CAP{TULO III
Um Mundo Design
A fase II do capitalismo artistico chega ao fim por
volta do fim da década de 70. Se avangamos com a ideia
de uma terceira fase que se implementa a partir da década
de 80, & devido a conjungao de todo um conjunto de fend-
menos tecnoldgicos, politicos, econémicos e estéticos.
£ a0 longo dos anos 80-90 que os computadores pes- j
soais comegam a espalhar-se, pondo ao alcance de um
piblico mais vasto o poder de grandes sistemas informa-
ticos. Os softwares multiplicam-se, 0 que permite trans-
por para 0 ecra a ideia de um objeto a trés dimensoes em
modelo virtual, modificar facilmente as suas caracteristi-
cas, prever as suas reagoes antes mesmo do seu fabrico
industrial. Advento da simulagio virtual que é simultane-
amente automatizagao flexivel. Com o desenvolvimento
dos sistemas informatizados, da concegio ¢ do fabrico
asistidos por computador, da robstica, € uma terceira
revolugao industrial que se manifesta e que altera radical-
mente os métodos de concegao e produgio dos objetos
industriais mas também das indiistrias culturais. A esta
terceira revolugdo industrial corresponde a terceira época
do capitalismo qrtistico.
Num outro plano, a década de 80 e as décadas seguin-
| ®5so dominadas pelas politicas ultraliberais de privati-
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|CamScanner262| © Capitalismo Estético na Era da Globalizagao
zagio, de desregulagéo econémico-financeira, do desen-
volvimento do comércio livre, assim como por uma grande
alteragdo geopolitica (a queda do Muro de Berlim ¢ do
império soviético). Estes fendmenos, a par de deslocaliza-
des das atividades de produgio, conduziram a planetari-
zacao da economia de mercado. A este respeito, a fase IIT
designa a emergéncia de um capitalismo
pela primeira vez globalizado, no qual o trabalho de est
lizagéo da economia jé nao é monopolizado pelo Oci-
dente. Presentemente, cada vez mais nagdes entram na
arena das indistrias de consumo e do divertimento,
Design, luxo, moda, arte, cinema, séries de televisio,
miisica pop, jogos de video, espetéculos desportivo:
quanto mais produces que visem cada vez mais um mer-
cado mundial, mais tertitérios sio objeto de investimento
de muitos paises, nos quais esto, no primeiro patamar,
0s novos gigantes da economia mundial.
Obviamente, os Estados Unidos dominam ainda lar
gamente os mercados do entretenimento mediatico: s6 eles
controlam 50% das exportagdes mundiais. Contudo, na
poca do capitalismo hipermoderno afirma-se uma nova
geopolitica da arte comercial de massas onde novos pro:
tagonistas nao ocidentais tomam por sua vez 0s comandos,
do comboio do capitalismo artistico e tm por objetivo
construir marcas mundiais e indiistrias criativas de enver-
gadura internacional. Comecou uma nova batalha mun-
dial para a cultura mundializada de massas, quer se trate
de produtos materiais ou de entretenimento.
‘Ao que se acrescenta o facto de os fenémenos que exis!
tiam anteriormente (a marca, o marketing, a comunica+
gio, a moda, a renovagio de produtos) ganharem uma
nova amplitude e significagao nas esferas da vida econ6>
mica voltadas para o consumo. A intensificagio da com
corréncia e as novas expectativas dos consumidores lev
ram ao surgimento de uma economia pés-fordiant
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Gcamscanner7 Um Mundo Design 1263
marcada pelo imperativo da inovagio e da hiperdiversifi-
cacao dos produtos. Paralelamente a unificagao mundial
dos mercados a0 desenvolvimento das marcas presentes
em todo o planeta, implanta-se uma diversificagio sem
precedente da oferta e em todos os dominios: objetos,
lojas, estilos, miisica, cinema, séries de televisio.
E neste contexto que os antigos limites que podiam
travar, em certos setores, a escalada da l6gica comercial
sto derrubados em beneficio de uma hipereconomia gene-
ralizada que abrange a arte, os museus, 0 luxo, a moda,
os bens culturais. !Mas uma I6gica excrescente que deve
integrar cada vez. mais a dimensio ética do respeito pelo
ambiente: e este parimetro é novo. Depois da era da cria-
tividade despreocupada, tipica da fase II, impde-se ou
impor-se-d a da criatividade eco-responsavel.
Finalmente, a década de 80 vé a cultura vanguardista
softer as criticas das correntes ditas «pés-modernas» que
entendem revisitar livremente a histéria e as estéticas do
passado em vez de as erradicar. O decorativo e 0 subjeti-
aesa vvismo expressivo j& no séo excomungados: por toda 0
lado, na decoragao, na arquiterura, no design, na moda,
sae na ozinha, na arte, na mtsica, afirmam-se as reutilizagdes \
tnandos dos cédigos do passado, assim como a mistura de géneros.
bietivo Daqui resulta um novo universo eclétco e descoordenado,
eat que vé coabitar 0 kitsch eo high-tech, o retro e as linhas
aoe futuristas, 0 irénico eo polido, as formas emocionais e 0
se trate anonimato funcional. Recuo do total look e aumento de
uma cultura de hibridacao que misturaterrt6rios e esté-
ueexis | _tcas antinémicas: 0 capitalismo artistico terminal mostra-
munics | $806 0 signo do pluralismo transestético e da desregu-
imuma | __lagio generalizada, como mostra a evolucéo do design,
econé+ pelo qual nds comecdmos o exame do novo rosto do capi-
| talismo criativo.
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|CamScanner264| 0 Capitalismo Estético na Era da Globalizagio
DESIGN E ECONOMIA DA VARIEDADE
A fase Il construiu-se ao casar as légicas contrarias do
fordismo tecnicista do sistema da moda. Mas neste con-
junto o primeiro dispositivo tinha prioridade sobre 0
segundo, a producio das séries repettivas dominava as
politicas de diversificagao e de diferenciagao das gamas de
produtos. A massificacio homogénea prevalecia sobre a
variedade e inovacao. A fase III inverte esta organizacio:
pondo em causa os principios fordianos da producio, ela
constituiu-se como uma economia da variedade, da perso-
nalizagdo dos produtos, das série limitadas, da criacio e
dda renovacio hiperacelerada. No momento da concegio.e
da fabricagao assistidas por computador desenvolve-se
uma dindmica de individualizagao dos produtos a partir
de médulos-padrio pré-fabricados. Hoje, € possivel fabri-
car produtos & medida a um custo que no esta muito
Jonge do que é praticado com os produtos estandardiza-
dos. Estamos num momento em que a diversificacio tomou
lugar da repetigao, da inovagao sobre a produgio, o ima
terial sobre 0 material) Nas suas campanhas de publi
cidade, a Renault, simbolo passado da sociedade indus» |
trial, apresenta-se hoje como «criador» de automéveis,
A fase III aparece num momento em que a produgio
fordiana de massa jd no corresponde as exigéncias de
consumidores amplamente equipados com bens durdveis,
mas também aos novos imperativos de comunicacio e de
comercializagio dos produtos. Para fazer face a intensf-
cago da concorréncia, travar 0 recuo do consumo ligado
& saturago dos mercados internos, para melhor respon
der as necessidades de diferencas dos compradores, gent
ralizam-se estes novos modos de simulagio da procura. —*
deka
(©) Em média, o trabalho de fabrico de uma pga de vse
de marca ndo representa mais do que 5% do seu prego de vend
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Um Mundo Design |265
Que sio a segmentagio dos mercados, a proliferagio de
referencias, a declinagao de variantes de produtos a partir
de compostos idénticos, a aceleragio do ritmo de langa-
mento dos novos produtos. © momento é de segmentagio
extrema dos mercados (clientes e produtos), visando fai-
xas etdrias e categorias sociais cada vez mais subdivididas,
oferecendo produtos cada vez mais direcionados, explo-
rando micromercados e as necessidades cada vez mais
diferenciadas. Com a hipersegmentagio dos mercados ¢
com o poder ampliado do marketing, a I6gica-moda que
descolou na fase II intensifica-se ainda mais.
© que rege 0 progresso do capitalismo de hipercon-
sumo é a renovacio constante da oferta, a proliferagao da
variedade(), a exacerbagio da diferenciacdo marginal
de produtos. Os construtores de automéveis ampliam
constantemente a gama de escolhas e variantes, multipli-
cam as novidades, as gamas, as versdes e opgdes. Segundo
‘© gabinete Mercer Management Consulting, os constru-
tores aumentaram de 30% para 70% o nimero de perfis
por modelo entre 1990 e 2004: ao longo deste periodo, a
Peugeot passou de 20 para 29 perfis por série. Em 2008,
a Ikea propunha 9500 referéncias de moveis e acess6rios
para a casa. Alguns editores de papéis de parede podem
‘mostrar colegdes de 5000 a 10 000 referéncias. Sempre
mais escolha e novidades aceleradas, variagdes e declinio
de produtos: isto traduz o advento de um design cada vez,
mais sob a influéncia do mercado, do peso que exerce a
csfera comercial sobre a criacdo industrial, de um capita-
lismo estético onde triunfa um mercado de procura levado
Pelo cliente em vez do mercado da oferta, que dominava
() Todos 0& anos so proposos os europeu cerca de 20 000
‘org prodtor de grande consumo. Neste context, «pelo menor 30%
4 inovagesfatham ants do seu primero ano e metade no passa 0
‘abo dos dois ase. Yves Puget, LSA, 5 de Fevereiro de 2009.
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@camScanner265 | © Capitalismo Estético na Era da Globalizagao
anteriormente, onde os produtores propunham os seus
produtos a consumidores que tinham pouca escolh:
E neste contexto que o ritmo acelerado da inovacio se
infiltra por todo o lado e se intensifica extremamente. Na
década de 90, a Seiko propunha todos os meses 60 novos
modelos de relogio e a Sony chegava por vezes a 5000
novos produtos por ano. Presentemente, a Samsung cria
‘50 modelos de teleméveis todos os anos. Mais de 60% da
oferta de brinquedos é renovada todos 0s anos. Os gigan-
tes do pronto-a-vestir renovam os seus modelos de duas
‘em duas semanas. A Swatch lanca duas colecdes de rels-
gios por ano, jogando com a utilizagao das cores, dos plés-
ticos e do desenho grafico. A Ikea renova um tergo dos _
seus modelos ao ritmo de quatro colegées anuais, ou seja,
cerca de 3000 referéncias: para a marca, trata-se de ligar
cada vex mais colegdes de decoracao e de mobilidrio de
ccurta dura¢io, como na moda. Uma maneira de dessacra-
lizar a relacéo com 0 mobilidrio, de destacar colegbes de
grande rotacio faz com que aceda ao verdadeiro estatuto
de bens de consumo.
No momento da «producio 4 medida em massa», 08
industriais do automével propdem aos seus clientes, na
internet, definir e personalizar o seu carro ao escolher,
segundo os seus gostos, a motorizasdo, a cor, as opgbes:
Na Nike, o cliente pode escolher 0 material, as cores, of
atacadores dos sapatos ¢ até a mensagem inscrita de lado.
‘A marca Repetto oferece a possibilidade de personalizat
a suas bailarinas ao escolher entre 250 pecas de couro
tingido e o nlimero de cores do rebordo e dos atacadores.
Sapatos, bolsas, Sculos, selos de correio, garrafas de vinho:
tum mimero cada vez maior de produtos entra na era da
personalizacio de massa, da estética @ la carte dirigida
pelos gostos pessoais do consumidor. Presentemente, 2
estética é uma coisa muito importante para ser unicamentt
deixada nas maos dos profissionais.
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GcamscannerUm Mundo Design |267
Nio ha um objeto, um tinico acessério que nao seja
pensado, concebido segundo as leis da «criagio estilo» €
da moda. A busca da novidade e do look conquistou todos
‘os setores de atividade: os equipamentos de cozinha ou de
casa de banho so apresentados em catilogos que desta-
cam as tendéncias, as linhas, os materiais na moda; as
Jojas de jardinagem expdem os novos modelos de vasos,
de salges de jardim, de plantas e arvores, como se fosse
um showroom. Os rel6gios ou os éculos tornam-se aces-
sérios ¢ aderegos com cores ¢ formas que mudam de cole-
‘do para colecao. Algumas marcas de ténis comercializam
coleces de sapatos que retomam motivos de artistas:
nA Damien Hirst (Converse), Jean-Michel Basquiat (Reebok).
ze Mesmo nas farmacias, as escovas de dentes sio vendidas
= com formas originais, com um visual grafico, misturas de
ae cores que compdem um ambiente pop e de tendéncia.
im Além disso, as marcas de moda aumentam a sua influét
ba cia no universo da decoracao: depois da Zara e da Armani,
aS Kenzo e Chantal Thomas lancam as suas colegdes de |
mobilidrio.
ao O que até aqui estava reservado aos produtos «pesa-
ia dos» - carros, mobilidrio - faz parte agora do lote comum.
i Liminas de barbear, sapatos, canetas, artigos de papela-
; ria, teleméveis, capacetes de ciclsta, aspiradores, esteiras,
est lareiras, postes de eletricidade, contentores de lixo, sinais
eb, | de transito, equipamentos coletivos, escovas de dentes
dias —__desenhadas por Starck, garrafa Riccard concebida por
‘ure |___Garoustee Bonetti, mobilidrio urbano confiado.a Norman
iad Foster, Martin Szekely e Patrick Jouin: jé nada escapa a0
sip imperativo do estilo ¢ da renovagao constante. A fase IIT
at aparece, assim, a0 mesmo tempo como a exacerbagio do
ilk xcomplot da moda» da fase Ie a inversao da sua légica
aa ‘tganizacional fordiana. O cursor do sistema deslocou-se:
pet © que era limitado tornou-se
territério.
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3 de design.
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sign de ani-
I
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centes. Anu
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le 92 patses.
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Jandoesta
Ocidente.
Um Mundo Design laa
A partir da fase Il, 0 design entrou numa dinamica de
internacionalizacio. Nos Estados Unidos, dois editores,
Knoll e Hermann Miller, ecorrem aos servigos de desig-
ners estrangeiros; em Itélia, o editor Cassina reedita as
‘obras do americano Frank Lloyd Wright, do holandés
Rietveld, de Le Corbusier. Mas, ainda que nos limites do
Ocidente, 0 design apresentava-se sob o signo de estilos
nacionais reconheciveis; jd nao é assim. A fase Ill coincide
‘com o desaparecimento dos tracos nacionais do design
(design italiano, alemao, americano, escandinavo) que
‘marcaram © momento anterior. E cada vez menos perti-
nente, agora, falar de design nacional: o estilo Ikea jé no
€ sueco como o da Zara nao é espanhol. Em primeiro
lugar porque os produtos de uma empresa podem ser con-
cebidos e fabricados em diversos paises. O grupo coreano
‘Samsung instalou um estiidio de pesquisa de design e ten-
déncia em Londres; a Renault implementou plataformas
de design em Bucareste, So Paulo e Bombaim. A seguir,
as equipas de design integradas nas grandes empresas
apresentam cada vez mais uma fisionomia multinacional:
o departamento de design da Nokia tem 300 pessoas de
‘mais de 30 nacionalidades. Esta mesma dinémica intercul-
tural esté amplamente implementada no setor do design
‘automével. Finalmente, as empresas podem confiar 0 seu
trabalho de design a gabinetes estrangeiros: a Tata Motors,
indiana, encomendou o design da Nano a um gabinete
italiano, 0 Institute of Development in Automotive Engi-
neering, € a Tata Prima foi concebido pelo estidio Pinin-
farina. A mesma Tata Motors comprou participagées
‘no capital dos gabinetes italianos Pininfarina e Trilix Srl.
O design deixou de ser um negécio especificamente oci-
dental. O governo indiano langou um programa nacional,
National Design Policy, destinado a favorecer o «Made
‘inlndia», A LG Electronics implementou centros de pes-
‘isa de design em Itélia, na China, nos Estados Unidos,
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Gcamscanner272| © Capitaliemo Estético na Era da Globalizagao
no Japao, que trabalham em colaboraco com os centros
de gestio do design da Coreia: 540 designers de 12 paises
diferentes trabalham para a companhia. A gigante de
eletrodomésticos chinesa Haier tem centros de design em
Ikélia, na Holanda e na Alemanha.
Por agora, o design chinés nio tem certamente muito
prestigio nem uma imagem de alta criatividade. Os espe-
cialistas declaram que, neste plano, 0 pais € 0 que era 0
Japao hé trinta e cinco anos. Mas a partir daqui algumas
marcas iro conseguir impor-se & escala internacional.
‘A marca chinesa de produtos de beleza Herborist conse-
¢guiu abrir um espago em Franca e continua a sua implan-
tacio na Europa. A Shanghai Tang abriu lojas em Paris,
Madrid, Nova lorque, Londres. Em 2004, 0s frigorifcos
Haier ganharam 0 prémio alemao iF Design, entre mais
de 2000 outros produtos de 35 paises; em 2005, 0 mesmo
prémio foi obtido por aparelhos de ar condicionado. |
uma nova geografia do design e uma nova geoestratégia |
do capitalismo artistico que esté em vias de se arquitetar
no planeta. j
No capitalismo globalizado, os designers ou 0s arquie |
tetos famosos vendem 0 seu servico em todo o mundo,
Philippe Starck criou o Teatron no México, o restaurante |
Le Lan em Pequim, o clube Volar em Hong-Kong, o hotel
Faena em Buenos aires, Todas as economias emergentes
se abrem as mais inovadoras criagdes arquiteturais: em
Pequim, a torre da CCTV foi desenhada por Rem Koo
Ihaas e 0 terminal 3 do aeroporto pelo estidio do brité-
nico Paul Andreu; Jean Nouvel construiu tanto em Téquio
(0 Dentsu Building), em Minneapolis (0 Guthrie Theater)
‘como no Qatar (a torre Doha). As torres Jinmao e World
Financial Center de Kangai foram respetivamente conce-
bidas pelos estiidios dos americanos Skidmore, Owings¢
Merril ¢ Kohn Pedersen Fox. Mas se 0 estédio olimpico
de Pequim - 0 «Ninho de Passaro» - é 0 fruto do trabs
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GcamscannerUm Mundo Design |273
lho do atelier suigo Herzog & de Meuron, o arquiteto que
o concebeu, Ai Wei Wei, é chinés. Nas economias emer-
gentes, os designers desenham as identidades visuais, os
logotipos, linhas de avido, mobiliario e telefones, acess6-
rios de decoracao, automéveis: depois dos coreanos Kia,
Daewoo e Hyundai, é 0 construtor automével indiano
Tata Motors que entrou na competicao mundial e que
anuncia jd o langamento de uma versao mais luxuosa do
seu célebre modelo Nano, com um interior mais design.
Dizer que ja nao ha estilos nacionais reconheciveis na
Europa nao significa o desaparecimento de todas as for-
mas de diferenga, a imposigdo do mesmo estilo interna-
cional em todo o planeta, em qualquer lugar e em qual-
quer circunstancia. Assim, veja-se, por exemplo, o sucesso
do Feng Shui, da decoragdo «japonizante» ou asidtica
para os papéis de parede, os jardins, as artes da mesa.
E verdade que os fabricantes de pavimentos de soalho,
divis6rias, casas de banho, na Europa propdem agora nas
suas colegdes ambientes japoneses com divisérias de cor-
rer, linhas depuradas e minimalistas. Nas grandes metré-
poles multiplicam-se os restaurantes exdticos com a sua
decoragao tipica: paquistanés, japonés, indiano, chinés,
cubano; mais de metade dos restaurantes identificados em
Paris dedica-se as cozinhas do mundo.
Ao mesmo tempo, se é inegdvel que compramos as
mesmas grandes marcas nos quatro cantos do planeta, este
tempo testemunha um importante processo de cruza-
mento e de hibrida¢ao de estilos e de marcas. Os hotéis,
as villas, os conjuntos de habitacdo misturam arquitetura
contemporanea e estilo local, conforto ultramoderno e
construgdo verndcula. Um designer cruza ou justapde
cédigos japoneses e cédigos africanos ao propor uma cole-
¢40 de quimonos cortados em tecidos de algodao estam-
patlos africanos. Estilistas orientais fundem Oriente e Oci-
dente, heranga do passado e liberdade criativa do presente.
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G camscanner274| © Capitalismo Estético na Era da Globalizagio
Hermes associou-se a Jiang Qiong Er para lancar a marca
de luxo Shang Xia, que revisita a tradigdo artesanal chi-
nesa na linha da marca francesa. A marca de alta joalha-
ria Queelin tem por ambigdo «to bring chinese aestheticus
and culture to the world» (levar a0 mundo a estética e a
cultura chinesas). Shanghai Tang desenvolve um novo
conceito de luxo a0 misturar 0 espirito dos anos 20-30 ou
© design contemporineo com elementos inspirados na
China classica.
A fase III coincide com o fim da hegemonia ocidental
sobre as aparéncias, a reafirmacdo das origens culturais
mais diversas, 0 desenvolvimento de estilos nacionais ¢
étnicos cruzados com linha do design moderno. A partir
da década de 80, os criadores japoneses (Miyake, Yama-
moto, Kawakubo) impdem-se na cena internacional da
moda ao propor cortes inspirados no Japao tradicional
mas totalmente revisitados e desconstruidos num espirito |
vanguardista. Presentemente, muitos jovens criadores e de
novas marcas reinterpretam 0s modelos herdados do pas-
sado nacional, incuindo-e uma nova vida «moderae |
nos mercados de exportagao. Esta dinamica observa-se
em todos os continentes: como os brasileiros (Alexandre |
Herchcovitch, Isabela Capeto, Anunciagao, Coopa Roca),
‘0s chineses (Shirley Cheung Laam), os turcos (Chalayari, |
Rifat Ozbek), os gregos (Sofia Kokosalaki), os russos |
(Denis Simachev, Alena Akhmadullina), os indianos (Rita
Kumar, Satya Paul), os paquistaneses (Deepak Perwani),
8 coreanos (Lie Sang Bong), os sul-africanos (Sun God-
dess) que, a0 ambicionar redescobrir a elegancia das oti
gens, conciliam passado