de Monteiro Lobato (1918), quando este criou a figura de Jeca Tatu (o caipira ignorante, doente e sem iniciativa). A preguia da jovem no texto de Alencar, especialmente a exclamao Tem tempo! antecipa tambm o personagem Macunama, do livro de Mrio de Andrade, famoso pela sua frase Ai que preguia!
Texto 2- Apesar de ter recebido uma instruo regular, que sua inteligncia brilhante desenvolvia com o estudo possvel ao lugar onde habitava e s suas condies de fortuna, conservava Miguel certos hbitos que, durante a infncia, se incrustam na individualidade, da qual dificilmente os arranca mais tarde a prpria vontade. Esses cacoetes de caipira molestavam o tato delicado de Linda, a quem a educao esmerada, que recebera de sua me, dera a fina flor das maneiras e imprimira o tom da mais pura elegncia. Quando Miguel a tratava de mec, ou enrolava diante dela a palha de um cigarro, o corao da menina apertava-se com agastura indescritvel, e ela sofria desgosto igual ao que lhe causaria uma ndoa caindo no mais bonito e faceiro de seus vestidos.(Captulo - Revelao) Apesar de amar Miguel, Linda se choca com os hbitos rsticos do rapaz, que mantinha as tradies caipiras, usando a expresso mec (ao invs de voc) e fumando cigarros de palha. Trata-se do confronto entre o mundo mais refinado dos senhores (que tinham acesso instruo e s modas do Rio de Janeiro, de onde vinha D. Ermelinda) e o mundo mais rstico dos dependentes (que se apegavam s tradies locais). 4. Recursos estilsticos: a) descries idealizantes
Texto 1 - S no sabe o que isto , quem no admirou a espcie de ctis mais delicada, tez suave de bonina bebendo os orvalhos da manh (...) Irm das flores que vivem nos recessos da floresta, onde se coalham em sombra luminosa os raios filtrados pelo crivo das folhas, respira essa beleza o perfume casto da violeta e da baunilha. O trecho uma descrio de Linda, filha de Lus Galvo. Trata-se de um bom exemplo de idealizao romntica. Como acontece frequentemente na obra de Jos de Alencar, as caractersticas de beleza e delicadeza so associadas a elementos da natureza, especialmente do mundo vegetal ( bonina, flores, floresta, folhas, violeta, baunilha). Alencar ressalta, de maneira elogiosa, certos aspectos de Linda: o jeito recatado (irm das flores que vivem nos recessos da floresta) e a pureza (o perfume casto). Texto 2 - Desenhava-se o pequeno e mimoso prado em oval alcatifado e com a alfombra de relva e cingido quase em volta pela floresta emaranhada, que a fechava como panos de muralha, cobertos de verdes tapearias e vistosas colgaduras, apanhadas em sanefas e bambolins de flores. face oposta assomava a soberba colunata do Palmar que estendiase at ali, formando arcarias gticas, fustes elegantes em estilo drico e arabescos rendados de maravilhoso efeito. (Captulo No Tanquinho) O trecho acima faz uma descrio idealizada do Tanquinho, local de encontro de Afonso, Linda, Berta e Miguel. Para enobrecer a paisagem daquele lugar, Alencar recorre a comparaes tiradas da arquitetura e da decorao europeia de vrias pocas (muralha, tapearias, colunata, arcarias gticas, estilo drico e arabescos). Essa tipo de comparao mostra bem que um escritor como Alencar, mesmo sendo nacionalista, dependia das referncias culturais europeias e procurava recri-las como modelo de beleza na paisagem tropical do Brasil.
b) animalizao (zoomorfizao) Texto 1 - Imediatamente, o prximo canavial ondulou, e surdiu na ourela um negro moo, com o corpo nu at a cintura, a camisa atada nos quadris guisa de tanga. Os lanhos das faces indicavam a casta monjola do africano, em cujo rosto se desenhava a astcia do gamb e alguma cousa do focinho desse animal. (Captulo Monjolo) Texto 2 - O perfil adunco e chanfrado, que revestia a beleza feroz e sinistra do abutre, embotou a rispidez, saturando-se de uma bruteza alvar. Intumesceram-se as faces, pouco antes crispadas pela cerrao habitual das maxilas, e tomou tez um tom fouveiro, indcio da ebulio do sangue a ferver-lhe em bolhas no corao. As fulvas pupilas que se encovavam pelas
tmporas, como tigres nas furnas, saltaram das rbitas, dilatadas por um fluido espesso que tinha a fosforescncia felina. (Captulo A Tocaia) Nos trechos acima, Alencar acentua os traos animalescos dos personagens (o escravo Monjolo e Jo Fera). A animalizao um recurso que refora as caractersticas negativas do personagem, tanto do ponto de vista da aparncia fsica quanto do comportamento. No primeiro texto, a aparncia de gamb est associada astcia sorrateira do animal e define o comportamento do escravo Monjolo, um dos escravos que conspiram contra Lus Galvo. No segundo texto, a figura de Jo Fera associada ao perfil do abutre (ressaltando o aspecto sinistro, ligado morte) e s pupilas dilatadas do tigre (prpria do predador que fica de tocaia espera da presa). Tudo isso faz jus ao apelido Fera e brutalidade exterior do personagem. A maneira como Jos de Alencar usa a animalizao antecipa uma das caractersticas do Naturalismo, presente em obras como O Cortio.